quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O espírito natalino e o pôr do sol em Ipanema

Alfredinho, meio borrado na foto, uma espécie de Papai Noel socialista

Num desses dias de folga do jornal, durante a semana de Natal, aproveitei para dar uma caminhada com Soraya pelo Arpoador à hora do pôr do sol. A idéia original era mergulhar nas águas transparentes daquela ponta de Ipanema, que me devolve à época de minha adolescência, quando o mundo ainda se descortinava diante de mim. Aquele fim de dia, no calor do verão carioca, merecia um mergulho refrescante. Mas fomos nos distraindo com a multidão que ocupava tanto o calçadão como as areias. Parecia um dia de domingo de tão cheio, e no entanto era apenas uma quinta-feira à boca da noite.

Há muito que não andava pelo calçadão do Arpoador e fiquei surpreso ao encontrar tudo mais ou menos igual ao que ali sempre foi desde minha infância. Esbarramos inclusive com uma turma de cinquentões, com cara de hippies envelhecidos, curtindo como se adolescentes fossem uma banda de rock'n'roll e reagge, estrategicamente tocando à entrada do parquinho. Aquela circunstância dava um clima de Búzios nos anos 70. Até reconheci Bocão, o famoso surfista da minha geração.

Lá pelas tantas, o sol começou a desaparecer na linha do horizonte, como diria Cartola, tingindo o céu em tons avermelhados e dando ao contorno dos morros Dois Irmãos um contraste bonito. Alguém puxou as palmas e logo havia uma multidão aplaudindo o espetáculo da natureza. Entre elas, uma mulher que nos chamou a atenção pela forma enfurecida como batia as mãos, a ponto de tornar sua performance mais evidente do que a dos outros que estavam em torno dela. Soraya me olhou com uma expressão familiar, misturando ironia e uma certa decepção. Então emendei:

"O que diria Goffman de uma encenação dessas?"

Estava me referindo a Erving Goffman, que em suas reflexões recorreu à metáfora do teatro para analisar as situações cotidianas. Ele fala de encenações e projeções de imagem que fazemos inclusive inconscientemente para os outros a fim de garantir que as situações sociais tenham um determinado desfecho favorável às nossas pretensões, sejam estas quais forem. Pela forma exagerada como aquela mulher batia palmas, ficava evidentemente clara sua estratégia de se mostrar integrada àquele meio e àquela turma. Porém, como ela exagerava, sua representação teatral perdia a eficácia desejada, tornando-a mesmo um tanto ridícula em sua ênfase e, por extensão, tornava igualmente ridículas, pelo menos a nossos olhos desencantados, aquelas pessoas todas ali, aplaudindo o sol, no que nos parecia uma exibição narcisística e falsa.

Essa percepção ganhou mais força ao ouvirmos o diálogo entre dois vendedores ambulantes que trabalhavam desarmando suas tralhas:


"Em vez de bater palmas, bem que podiam nos ajudar a carregar essa tralha."

Rimos daquela situação e seguimos adiante, tendo desistido de mergulhar entre a multidão que se espremia na areia. Caminhamos rumo a Copacabana, onde seguimos pelo calçadão da Atlântica até a altura da Almirante Gonçalves, onde entramos para pegar o metrô. No caminho, aproveitamos para abraçar Alfredinho no Bip Bip. Ficamos com ele uns 40 minutos, conversando sonbre diversos assuntos, enquanto ele organizava sem alarde os últimos preparativos para o almoço coletivo de Natal que todos os anos ele, com a turma do Bip, prepara para a população de rua de Copacabana. É uma ceia preparada no Copacabana Palace e que chega ao Bip naqueles carrinhos de avião, que mantêm os alimentos quentes.

Além disso, Alfredinho também estava cadastrando moradores dos morros em torno do bar para receberem cestas básicas. Nessa pouco mais de meia hora que ficamos ali, vimos algumas famílias chegando para se registrarem num caderno pautado, que uma pessoa anotava, seguindo as instruções de Alfredinho. Ele, por sua vez, entrevistava as pessoas, perguntando quantas eram, se estavam empregadas, se as crianças estudavam etc.

Como ocorre toda vez que me encontro com Soraya, já no metrô, fizemos um balanço do nosso passeio pela zona Sul carioca, buscando uma síntese coerente em relação ao que presenciáramos desde o pôr do sol em Ipanema. E a imagem daquela mulher batendo palmas furiosamente, buscando chamar a atenção, nos pareceu um forte contraste com o jeito silencioso, sem alarde, com que Alfredinho ajuda centenas de pessoas todos os anos. Percebendo nossa admiração, ele se envergonhou e, num tom de desculpa, se justificou:

"É que sou socialista e católico."

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Bares e cidades

Bar da Adelina, meu botequim do coração em Botafogo

Distante do Rio Botequim há alguns anos, fui convidado pela editora Casa da Palavra e por Guilherme Sturdart para participar da edição que chegou agora às livrarias, contribuindo com um ensaio sobre bares que saíram nas edições do guia, mas fecharam as portas em meio ao processo incontrolável de transformação da cidade. Ao mesmo tempo, fui convidado pela Subsecretaria de Patrimônio Cultural da Prefeitura, coordenada por Washington Fajardo, para participar do 1º Seminário Internacional do Bar Tradicional, com a presença de representantes de pubs britânicos, bierhauses alemãs e de bodegones argentinos. No evento, 12 bares tradicionais e centenários ganharam certificados de “estabelecimentos de interesse cultural da cidade”, o que não equivale a tombamento, como saiu publicado nos jornais.

Apesar de organizado pela prefeitura, o evento não foi nada chapa-branca, ao se considerarem o nível de crítica e as observações duras dirigidas ao poder público municipal, tanto por parte dos donos de bares tradicionais quanto por parte dos palestrantes. Basicamente, o pessoal quer que o reconhecimento da prefeitura vá além dos certificados e se concretize em ações, como isenções de impostos, desburocratização de certas normas que permitem o achaque dos fiscais aos donos de botequins e por aí vai. O seminário ficou num meio termo entre um papo de botequim e um evento acadêmico, com a participação de estudiosos da cidade, como o historiador Antonio Edmilson, o economista Carlos Lessa, além do próprio Studart, e eu mesmo, com minhas pesquisas antropológicas sobre botequim e sobre Botafogo.

Le Penty, meu botequim do coração em Aligre, Paris

Particularmente gostei muito das intervenções do pessoal de minha mesa, que tratou do clima de botequim: o poeta Alexei Bueno, que trabalhou na área de patrimônio cultural e esclareceu muita coisa importante sobre isso; o ator Antonio Pedro, que está com uma peça sobre histórias de botequins e fez uma crítica à tendência atual de o Estado tentar tutelar as pessoas na questão do consumo de álcool e cigarro; Rosana Santos, dona do Bar Luiz (onde tomei um excelente chope da Heinenken, após o primeiro dia do evento); Fernando Breschnik, dono do Enchendo Lingüiça; todos mediados pelo jornalista Pedro Landim.Também foi ótimo rever, eu que ando afastado das mesas de botequins, amigos queridos como Kadu Tomé, do Bracarense, seu Manoel, do Jobi, Kátia e Rosa, do Aconchego, Leo Feijó, do Boteco Salvação, entre outros. A ausência conspícua foi a de minha querida Mila Chaseliov, que trocou isso tudo pelo Muro das Lamentações.

No segundo dia, fiquei impressionado com a intervenção do Antonio Rodrigues, do Belmonte, que, num tom nitidamente defensivo, confirmou que não está interessado na preservação de casas tradicionais, mas sim comprar aquelas que vão mal das pernas ou que não têm sucessores com disposição de continuar no ramo, e transformá-las em casas de sucesso. “Apareceu uma galinha morta, estou comprando”, disse ele. Ao ouvir isso, pensei logo no meu Bar Brasil do coração, com sua chopeira de bronze. Localizado num ponto agora valorizadíssimo, o botequim centenário vem sendo assediado por empreendedores interessados, como o próprio Antonio e o pessoal do Carioca da Gema. Meu medo é que ofereçam uma oferta irrecusável e adeus Bar Brasil.

Mas considerando as coisas no geral, desde a abertura, com a fala do prefeito Eduardo Paes, aos donos de boteco, acho que está bem claro a todos que o processo de preservação e mudança têm uma relação dialética inevitável em qualquer centro urbano. A cidade é um lugar que se transforma de forma constante e inevitável, mas também é uma realidade a resistência que seus moradores impõem sobre o território, os estabelecimentos e as formas de vida comum nos bairros.

Estamos num processo muito acelerado de transformação urbana, não só pelos eventos anunciados a frente, como Olimpíadas e Copa, mas pelo próprio processo de globalização das cidades numa lógica mercantil e de concorrência, que impõe a todas elas reformas urbanas que vão desde a renovação das áreas portuárias (Barlecona, Bilbao, Paris, Liverpool, Istambul e Rio, só para citar alguns casos), cinturões de segurança (UPPs, no Rio, políticas de segurança em Bogotá, política do broken window em várias cidades dos EUA, entre outros), políticas de tolerância zero (choque de ordem no Rio) e por aí vai.

São as chamadas cidades-commodities, disputando no mundo globalizado investimentos e turismo, e se reformando para tornar isso possível. As conseqüências negativas são, evidentemente, a transformação radical das cidades, o aburguesamento dos bairros, a piora dos índices de criminalidade fora dos cinturões de segurança, a especulação imobiliária e a perda de uma memória citadina, em que a tradição e o patrimônio urbanos são apropriados pelo marketing, na tentativa de se criar uma marca publicitária para a cidade, a partir de valores meramente mercantis, mas disfarçados de “autenticidade”.Com isso, a identidade de cada cidade vai se diluindo em meio às coisas que são comuns a todas elas, como se fossem um grande shoppingcenter.

No seminário do bar, vi nitidamente essas forças — tradição e modernidade — se digladiando pelo direito ao território da cidade.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Emoção e razão como narradoras


O Arnaldo Bloch publicou um bom artigo neste último sábado no seu espaço do Segundo Caderno do Globo. Intitulada A ponte entre dois cinemas, o articulista narra o seu encontro fortuito com Cacá Diegues, logo após ambos terem assistido ao novo filme de Eduardo Coutinho: As canções. Entusiasmado com o filme, Arnaldo pondera, no entanto, que preferiu o agora já clássico Edifício Master do documentarista. Cacá retruca, dizendo que As canções são uma obra-prima, ao passo que Edifício Master, um “circo dos horrores”, em que os personagens são apresentados sem um contexto que explique suas vidas, além do fato de viverem em um prédio de quitinetes de Copacabana. Cacá ainda cita o exemplo do programa de calouros do Chacrinha, hoje fetichizado na onda retrô que orienta a estética dos moderninhos pós-modernos, para descrever a situação de humilhação que, em sua opinião, Coutinho colocou os habitantes do Master.

Nessa querela, fico ao lado de Arnaldo. Me lembro que, à época em que o filme foi lançado, Coutinho disse que procurou justamente evitar o tom etnográfico — e não nos esqueçamos que algumas décadas antes Gilberto Velho fizera sua dissertação de mestrado exatamente sobre um prédio cabeça-de-porco de Copacabana, em seguida publicada sob o título Utopia urbana —, para mostrar seus personagens sem o filtro de uma análise antropológica. Ou seja, o diretor procurou justamente jogar na tela a vida daquelas pessoas sem explicação, como o Arnaldo sacou muito bem e apresentou como argumento na sua discordância em relação a Cacá.

Gilberto Velho parte das histórias de vida das pessoas do “seu” edifício Estrela (nome fictício, adotado para não constranger os moradores) para tentar evidenciar as representações sociais, ou seja, os sonhos de cidade feliz, poderosos o suficiente para levar as pessoas a morar em condições tão “apertadas”, física e simbolicamente. Coutinho não está interessado em nada disso. Ele não quer fazer uma generalização a partir da vida dos residentes do edifício Master. Ele quer apenas mostrar o caráter humano, digamos, em seu estado bruto, deixando as generalizações para o público. Coutinho buscou ficar orbitando em torno das emoções que o drama da vida humana sugere. Por isso, o publico ria e chorava ao longo do filme, como admitiu o próprio Arnaldo. E foi isso que incomodou Cacá. Pareceu a ele gratuito. Mas, estou com Arnaldo nessa. Essas emoções levam a uma reflexão próxima a que Velho nos proporciona pelo caminho da razão.

Com sua dissertação, o antropólogo prometia inaugurar uma série de pesquisas sobre Copacabana. E eu como estou envolvido em uma pesquisa sobre Botafogo, dialogando, como base teórica e metodológica, com certa tradição da sociologia que Velho também utilizou, acho que o melhor caminho para um ensaio antropológico profundo sobre a vida de um bairro — ou sobre qualquer outro assunto — deve combinar os dois caminhos. Apesar de Coutinho não pretender uma análise sociológica com edifício Master, hoje esse filme passaria bem em qualquer festival de documentário etnográfico.

Mas Arnaldo vai além em sua coluna. Ele cita o documentário sobre os suicidas que pulam da ponte Golden Gate — The Bridge, dirigido por Eric Steel  — para fazer um paralelo à sua discussão com Cacá. Ele diz que muitos amigos classificaram o filme como pornográfico, por seu caráter, digamos, explorador da dor alheia. Um argumento que se aproxima à expressão “circo dos horrores”, usada por Cacá em sua crítica a Edifício Master.

E aqui o artigo de Arnaldo me leva para outro ponto. O da pornografia e da censura. Bem, o assunto é mais do que explorado e refletido. Mas acho que é pertinente voltarmos a refletir sobre isso, num momento em que vários tipos e níveis de censura voltam na cena brasileira, sem muita reação dos “moderninhos” que constroem o sentido dominante da elite cultural atual. O caso da fotógrafa Nan Goldin, que teve sua exposição cancelada pela Oi Futuro por motivos morais e o filme sérvio proibido pela Justiça — primeiro em Minas Gerais, depois no resto do país (sem que os juízes tivessem visto o filme) —, por conter cenas em que há simulação de estupro de criança.

Lembro-me de uma amiga no Globo que me repreendeu: “Vocês antropólogos são relativistas demais. É preciso pôr um limite, do contrário tudo vale e seremos invadidos por qualquer bestialidade, perversidade e o escambau.” Disse a ela que concordava, afinal, antropólogo ou não, não vivo à margem da sociedade. Estou submetido a seus valores e representações. Mas o problema, para mim, é o Estado, ou a Justiça, ou a Igreja decidirem de forma draconiana esse limite por mim.

domingo, 20 de novembro de 2011

Limpeza


A ovulação que desperdiçamos
Em noite de espanto e exagero
Insisnuou-se, madrugada de sonho

Derramou-se viscosa nos lençóis
E feriu imaculada alvura de cetim,
Contaminando hospitalidade alheia

Apesar do susto, desinfetamos culpa
Nossa impureza, nosso embaraço
Dissolveram-se no pó do sabão

E desapareceram, enxaguadas
Uma a uma, nossas promessas
Para sempre sopradas no varal

Mas agora, o tempo em vendaval
Trouxe a mancha terrosa, esquecida
O sangue recalcado, puro, lavado

Despoluído do sortilégio do amor
Na forma de encardida saudade
De tudo, do todo que restou nada

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Portrait


Olho uma foto de seu corpo
Retrato em luz e sombra.
Ângulo curvelíneo se insinua
E impregna minha lembrança
Contornos do instante ido
Em que você, nua, me beijou.
Mas é o brilho transparante
Do olho curioso a me fitar
Que me capta e me revela
Triste em preto & branco.
Para sempre preso à memória
Nitidez que retém a alma.

Rio, novembro, 2011

sábado, 5 de novembro de 2011

Desbuscando

Queda-se imóvel em pleno voo
Improcura, delirante, o racional
Perde-se de si em plena luz
e refaz a alma, renascendo

Todos os sonhos desmancha
Regozija-se em descontentamento
Tristonho riso que apazigua
Sentimentos em desmistérios

Desfala o retumbante grito
Um novo idioma inventa
Em que, do silêncio aflito,
Desbusca a infinda infância

Rio, novembro 2011

sábado, 22 de outubro de 2011

Mundana



Ela gostava mesmo era de uma safadeza. Mas, naquela época, não se faziam as coisas assim, como hoje. Tudo era escondido. Guardava-se a sete chaves a brincadeira, o mostra-a-sua-que-eu-mostro-o-meu. Por isso mesmo tudo era melhor. O escondido é tempero para o prazer mundano. E como gemia. Um arfar como hoje não se ouve mais. Suspiros aspirados por entre dentes, os olhos semicerrados. Tinha pêlos, cheiros, curvas e, orvalhada, se desmanchava. Tão deliciosa quanto mundana. Era só esfregar, e ela se entregava toda, sorrindo, marota. Agarrava, unhava e gritava esquecida. Estrebuchava apaixonada e gozava sem culpa. Mas bastava qualquer sinal, um pio que fosse, e ela se empedrava. Desamarrotava a roupa e vestia o ar pio, a cara de santa. Ave, Maria! Era coisa de roça, coisa daqueles tempos de vergonha e juízo. Nada como hoje. O pai a criou na peia, bastava o erro mais tolo. Era cinto no lombo, palmatória na mão ou os joelhos no milho. Mas pau que nasce torto... E ela tinha alma de puta. Bastava a mão boba, o sarro, e ela se abria. Depois deitava quase satisfeita, o sorriso maroto, e brincava de misturar nossos nomes. Sonhava com família e filhos. Mas àquela época eu ainda caçava estrelas. E, às vezes, a esquecia na penumbra de nossa esquina, à espera, sozinha. Até que um dia se casou. Homem de posse e dinheiro, disseram. Viu o tesouro esquecido e a levou. E a menina mundana que brincava comigo se foi para sempre. Estrangeiro, afirmaram. E, hoje, quando passo pela esquina de nossa penumbra, tiro os olhos das estrelas, e suspiro, entre dentes, um vazio. O que não fui se mistura à saudade de quem se foi e me perturba o dia. Mas à noite é pior, quando meu sono ganha contornos de um sorriso maroto.

sábado, 15 de outubro de 2011

Querida amiga:

Sempre que dirijo estas linhas a você, um outro você se insinua e torna tudo infinito. Perco então o sentido estrito que a desenha em mim e em vez de engrandecer a narrativa, empobreço-a, perdido nessa polifonia que nivela todas numa única mesma. Assim, diluída em sua inteireza, você se torna um resumo precário. Não a encontro mais em meu foco e seu rosto ganha feições irreconhecíveis, evocações imprecisas.

Essa outra voz se impõe, puxada por alguma associação que as une, você e ela. Talvez, o mesmo êxtase ou a culpa cruel que ele provoca. A voracidade, sem fome, que esquece o sabor e devora a vida. Só sei que esse ser intruso interfere no conteúdo da frase, altera adjetivos e impõe verbos solitariamente intransitivos e impessoais. Reina soberano no texto. E quando a fragmentação já contamina os parágrafos, um terceiro outro se soma à dupla inicial; e um quarto; um quinto... E, pronto, você é uma legião.

De modo que, nas esquinas das frases, mesmo de mãos dadas, me encontro e me perco em você. Mas, seja quem for o destinatário, querida amiga, se lhe escrevo é porque o tempo é curto. Há, portanto, urgência nestas linhas, ainda que não inteiramente suas. Não sei bem onde é o incêndio. Sinto-o perto e me aflijo. Tento escapar desse campo onírico, onde o enredo, cheio de desejo e fúria, se solta indomável. Sua felicidade, porém, não se desfruta. Só é possível vazia de sentidos, pois engloba tudo, ao mesmo tempo em que é nada.

Mas não cabe a Quixote desafiar a razão? Então, sob o sortilégio do discurso épico, construo a felicidade irreal e só temo a mediocridade. Pois é esta que, numa dialética perversa, torna a exuberância possível, enquanto se impõe como preço a pagar. Fadado ao infortúnio da insignificância, mais e mais mergulho no fulgor fantasioso, tristemente radiante em minha alienação. E, após séculos na floresta, desenvolvo o gosto por cipós e igarapés. Aprendo a navegar em rios perigosos, olhando as estrelas, onde se deita, querida amiga, seu corpo perfeito e intocável.

No entanto, à medida que o fogo da vida devasta as ramagens inventadas, me aproximo do fim do sonho. É a realidade que me chama. Às vezes, traz a conta de tantos moinhos destruídos: dores no corpo, limites, idade. Mas é sempre generosa ao se pôr, linda ou feia, ao alcance da mão. Sem saber direito como respirar nesse mundo feito de tanta vida, vou me desamarrando de impossibilidades maravilhosas. E troco o rosto indefinido, múltiplo, por seus olhos, querida amiga, que me fitam pela primeira vez.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Histeria

Ela diz que não é
Que não quer... quem sabe, talvez
E sorri um sim escondido
Encardido amarelo, enrustido
Ela diz que não deita
Que não sou de sua seita
Mas aceita, esquecida, o carinho
Se ajeita, e abre, quase sem culpa,
O caminho das Índias
Goza perplexa, e morre de susto
O prazer espremido, derramado
Esquecido, no sim apressado
Grito abafado, logo afogado
Enquanto diz que não quer
Que não é... quem sabe, talvez


sábado, 1 de outubro de 2011

A ciência do esculacho

Amigos, reproduzo abaixo minha resenha, publicada hoje no Prosa & Verso, o suplemento literário do Globo, sobre a bela etnografia que meu amigo Lenin Pires fez sobre os camelôs que trabalham nos trens da Central do Brasil. A foto acima é do autor, de um dos vendedores ambulantes.

Quando decidiu tomar como objeto de sua dissertação de mestrado o comércio informal de ambulantes nos trens que ligam as zonas Oeste e Norte e a região metropolitana fluminense à Central do Brasil, o antropólogo Lenin Pires se viu confrontado pela expressão “esculacho”, que, por seu poder de iluminar certa realidade social, se tornou um guia condutor de sua reflexão. Foi em 2003, durante uma reunião entre camelôs que se organizavam para negociar com a Supervia o que consideravam ser uma espécie de legalização de sua atividade nos trens e estações, e, assim, evitar o “derrame", isto é, a tomada de seus produtos por agentes de segurança.


Na reunião, diz Pires, “um camelô, em sua expressão cansada, olhar cabisbaixo, comentou baixinho com um colega: ‘O derrame eu até entendo. O derrame é do jogo, tudo bem. O problema é o esculacho’”. No dizer antropológico, derrame e esculacho são categorias nativas, expressões do grupo estudado que qualificam de forma clara os limites morais da realidade que vivem. Mas, diferentemente de derrame, esculacho, no sentido dado pelas pessoas pesquisadas, descortina um sistema de relações e valores. Esculacho é uma forma intolerável de desrespeito, desconsideração e negação do outro, que se situa no limiar da exclusão social. Extrapola, portanto, a regra do jogo, e entra no campo do insulto moral, pois, além de submeter o ator à ordem já desigual, ainda o humilha.

No prólogo, o autor dá um outro exemplo de esculacho, dessa vez coletivo, com consequências devastadoras. Pouco antes das 8h de uma manhã de agosto de 1996, quando o sistema ferroviário era administrado pela Companhia Estadual de Trens Urbanos (Flumitrens), a estação do Engenho de Dentro estava lotada: as composições, mais uma vez, rodavam com atraso. Situação que não apenas trazia o desconforto da espera, enquanto a plataforma enchia cada vez mais, mas se estendia, em suas consequências, ao repertório de explicações ao qual os usuários se veriam obrigados a recorrer para justificar no trabalho o atraso.

Mas como o que é ruim sempre pode piorar, a notícia chegou pelo boca a boca e tomou conta da plataforma: um outro trem, que seguia da Central do Brasil para Deodoro, descarrilara e todos os ramais de acesso ao Centro do Rio estavam bloqueados, afetando cerca de 400 mil pessoas. Por volta das 8h30m, em meio à tensão crescente, um funcionário da Flumitrens informa pelo sistema de som da estação de Engenho de Dentro: “Atenção senhores passageiros, a Flumitrens informa: o trem não tem condições de continuar. Vocês vão ter que se virar para conseguir condução.”

Tomadas como um insulto, as palavras do funcionário da Flumitrens desencadearam um dos maiores quebra-quebras da cidade. Trens, plataformas, bilheterias e trilhos foram destruídos numa onda de fúria que só não acabou no linchamento de funcionários, porque eles se esconderam ou fugiram. O caos durou cerca de uma hora e só foi interrompido com a chegada da tropa de choque da Polícia Militar. Moral da história: esculhamba, mas não esculacha.

É por meio de categorias nativas como esculacha que o antropólogo tira da sombra a realidade dos camelôs que circulam nos trens da Central, vendendo todo tipo de mercadoria. Ele descreve e analisa suas estratégias para sobreviver, as formas como narram o drama de seu trabalho, as várias identidades que assumem ao longo da jornada e, sobretudo, como se relacionam com a Supervia.

Durante anos, Pires percorreu quase diariamente os trens entre o subúrbio carioca e a Central do Brasil, focando seu olhar na prática dos vendedores ambulantes. Isso permitiu que ele discutisse uma série de questões em torno da informalidade sem se restringir ao cumprimento da lei e das normas. Com isso, ele enriqueceu uma reflexão importante, sobretudo nesses tempos de choque de ordem, deslocando o problema para além da legalidade. Ao descrever o ritual diário desses ambulantes em sua relação com os vários níveis de autoridades e com os passageiros, o antropólogo lançou luz sobre velhos problemas da sociedade brasileira, como desigualdade social, informalidade, flexibilização de regras, jeitinho, entre outras formas peculiares de administração de conflitos.

Pires também apresenta no livro uma reflexão epistemológica importante sobre a antropologia urbana brasileira, ao descrever sua formação, ou melhor, sua “conversão” de sindicalista em cientista social, contrastando os ritos da militância sindical com aqueles da academia no que se refere à realização de pesquisa científica. Esse processo de aguda reflexividade permitiu ao antropólogo olhar por trás dos estereótipos. Além disso, como pesquisador associado ao Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisa (Nufep), da Universidade Federal Fluminense — coordenado pelo professor Roberto Kant de Lima —, Pires faz parte de uma geração de pesquisadores urbanos, que se caracteriza pela ênfase no trabalho de campo.

Fiel a essa linhagem, Pires trabalha com distintas matrizes teóricas para tratar, de forma competente, a complexidade dos problemas sugeridos pela etnografia. Talvez essa seja uma das marcas mais criativas da antropologia urbana brasileira: não ter o pudor de usar variados instrumentos e métodos para trabalhar os problemas que o campo sugere. Segue-se, assim, um caminho alternativo ao de certo formalismo, que, por solene deferência ideológica, busca encaixar a realidade empírica em uma lógica rígida, definida a priori.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Hipocondria

Meu amigo Carlinhos Vasconcelos costuma dizer, com o ar um tanto filosófico, um tanto sacana, que três ziqueziras acabam num pirepaque. E eu, que já tive pelo menos uma ziquezira, ando sobressaltado com minha saúde e, ao mesmo tempo, resignado com a incompletude de meu corpo e alma. Ontem, por exemplo, a dormência e o formigamento que venho sentindo nos dedos e palmas das mãos saíram, por assim dizer, de seu estado usual de latência e ocuparam, eu diria, de forma impertinente, minhas idéias ao longo do dia, sobretudo em seus momentos mais estressantes e tediosos. A cada vibração eletrizada, meu cérebro soava alarmes e minha fantasia criava uma lista de patologias que variava de problemas cardiovasculares a sintomas neurológicos de atrofiamento dos membros (êpa!), passando por um quadro circulatório deficiente.

Senti o peito oprimido e uma certeza da morte ganhou forma em minhas fantasias. Ora, o coração bombeia a vida, a circulação faz a energia vital atravessar o corpo e o cérebro comanda o mundo mental... Esse formigamento só pode ser coisa séria. Diagnóstico confirmado por meus colegas de trabalho, quando relatei o que estava acontecendo. A atenuar um pouco o terror, o fato de estar sentindo esse formigamento há anos, o que me permitia pensar: se fosse sinal de algo iminente e fulminante, já teria rolado. Sentido-me à beira da morte, fiz um esforço para vencer meu terror interno e procurei informações no Google sobre os sintomas. Devo confessar que me tranqüilizei um pouco.

Logo o primeiro site que abri, um médico dizia que era relativamente comum que se confundissem esses sinais com problemas de coração ou circulação. O que poderia ser verdade se, com o formigamento e a dormência, estivessem associados outros sintomas, como falta de ar, dor no peito, suor frio, pressão alta etc. Coisas que não estava sentindo. O mais comum, ensina o médico, é o que homens de branco chamam de fibromialgia, que seria provocada por vários fatores, desde a pressão sobre um determinado nervo a estresse. Após a leitura dessas informações imprecisamente tranqualizadoras, o formigamento voltou para o seu estado latente, quase esquecido, atenuado mentalmente ainda pela promessa feita a mim mesmo de ir a um médico ver esses sinais.

Mas isso tudo me fez pensar sobre essa coisa quase mágica que é a hipocondria. Uma espécie de loucura generalizada e bastante social, em que compartilhamos com o próximo todos os nossos pesadelos e temores. Uma loucura que vai de vento em popa nesses tempos de internet e Google, ao mesmo tempo, em que os médicos, cada vez mais jovens, parecem inexperientes demais para fazer diagnósticos verossímeis e plausíveis.

E o pulso ainda pulsa.

domingo, 11 de setembro de 2011

Concerto de pálpebras


Fui ontem à exposição/instalação Concerto de pálpebras que Enrica Bernardelli está fazendo na Fundação Eva Klabin e ainda estou impactado. Conheço Enrica desde suas experimentações com cinema, no fim dos anos 70, e venho desde então acompanhando sua trajetória, feliz e às vezes perturbado por conviver com sua inteligência e sensibilidade. Enrica é uma artista de uma estirpe nobre, que não se vê com facilidade por aí, nesses tempos de total diluição de tudo e uma certa padronização tangida pela mídia, que, de um modo geral, vem cada vez mais transformando arte em entretenimento. Em compensação, as exceções acabam tendo um impacto furioso.

Concerto de pálpebras teve esse efeito em mim, ontem, circulando em torno dos dois ambientes criados por Enrica, com suas estátuas vivas, imóveis e imobilizadas em redomas de filó, cegas por máscaras sem olhos. Enrica disse: “É como uma cena congelada de um filme”. Os dois ambientes são distintos e se complementam. Para mim, que sou excessivamente simplista e reducionista, é como se fossem metáforas do racional e concreto em oposição ao emocional e onírico. O primeiro é como uma sala, com sua neutralidade formal, e o segundo, um quarto, refúgio de intimidade. O primeiro é o palco, o segundo os bastidores. Há uma sensualidade simultaneamente sutil e impactante. E essa energia sensual circula pelos dois ambientes.

Na primeira sala, uma jovem, com flores nos olhos, senta-se sozinha num grande sofá, enquanto dois homens adultos, com máscaras que parecem lobos gigantes (a filhinha de meu primo viu uns ratos enormes e se recusou a entrar) estão à mesa. Um deles lê o jornal. Aquela jovem ali, na solidão do grande sofá, me fez pensar na concretude da vida. Nas notícias de jornal, cujos enredos reiteram mitos e fábulas cheias de exemplos morais para o nosso dia a dia, e que um dos homens, sem olhos, lê. Vi naquele ambiente os faits divers, a realidade moldada para caber nas manchetes. Mas, ao mesmo tempo, é um mundo incontornável, inescapável, que atravessa o nosso caminho, e nos obriga a pôr os pés no chão. E é preciso vivê-lo, do contrário ficaremos tão imóveis e cegos como aquelas estátuas de carne e osso, presos na morbidez do instante congelado.

O segundo ambiente é a alcova. São duas jovens e um homem. Este, que também usa a máscara do animal feroz, me parece um personagem libertino, vestido de robe e calçando pantufas. Está em pé, altivo, mestre do quarto. Ao seu lado, uma das jovens está sentada numa poltrona, mas ao contrário da menina do primeiro ambiente, essa está languidamente largada, os joelhos quase se tocando, mas os pés separados, num gesto que me parece de entrega e prostração. Ela veste um vestido de papel amassado e tem o rosto insinuado sob um véu negro que cai de uma armação triangular. Seus braços se estendem ao longo dos braços da poltrona, numa espécie de simbiose entre o móvel e a menina, para terminar com a mão esquerda com a palma virada para cima e a direita, para baixo. Uma coisa meio oriental, como se fosse um canal de energia vital. Em frente a esses dois, está a terceira menina, deitada num sofá pequeno, o vestido amarrotado. Ela dorme em posição fetal e seu braço pende do sofá, e de sua mão se estende uma serpentina, que se espalha pelo chão do quarto, em direção ao centro. Me pareceu muito simétrico essa mão estendida em direção às mãos da outra personagem. As duas meninas não usam máscaras cegas, mas permanecem com os olhos fechados todo o tempo. 

Para mim, esse é o lado onírico, fantasioso. Ali tudo é possível. Não se trata do prazer, que a menina do primeiro ambiente insinua, mas do êxtase, que, no fim, é inalcançável. Um mundo de compulsões e a fantasia de completude. A instalação tem um som de pássaros que reforçam essa idéia de sonho. E o fato de estar num dos salões da casa de Eva Klabin, em meio aos móveis, cristaleiras e cômodas de madeira escura, reforça o impacto da obra de Enrica, como se essa cena de cinema congelada pudesse ocorrer em qualquer lugar a qualquer hora e não necessariamente num museu ou salão neutro para exposição de arte.

No segundo andar da casa, num dos quartos, há a segunda instalação, Três quartos de memória, do artista português Daniel Blaufuks. Uma viagem tranqüila por imagens antigas, ao som do mar e ondas, roncos e suspiros, entre outros sons. Há mesmo uma completude entre essa instalação e a de Enrica. A de Daniel é marcadamente sobre o tempo e a memória. Ela tem um ritmo calmo, ao passo que Enrica é um mar revolto. As duas instalações estão dentro do Projeto Respiração. 


Enfim, essa é a viagem que fiz. Não conversei com Enrica sobre isso e nem li o texto que o curador, Marcio Dosctors, escreveu. Seja como for, minha sugestão é que todos façam o seu mergulho nessas duas instalações e viajem também.

domingo, 28 de agosto de 2011

Na esquina da redação


Rodolfo Fernandes morreu durante o meu plantão. Quando um grande morre, a notícia chega sempre num sobressalto, murmurada para nós por arautos constrangidos, logo ao pisarmos na redação. Sabemos que teremos que nos mobilizar para, com um quinto da equipe convencional, preparar uma edição especial, homenageando o morto. Foi assim na morte do Papa e de grandes figuras. Só que neste caso, o morto era, além de grande, alguém próximo de nós. O que torna tudo mais difícil, pois qualquer palavra está sempre aquém ou além do tom adequado.

Estabelece-se um deadline, um horário de fechamento da edição especial, e começa o burburinho, cujo epicentro vem do Aquário, a sala envidraçada da diretoria, onde nadam os peixes grandes da redação. Mergulhamos naquilo que é a essência mesma da profissão: a mobilização compartilhada, coordenada e, por que não, solidária para levar ao leitor a notícia terrível. Plantonistas e outros que, convocados e por puro instinto jornalístico aparecem para ajudar, executam suas tarefas, como forma inclusive de amenizar a sensação de perda. Nessas horas, a objetividade é, além do instrumento de trabalho, também uma espécie de alívio, dando o que fazer à mente.

Rodolfo foi pego, na flor da idade, por uma doença terrível, que começou a se manifestar há uns dois anos. Ela foi lhe roubando, pouco a pouco, o corpo, imobilizando seus movimentos, sem a indulgência da alienação mental. Pelo contrário, a cada músculo que perdia sua função natural, Rodolfo parecia adquirir mais e mais lucidez. Quanto mais aprisionado no corpo, mais ágil parecia sua mente.

Ele passava por mim quase todos os dias, a caminho de sua sala, a poderosa e panóptica sala do diretor de redação, o Aquário do Aquário, o centro de poder. O cargo máximo da redação, ocupado por uma linhagem nobre de jornalistas, à qual Rodolfo acrescentou uma boa dose de elegância e suavidade, sobretudo na forma de respeito ao colega de profissão. Essa é uma das virtudes que sempre admirei nele.

Guardo, não sem emoção, suas últimas palavras dirigidas a mim num breve email, quando escrever se tornara uma tarefa hercúlea. Foi uma mensagem de boas-vindas, após quatro meses em que fiquei ausente, no exterior. No primeiro dia após minha volta, há dois meses, Rodolfo ficou contente ao topar comigo no meu velho posto de trabalho, uma mesa de esquina na redação, e escreveu: “Estava faltando algo na paisagem da Redação. Seja bem-vindo. Como foi lá?”

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A musa dos pés desnudos


Amigos, coloquei este conto no site Eu amo escrever. Se gostarem, votem nele.

A musa dos pés desnudos
Paulo Thiago de Mello

Passou por mim como um arrepio, mas a reconheci no imediato. O ranger interno dos ossos e um presságio em forma de calafrio me diziam: é ela. Os indícios na relva verde estavam lá, apontando para múltiplas direções, todas elas, a mesma. Tudo confirmava sua fugidia presença, mas foram as marcas dos pés descalços que assinaram seu nome na grama. Voltara sabe-se lá de que abismo. O jeito escorregadio, como se não quisesse estar ali. Era o riso de sempre, a mesma alvura de pele, a sina romântica de infortúnios e naufrágios. Musa de sonhos irrealizáveis, tinha o corpo transparente, desenhado por caminhos azuis de veias, cabelos claros ao vento. Esquálida, pálida, lânguida. O sexo guardado por frondosa floresta, escuro contraste com a pele de leite, guardião de segredos abissais. Mais ilusão do que carne. O coração gelado, silencioso, e a maldade pura das crianças. Mas a expressão da sua alma eram os pés. Ninguém nunca os vira calçados. Estavam sempre deixando indícios em formas de pegadas, construindo constantemente seus labirintos. Fez do andar descalço sua marca e, em cada passo, os vestígios de sua luta para manter a lucidez dos sentidos, o esforço para escapar aos desvarios que abriam fendas em seu peito.

Em outra vida, me perdera com ela. Caminhei ao seu lado, buscando desvendar, ofuscado por um fascínio irracional, a alma desfraldada, o espírito indomável, a meninice que se apegara à pele, o sorriso travesso enquanto ateava fogo ao mundo, em suas revoluções, revoltas e conjurações. Mergulhei em seu universo pela densidade de sua floresta, nunca inteiramente aberta para mim. Era preciso sempre tomar-lhe de assalto o reduto, o ventre plano, o púbis tarantular e fincar ali a minha bandeira. Só assim, quando o corpo já não lhe pertencia mais, me entregava seu tesouro isenta da própria volúpia. Forcei-me adentro de sua persona, de seus humores, de seus músculos e deixei em suas funduras os fios poucos de sanidade que me constituíam. Enlouqueci feliz no esquecimento daqueles dias, que se alternavam entre os mais felizes e os mais ferozes da minha vida. Fui picado mil vezes por seu ferrão oculto, ingeri seu veneno mais letal, mas sobrevivi ao mergulho, salvo por meu apego à terra, ao chão firme, à luz quente do sol.

No caminho de volta reencontrei cacos preciosos do que fora antes de ter enquadrado seus olhos no foco impossível. Reconstituí-me protegendo os pedaços que me sobraram. Era agora feito de restos, num mundo sem quimeras ou fantasias. Apenas a densidade crua das coisas e dos seres; a percepção, resignada e plácida, do ciclo da vida. Foi preciso tempo para ver o encantamento dessa outra alegria possível, que, sem fogos de artifícios ou canto de sereias, ardia plena na intensidade do real.

E agora, ela me assombrava novamente, materializando-se ao meu lado. Os pés sempre desnudos e, nos olhos, a velha história, o mesmo engano. Mas, na distância, aprendera. Sabia inclusive de todos os novos vocábulos que pronunciei desde o nosso último abraço. Estudara atentamente meus percalços e vinha preparada para me reconquistar; sua trama, por não ser trama, era das mais poderosas. Mas as cicatrizes ainda me doíam fundo e me mantive enraizado. Amarrei-me, como Ulisses, ao real. Permiti que ela chovesse, derramando-se sobre mim, e esperei que estiasse, no sono calmo e escuro de seus abismos, único lugar onde seu espírito aquietava-se. Mas, enquanto dormia, saí vasculhando o mundo ao meu redor, para depois voltar e afogá-la sob uma montanha de calçados, sapatos e sandálias. Estava curado e podia agora deixar meus próprios passos na relva.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O sonho da cidade ideal

Fiz essa foto, em fevereiro, na véspera de embarcar para Paris, onde fiquei quatro meses fazendo pós-doutorado...

... na volta, a paisagem mudou, com novas obras despontando a partir de minha janela.

Amigos, eis-me de volta ao Pendura, após mais de 50 dias sem internet em casa (vou poupá-los do calvário que foi esse processo). Desde que voltei do séjour na França, me concentrei no trabalho. Escrevi uma resenha para o Prosa & Verso, falando de um livro que conta a história dos operários da estrada de ferro Madeira Mamoré a partir do ponto de vista de um fotógrafo americano que registrou a megaobra. Vou republicar aqui em breve. Mais urgente, porém, foi o artigo que escrevi no caderno especial do Prosa sobre o impacto dos megaeventos esportivos — Copa do Mundo e Olimpíadas — no Rio de Janeiro, tanto fisicamente quanto simbolicamente.

Participaram do caderno vários especialistas e eu escrevi meu artigo na condição de antropólogo do Laboratório de Etnografia Metropolitana do Rio de Janeiro (LeMetro/IFCS-UFRJ), embora o texto tenha um estílo mais jornalístico. Reproduzo o texto aqui, acrescentando fotos de Botafogo que tirei por causa de minha pesquisa sobre o bairro. Mas vale a pena ler as demais matérias do caderno que foi todo dedicado a esse tema tão relevante nos dias atuais. Vale mencionar ainda o artigo de Luiz Antonio Simas, publicado também no Globo, no último domingo. Bem, vamos ao texto:

Disputa pelo sonho do espaço ideal

Transformado em commodity, Rio vive processo de aburguesamento refletido em bomm imobiliário

Paulo Thiago de Mello

A realização de megaeventos esportivos no Rio de Janeiro se insere em um contexto mais amplo, marcado pelo que cientistas sociais e urbanistas classificam como um fenômeno de commoditização das cidades. Trata-se da transformação das metrópoles em ativos, numa competição internacional por investimentos e turismo. Esse processo remonta ao fim dos anos 80, quando o capitalismo consolidou seu contorno neoliberal e se globalizou.

No caso do Rio, as Olimpíadas e a Copa do Mundo representam o ápice de um processo que abrange outroas mudanças importantes. Estas são implementadas por todas as esferas dos poderes públicos, numa parceria com segmentos privados. O resultado é a transformação radical da cidade, nem sempre da forma como previram os planejadores, muitos deles eufóricos com a retórica de recuperação do Rio, após anos de estagnação.

Além dos megaeventos esportivos, há projetos de revitalização de áreas da cidade, como o Centro e a zona portuária; instalação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), criando um cinturão de segurança nas regiões de interesse; remoção de populações de baixa renda; revitalização de bairros por meio de renovação dos equipamentos públicos, entre outras iniciativas. Soma-se a issoa reforma da lei do inquilinato, a política federal de estímulo à construção civil e programas de casa própria, que acabaram por estimular um boom do setor imobiliário.

Uma das conseqüências mais dramáticas dessas iniciativas é a transformação da vida nos bairros, sobretudo por meio de um processo de substituição de populações, em que moradores mais antigos vão deixando áreas residenciais tradicionais, expulsos pelo aumento do custo de vida, especialmente os relacionados à moradia. Em seu lugar chegam novos residentes, com maior poder aquisitivo.

Essa espécie de aburguesamento, também chamada de gentrificação, não é um acontecimento exclusivo do Rio de Janeiro. Em várias metrópoles, como Nova York, grupos de classe média alta estão abandonando os subúrbios ricos e voltando para os centros urbanos, ocupados por uma população de renda mais modesta. Em Paris, os residentes de origem operária e imigrantes estão se transferindo para os chamados banlieues, substituídos pelos bobôs (bourgeois-bohèmes), um novo ator social, que na cidade pós-moderna commoditizada une o burguês ao boêmio.

Mobiliárias prometem modernizar os bairros

Diferentemente de Paris, onde essas mudanças não implicam a destruição do tecido urbanao construído, e conseqüentemente a paisagem arquitetônica da cidade, no Rio o fenômeno é companhado por uma onda de demolições, que transforma — ou transfigura — a identidade física e simbóliba dos bairros. Um exemplo que salta aos olhos é o de Botafogo. O processo de demolição de antigas vilas, casarões e prédios baixos, para dar lugar a condomínios — cujos panfletos publicitários prometem "modernizar" o bairro por meio de construções "exclusivas" e "seguras" — acaba por transformar a vida nas calçadas, o tipo de comércio e o uso dos espaços públicos compartilhados.

Só nos últimos cinco meses, na área delimitada entre as ruas da Passagem, Álvaro Ramos, Arnaldo Quintela e General Polidoro, pelo menos sete novos empreendimentos imobiliários, com o preço médio do metro quadrado em torno de R$ 9 mil, tomaram o lugar de antigas casas e vilas. O impacto ecológico no bairro é fácil de imaginar, sobretudo no trânsito e na infra-estrutura em geral.

Mas é no choque entre antigos e novos residentes, cada qual com seu sonho de cidade ideal, que a disputa pelo bairro — isto é, pelo direito à noção dominante de tradição e patrimônio — torna evidente o processo de transformação urbana em andamento. Ele está nos encontros na calçada, nos eventos públicos do bairro, e no convívio diário mediado pelo comércio, tradicional e novo, dos velhos botequins aos sofisticados bistrôs.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

De volta ao Rio

Amigos, voltei ao Rio há 20 dias, mas estou sem internet. É impressionante como quatro meses de ausência podem desestruturar coisas como net, telefone etc. Além dos problemas com as empresas, o laptop deu pau justamente no plug que liga o moden à banda larga. Tentei instalar um WiFi, mas a Velox não tem o serviço e a Net só o oferece aos novos assinantes (?!?!). Enfim, essa é a principal razão de estar ausente aqui no Pendura. Espero, porém, resolver essas coisas em breve. Há muita coisa a publicar.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Beatniks, hippies e punks: a América em Paris

Essa imagem aparece reproduzida em outros quadros de Prince. Ela chama a atenção pela perversidade quase inocente

Tenho passado os últimos dias num apartamento, cuja varanda dá para o canal de l’Ourc, no 19ème. Trata-se da casa do sociólogo Pedro García Sanchez e sua mulher, Hèlene, que viajaram e deixaram o apê comigo. Desse modo, dou uma folga para Ruben, Marta & Lorenzo (que teve provas essa semana) e também aproveito o silêncio e a solidão para avançar nas leituras, escrituras e organização dos dados de minha pesquisa. Tarefa hercúlea e cansativa, que exige muita concentração. Ontem, praticamente não pus os pés na rua, apesar do céu insuportavelmente azul e a temperatura agradável. Mas aproveitei para organizar a estrutura da monografia e já comecei a escrever a introdução, que é mais chatinha porque vou discutir uma série de conceitos e explicar minhas opções teóricas e metodológicas.

Hoje, em compensação, aproveitei o calor de 26 graus e caminhei daqui à casa de Marta e, depois, até o Marché d’Aligre, onde, quase desidratado, tomei uma cerveja no Penty. Não sei medir a distância, mas foi quase uma hora de caminhada, do 19ème ao 12ème, começando pela avenida Jean Jaurès e seguindo pelos bulevares de la Villette, de Belleville, de Ménilmontant, contornando o cemitério Père Lachaise, pegando a avenida Philippe Auguste até a Nation e o bulevard Diderot até a casa de Marta. Esse percurso me permitiu sentir com calma a mudança de atmosfera dos arrondissements parisienses.

As namoradas dos motociclistas: Ele fez toda uma imensa série, algumas bem trash

São justamente os bairros dos arrondissements do Norte e Nordeste da cidade que estão passando por um processo mais agudo de aburguesamento. Mas, sobretudo em Belleville, percebe-se uma dinâmica de mistura muito interessante, com várias etnias e classes sociais convivendo no mesmo espaço, o que é bastante saudável para o bairro. Ouve-se não apenas muitos idiomas distintos, mas sotaques também. Jovens turcos com gumex nos cabelos, à la juventude transviada; velhos muçulmanos magrebinos; chineses da nova e da velha diásporas; judeus ortodoxos; e os bobôs, cuja presença já começa a gerar mudanças nos bairros. Há muitos imóveis sendo reformados e novos tipos de lojas estão abrindo as portas nessas áreas, antes dominadas pelo comércio tradicional, do açougue kosher à lanchonete de kebab.

Nesses próximos dias vou apressar a pesquisa (de campo e na biblioteca), ajudar Marta num projeto de documentário interessantíssimo (detalhes no próximo post), visitar toda uma lista de pessoas e tomar um chope duas amigas que estão de passagem por Paris. Também quero ir ao maior número possível de exposições que conseguir. Prefiro ir a esses salões aqui em vez de ir ao cinema ou à boate, coisa que posso fazer no Brasil. As exposições aqui têm sido de altíssimo nível e, infelizmente, no Rio são poucos os lugares e poucas as exposições interessantes.

As capas das revistinhas de romances pornográficos vendidas nos anos 60 nos EUA. Richard Prince fez centenas delas

Outro dia, por exemplo, vi a exposição America, sobre Richard Prince, pintor e fotógrafo, na Biblioteca Mitterrand, um passeio pelo universo rebelde americano dos anos 50 para cá, passando pelos beats, o jornalismo gonzo, e a transa pornográfica dos romances pulp: motocicletas com louras peladas e seus namorados Hell’s Angels. Deu pra sentir? Na exposição estão, entre outros, Andy Warhol (como sempre), Velvet Underground, Hunter Thompson, todos os escritores beats, Bob Dylan e Jim Morrison. Muitas fotos de Woodstock e Hell’s Angels. Uma das coisas que mais me encantou foi uma carta amorosa de Jimi Hendrix para o pai, numa caligrafia que lembra seus solos de guitarra: redonda e bem desenhada.

Tenho a impressão, mas posso está falando besteira, que a turma beat bebeu na fonte dos escritores surrealistas franceses dos anos 20 e na geração posterior. Pelo menos na postura meio iconoclasta e rebelde. Penso em Leiris, Artaud, Bataille e Vian. Quer dizer, a coisa anarquista, surrealista, a psicanálise, a antropologia social e tal. Certamente, os litros e litros de bourbon, cigarro, drogas e a coisa junk pesada marcam uma postura (anti)social que se desdobra nas contestações que se seguem, do movimento hippie ao punk. Mas a parada americana é mais industrial.

Como não andei fotografando, aproveito para colocar fotos de Richard Prince tiradas da internet, como esse retrato do Jimi Hendrix

Isso me lembra um pouco o que me parece ser uma estratégia dos tropicalistas, que bebem na fonte de tudo o que é significativo e interessante, mesmo que esse tudo não siga na mesma direção. Às vezes, me parece que forçam uma certa barra nessas vinculações. Pelas entrevistas e depoimentos, vê-se, por exemplo, o movimento dos baianos abraçando a antropofagia de Oswald, a poesia concreta, a Bossa Nova, o Cinema Novo, o Teatro Oficina, a arquitetura de Niemeyer, o que tem lógica como influência. Mas não pára aí. O abraço tropicalista engloba ainda a poesia de João Cabral, o cinema marginal (que se opunha visceralmente ao cinema de Glauber e Nelson Pereira) e... tudo o que soma em termos de prestígio cultural. Fico na dúvida se, nessa geléia geral, estamos falando de influência ou de malandragem populista.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Festa de bairro



A fanfarra só de mulheres, quebrando tudo no churrasco comunitário

A ausência dos últimos dias decorreu de vários compromissos acadêmicos e de minha pesquisa, que exigiram minha total concentração. Na última quinta-feira, dia 12, apresentei um seminário na Universidade de Paris Ouest — Nanterre, a convite do Departamento de Sociologia, e seu curso de mestrado Economie et sociétés — Mutations des sociétés contemporaines. Esse laboratório tem um curso de mestrado intitulado Socio-anthropologie de l’Amérique Latine, que é coordenado pelos professores Pedro José Garcia Sanchez (um venezuelano radicado na França) e Sylvie Pedron-Colombani. Foi para os alunos de Pedro que fiz uma apresentação.

A encenação na Place d'Aligre: Comuna de Paris para cerca de 400 pessoas

O problema é que ele preferiu, pelos temas que vem tratando em seu curso, que eu falasse sobre minha tese, em que me debrucei sobre o ofício do jornalista contemporâneo, focando nos ritos de interação social no ambiente de trabalho, para tentar vislumbrar o rumo desse ofício que passa por uma verdadeira revolução. O título do seminário acabou ficando pomposo demais, mas vá lá, o assunto merece: Les défis contemporains de l’enquête et de l’information: entre le journalisme et l’anthropologie ou Le journalisme à la époque de sa réprodution numérique.

O rango comunitário da Commune Libre d'Aligre: barbecue e cerveja

Eu, que tenho um problema genético de timidez aguda, sempre sofri para fazer meus seminários, palestras e aulas no Brasil, na França então... outro país, outro idioma... Os elementos que pesavam sobre minha timidez foram tantos, que acabei relaxando e fiz uma boa apresentação de duas horas, com mais meia hora de debate. No fim, saí aliviado e feliz por ter passado por mais esse teste. Antes de iniciar essa viagem, esse era um dos grandes fantasmas que rondavam meu espírito. Mas o melhor teria sido debater com os alunos o processo de gentrification no Rio e em Paris, tema de meu pós-doc.

Cartazes convocando para os eventos da Fête de la trôle

A segunda banda pôs o pessoal para dançar

Feito esse parêntesis, digamos, epistemológico, após a experiência do seminário, voltei para minha etnografia, razão desse séjour em Paris. Passei os últimos dias mergulhado no bairro d’Aligre, acompanhando uma série de eventos, alguns cotidianos outros excepcionais, como a fête de la trole, promovida pela Commune Libre d’Aligre, englobando a sexta-feira e o sábado passados.

O pessoal caiu dentro do churrasco: integração comunitária pelo estômago

Na sexta, teve uma encenação teatral sobre a Comuna de Paris, que está completando 140 anos, e representa o espírito que a Commune Libre d’Aligre pretende para o bairro: uma relação independente em relação à Prefeitura, um domínio dos comitês e associações sobre a vida comunitária dos bairros, tudo isso com um caráter socialista e mesmo anarquista. A encenação foi realizada na Place d’Aligre, que é o coração do bairro, e terminou com as cerca de 400 pessoas presentes cantando a Internacional, algumas com a mão no coração. Voilà, esse é o espírito que norteia não só a associação, mas um tipo de francês consciente, com mais de 40 anos, de origem operária que vive no quartier.

O pessoal contribui com uns trocadinhos (que não dão para nada)...

O trio americano tocando blues do Mississippi no dia principal do mercado

A peça, muito bem encenada, com atores profissionais, que montaram um cenário na praça e aproveitaram um longo poema sobre os eventos históricos da Comuna de Paris como guia da encenação. À medida que iam recitando suas falas, o público reagia, vaiando os representantes do governo e aplaudindo os revoltosos. Uma coisa inocente e ingênua, quase mesmo pueril, mas mesmo assim emocionante, sobretudo nesses dias de niilismo e fragmentação. No fim, ajudei o pessoal a desmontar e recolher as cadeiras espalhadas pela praça e conversei com Cécile, uma das líderes da Commune Libre d’Aligre. Ela me disse que muitos dos jovens franceses desconhecem os eventos da Comuna, numa total alienação.

No mercado fechado também tem música...

... e, do lado de fora, o homem africano faz malabarismo...

... e o pessoal passa o abaixo-assinado pelo direito a voto para os estrangeiros

De minha parte, aproveitei para indagar por que os residentes do bairro de origem magrebina não participavam dos eventos da associação. Ela me disse que já fizeram de tudo para atraí-los para as atividades comunitárias, mas eles permanecem fechados entre eles. Nem mesmo as refeições comunitárias gratuitas ou eventos preparados especialmente para eles, como projeção de filmes sobre cultura árabe ou muçulmana conseguiu animá-los. Com a geração mais nova, eles conseguiram, pelo menos, criar um vínculo de trabalho. Eles contratam os jovens para ajudar na preparação de eventos e pagam. Nessa relação de biscate, o pessoal aparece, faz as coisas (tipo montar palcos etc.), mas não se liga no conteúdo dos eventos. Apenas trabalham em vão embora, assim que são pagos.

Panfletos da Commune Libre d'Aligre à disposição no dia da festa

A geração mais velha — a maioria deles residente no Foyer dos trabalhadores à rue Beccaria — forma um grupo muito unido e solitário. Eles trabalharam uns 35 ou 40 anos, enviando dinheiro para seus familiares que ficaram nos países de origem, Tunísia, Argélia, Marrocos e tal. Com o tempo, acabaram perdendo o vínculo com as gerações mais novas de sua própria família, inclusive filhos, a quem raramente viam. Na aposentadoria, tendo os direitos de residência reconhecidos na França, optaram por viver aqui, onde não são reconhecidos como franceses, mas pelo menos têm seus amigos, em situação similar.

Detalhe do jardim comunitário Aligresse

Todos os dias, eles se vestem com apuro, colocando terno, e vão para o mercado, para a praça ou os cafés das imediações, onde se encontram e conversam. Eles formam um grupo muito peculiar, que se destaca visualmente dos bobôs e mesmo dos antigos moradores do bairro. Cada um deles tem histórias de vida incríveis, que dariam para horas e horas de boa prosa. Mas o problema é que muitos falam o idioma precariamente, a maioria não é alfabetizada (não sabe escrever) em francês, limitando-se ao vocabulário do cotidiano. Sua conversa é mesmo em árabe.

Eu e Sandrine no Penty... conversa de botequim

No sábado, a festa prosseguiu. Um churrasco ao lado do jardim comunitário do bairro, abriu os eventos do dia. O jardim, o Aligresse, merece também uma explicação. Era uma área abandonada, com imóveis precários e já meio desabando, que a prefeitura pretendia renovar e passar à iniciativa privada. Os moradores se organizaram e conseguiram transformar uma parte da área em um conjunto habitacional popular, que aqui chamam de HLM, mas sofisticado, com apartamentos muito bem equipados e serviço básico de altíssima qualidade (nada a ver com os condomínios da época de Lacerda de que vem falando Rogerinho Daflon em sua excelente série de reportagens no Globo). Numa outra parte do terreno, os moradores conseguiram fazer um parquinho e o jardim comunitário, onde todos participam, plantando e cuidando.

O churrasco do sábado teve direito à fanfarra e muita animação. A banda formada só por mulheres tocou o rebu. Depois, outra banda, essa mista, assumiu a programação. Gostei muito dos arranjos que incluíam desde clássicos como Besame mucho a riffs de reggae bem dançantes. Me lembrou o trabalho que o pessoal dos tambores de Candombe fazem em Botafogo (saudades de Joana) Teve ainda atividades para crianças, exposições, ateliês de portas abertas na vizinhança e um jantar comunitário. A maioria dos participantes eram moradores antigos de classe média ou bobôs recém-chegados ao bairro.

Gosto dessa foto porque mostra o Penty na esquina, o prédio ao lado, que está sendo reformado e vai se tornar num empreendimento bobô, e a velhinha atravessando a rua, molhada pela passagem pelo caminhão lava-ruas da prefeitura

Entre esses eventos, aproveitei sempre para passar no Penty e fazer anotações. Acho que consegui cobrir todo o horário de funcionamento do café, anotando os tipos de clientes que variam segundo o horário e os dias. Tudo isso fotografado e anotado. Até fiz uma amizade com uma freguesa, chamada Sandrine, que me viu escrevendo no caderno de campo e ficou curiosa.

Augustin e uma amiga, cujo nome me escapa agora, no Penty

Ontem, no domingo, fiz minha visita habitual ao mercado. Reparei que os músicos começam a invadir a região. Do realejo ao trio de blues americano, passando pelo sanfoneiro solitário, que toca sempre a mesma canção (o que funciona como um aviso de sua presença nas imediações), há cada vez mais manifestações artísticas, à medida que o tempo se firma e a temperatura oscila agradavelmente entre 15 e 20 graus, sem chuva. Há também muita panfletagem sobre os temas mais variados, da luta contra a instalação de câmera de vigilância (ao contrário do Rio, onde os moradores clamam por elas), ao abaixo-assinado pedindo direito de voto para os estrangeiros que vivem e trabalham na França.

No Penty, aproveitei o domingo para tomar um chope com meu amigo Augustin Geoltrain, que me falou extensamente sobre Belleville, este sim um quartier que merece uma extensa pesquisa (e que vem sendo etnografado com competência pelo pessoal do Laboratório de Etnografia Metropolitana, do IFCS-UFRJ), tanto são os fenômenos sociais que se manifestam no lugar de uma ponta a outra. Foram horas de boa conversa com ele, que tem uma percepção e sensibilidade agudíssimas, além de um excelente bom humor. Agora que estou nos últimos 30 e poucos dias antes de meu regresso, quero me concentrar mais ainda nas leituras e no trabalho de campo no bairro. A bientôt.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Paris black e islâmica

Os fiéis fazendo a oração de sexta-feira, em frente à Mesquita Al Fateh: tapetes cobrem as ruas da região de Barbès e o pessoal tira os sapatos e se ajoelha para orar

Meu amigo Idriss Diabaté me levou hoje para um parcours commenté pela Paris black, como o pessoal daqui se refere ao bairro em torno das estações de metrô de Barbès e Chateau Rouge, próximo à Montmartre. Por sincronicidade, hoje fez um sol daqueles e a temperatura oscilou acima dos 25 graus. Me lembrei do camelódromo atrás da Central do Brasil, antes do incêndio, só que a presença africana e muçulmana é quase total. Rodamos pelas ruas do bairro, tomamos café num boteco de esquina, de onde observamos o movimento. Idriss estava retribuindo o passeio que fiz com ele no Rio de Janeiro, no ano passado, quando participou do festival de cinema negro, promovido por Zózimo Bubul.

No pequeno bar, enquanto falávamos sobre cinema, antropologia e jornalismo, um sujeito (acho que estava meio bêbado), começou a fazer um discurso sobre os colonizadores que pilharam a África e que, agora, querem se mostrar amigos dos negros. Era obviamente dirigido a mim e ao Idriss, mas continuamos nossa conversa à la egyptienne. Num jantar, outro dia, Idriss contou que, ao ligar para uma irmã para ter notícias, após a confusão toda em Costa do Marfim, ouviu a pessoa que passava o telefone identificá-lo como Idriss, le blanc. Apesar de ser preto retinto, o fato de morar na França e ter hábitos europeus, levou a seus parentes mais próximos a identificá-lo como branco.

Idriss (de chapeu) e Brice, que é do Benin, mas vive há muitos anos na região de Barbès, e foi assistente de Jean Rouch

Depois, retomamos nossa caminhada e acabamos almoçando em um pequeno restaurante senegalês, o Le Nioumre, situado em frente à Mesquita Al Fateh. Foi emocionante. Ao entrar um sujeito tocava a kora, uma linda harpa africana de poderosa sonoridade e 27 cordas (Idriss me disse que há uma lenda que determina que não se pode tocar a vigésima sétima corda, do contrário a pessoa morre). O músico também inventava a letra saudando as pessoas que entravam no restaurante e, ao ser informado que eu era brasileiro, fez toda uma prosa me dando as boas-vindas.

Em seguida, saudou Idriss, por seu sobrenome, Diabaté, que especifica uma linhagem de porta-vozes do povo griot. Aprendi ainda que Keita foi o rei e fundador da etnia, que está presente em Senegal, Mali, Costa do Marfim, Guiné, entre outros países. E, como sua função é narrar histórias, muitos griots são músicos, escritores, cineastas e tal. Idriss pediu um Yassa (frango com arroz branco num molho amarronzado, bastante picante). Eu fui de Maffé (peixe com umas sementes no lugar do arroz, e um molho picante de fazer baiano suar). Bebi uma espécie de suco de gengibre, igualmente picante, e litros e litros de água. Mas a comida é simplesmente maravilhosa e suculenta, além de generosamente servida.

Detalhe dos sapatos e tênis largados à beira da calçada, enquanto o pessoal se prepara para orar

Saímos do bar com a barriga cheia e bem na hora que começavam as orações da sexta-feira, em frente à mesquita. Os fiéis levam tapetes para a rua, que é fechada ao tráfego de carros e bicicletas, e fazem suas orações ao ritmo de um mantra cantado dentro da mesquita lotada e transmitido por alto-falantes ao lado de fora. Fiz algumas fotos, e um sujeito reclamou, afirmando que não era permitido fotografar, mas haviam dois sujeitos filmando, num esquema profissional. De modo que ignorei o sujeito e fiz mais algumas fotos, incentivado ainda pelo Idriss.

Depois fomos encontrar um antropólogo, amigo de Idriss, que trabalha com cinema etnográfico, tendo sido um dos principais assistentes de Jean Rouch. Trata-se de Brice, um sujeito bem simpático e morador do bairro. Fizemos com ele um novo parcours commenté. Ele nos levou numa loja de alta costura, que pertence ao movimento SAPE (sigla de societé des ambienceurs et des personnes elegantes), iniciado no antigo Zaire e que é se espalhou pela África. Os membros dessa sociedade são uma espécie de dandys e têm que se vestir muito bem, com roupas dos grandes costureiros, e dançar e cantar em festas e boates. O Papa Wemba é um sapeur.

Uma das instalações do Institu des Cultures d'Islam

Fomos ainda a um centro cultural chamado Institut des Cultures d’Islam, onde vimos uma exposição de um fotógrafo britânico, que fez várias imagens da mesquita que acabáramos de ver. Havia ainda umas instalações e outras obras dentro do título geral Tous Islamaniaques!, um trocadilho para lá de espirituoso. E foi isso. A bientôt!