domingo, 28 de agosto de 2011

Na esquina da redação


Rodolfo Fernandes morreu durante o meu plantão. Quando um grande morre, a notícia chega sempre num sobressalto, murmurada para nós por arautos constrangidos, logo ao pisarmos na redação. Sabemos que teremos que nos mobilizar para, com um quinto da equipe convencional, preparar uma edição especial, homenageando o morto. Foi assim na morte do Papa e de grandes figuras. Só que neste caso, o morto era, além de grande, alguém próximo de nós. O que torna tudo mais difícil, pois qualquer palavra está sempre aquém ou além do tom adequado.

Estabelece-se um deadline, um horário de fechamento da edição especial, e começa o burburinho, cujo epicentro vem do Aquário, a sala envidraçada da diretoria, onde nadam os peixes grandes da redação. Mergulhamos naquilo que é a essência mesma da profissão: a mobilização compartilhada, coordenada e, por que não, solidária para levar ao leitor a notícia terrível. Plantonistas e outros que, convocados e por puro instinto jornalístico aparecem para ajudar, executam suas tarefas, como forma inclusive de amenizar a sensação de perda. Nessas horas, a objetividade é, além do instrumento de trabalho, também uma espécie de alívio, dando o que fazer à mente.

Rodolfo foi pego, na flor da idade, por uma doença terrível, que começou a se manifestar há uns dois anos. Ela foi lhe roubando, pouco a pouco, o corpo, imobilizando seus movimentos, sem a indulgência da alienação mental. Pelo contrário, a cada músculo que perdia sua função natural, Rodolfo parecia adquirir mais e mais lucidez. Quanto mais aprisionado no corpo, mais ágil parecia sua mente.

Ele passava por mim quase todos os dias, a caminho de sua sala, a poderosa e panóptica sala do diretor de redação, o Aquário do Aquário, o centro de poder. O cargo máximo da redação, ocupado por uma linhagem nobre de jornalistas, à qual Rodolfo acrescentou uma boa dose de elegância e suavidade, sobretudo na forma de respeito ao colega de profissão. Essa é uma das virtudes que sempre admirei nele.

Guardo, não sem emoção, suas últimas palavras dirigidas a mim num breve email, quando escrever se tornara uma tarefa hercúlea. Foi uma mensagem de boas-vindas, após quatro meses em que fiquei ausente, no exterior. No primeiro dia após minha volta, há dois meses, Rodolfo ficou contente ao topar comigo no meu velho posto de trabalho, uma mesa de esquina na redação, e escreveu: “Estava faltando algo na paisagem da Redação. Seja bem-vindo. Como foi lá?”

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A musa dos pés desnudos


Amigos, coloquei este conto no site Eu amo escrever. Se gostarem, votem nele.

A musa dos pés desnudos
Paulo Thiago de Mello

Passou por mim como um arrepio, mas a reconheci no imediato. O ranger interno dos ossos e um presságio em forma de calafrio me diziam: é ela. Os indícios na relva verde estavam lá, apontando para múltiplas direções, todas elas, a mesma. Tudo confirmava sua fugidia presença, mas foram as marcas dos pés descalços que assinaram seu nome na grama. Voltara sabe-se lá de que abismo. O jeito escorregadio, como se não quisesse estar ali. Era o riso de sempre, a mesma alvura de pele, a sina romântica de infortúnios e naufrágios. Musa de sonhos irrealizáveis, tinha o corpo transparente, desenhado por caminhos azuis de veias, cabelos claros ao vento. Esquálida, pálida, lânguida. O sexo guardado por frondosa floresta, escuro contraste com a pele de leite, guardião de segredos abissais. Mais ilusão do que carne. O coração gelado, silencioso, e a maldade pura das crianças. Mas a expressão da sua alma eram os pés. Ninguém nunca os vira calçados. Estavam sempre deixando indícios em formas de pegadas, construindo constantemente seus labirintos. Fez do andar descalço sua marca e, em cada passo, os vestígios de sua luta para manter a lucidez dos sentidos, o esforço para escapar aos desvarios que abriam fendas em seu peito.

Em outra vida, me perdera com ela. Caminhei ao seu lado, buscando desvendar, ofuscado por um fascínio irracional, a alma desfraldada, o espírito indomável, a meninice que se apegara à pele, o sorriso travesso enquanto ateava fogo ao mundo, em suas revoluções, revoltas e conjurações. Mergulhei em seu universo pela densidade de sua floresta, nunca inteiramente aberta para mim. Era preciso sempre tomar-lhe de assalto o reduto, o ventre plano, o púbis tarantular e fincar ali a minha bandeira. Só assim, quando o corpo já não lhe pertencia mais, me entregava seu tesouro isenta da própria volúpia. Forcei-me adentro de sua persona, de seus humores, de seus músculos e deixei em suas funduras os fios poucos de sanidade que me constituíam. Enlouqueci feliz no esquecimento daqueles dias, que se alternavam entre os mais felizes e os mais ferozes da minha vida. Fui picado mil vezes por seu ferrão oculto, ingeri seu veneno mais letal, mas sobrevivi ao mergulho, salvo por meu apego à terra, ao chão firme, à luz quente do sol.

No caminho de volta reencontrei cacos preciosos do que fora antes de ter enquadrado seus olhos no foco impossível. Reconstituí-me protegendo os pedaços que me sobraram. Era agora feito de restos, num mundo sem quimeras ou fantasias. Apenas a densidade crua das coisas e dos seres; a percepção, resignada e plácida, do ciclo da vida. Foi preciso tempo para ver o encantamento dessa outra alegria possível, que, sem fogos de artifícios ou canto de sereias, ardia plena na intensidade do real.

E agora, ela me assombrava novamente, materializando-se ao meu lado. Os pés sempre desnudos e, nos olhos, a velha história, o mesmo engano. Mas, na distância, aprendera. Sabia inclusive de todos os novos vocábulos que pronunciei desde o nosso último abraço. Estudara atentamente meus percalços e vinha preparada para me reconquistar; sua trama, por não ser trama, era das mais poderosas. Mas as cicatrizes ainda me doíam fundo e me mantive enraizado. Amarrei-me, como Ulisses, ao real. Permiti que ela chovesse, derramando-se sobre mim, e esperei que estiasse, no sono calmo e escuro de seus abismos, único lugar onde seu espírito aquietava-se. Mas, enquanto dormia, saí vasculhando o mundo ao meu redor, para depois voltar e afogá-la sob uma montanha de calçados, sapatos e sandálias. Estava curado e podia agora deixar meus próprios passos na relva.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O sonho da cidade ideal

Fiz essa foto, em fevereiro, na véspera de embarcar para Paris, onde fiquei quatro meses fazendo pós-doutorado...

... na volta, a paisagem mudou, com novas obras despontando a partir de minha janela.

Amigos, eis-me de volta ao Pendura, após mais de 50 dias sem internet em casa (vou poupá-los do calvário que foi esse processo). Desde que voltei do séjour na França, me concentrei no trabalho. Escrevi uma resenha para o Prosa & Verso, falando de um livro que conta a história dos operários da estrada de ferro Madeira Mamoré a partir do ponto de vista de um fotógrafo americano que registrou a megaobra. Vou republicar aqui em breve. Mais urgente, porém, foi o artigo que escrevi no caderno especial do Prosa sobre o impacto dos megaeventos esportivos — Copa do Mundo e Olimpíadas — no Rio de Janeiro, tanto fisicamente quanto simbolicamente.

Participaram do caderno vários especialistas e eu escrevi meu artigo na condição de antropólogo do Laboratório de Etnografia Metropolitana do Rio de Janeiro (LeMetro/IFCS-UFRJ), embora o texto tenha um estílo mais jornalístico. Reproduzo o texto aqui, acrescentando fotos de Botafogo que tirei por causa de minha pesquisa sobre o bairro. Mas vale a pena ler as demais matérias do caderno que foi todo dedicado a esse tema tão relevante nos dias atuais. Vale mencionar ainda o artigo de Luiz Antonio Simas, publicado também no Globo, no último domingo. Bem, vamos ao texto:

Disputa pelo sonho do espaço ideal

Transformado em commodity, Rio vive processo de aburguesamento refletido em bomm imobiliário

Paulo Thiago de Mello

A realização de megaeventos esportivos no Rio de Janeiro se insere em um contexto mais amplo, marcado pelo que cientistas sociais e urbanistas classificam como um fenômeno de commoditização das cidades. Trata-se da transformação das metrópoles em ativos, numa competição internacional por investimentos e turismo. Esse processo remonta ao fim dos anos 80, quando o capitalismo consolidou seu contorno neoliberal e se globalizou.

No caso do Rio, as Olimpíadas e a Copa do Mundo representam o ápice de um processo que abrange outroas mudanças importantes. Estas são implementadas por todas as esferas dos poderes públicos, numa parceria com segmentos privados. O resultado é a transformação radical da cidade, nem sempre da forma como previram os planejadores, muitos deles eufóricos com a retórica de recuperação do Rio, após anos de estagnação.

Além dos megaeventos esportivos, há projetos de revitalização de áreas da cidade, como o Centro e a zona portuária; instalação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), criando um cinturão de segurança nas regiões de interesse; remoção de populações de baixa renda; revitalização de bairros por meio de renovação dos equipamentos públicos, entre outras iniciativas. Soma-se a issoa reforma da lei do inquilinato, a política federal de estímulo à construção civil e programas de casa própria, que acabaram por estimular um boom do setor imobiliário.

Uma das conseqüências mais dramáticas dessas iniciativas é a transformação da vida nos bairros, sobretudo por meio de um processo de substituição de populações, em que moradores mais antigos vão deixando áreas residenciais tradicionais, expulsos pelo aumento do custo de vida, especialmente os relacionados à moradia. Em seu lugar chegam novos residentes, com maior poder aquisitivo.

Essa espécie de aburguesamento, também chamada de gentrificação, não é um acontecimento exclusivo do Rio de Janeiro. Em várias metrópoles, como Nova York, grupos de classe média alta estão abandonando os subúrbios ricos e voltando para os centros urbanos, ocupados por uma população de renda mais modesta. Em Paris, os residentes de origem operária e imigrantes estão se transferindo para os chamados banlieues, substituídos pelos bobôs (bourgeois-bohèmes), um novo ator social, que na cidade pós-moderna commoditizada une o burguês ao boêmio.

Mobiliárias prometem modernizar os bairros

Diferentemente de Paris, onde essas mudanças não implicam a destruição do tecido urbanao construído, e conseqüentemente a paisagem arquitetônica da cidade, no Rio o fenômeno é companhado por uma onda de demolições, que transforma — ou transfigura — a identidade física e simbóliba dos bairros. Um exemplo que salta aos olhos é o de Botafogo. O processo de demolição de antigas vilas, casarões e prédios baixos, para dar lugar a condomínios — cujos panfletos publicitários prometem "modernizar" o bairro por meio de construções "exclusivas" e "seguras" — acaba por transformar a vida nas calçadas, o tipo de comércio e o uso dos espaços públicos compartilhados.

Só nos últimos cinco meses, na área delimitada entre as ruas da Passagem, Álvaro Ramos, Arnaldo Quintela e General Polidoro, pelo menos sete novos empreendimentos imobiliários, com o preço médio do metro quadrado em torno de R$ 9 mil, tomaram o lugar de antigas casas e vilas. O impacto ecológico no bairro é fácil de imaginar, sobretudo no trânsito e na infra-estrutura em geral.

Mas é no choque entre antigos e novos residentes, cada qual com seu sonho de cidade ideal, que a disputa pelo bairro — isto é, pelo direito à noção dominante de tradição e patrimônio — torna evidente o processo de transformação urbana em andamento. Ele está nos encontros na calçada, nos eventos públicos do bairro, e no convívio diário mediado pelo comércio, tradicional e novo, dos velhos botequins aos sofisticados bistrôs.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

De volta ao Rio

Amigos, voltei ao Rio há 20 dias, mas estou sem internet. É impressionante como quatro meses de ausência podem desestruturar coisas como net, telefone etc. Além dos problemas com as empresas, o laptop deu pau justamente no plug que liga o moden à banda larga. Tentei instalar um WiFi, mas a Velox não tem o serviço e a Net só o oferece aos novos assinantes (?!?!). Enfim, essa é a principal razão de estar ausente aqui no Pendura. Espero, porém, resolver essas coisas em breve. Há muita coisa a publicar.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Beatniks, hippies e punks: a América em Paris

Essa imagem aparece reproduzida em outros quadros de Prince. Ela chama a atenção pela perversidade quase inocente

Tenho passado os últimos dias num apartamento, cuja varanda dá para o canal de l’Ourc, no 19ème. Trata-se da casa do sociólogo Pedro García Sanchez e sua mulher, Hèlene, que viajaram e deixaram o apê comigo. Desse modo, dou uma folga para Ruben, Marta & Lorenzo (que teve provas essa semana) e também aproveito o silêncio e a solidão para avançar nas leituras, escrituras e organização dos dados de minha pesquisa. Tarefa hercúlea e cansativa, que exige muita concentração. Ontem, praticamente não pus os pés na rua, apesar do céu insuportavelmente azul e a temperatura agradável. Mas aproveitei para organizar a estrutura da monografia e já comecei a escrever a introdução, que é mais chatinha porque vou discutir uma série de conceitos e explicar minhas opções teóricas e metodológicas.

Hoje, em compensação, aproveitei o calor de 26 graus e caminhei daqui à casa de Marta e, depois, até o Marché d’Aligre, onde, quase desidratado, tomei uma cerveja no Penty. Não sei medir a distância, mas foi quase uma hora de caminhada, do 19ème ao 12ème, começando pela avenida Jean Jaurès e seguindo pelos bulevares de la Villette, de Belleville, de Ménilmontant, contornando o cemitério Père Lachaise, pegando a avenida Philippe Auguste até a Nation e o bulevard Diderot até a casa de Marta. Esse percurso me permitiu sentir com calma a mudança de atmosfera dos arrondissements parisienses.

As namoradas dos motociclistas: Ele fez toda uma imensa série, algumas bem trash

São justamente os bairros dos arrondissements do Norte e Nordeste da cidade que estão passando por um processo mais agudo de aburguesamento. Mas, sobretudo em Belleville, percebe-se uma dinâmica de mistura muito interessante, com várias etnias e classes sociais convivendo no mesmo espaço, o que é bastante saudável para o bairro. Ouve-se não apenas muitos idiomas distintos, mas sotaques também. Jovens turcos com gumex nos cabelos, à la juventude transviada; velhos muçulmanos magrebinos; chineses da nova e da velha diásporas; judeus ortodoxos; e os bobôs, cuja presença já começa a gerar mudanças nos bairros. Há muitos imóveis sendo reformados e novos tipos de lojas estão abrindo as portas nessas áreas, antes dominadas pelo comércio tradicional, do açougue kosher à lanchonete de kebab.

Nesses próximos dias vou apressar a pesquisa (de campo e na biblioteca), ajudar Marta num projeto de documentário interessantíssimo (detalhes no próximo post), visitar toda uma lista de pessoas e tomar um chope duas amigas que estão de passagem por Paris. Também quero ir ao maior número possível de exposições que conseguir. Prefiro ir a esses salões aqui em vez de ir ao cinema ou à boate, coisa que posso fazer no Brasil. As exposições aqui têm sido de altíssimo nível e, infelizmente, no Rio são poucos os lugares e poucas as exposições interessantes.

As capas das revistinhas de romances pornográficos vendidas nos anos 60 nos EUA. Richard Prince fez centenas delas

Outro dia, por exemplo, vi a exposição America, sobre Richard Prince, pintor e fotógrafo, na Biblioteca Mitterrand, um passeio pelo universo rebelde americano dos anos 50 para cá, passando pelos beats, o jornalismo gonzo, e a transa pornográfica dos romances pulp: motocicletas com louras peladas e seus namorados Hell’s Angels. Deu pra sentir? Na exposição estão, entre outros, Andy Warhol (como sempre), Velvet Underground, Hunter Thompson, todos os escritores beats, Bob Dylan e Jim Morrison. Muitas fotos de Woodstock e Hell’s Angels. Uma das coisas que mais me encantou foi uma carta amorosa de Jimi Hendrix para o pai, numa caligrafia que lembra seus solos de guitarra: redonda e bem desenhada.

Tenho a impressão, mas posso está falando besteira, que a turma beat bebeu na fonte dos escritores surrealistas franceses dos anos 20 e na geração posterior. Pelo menos na postura meio iconoclasta e rebelde. Penso em Leiris, Artaud, Bataille e Vian. Quer dizer, a coisa anarquista, surrealista, a psicanálise, a antropologia social e tal. Certamente, os litros e litros de bourbon, cigarro, drogas e a coisa junk pesada marcam uma postura (anti)social que se desdobra nas contestações que se seguem, do movimento hippie ao punk. Mas a parada americana é mais industrial.

Como não andei fotografando, aproveito para colocar fotos de Richard Prince tiradas da internet, como esse retrato do Jimi Hendrix

Isso me lembra um pouco o que me parece ser uma estratégia dos tropicalistas, que bebem na fonte de tudo o que é significativo e interessante, mesmo que esse tudo não siga na mesma direção. Às vezes, me parece que forçam uma certa barra nessas vinculações. Pelas entrevistas e depoimentos, vê-se, por exemplo, o movimento dos baianos abraçando a antropofagia de Oswald, a poesia concreta, a Bossa Nova, o Cinema Novo, o Teatro Oficina, a arquitetura de Niemeyer, o que tem lógica como influência. Mas não pára aí. O abraço tropicalista engloba ainda a poesia de João Cabral, o cinema marginal (que se opunha visceralmente ao cinema de Glauber e Nelson Pereira) e... tudo o que soma em termos de prestígio cultural. Fico na dúvida se, nessa geléia geral, estamos falando de influência ou de malandragem populista.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Festa de bairro



A fanfarra só de mulheres, quebrando tudo no churrasco comunitário

A ausência dos últimos dias decorreu de vários compromissos acadêmicos e de minha pesquisa, que exigiram minha total concentração. Na última quinta-feira, dia 12, apresentei um seminário na Universidade de Paris Ouest — Nanterre, a convite do Departamento de Sociologia, e seu curso de mestrado Economie et sociétés — Mutations des sociétés contemporaines. Esse laboratório tem um curso de mestrado intitulado Socio-anthropologie de l’Amérique Latine, que é coordenado pelos professores Pedro José Garcia Sanchez (um venezuelano radicado na França) e Sylvie Pedron-Colombani. Foi para os alunos de Pedro que fiz uma apresentação.

A encenação na Place d'Aligre: Comuna de Paris para cerca de 400 pessoas

O problema é que ele preferiu, pelos temas que vem tratando em seu curso, que eu falasse sobre minha tese, em que me debrucei sobre o ofício do jornalista contemporâneo, focando nos ritos de interação social no ambiente de trabalho, para tentar vislumbrar o rumo desse ofício que passa por uma verdadeira revolução. O título do seminário acabou ficando pomposo demais, mas vá lá, o assunto merece: Les défis contemporains de l’enquête et de l’information: entre le journalisme et l’anthropologie ou Le journalisme à la époque de sa réprodution numérique.

O rango comunitário da Commune Libre d'Aligre: barbecue e cerveja

Eu, que tenho um problema genético de timidez aguda, sempre sofri para fazer meus seminários, palestras e aulas no Brasil, na França então... outro país, outro idioma... Os elementos que pesavam sobre minha timidez foram tantos, que acabei relaxando e fiz uma boa apresentação de duas horas, com mais meia hora de debate. No fim, saí aliviado e feliz por ter passado por mais esse teste. Antes de iniciar essa viagem, esse era um dos grandes fantasmas que rondavam meu espírito. Mas o melhor teria sido debater com os alunos o processo de gentrification no Rio e em Paris, tema de meu pós-doc.

Cartazes convocando para os eventos da Fête de la trôle

A segunda banda pôs o pessoal para dançar

Feito esse parêntesis, digamos, epistemológico, após a experiência do seminário, voltei para minha etnografia, razão desse séjour em Paris. Passei os últimos dias mergulhado no bairro d’Aligre, acompanhando uma série de eventos, alguns cotidianos outros excepcionais, como a fête de la trole, promovida pela Commune Libre d’Aligre, englobando a sexta-feira e o sábado passados.

O pessoal caiu dentro do churrasco: integração comunitária pelo estômago

Na sexta, teve uma encenação teatral sobre a Comuna de Paris, que está completando 140 anos, e representa o espírito que a Commune Libre d’Aligre pretende para o bairro: uma relação independente em relação à Prefeitura, um domínio dos comitês e associações sobre a vida comunitária dos bairros, tudo isso com um caráter socialista e mesmo anarquista. A encenação foi realizada na Place d’Aligre, que é o coração do bairro, e terminou com as cerca de 400 pessoas presentes cantando a Internacional, algumas com a mão no coração. Voilà, esse é o espírito que norteia não só a associação, mas um tipo de francês consciente, com mais de 40 anos, de origem operária que vive no quartier.

O pessoal contribui com uns trocadinhos (que não dão para nada)...

O trio americano tocando blues do Mississippi no dia principal do mercado

A peça, muito bem encenada, com atores profissionais, que montaram um cenário na praça e aproveitaram um longo poema sobre os eventos históricos da Comuna de Paris como guia da encenação. À medida que iam recitando suas falas, o público reagia, vaiando os representantes do governo e aplaudindo os revoltosos. Uma coisa inocente e ingênua, quase mesmo pueril, mas mesmo assim emocionante, sobretudo nesses dias de niilismo e fragmentação. No fim, ajudei o pessoal a desmontar e recolher as cadeiras espalhadas pela praça e conversei com Cécile, uma das líderes da Commune Libre d’Aligre. Ela me disse que muitos dos jovens franceses desconhecem os eventos da Comuna, numa total alienação.

No mercado fechado também tem música...

... e, do lado de fora, o homem africano faz malabarismo...

... e o pessoal passa o abaixo-assinado pelo direito a voto para os estrangeiros

De minha parte, aproveitei para indagar por que os residentes do bairro de origem magrebina não participavam dos eventos da associação. Ela me disse que já fizeram de tudo para atraí-los para as atividades comunitárias, mas eles permanecem fechados entre eles. Nem mesmo as refeições comunitárias gratuitas ou eventos preparados especialmente para eles, como projeção de filmes sobre cultura árabe ou muçulmana conseguiu animá-los. Com a geração mais nova, eles conseguiram, pelo menos, criar um vínculo de trabalho. Eles contratam os jovens para ajudar na preparação de eventos e pagam. Nessa relação de biscate, o pessoal aparece, faz as coisas (tipo montar palcos etc.), mas não se liga no conteúdo dos eventos. Apenas trabalham em vão embora, assim que são pagos.

Panfletos da Commune Libre d'Aligre à disposição no dia da festa

A geração mais velha — a maioria deles residente no Foyer dos trabalhadores à rue Beccaria — forma um grupo muito unido e solitário. Eles trabalharam uns 35 ou 40 anos, enviando dinheiro para seus familiares que ficaram nos países de origem, Tunísia, Argélia, Marrocos e tal. Com o tempo, acabaram perdendo o vínculo com as gerações mais novas de sua própria família, inclusive filhos, a quem raramente viam. Na aposentadoria, tendo os direitos de residência reconhecidos na França, optaram por viver aqui, onde não são reconhecidos como franceses, mas pelo menos têm seus amigos, em situação similar.

Detalhe do jardim comunitário Aligresse

Todos os dias, eles se vestem com apuro, colocando terno, e vão para o mercado, para a praça ou os cafés das imediações, onde se encontram e conversam. Eles formam um grupo muito peculiar, que se destaca visualmente dos bobôs e mesmo dos antigos moradores do bairro. Cada um deles tem histórias de vida incríveis, que dariam para horas e horas de boa prosa. Mas o problema é que muitos falam o idioma precariamente, a maioria não é alfabetizada (não sabe escrever) em francês, limitando-se ao vocabulário do cotidiano. Sua conversa é mesmo em árabe.

Eu e Sandrine no Penty... conversa de botequim

No sábado, a festa prosseguiu. Um churrasco ao lado do jardim comunitário do bairro, abriu os eventos do dia. O jardim, o Aligresse, merece também uma explicação. Era uma área abandonada, com imóveis precários e já meio desabando, que a prefeitura pretendia renovar e passar à iniciativa privada. Os moradores se organizaram e conseguiram transformar uma parte da área em um conjunto habitacional popular, que aqui chamam de HLM, mas sofisticado, com apartamentos muito bem equipados e serviço básico de altíssima qualidade (nada a ver com os condomínios da época de Lacerda de que vem falando Rogerinho Daflon em sua excelente série de reportagens no Globo). Numa outra parte do terreno, os moradores conseguiram fazer um parquinho e o jardim comunitário, onde todos participam, plantando e cuidando.

O churrasco do sábado teve direito à fanfarra e muita animação. A banda formada só por mulheres tocou o rebu. Depois, outra banda, essa mista, assumiu a programação. Gostei muito dos arranjos que incluíam desde clássicos como Besame mucho a riffs de reggae bem dançantes. Me lembrou o trabalho que o pessoal dos tambores de Candombe fazem em Botafogo (saudades de Joana) Teve ainda atividades para crianças, exposições, ateliês de portas abertas na vizinhança e um jantar comunitário. A maioria dos participantes eram moradores antigos de classe média ou bobôs recém-chegados ao bairro.

Gosto dessa foto porque mostra o Penty na esquina, o prédio ao lado, que está sendo reformado e vai se tornar num empreendimento bobô, e a velhinha atravessando a rua, molhada pela passagem pelo caminhão lava-ruas da prefeitura

Entre esses eventos, aproveitei sempre para passar no Penty e fazer anotações. Acho que consegui cobrir todo o horário de funcionamento do café, anotando os tipos de clientes que variam segundo o horário e os dias. Tudo isso fotografado e anotado. Até fiz uma amizade com uma freguesa, chamada Sandrine, que me viu escrevendo no caderno de campo e ficou curiosa.

Augustin e uma amiga, cujo nome me escapa agora, no Penty

Ontem, no domingo, fiz minha visita habitual ao mercado. Reparei que os músicos começam a invadir a região. Do realejo ao trio de blues americano, passando pelo sanfoneiro solitário, que toca sempre a mesma canção (o que funciona como um aviso de sua presença nas imediações), há cada vez mais manifestações artísticas, à medida que o tempo se firma e a temperatura oscila agradavelmente entre 15 e 20 graus, sem chuva. Há também muita panfletagem sobre os temas mais variados, da luta contra a instalação de câmera de vigilância (ao contrário do Rio, onde os moradores clamam por elas), ao abaixo-assinado pedindo direito de voto para os estrangeiros que vivem e trabalham na França.

No Penty, aproveitei o domingo para tomar um chope com meu amigo Augustin Geoltrain, que me falou extensamente sobre Belleville, este sim um quartier que merece uma extensa pesquisa (e que vem sendo etnografado com competência pelo pessoal do Laboratório de Etnografia Metropolitana, do IFCS-UFRJ), tanto são os fenômenos sociais que se manifestam no lugar de uma ponta a outra. Foram horas de boa conversa com ele, que tem uma percepção e sensibilidade agudíssimas, além de um excelente bom humor. Agora que estou nos últimos 30 e poucos dias antes de meu regresso, quero me concentrar mais ainda nas leituras e no trabalho de campo no bairro. A bientôt.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Paris black e islâmica

Os fiéis fazendo a oração de sexta-feira, em frente à Mesquita Al Fateh: tapetes cobrem as ruas da região de Barbès e o pessoal tira os sapatos e se ajoelha para orar

Meu amigo Idriss Diabaté me levou hoje para um parcours commenté pela Paris black, como o pessoal daqui se refere ao bairro em torno das estações de metrô de Barbès e Chateau Rouge, próximo à Montmartre. Por sincronicidade, hoje fez um sol daqueles e a temperatura oscilou acima dos 25 graus. Me lembrei do camelódromo atrás da Central do Brasil, antes do incêndio, só que a presença africana e muçulmana é quase total. Rodamos pelas ruas do bairro, tomamos café num boteco de esquina, de onde observamos o movimento. Idriss estava retribuindo o passeio que fiz com ele no Rio de Janeiro, no ano passado, quando participou do festival de cinema negro, promovido por Zózimo Bubul.

No pequeno bar, enquanto falávamos sobre cinema, antropologia e jornalismo, um sujeito (acho que estava meio bêbado), começou a fazer um discurso sobre os colonizadores que pilharam a África e que, agora, querem se mostrar amigos dos negros. Era obviamente dirigido a mim e ao Idriss, mas continuamos nossa conversa à la egyptienne. Num jantar, outro dia, Idriss contou que, ao ligar para uma irmã para ter notícias, após a confusão toda em Costa do Marfim, ouviu a pessoa que passava o telefone identificá-lo como Idriss, le blanc. Apesar de ser preto retinto, o fato de morar na França e ter hábitos europeus, levou a seus parentes mais próximos a identificá-lo como branco.

Idriss (de chapeu) e Brice, que é do Benin, mas vive há muitos anos na região de Barbès, e foi assistente de Jean Rouch

Depois, retomamos nossa caminhada e acabamos almoçando em um pequeno restaurante senegalês, o Le Nioumre, situado em frente à Mesquita Al Fateh. Foi emocionante. Ao entrar um sujeito tocava a kora, uma linda harpa africana de poderosa sonoridade e 27 cordas (Idriss me disse que há uma lenda que determina que não se pode tocar a vigésima sétima corda, do contrário a pessoa morre). O músico também inventava a letra saudando as pessoas que entravam no restaurante e, ao ser informado que eu era brasileiro, fez toda uma prosa me dando as boas-vindas.

Em seguida, saudou Idriss, por seu sobrenome, Diabaté, que especifica uma linhagem de porta-vozes do povo griot. Aprendi ainda que Keita foi o rei e fundador da etnia, que está presente em Senegal, Mali, Costa do Marfim, Guiné, entre outros países. E, como sua função é narrar histórias, muitos griots são músicos, escritores, cineastas e tal. Idriss pediu um Yassa (frango com arroz branco num molho amarronzado, bastante picante). Eu fui de Maffé (peixe com umas sementes no lugar do arroz, e um molho picante de fazer baiano suar). Bebi uma espécie de suco de gengibre, igualmente picante, e litros e litros de água. Mas a comida é simplesmente maravilhosa e suculenta, além de generosamente servida.

Detalhe dos sapatos e tênis largados à beira da calçada, enquanto o pessoal se prepara para orar

Saímos do bar com a barriga cheia e bem na hora que começavam as orações da sexta-feira, em frente à mesquita. Os fiéis levam tapetes para a rua, que é fechada ao tráfego de carros e bicicletas, e fazem suas orações ao ritmo de um mantra cantado dentro da mesquita lotada e transmitido por alto-falantes ao lado de fora. Fiz algumas fotos, e um sujeito reclamou, afirmando que não era permitido fotografar, mas haviam dois sujeitos filmando, num esquema profissional. De modo que ignorei o sujeito e fiz mais algumas fotos, incentivado ainda pelo Idriss.

Depois fomos encontrar um antropólogo, amigo de Idriss, que trabalha com cinema etnográfico, tendo sido um dos principais assistentes de Jean Rouch. Trata-se de Brice, um sujeito bem simpático e morador do bairro. Fizemos com ele um novo parcours commenté. Ele nos levou numa loja de alta costura, que pertence ao movimento SAPE (sigla de societé des ambienceurs et des personnes elegantes), iniciado no antigo Zaire e que é se espalhou pela África. Os membros dessa sociedade são uma espécie de dandys e têm que se vestir muito bem, com roupas dos grandes costureiros, e dançar e cantar em festas e boates. O Papa Wemba é um sapeur.

Uma das instalações do Institu des Cultures d'Islam

Fomos ainda a um centro cultural chamado Institut des Cultures d’Islam, onde vimos uma exposição de um fotógrafo britânico, que fez várias imagens da mesquita que acabáramos de ver. Havia ainda umas instalações e outras obras dentro do título geral Tous Islamaniaques!, um trocadilho para lá de espirituoso. E foi isso. A bientôt!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Le Comptoir Générale

O bar lounge do Comptoir Générale, sofas, poltronas e cadeiras num ambiente com decoração meio africana

É impressionante como os franceses têm na alma uma vocação republicana. Em cada centro de bairro há organizações, associações, ONGs e sede de partidos políticos ou outros pontos de encontro, onde tramam manifestações, reivindicações, encontros de integração e coisa e tal. É mais impressionante ainda a participação de jovens e, mesmo, de um tipo de jovem, que se veste meio alternativamente, cabelos rastafári, com dreadlocks, piercings, tatuagens, defensores de uma vida alternativa em relação à globalização, ao consumo compulsivo, por uma alimentação mais saudável etc.

Detalhe da decoração kitsch e que dá um clima de brechó

Ou seja, me lembra um pouco os movimentos estudantis dos anos 60 e 70, quando se juntava à agenda de transformação política revolucionária, pleitos como amor livre, ecologia e coisa e tal. Talvez seja mesmo uma continuação, em que essas questões existenciais, antes relegadas a segundo plano em nome da revolução socialista, ganham um papel protagonista. E as lutas são focadas em questões locais e localizadas, em vez de grandes transformações globais.

Marta e Ruben me apresentaram ontem a um lugar muito interessante, no 10ème quartier, Trata-se do Comptoir Générale, uma espécie de centro cultural, sala de reuniões e exposições, com bar lounge. É um lugar caindo aos pedaços, mas com muito charme e com produtos de origem natural. Ontem, por exemplo, estava rolando uma reunião do Partido Verde, ou coisa que o valha. Havia ainda uma exposição sobre bruxaria e, no salão do bar, que parecia um brechó, várias poltronas, cadeiras velhas sobre um chão de ladrilhos desgastados, onde as pessoas se instalavam confortavelmente com seus drinques e petiscos.

No mesmo lugar, mas em outra sala, uma exposição sobre bruxaria

Antes, havia passado em outro quartier, que passa por uma revitalização acelerada, com renovação de prédios e gentrification. Era um lugar meio barra pesada, com tráfico de drogas e uma certa marginalidade para os padrões parisienses. Hoje, está mais bobotizado, com pessoas andando de bicicleta e participando de eventos comunitários. Ontem, por exemplo, foi uma série de shows com bandas locais (muitos rastas), enquanto na pracinha (Saint-Marthe) havia troca de CDs e comida caseira.

Retrato deste pesquisador entre os nativos feito por Marta. No fundo, mais da exposição sobre bruxaria

Acho que, para o parisiense, é uma forma de pertencer ao bairro, à cidade, enfim, mas, ao mesmo tempo, de se posicionar globalmente contra a globalização. Há uma energia interessante nessa integração, como seria de se esperar. As pessoas flertam, se conhecem, namoram, fazem soirées, jantares, bares. A boemia se mescla a um tipo especial e original de mobilização. Enquanto isso, os partidos tradicionais, como o PS, continuam panfletando nas bocas das estações de metrô e fazendo manifestações com o caixão do FMI.

O bairro do 10ème num sábado de sol: as pessoas se sentam à beira do canal Saint-Mathe, et voilà!

Bem, para encerrar, hoje, domingão de sol, o mercado d’Aligre bombou. Tomei meu café da manhã no Penty, depois de ter feito novas fotografias do mercado. Essa semana vou pretendo dividir meu tempo de pesquisa com o Le Penty e a Commune Libre d’Aligre. Vamos ver. À bientôt!

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Somos todos canibais

Azulejaria branca em carme viva, de Adriana Varejão, 2002

O antropólogo Claude Lévi-Strauss escreveu em 1993, num artigo publicado no jornal La Repubblica, que “somos todos canibais”, e acrescentou: “A maneira mais simples de nos conhecermos através do outro é devorando-o”. Tabu em nossa sociedade, o canibalismo, como o incesto, é tema que assombra e simultaneamente fascina o imaginário ocidental, justamente por sua relação íntima com as noções de identidade e alteridade, pois o canibal é o outro absoluto. Não é à toa que é objeto de estudo precioso em disciplinas como antropologia, etnologia, história, psicologia, medicina, sociologia e filosofia. Mas é no campo das artes que esse fenômeno humano extremo é expresso com vigor selvagem.

Exemplo disso é a exposição que a Maison Rouge, da Fondation Antoine de Galbet, em Paris, apresenta até 15 de maio. A frase de Lévi-Strauss, reproduzida em um painel logo à entrada, é como uma enorme epígrafe, preparando o espírito do visitante para o que virá. Mas é a aquarela surrealista de Oda Jaune que abre a exposição de maneira eloquente. No quadro, uma mulher devora outra, ao mesmo tempo em que é devorada, e a imagem da mulher devorada se torna espelho da mulher que come, sugerindo, nessa ambiguidade, a questão: quem é, enfim, o canibal?

Fat Man: The Matrix of Amnesia, de John Isaacs, 1998

Afeito a abalar as noções etnocêntricas do Ocidente, Lévi-Strauss exorciza a noção de canibalismo, indagando qual seria a diferença real entre o ato de devorar outro ser humano e certas práticas de nossa sociedade, como a introdução voluntária de partes alheias no próprio corpo por injeção, enxerto ou transplante, ou seja, a incorporação biológica como uma maneira diversa de se apropriar do outro. É com esse espírito que Jeanette Zwingenberger, curadora da exposição, selecionou os trabalhos, numa idéia de canibalismo que contrasta, e se pretende mais radical, do que a noção positiva da antropofagia de Oswald de Andrade, expressa em seu manifesto de 1928.

— (Lévi-Strauss) se pergunta como é a unidade do corpo atualmente em nossas sociedades e a ligação de parentesco entre nós — afirma Jeanette no vídeo da Maison Rouge que apresenta a exposição.

Vanitas: robe de chair pour albinos anorexique, 1987. Viande de boeuf crue sur mannequin: vestido de carne de Jana Sterbak

E, nesse sentido, a curadora indiretamente reforça a distinção entre canibalismo e antropofagia. O primeiro está associado à noção de comer carne humana para saciar a fome, num ato aleatório e individual; ao passo que o segundo se refere à ideia de ritual coletivo, em que a deglutição evoca simbolismos importantes para os ritos do grupo social. Enquanto Oswald recupera esta última forma para falar de uma cultura nativa brasileira que se abre para o mundo pelo rito antropofágico, a exposição trabalha mais com a primeira noção.

Somos todos canibais se desdobra em várias seções. Entre elas, a figura do estrangeiro e a idéia do não-humano; a relação com o outro e a noção de identidade coletiva e individual, num jogo em que a metamorfose através da deglutição tem um alto poder simbólico; o erotismo e o amor; a violência e a crueldade, sobretudo através do sacrifício; e as noções de canibalismo que perpassam as narrativas infantis, mediantes lendas e contos, evocando inclusive uma preocupação cara à psicanálise: o sadismo das crianças. Nesse sentido, merece destaque a obra de Jerôme Zonder, que nos faz mergulhar no mundo da infância e sua ambiguidade entre inocência e crueldade. No imenso painel, duas meninas, armadas de faca, brincam com um adulto amarrado a uma cadeira, com o rosto coberto por um saco.

Da série Inri, de Bettina Rheims

A brasileira Adriana Varejão trabalha com ladrilhos e azulejos, uma referência à presença colonial portuguesa no Brasil, em sua Azulejaria Branca em Carne Viva, de 2002. A parede límpida, no entanto, se rompe em certo ponto, deformada por entranhas sangrentas, que mancham a alvura dos azulejos, ao ganharem volume e densidade, simbolizando a carne dos nativos dizimados pelo colonizador. Eis novamente a ambiguidade: quem foi o canibal? O português ou o tupinambá? Ao mesmo tempo, as entranhas que mancham os azulejos de Adriana são uma metáfora do nosso próprio interior, “esse tabu, essa face escondida de nós mesmo”, nas palavras de Jeanette.

A fotógrafa Bettina Rheims, celebrizada por seus modelos incomuns, apresenta uma inquietante fotografia que representa a virgem, tirada de sua série chamada Inri. Do seio desnudo, em vez de leite, uma gota de sangue, simbolizando o sacrifício de Cristo. Cindy Sherman também apresenta uma mulher, que segura o seio, como se o oferecesse como fonte de alimento. A foto sugere que o primeiro “canibal” é a criança ainda no ventre. Seu primeiro anseio por alimento tem como foco o leite da mãe.

Um dos salões da Maison, com o quadro de Vik Muniz no centro, abrindo a seção Saturno devora seus filhos

Ainda no campo da fotografia, porém documental, a exposição também apresenta tiragens antigas, feitas entre 1893 e 1895, durante expedição científica da Royal Academy of London. Nelas, aparecem guerreiros das Ilhas Fiji, retornando da caça, com seres humanos. Na mesma seção, portraits de canibais. As fotos são perturbadoras.

A exposição tem ainda uma seção que homenageia o pintor e gravador Francisco de Goya (1746-1828), com gravuras de sua série Caprichos e a pintura que representa Saturno devorando os filhos, baseada na mitologia grega, em que Saturno devora os filhos para evitar que se cumpra a profecia, segundo a qual um de seus herdeiros o destronará. Não por coincidência a seção foi batizada de Goya e seus herdeiros. Entre eles, o brasileiro Vik Muniz, presente com uma imensa fotografia também representando Saturno no ato de devorar um dos filhos, feita a partir de lixo e entulho recolhido por catadores do Lixão de Gramacho, o maior aterro sanitário do mundo.

Cindy Sherman, sem título, 1990

Somos todos canibais é um ensaio extraordinariamente variado. O visitante mais sensível não sairá da exposição da mesma forma que entrou. O forte simbolismo das obras selecionadas em torno da ideia de canibalismo se desdobra em inúmeras possibilidades, todas elas demasiadamente humanas.

Serviço:
Exposição Tous cannibales (Todos canibais)
De 12 de fevereiro a 15 de maio, de quarta-feira a domingo, das 11h às 19h
(na quinta-feira, até 21h)
Ingresso: 7 euros (inteira) 5 euros (tarifa reduzida, para jovens de 13 a 17 anos e maiores de 65 anos)
La Maison Rouge
Fondation Antoine de Galbert
10 bd de la bastille – 75012 Paris
Paris www.lamaisonrouge.org
info@lamaisonrouge.org
t : +33 (0)1 40 01 08 81
f : +33 (0)1 40 01 08 83

Lista dos artistas que participam da exposição (em ordem alfabética pelo sobrenome):

Makoto Aida, Pilar Albarracin, Gilles Barbier, Michaël Borremans, Norbert Bisky, Patty Chang, Jake & Dinos Chapman, Will Cotton, Lucas Cranach, Wim Delvoye, Erik Dietman, Marcel Dzama, James Ensor, Renato Garza Cervera, Camil lede Galbert, Francisco de Goya, J. J. Grandville, Sandra Vasquez de la Horra, Pieter Hugo, Melissa Ichiuji, John Isaacs, Oda Jaune, Michel Journiac, Fernand Khnopff, Frédérique Loutz, Saverio Lucariello, Alberto Martini, Suehiro Maruo, Philippe Mayaux, Patrizio Di Massimo, Théo Mercier, Yasumasa Morimura, Vik Muniz, Wangechi Mutu, Álvaro Oyarzún, Chantalpetit, Giov. Battista Podesta, Odilon Redon, Félicien Rops, Bettina Rheims, Toshio Saeki, Cindy Sherman, Dana Schutz, Jana Sterbak, Adriana Varejâo, Joel-Peter Witkin, Ralf Ziervogel, Jérôme Zonder.

quinta-feira, 24 de março de 2011

A narrativa das ruas


Quando se olha os bairros e as ruas com olhos de estrangeiro, salta aos olhos a sua narrativa. Não me refiro à retórica de arquitetos e urbanistas; do Poder público, das agências turísticas e outras instituições da cidade; mas aos sonhos das pessoas, que emergem no uso e compartilhamento cotidiano dos espaços; na intimidade que se desenrola no lar e na vizinhança. A rua nos conta um dedo prosa ao dobrarmos a esquina, ao repararmos na forma como se distribuem, por exemplo, os equipamentos públicos, dos hidrantes às praças.

O comércio de rua é sempre um sinal eloqüente de vitalidade. Quanto maior for a sua presença, mais visível será a vida ali: A forma e o display das mercadorias, os gritos dos comerciantes, fazendo o pregão de suas mercadorias, o entre e sai de fregueses e clientes, o olhar compartilhado e informal sobre a rua, vigiando sua normalidade trivial. As cores, os aromas, os desenhos dos prédios: haverá harmonia ou será um discurso caótico e confuso?

Caminhando por Paris nesta temporada, me dou conta de que estou lendo um novo livro. Um livro em outro idioma, que vou aprendendo à medida que viro suas páginas. Aos poucos, o enredo vai fazendo sentido. Percebo sua vitalidade, mas também as pressões por mudanças que se impõem sobre ela e que são comuns a todas as grandes metrópoles do mundo, que competem entre si pelo prestígio, pelos turistas e por altos negócios.

Há um discurso urbanístico comum, uma retórica da modernização das cidades, da racionalização dos espaços. Um discurso imobiliário que se adéqua muito bem à globalização (já ouvi a expressão urbanismo neoliberal). Desde Barcelona, por exemplo, todas as grandes metrópoles, inclusive o Rio, querem renovar seus portos, transformando os velhos galpões em museus de escritórios de arquitetura renomados e áreas de lazer e de condomínios de luxo.



Enquanto Paris protege seu patrimônio cultural e urbanístico, cidades como o Rio botam tudo abaixo em nome da modernidade. É compreensível, pois as pressões são vigorosas. Mesmo na capital francesa são perceptíveis mudanças que tornaram bairros irreconhecíveis. E há quem sustente esses movimentos com fervor quase religioso, sobretudo arquitetos. Ontem li um artigo no New York Times em que o autor, um arquiteto, recuperava a figura de Robert Moses, como um grande empreendedor e visionário de Manhattan. Segundo ele, Moses tem sido injustiçado ao ser lembrado como o homem que destruiu boa parte de Nova York. Segundo o autor, esses que o atacam são pseudos defensores do patrimônio histórico e da memória urbanística da cidade. Ora, vá perguntar aos moradores que foram removidos, expulsos o que eles pensam de Moses.



Enfim, o problema é exatamente esse. A população diretamente afetada nunca tem voz nas decisões dessa natureza. Muitos arquitetos são extremamente arrogantes quando o assunto é a cidade, como se só eles tivessem autoridade para falar sobre o quê construir e como. Na maioria das vezes, infelizmente, eles mal lêem a narrativa das esquinas, os enredos da intimidade à qual se tem acesso pelas escadas dos prédios antigo, pelos halls e pátios internos. Aos labirintos que as ruas de certos bairros formam, lembrando as cidades medievais e por aí vai.

terça-feira, 15 de março de 2011

Mobilização pela moradia


O problema da gentrification dos bairros tem, obviamente, uma estreita ligação com a questão da moradia. Na França, com a crise financeira, o governo está cortando uma série de benefícios sociais concernentes o apoio à habitação popular e proteção dos inquilinos de baixa renda. Uma lei aqui, por exemplo, proíbe que as pessoas sejam despejadas no inverno. Mas tudo isso começa a mudar, ao mesmo tempo, em que o mercado imobiliário, mediante um processo agudo de especulação, está com os preços, tanto para aluguel como compra e venda, na estrastosfera. Um estúdio micro, de dez metros quadrados (menor que um quitinete) pode custat até mil euro por mês em Paris.

Essa situação disparatada está gerando uma série de protestos e mobilizações por parte dos movimentos sociais. Alguns grupos, como o Jeudi Noir, por exemplo, estão inovando nos protestos, atuando com ações espetaculares, como o Greenpeace, que chamam a atenção da mídia. Mas, ao mesmo tempo, seus militantes estudam profundamente a situação, sob vários pontos de vista, para argumentar com base nos debates publicos, que as ações geram. No sábado passado acompanhei um desses protestos e escrevi uma matéria para o Globo, que entrou editada para englobar um contexto mais amplo de protestos sociais na Europa por causa da crise. Aba



Não toque no meu vizinho
Paulo Thiago de Mello

Centenas de manifestantes ocuparam ontem a praça da République, em Paris, para protestar contra o fim do período de proteção ao inquilino inadimplente. Uma lei impede qualquer despejo, inclusive de áreas invadidas — os chamados squatts —, durante o inverno. Essa proteção acaba na próxima terça-feira, quando oficialmente começa a primavera na França. Os manifestantes, que saíram em marcha com bandeiras, banda, batuques e palavras de ordem, também celebraram a decisão da Justiça de retirar de uma lei proposta pelo deputado de Rhône Dominique Perben o artigo que permitia o despejo em 24 horas de inquilinos inadimplentes.

Perben defende seu projeto, argumentando que a lei moderniza o setor e representa um estímulo à negociação entre locatários e proprietários, na sua visão, a melhor solução para o problema da moradia. A instância mais alta da Justiça francesa, no entanto, considerou que o despejo sumário de inquilinos viola os direitos civis dos locatários, que têm direito a um processo legal, antes de serem sumariamente despejado por inadimplência.



Os manifestantes protestavam ainda contra o aumento dos preços da moradia na França e o fim de vários benefícios que foram eliminados na esteira da crise financeira e diante da necessidade de o governo reduzir o déficit fiscal. Em palavras de ordem e panfletos, os manifestantes acusavam o governo de privilegiar a especulação imobiliária, em vez de garantir habitação barata para todos. Eles também pediam o fim dos despejos — Touche pas à mon voisin! (Não toque no meu vizinho!) — e a regulação dos preços dos alugueis, que sobem vertiginosamente, especialmente em Paris. A ideia defendida pelos grupos, que abarcam várias linhas políticas de esquerda, é que a habitação é um direito a ser garantido pelo Estado.

Segundo a Federação do Direito à Moradia, entre 2000 e 2010, os preços dos aluguéis na França aumentaram em média 90% e o dos imóveis, para compra e venda, 107%. O Instituto Nacional de Estatísticas e de Estudos Econômicos (Insee) confirma que os preços da habitação no país subiram vertiginosamente nos últimos dez anos. O secretário de Habitação do governo Sarkozy, Benoist Apparou, que havia dado um prazo de seis meses para que os locadores apresentassem uma proposta de teto de alugueis por área de Paris, anunciou que apresentará uma lei que cria uma taxação sobre alugueis de mais de 40 euros por metro quadrado em apartamentos com até 13 metros quadrados.

A medida foi rechaçada pelas organizações de locatários e movimentos sociais. Segundo o site do grupo Jeudi Noir, uma espécie de Greenpeace da habitação, que ocupa agências imobiliárias em atos espetaculares de protesto, a medida atinge apenas um porção ínfima de apartamentos e libera os alugueis para os imóveis com mais de 13 metros quadrados. O grupo defende a regulamentação do mercado, com o Estado estabelecendo tetos para alugueis, segundo região. Proposta que tem a oposição da União Nacional de Proprietários de Imóveis, que pressiona pela total desregulamentação do mercado. Enquanto isso, um minúsculo studio de dez metros quadrados, dependendo da região de Paris, pode ter um aluguel de mil euros por mês.

sábado, 5 de março de 2011

Carnaval em Paris


Um bom exemplo de organização comunitária nos bairros de Paris. O governo Sarkozy conseguiu aprovar no Conselho de Paris, um projeto de instação de mil câmeras de vigilância na cidade. Há muitos cidadãos que são contra esse tipo de vigilancia, pois o consideram uma invasão indevida à privacidade das pessoas. Então várias comunidades organizadas estão organizando um carnaval para protestar. Será amanhã, dia 6, e no próximo domingo, dia 13. Cada associação e ONGs de bairros marcam seus pontos de encontro nos bairros e vão encorpando a procissão de foliões, que estarão fantasiados com máscaras. Vou aproveitar para fotografar a preparação do pessoal e a marcha propriamente dita. Era esse grau de mobilização que eu gostaria de ver entre os moradores de Botafogo, pois sinto que todos sofrem e têm opiniões bem formadas sobre as interferências no bairro e nossa Associaçõe é bastante atuante, mas ainda podemos melhorar a participação das pessoas. Coloco uma foto do Marché d'Aligre, o bairro que estou estudando para comparar com Botafogo.