sábado, 14 de fevereiro de 2009

Arqueologia de botequim


O Armazém Senado, botica de esquina no Centro antigo do Rio (todas as fotos desse post são de Custódio Coimbra)

Queridos amigos, aproveito este Sábado 14, cujo significado especial vocês podem ver num dos posts abaixo deste Pendura Essa, para dizer que amanhã a Revista do Globo publica uma reportagem deste pobre e desvalido escriba e do fotógrafo Custódio Coimbra, uma fera dos cliques urbanos, sobre bares centenários. Matéria que vou reproduzir aqui exclusivamente para os meus seis ou sete leitores cativos. A idéia original partiu do Custódio, que há meses vinha insistindo em fazer uma parceria comigo de texto e foto sobre esse assunto, nós que fomos pioneiros nas edições do Rio Botequim. Ele ia propor publicar na Editoria Rio do jornal, mas o convenci de que na revista, não só a matéria seria mais valorizada, como não correria o risco de ser substituída em cima da hora por um assunto qualquer considerado mais quente.

Conversamos então com a editora da revista, Isabel De Luca, que topou de imediato. Propusemos a ela evitar os bares centenários já consagrados, como o maravilhoso Bar Brasil, o Bar Luiz, Aurora e coisa e tal. A idéia era mesmo cavucar pelos velhos bairros do Rio e Niterói, em busca de casas menos conhecidas do público, digamos, leigo. O problema é que, nesse momento, me vi às voltas com a defesa de minha tese de doutorado e tive que ir adiando a matéria, incialmente prevista para novembro do ano passado. O Custódio, no pique de sempre, foi tocando as fotos de me mostrando, para seduzir.

Bem, enfim, passada a etapa acadêmica, pude voltar ao assunto para meu próprio deleite. E, vendo as fotos de Custódio, percebi de cara que essa reportagem merecia um tratamento diferenciado dos textos mais convencionais sobre botequim e boemia, que tendem a louvar o exotismo dos estabelecimentos e descrever os serviços. Percebi que o que ligava todos essas casas era o comércio de rua e o fato inexorável de que, sem herdeiros, esses bares centenários (assim como outros tipos de comércio, como barbeiros, açougueiros, jornaleiros etc.) vão tomando o rumo do fim. Esse acabou sendo o fio condutor do texto, o que deu à reportagem um cunho um tanto sociológico, mas, espero, sem academicismo exagerado.

Bem, como sempre, deixo ao julgamento de vocês. Abaixo reproduzo o texto que, amanhã, estará nas bancas.

Revista O Globo, nº 238, 15 de fevereiro de 2009

Os centenários — A luta de bares que existem desde os tempos do Rio Antigo para sobreviver aos novos hábitos da cidade

Paulo Thiago de Mello


Bar do Jóia, com a turma da confraria Viúvas do Gaiato desfrutando a feijoada de dona Neide

Em dezembro do ano passado, fregueses de um pé-sujo centenário, escondido num sobrado de esquina à Rua da Conceição, no Centro do Rio, deram um abraço simbólico ao bar. Era mais um encontro da confraria Viúvas do Gaiato, que reúne fregueses e amigos do Bar do Jóia. Alem da cerveja gelada, do saboroso tempero da feijoada de dona Neide, da conversa fiada e do clima de gozação que marcam cada encontro do grupo, pairava sobre os comensais um sentido de urgência: é preciso salver o velho boteco, que anda assombrado pelo fantasma do fim.

A poucos dias de se tornar centenário, o Bar do Jóia (oficialmente Café Rio Paiva) compartilha com inúmeros e pouco conhecidos botequins do início do século passado o dilema da sobrevivência, confrontado não só pela concorrência com fastfoods, restaurantes de comida a quilo e pastelarias, mas sobretudo pela ausência de herdeiros com disposição para tocar o negócio.

O caso do Bar do Jóia é exemplar. Desde que o português Joaquim Nunes da Silva, o seu Jóia, faleceu, em abril de 2007, aos 84 anos, sua viúva, dona Alaíde, tem tido dificuldade para administrar a pesada rotina do bar:

— Estou muito cansada — admite.

E o estabelecimento já teria fechado, não fosse a insistência da freguesia, que luta para que o Bar do Jóia permaneça aberto pelo menos até seu centenário, que será comemorado em uma série de eventos da confraria, a partir de 12 de março. Em seus encontros, o grupo louva a memória de seu Jóia, famoso pelo humor instável e uma rudeza que renderam inúmeras histórias e anedotas. Ao serem recontadas, essas narrativas (muitas delas relatadas no blog da confraria) mantêm vivas a presença do patriarca.

O grupo também discute possíveis soluções para o dilema, insistindo, por exemplo, para que um dos membros da confraria, um dentista com recursos, compre o bar. Mas, apesar da gravidade da situação, as marcas principais do boteco são a jocosidade e o bom humor. A própria idéia de abraçar o bar é uma gozação póstuma com seu Jóia, que detestava ser tocado.

O Bar do Jóia não esconde a idade. Pé-direito alto, portais em arco, pôsteres de mulheres dos anos 60 nuas, geladeiras de madeira, entre outros elementos típicos, fazem do boteco um cenário do Rio Antigo. Mas é o humor do dono, mesmo após sua morte, que marca o lugar. Para o escritor e compositor Moacyr Luz, seu Jóia é um tipo de comerciante em extinção:

— Pra mim, feito mico-leão-dourado, estão acabando os donos de botequins que só agem na intuição, os que nasceram pra viver atrás do balcão sem puxar saco do cliente, nem inventar marketing pra aparecer na mídia. Dono de boteco que sabe a diferença de São Jorge pra São Benedito e não concorda que jiló seja fruto ou fruta, aquele que detesta cartão de crédito, que não suporta emprestar garrafa, que jamais oferece o telefone pra uso pessoal e, de preferência, que reza para que não apareçam mais fregueses além dos chatos de sempre.


O Restaurante 28 com o velho espelho e os ganchos para pendurar chapéus e paletós

O problema da sucessão em empresas familiares se tornou relativamente, sobretudo nos pequenos comércios de rua. As gerações mais novas se formam em outras profissões, consideradas mais nobres, e perdem o interesse pelo negócio. Assim, ironicamente, o boteco que os sustentou acaba fechando ou cai em mãos de novos proprietários, que invariavelmente transformam o lugar. É esse o dilema dos irmãos Amândio e Jacinto Salgado, do Restaurante 28, localizado não muito distante do Bar do Jóia, à Rua Barão de São Félix:

— Futuramente isso vai acabar — prevê Amândio, de 71 anos. — Os filhos não querem saber do negócio. Então, só vai durar enquanto estivermos aqui.

No comando da casa desde 1960, quando chegou de Portugal convidado por parentes, seu Amândio vive no segundo andar do sobrado, como era comum no comércio de rua da cidade até meados do século passado. No fundo do bar, numa espécie de quintal, vive uma das empregadas com sua filha. Tudo isso reforça a atmosfera familiar do lugar.

O amplo salão do Restaurante 28 — cujo nome oficial é Restaurante e Café Pastoria — ainda tem antigos ventiladores nas laterais da parede e ganchos para que o cliente pendure o chapéu e o paletó. Na grande cozinha, duas senhoras dividem com a cozinheira Antonia da Costa, de 78 anos, a tarefa de preparar especialidades como o cabrito, elogiado na última edição do Rio Botequim, o leitão à pururuca e o tradicional cozido, com atendimento simpático da garçonete Claudia Machado. Coisa fina. O Restaurante 28 lembra o saudoso Penafiel do Saara, fechado no ano passado, pouco antes de completar 90 anos. Trata-se de uma memória gastronômica que vai, aos poucos, desaparecendo.

Na Ponta D'Areia, em Niterói, o pequeno Decolores, prestes a completar 100 anos, não enfrenta o problema da falta de herdeiros para levar adiante o bar. Comandado pelos irmãos Marcelo e Ângela Alves, ambos com menos de 50 anos, a casa sofre mesmo é com o rigor das regras de trânsito da estreita rua, situada de frente para a Baía de Guanabara. a proibição de estacionamento fez cair a clientela do bar.

—Estamos mal. Desde que essa operação exagerada dos guardas de trânsito começou, há cerca de dois anos, o movimento caiu entre 70% e 80% — diz Marcelo Alves. — A notícia de que não há lugar para estacionar se espalha e as pessoas deixam de vir. É triste ver que, em pouco tempo, esses agentes de trânsito conseguiram desfazer o trabalho de uma vida inteira.

E Marcelo pode realmente falar em vida inteira, já que trabalha no Decolores desde os 9 anos, quando começou ajudando o tio Fernando Fernandes. Ele assumiu a casa após o falecimento de Fernandes, 1998. Mesmo assim, o pé-sujo continua sendo ponto de encontro de seresteiros, às terças e quinta-feiras, e dos amantes de frutos do mar, especialmente as famosas sardinhas fritas, servidas abertas, e dos pratos tradicionais de bacalhau, em especial a versão à portuguesa, com batatas coradas, azeitonas pretas, ovos cozidos, cebola e pimentão.


Seu Antonio Ferreira, de 76 anos, um dos fregueses mais antigos do Decolores, tem uma memória prodigiosa

Seu Antonio Ferreira, de 76 anos, é um dos fregueses mais antigos do Decolores. Ele conheceu o primeiro dono da casa, Carlos Vieira de Castro, quando o bar se chamava Café Vila do Conde. Àquela época, o bairro da Ponta D'Areia era uma colônia portuguesa, o que valeu ao lugar o apelido de Portugal Pequeno. Hoje, a colônia se dispersou e o velho bairro passou a abrigar estaleiros como o Mauá Jurong, que modificaram sua morfologia social, transformando-o em área industrial.

Com ou sem estacionamento, é um excelente programa ir ao Decolores e sentar-se à beira da Baía de Guanabara, diante de um pequeno cais com várias embarcações pesqueiras e de plataformas de petróleo sendo construídas, com a Ponte Rio-Niterói ao fundo. E, nesse cenário inusitado, comer um farto bacalhau (o prato da casa serve três pessoas) ouvindo velhos boleros na voz de seresteiros, um deles, o garçom Joel Santana, quando está de bom humor.

O Armazém Senado, localizado à Rua do Senado, também escapou à sina de infortúnio na sucessão familiar. Com 101 anos de idade, o estabelecimento é administrado por Antônio Magalhães Pires, de 78 anos, e seus dois filhos, Henrique e Fernando. A casa mantém um dupla freguesia, os moradores da vizinhança, que recorrem ao Senado para consumir itens de armazém, como artigos de limpeza, produtos vendidos a granel, secos e molhados diversos e até camisas e sandálias Havaianas. E na hora do almoço e do happy hour chegam os fregueses do bar, em busca dos petiscos, da cerveja, da boa carta de cachaça e de conversa para jogar fora. Os velhos garrafões de vinho deram lugar a versões finas, do Chile e da Argentina, além de marcas nacionais, como as da Casa Valduga. Graças a um acordo de redução da margem de lucro, os vinhos são vendidos a preços incrivelmente baixos. Por isso, ninguém mais se espanta ao ver sobre o balcão do Senado garrafas de cachaça, cerveja e espumantes, que saem por menos de R$ 30.


O Armazém Senado, com seu Antonio sentado numa cadeira ao fundo: velha botica carioca

Boteco de esquina, Armazém Senado é uma grande botica e, como tal, um exemplo da origem do termo botequim, que nos dicionários aparece como uma redução do diminutivo botiquinha. O lugar onde os homens arrematavam as compras da semana, e aproveitavam para beber vinho e beliscar um salaminho, enquanto as "patroas" faziam a feira. No Senado, essa prática, com poucas mudanças, como a adesão da presença feminina, ainda se repete.

Esta é também uma das características de outro boteco centenário: o Paladino, na esquina das ruas Uruguaiana e Visconde de Inhaúma, ou Rua Larga, como preferem os tradicionalistas. Armazém de produtos finos e importados, a casa se estende internamente em mais dois ambientes, onde funciona o bar propriamente dito. Sua especialidades são as omeletes, que saem em versões requintadas, e os sanduíches suculentos, além do chope claro e escuro de qualidade.


As omeletes do Paladino são um prato requintado, crocantes por fora e moles por dentro

Com seus cafés, botequins, tascas e casas de pasto, o Centro do Rio viveu no início do século XX a sua belle époque, num momento em que a capital federal se transformava em metrópole e influenciava culturalmente o resto do país. Passados 100 anos, como não poderia deixar de ser, a cidade mudou completamente, para o bem e para o mal. O comércio de rua perdeu prestígio para os shoppings; ofícios desapareceram, e, com eles, a memória de um certo modo de viver na cidade.

Esse processo de transformação é inevitável e faz parte do transcurso natural da vida urbana. Os hábitos vão mudando à medida que novas gerações passam a consumir a cidade. Como dizia o jornalista e sociólogo Robert Ezra Park, um dos pais da sociologia urbana americana, uma cidade é muito mais do que o cojunto de ruas e bairros que a configuram; ela é sobretudo composta dos sonhos, desejos e usos que dela fazem as pessoas que as habitam. Mas a resistência também faz parte do processo, como mostra a mobilização da confraria do Bar do Jóia, e, em alguns casos, as histórias do passado conseguem comover as novas gerações, que voltam a valorizar costumes, do contrário fadados à extinção.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Bares centenários

Amigos, peço perdão pela ausência nestas bandas. Sucede que estou envolvido numa reportagem sobre bares centenários para a Revista do Globo, que deverá sair no próximo dia 15. Eu e meu amigo fotógrafo Custódio Coimbra estamos percorrendo algumas casas que têm mais de 100 anos ou estão prestes a se tornarem centenárias (alguns deles já citados aqui). Algumas delas correndo o risco de fehcar as postas. Esse assunto exige concentração e tempo, de modo que não estou conseguindo atualizar o Pendura Essa com a freqüência justa. Mas, em breve trarei novidades. Abraços.


Aqui, uma foto singela de miha autoria do Decolores, que estará na matéria fotografado pela lentes do Custódio

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Botafogo, o subúrbio da zona sul


Os músicos da roda de samba do Salvação, todos os domingos a partir das 17h

Amigos, sou morador da parte velha de Botafogo, aquele pedaço entre as ruas General Polidoro, Passagem e Álvaro Ramos, onde existiu o grande Barbas, do Nelsinho Rodrigues Filho. É uma parte antiga do bairro, que começa a se transformar à medida que novos prédios vão substituindo os velhos sobrados ou os edifícios antigos de dois ou três andares, sem elevador. Mas, por enquanto, o bairro continua com seu comércio de rua, crianças soltando pipa e jogando bola e as calçadas cheias de vida.


No Sorriso da Morena, os músicos se preparam para levar uma toada de MPB

Com muitos bares, cinemas e teatros, Botafogo deixou de ser mero bairro de passagem. Mas, uma coisa me chama a atenção: a variedade de botecos. Desde casas como a Adega da Velha, com sua culinária nordestina, ou melhor cearense, sob o comando do Chico Rufino, até o velho pé-sujo Sanssaruê, que reabriu após a morte do dono, seu José de Souza Coelho, português de boa cepa. Aliás, depois que o Leo Feijó abriu a Drinkeria Maldita, aqueles botequins da Voluntários da Pátria, do outro lado da rua, ganharam uma freguesia inesperada: os universitários que preferem a cerveja e os petiscos mais baratos dos botecos.


A animada roda de samba do Belmiro ocorre uma vez por mês

Tenho gostado muito do clima descontraído do Sorriso da Morena, que tem uma comida caseira honesta, embora não seja nada de especial. Em compensação oferece um variado cardápio musical, com rodas de chorinho, samba e MPB a partir de terça-feira (mas é bom ligar antes de ir). O boteco fica em frente à praça Mauro Duarte (o falecido sambista, parceiro de Walter Alfaiate, ambos moradores do bairro). Na praça iam erguer um edifício, mas os moradores se uniram e conseguiram manter o espaço público, graças a um projeto do Eliomar.


O Sorriso da Morena à noite: está começando a lotar

Já o Belmiro tem uma roda mensal que reúne amadores e profissionais, com o microfone aberto para quem quiser se aventurar no gogó. Entre os músicos, meu amigo Aluizio Maranhão. Como o Sorriso, o Belmiro é um boteco de esquina e isso já dá uma atmosfera especial à casa. Pena que o atendimento tenha lá suas falhas e uma certa malandragem, como cobrar 10% de quem bebe em pé no balcão.


O chope do Belmiro é razoável, mas cuidado com os 10 por cento no balcão

O Boteco Salvação tem uma roda de samba aos domingos à tarde que é muito legal, além de oferecer cervejas caseiras, como vários tipos de Bamberg e Colorado, entre outras. O clima dos domingos é muito legal, reunindo várias gerações de boêmios e até os gringos (e recém-separados) que vivem no Albergue ao lado. Como no Bip, o samba tem hora para acabar, segundo um acordo fechado entre o bar e a vizinhança.


Os tambores de Candombê dos Tocadores da Lua, tradição em Botafogo

Enfim, vale a pensa andar pelo bairro, aproveitar seus blocos de carnaval, como o Barbas, com seu banho de brucutu, o Empolga, ou os Tocadores da Lua, levando os tambores uruguaios do Candombê, com uma pequena banda de sopros. Ou então simplesmente escolher um entre as centenas de botecos e deixar o tempo escorrer.


Uma bamberg estupidamente gelada, no Salvação: o primeiro gole é inesquecível

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Jobi, boteco do coração


O painel do Nilton Bravo e ambiente exíguo, elementos que reforçam o aconchego do Jobi

Amigos, o Leblon nem sempre foi o bairro burguês dramatizado nas novelas do Manoel Carlos. Nos anos 50, 60 e início dos 70 era um bairro de classe média baixa, com várias favelas, como a Praia do Pinto, que integravam a ecologia do bairro, numa época que o medo da violência era mais provocado pelo Estado militar do que pela delinqüência e a bandidagem. Eu sei, pois vivi minha infância ali, de 1965 a 1972, dos 5 aos 12 anos. Minha mãe trabalhava como balconista numa joalheria e a maioria dos nossos vizinhos também dava duro para sobreviver no Brasil do "Milagre". A partir dos anos 70, período do império de Sergio Dourado, as grandes imobiliárias começaram a lotear o bairro e as ruas bucólicas do Leblon passaram por um processo chamado de gentrification no jargão sociológico, isto é, de aburguesamento. A Praia do Pinto ardeu num incêndio criminoso e, em seu lugar, surgiu a Selva de Pedra. Enfim, os preços de tudo subiram e o bairro mudou para sempre, expulsando boa parte de seus antigos moradores.


Chiquiho e Edilson, o Ed, pupilos do Paiva no time de garçons do bar

Pois bem, o Jobi, o Bracarense e o Clipper são botequins do bairro, inaugurados mais ou menos nos anos 50 ou antes ainda. Ou seja, são uma sobrevivência do Leblon mais popular. E eu freqüento o Jobi desde a época em que se colocavam barris na calçada. Quando se bebe um chope no Clipper ou no Braca, dá para entender a razão do sucesso da casa (embora só isso, não explique tudo). Nada melhor do que num sábado de verão, sentar-se à calçada do Braca, depois da praia, para um chope cremoso. O primeiro gole é inesquecível. É claro, o Bracarense, do meu amigo Kadu, é superior ao Jobi no quesito chope e petiscos (e sou testemunha do esforço que a casa está fazendo para manter a qualidade da comida após a saída da saudosa Alaíde). Ainda assim, tenho pelo Jobi um apreço que é parecido ao samba em homenagem à Mangueira, não cabe explicação.


O balcão do Jobi, onde os assíduos se encontram. No fundo, o Narciso

Quando Manuel e Narciso fizeram a varandinha, para atender o pedido da vizinhança, que reclamava do barulho, pensei: "pronto, sem os velhos barris, acabou o Jobi." Estava enganado, até mesmo em relação a mim, já que passei a curtir aquele tablado. Acho que o segredo do sucesso é o aconchego que o boteco mantém. Mesmo nos dias de hoje quando, a exemplo do Braca, a casa lota a ponto de voltar a ocupar a calçada e de tornar difícil o encontro com os assíduos que compõem a freguesia do bar. Talvez uma boa definição do Jobi seja a que ouvi de meu querido amigo Zé Octávio: "o Jobi é um pub aberto!". Não é à toa que foi freqüentado por um grupo de irlandeses, que estavam no Brasil para um trabalho temporário de um ano. Todos os dias os gringos iam ao Jobi e até, numa dessas Copas do mundo, assistimos com eles, lado a lado no bar, o jogo entre Brasil e Irlanda, o qual vencemos bem. A quantidade etílica que se consumia nesses dias era digna de figurar no Guiness.


Os assados do Jobi: a porção de pernil fatiado com farofa é muito bem servida

O Jobi tem ainda os garçons. Não me refiro apenas ao Paiva, o patriarca da turma que trabalha na casa hoje, mas também a seus pupilos, como o Ed, o Chiquinho e o Jardel. Certa vez, ao tecer elogios a essa categoria profissional referindo-me especificamente ao Paiva, ao saudoso Lima, do Aurora, e ao Vieira, do Lamas, fui bruscamente interrompido por meu querido Moacyr Luz, que, tijucano típico (ou seja, um ser desconfiado de tudo e de todos) me dizia que todo garçom, no fundo, só quer se dar bem. Quem ja sofreu com parcas choradas na dose de uísque ou na contabilidade inflacionada das bolachas de chope na hora da conta pode dar razão ao Moa. Mas, mesmo assim, reconheço as muitas vezes em que esses profissionais salvaram amigos bêbados de uma boa sova, acompanharam damas solitárias até o carro ou mediaram delicadas negociações de pendura com o portuga atrás do caixa. A turma que trabalha no Jobi já fez tudo isso.


Eu e Paiva no Jobi, numa foto de meu amigo Nelson Vasconcelos

Mas, voltando ao Jobi e para concluir, quero dizer que aprecio a magia desse boteco, o último a fechar no Leblon, que mesmo lotado e na moda, ainda me dá a sensação de estar em casa quando chego ao seu balcão.

Endereços dos citados:

Jobi
Av. Ataulfo de Paiva, 1.166 - Leblon
2274-0547

Bracarense
Rua José Linhares, 85 - Leblon
2294-3549

Clipper
Rua Carlos Góes, 263 - Leblon
2259-0148

Aurora
Rua Capitão Salomão, 43 - Botafogo
2527-8880

Lamas
Rua Marques de Abrantes, 18 - Flamengo
2256-0799

sábado, 27 de dezembro de 2008

Um barzinho, um violão


O Decolores na sua originalidade típica dos velhos botequins

O cenário parece de filme de ficção científica, com os gigantescos guindastes e plataformas petrolíferas dos estaleiros Mauá Jurong e McNamara fincados na Baía de Guanabara. Mas é exatamente o contraste entre esse universo literalmente heavy metal, e a paisagem bucólica da baía, cercada pelos morros do Rio de Janeiro e cortada pela Ponte Rio-Niterói, que, dali, se vê por um ângulo incomum, que faz a magia do lugar. Quem conhece, já sabe que estou me referindo a Portugal Pequeno, no charmoso bairro da Ponta D'Areia, em Niterói, reduto da colônia portuguesa, que ali começou a se instalar no século XIX. Formado quase que exclusivamente por sobrados típicos, pequenos prédios e calçamento de pedras, o bairro, embora cercado pelos estaleiros, é um retrato de outros tempos.


O balcão de fórmica, com tampo de mármore e os banquinhos de madeira

Pois é neste lugar insólito, meus amigos, que se esconde um dos melhores endereços para quem aprecia um bacalhau bem preparado e, claro, todos os seus derivados: o Decolores. Trata-se também de um botequim centenário, ou quase, já que ninguém sabe ao certo a data de sua inauguração. Mas a idade aparece na arquitetura, na decoração e na ambiência. E também na história, pois contam que, na efervescência dos anos 50, um importante bicheiro foi assassinado enquanto, distraído, apreciava uma boa posta à portuguesa, ou seria ao Zé do Telhado? Também já foi literalmente cenário de filmes, assim mesmo, no plural.


A velha cristaleira e o gravador de fita cassette atestam o tempo parado do lugar

As tardes de sábado são um bom momento para aparecer. E pode levar o violão e os amigos, para uma serenata na calçada, onde o Decolores amplia seu espaço colocando algumas mesinhas. Para os mais calorentos, ou seriam frescos?, a casa abriu um anexo, com ar-condicionado. Mas é no velho salão original, com chão de ladrinhos e balcão de mármore, ante o imenso arco-íris pintado no fundo verde, que a magia do bar se dá em sua plenitude. O garçom Joel, prata da casa, é exímio tenor, é o rei do bolero e do samba-canção. Basta pedir um palinha e, pronto, a casa se enche do vozeirão, que interpreta à moda antiga.


A frente do bar e as mesinhas na calçada, onde os fregueses às vezes fazem serestas

Para quem quiser se aventurar, o Decolores fica na rua Barão de Mauá, 342, Ponta D'Areia, Niterói. Telefone: 2622-6167. Saindo da ponte, é só ir pegando à direita sempre e, depois do velho Moinho, é só perguntar.


Joel, o garçom com voz de bolero: é só pedir uma palinha

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Sábado 14 em Copacabana


O balcão da Adega Pérola, petiscos e chope na Siqueira Campos

Amigos, há alguns anos, vivi uma sexta-feira 13 digna do nome. Vou poupá-los dos detalhes sórdidos, mas, só para um resumo brevíssimo, envolveu desde um pequeno acidente de trânsito, briga com namorada e comida fria em restaurante... tudo isso num dia chuvoso, em São Paulo! Bem, passada a meia-noite, tudo se inverteu. A namorada, que dormira amuada, acordou no meio da madrugada com uma disposição, digamos, amorosa incrível e o sábado amanheceu num clima completamente distinto do da véspera, com um sol inesperado e uma esperança imprecisa no ar. Pois bem, anos mais tarde, ao narrar, em detalhes, essa experiência a um grupo de amigos, um deles lembrou o fato óbvio: era o sábado 14, o primeiro dia após a sombria sexta-feira 13. Disse ele, filosófico:

"Lembre-se que depois de uma sexta-feira 13, há sempre um sábado 14!"


Vendidos por peso, os petiscos da Pérola provêm basicamente do mar

Pronto. Bastaram essas palavras em tom de adágio, para que fosse instituída a comemoração da auspiciosa data e, desde então, ou quase, nos reunimos no sábado 14 para celebrar a vida, normalmente em vários botecos, em verdadeiras maratonas etílitcas, ou baratonas, como prefere minha amiga Mila Chaseliov, digna vencedora da última baratona na categoria feminina. Pois bem, embora o último sábado não fosse 14, ele inspirou uma minibaratona por Copacabana, onde levei um casal amigo de Sampa, a cidade onde tudo começou.


Os amigos de Sampa e do Rio se encontram na calçada do Pavão Azul

Iniciamos nossa jornada almoçando na Modern Sound, ouvindo um jazzinho e em seguida um samba de primeira. Foi para abastecer o corpo e o espírito com proteínas e hidratar nossas almas para a empreitada à frente, que começou pra valer mesmo pela clássica Adega Pérola, na Siqueira Campos, endereço da boemia teatral e de músicos dos anos 70-80. Meus amigos não tinham experimentado o rollmops, que na Adega são feitos com sardinha, em vez de arenque, afinal, estamos nos trópicos e é preciso adaptar. E o chope, que na Adega é meio de lua, estava sensacional. Ideal para abrir os trabalhos. Depois foram porções de manjubinha e outros mimos dos quase 100 petiscos, ao estilo tapas, que a casa oferece.


Meu amigo Cesar Baima, diante de duas pataniscas que sobraram

Em seguida, fomos para o Pavão Azul em busca das pataniscas. Encontramos bem mais que isso. Lá estavam outros amigos, bebendo Original gelada. Não fizemos desfeita e acompanhamos, com um farta porção do petisco que deu fama ao boteco, em frente à delegacia de polícia, que acrescenta um ar insólito ao bar. Depois de muita conversa jogada fora, rebocamos todo mundo para uma quadra dali, para provar o chope campeão do Real Chope, dica preciosa do Jaguar.


Meu chope saindo no Cervantes: estava preocupado com as notícias sobre a qualidade, mas gostei. O preço está mesmo salgado

No caminho conversamos sobre a singularidade que é o bairro de Copacabana, com suas galerias e comércio de rua, que ainda resistem aos shoppings. Com sua vida noturna: o único bairro do Rio, ao lado da Lapa, que não dorme. Também o lugar onde o contraste entre a distância física e a distância social nunca foram tão atordoantes, com os clássicos prédios art déco e os edifícios quitinetes e favelas; com as áreas de prostituição ao lado dos endereços chics. Enfim, um Rio de Janeiro de fortíssima personalidade, símbolo simultâneo do esplendor e da decadência da cidade.


A turma do Cervantes, volta ao trabalho após quatro meses de reforma

Seguimos então para a saideira no Cervantes, que quatro dias antes reabrira após quatro meses de reforma. Na reinauguração, um amigo me telefonou para reclamar do chope, afirmando que estava caro (R$ 4 a caldeireita) e ruim. De fato, o preço está salgado, mas a qualidade, no sábado, estava de alto nível. E olha que viemos do Real Chope, de modo que nosso parâmetro era exigente. O gerente me explicou que a reforma foi basicamente superficial, trocando as paredes e ampliando a área de trabalho dos garçons. No sistema do chope não se mexeu, garante ele. Bem, e os sanduíches, com o pão maravilhoso, continuam com o mesmo sabor. Saí de lá aliviado.


O novo Cervantes, com mais espaço para o pessoal que trabalha no balcão

Deixei meus amigos depois do Cervantes e fui tomar a saideira no Bar da Morena, um boteco sensacional, que não revelo a ninguém onde fica nem o que tem, para não estragar.

Bem, abaixo os endereços das casas visitadas:

Modern Sound (Allegro Bistrô Musical), rua Barata Ribeiro, 502 (quase esquina com Santa Clara). Tel.: 2548-5005. Para consultar a programação musical: www.modernsound.com.br.

Pérola, rua Siqueira Campos, 138 (em frente ao velho shopping center do teatro Opinião). Tel.: 2255-9425.

Pavão Azul, rua Hilário de Gouveia, 71 (em frente à 12ª Delegacia). Tel.: 2236-2381.

Real Chope, rua Barata Ribeiro, 319 (esquina com Paula Freitas). Tel.: 2547-6673.

Cervantes, rua Barata Ribeiro, 7-B (ou Rua Prado Júnior, 335-B). Tel.: 2275-6147 (vale lembrar que o Cervantes é um dos últimos bares a fechar na zona Sul).

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Um abraço no Bar do Jóia


O Bar do seu Jóia, escondido no velho Centro do Rio, fará 100 anos em janeiro

Amigos, nestes tempos de rápida proliferação de pastelarias e fast-food, alguns botequins históricos da cidade estão desaparecendo. Só nos últimos anos, numa rápida consulta a minha esmaecida memória, perdemos Café Aliança, Penafiel, Café Progresso, Pinhel, Bico Doce, Belmonte (o original), Lisboeta, Leiteria Gigi, Mandrake, entre muitos outros que me escapam agora. Além disso, há aqueles que passaram por reformas descaracterizadoras, que trocaram a velha chopeira por novas e pasteurizadas máquinas de chope; outros ainda que perderam em qualidade humana, com a saída de garçons e cozinheiros históricos... e por aí vai.

Entendo que a cidade se transforma e se, de um lado, desaparecem boas casas do ramo, do outro, o morador boêmio da cidade sempre encontra novas alternativas para brindar e jogar conversa fora com os amigos. Não quero transformar a idéia de botequins históricos num fetiche. Até porque a necessidade de boemia precisa ser saciada empiricamente. Mas, por outro lado, não posso me furtar, no plano estritamente pessoal e sentimental, a sofrer quando vejo algumas casas tradicionais tomando o rumo do fim.


A parede do Jóia, ainda com cartazes de décadas atrás

Por isso entendo e compartilho a iniciativa dos fregueses do Bar do seu Jóia, que fizeram um abraço simbólico àquela verdadeira instituição de uma certa boemia carioca, para expressar seu desejo que o bar continue vivo, apesar da morte recente de seu patriarca, o seu Jóia. Sua viúva, dona Alaíde, está tendo dificuldade para manter a casa, que exige cuidado e recursos além de sua capacidade. Esse botequim centenário guarda resquícios de um tempo que se esvai rapidamente e é inevitável sentir uma espécie de saudade e aflição, quando se percebe que com essa memória coletiva que se apaga, também acaba uma parte da nossa própria história pessoal.


Esta foto, feita por meu amigo Custódio Coimbra, um craque dos clics, me pegou em flagrante, saindo da cozinha do Jóia com um prato de feijoada, no dia do abraço

O Jóia, cujo nome formal é Café e Bar Rio Paiva, se esconde na rua da Conceição (esquina com Júlia Lopes de Almeida), próximo ao Colégio D. Pedro II, no Centro.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O Bip é uma saudade


Cena típica do Bip: roda de samba aos domingos

Bem mais que um bar, o Bip é um lugar, no sentido amplo e afetivo do termo. O que ocorre em suas dependências e no entorno não se descreve enumerando as qualidades físicas e abstratas, como se faz quando se fala de um botequim digno de nota: ambiência, decoração, arquitetura, boêmia, história... Tudo isso é importante no Bip, mas não é suficiente para traduzir o que é esse lugar. Nem mesmo basta ostentar aquilo que o distingue dos demais, como sua administração gerida pelos fregueses no calor da hora, o socialismo e a anarquia vivenciados empiricamente no botequim. O Bip está além dos mais badalados, dos mais tradicionais, dos mais charmosos. É o verdadeiro caso a parte. Aquele que não se enquadra nas descrições convencionais, sempre incompletas quando tentam explicá-lo.

Para se falar desse lugar com um mínimo de sinceridade não se pode descrevê-lo, nivelando suas qualidades numa lista de prodígios. Não. Para se falar do Bip, é preciso narrá-lo, e isso significa ir além das enumarações: ultrapassar a descrição; atravessar suas paredes, que testemunham a história do samba e do Botafogo do nosso Alfredinho; avançar para depois das notas musicais de suas rodas de choro e samba. Para narrar o Bip é preciso, no mínimo, trazer à luz os dramas de todos aqueles que o fazem, a começar pelo Alfredinho, coração e alma da casa.


Alfredinho, coração e alma do Bip Bip

O Bip transcende a si próprio no espaço justamente por causa de sua qualidade humana, demasiadamente humana. Por isso, encontro-o, por exemplo, no Lamas ou no Galeto, quando esbarro com Alfredinho na madrugada carioca. Ou quando, numa roda de samba qualquer, sua figura aflora, como uma espéice de deus da alegria, abençoando a bagunça, dionisíaco. Ou nas conversas com meu amigo Marceu Vieira. Ou na francesa que me fala, num café em pleno inverno parisiense, de sua saudade do Rio que o Bip contém. Ou na arguta observação do jovem japonês que vem do Oriente aprender o segredo disso que está além de palavras.

O Bip é o afeto, a alegria, a melancolia, a vida, enfim. É essa coisa essencial que encontrei, por exemplo, quando meus olhos esbarraram, pela primeiríssima vez, com os de Naninha, em seu vestido florido, atrás do balcão, severa, guardando a casa. O Bip é uma saudade, palavra que significa muito mais que nostalgia ou evocação, e que traz em seu âmago a essência mesma da vida, das coisas fugidias que passam por nós e nos fazem humanos. Termo que só existe em português (por falta de um equivalente em alemão, por exemplo, Freud se viu obrigado a inventar a psicanálise para tentar dar conta dos mesmos fenômenos furiosos que a lírica lusitana resume em saudade). O Bip é muitas coisas, mas, sobretudo, o lugar dessa ebulição apaixonada que o lirismo de nossa língua traduz numa só palavra.


Os músicos tocam de graça, pelo prazer de tocar

(Texto publicado no livro Bip Bip 40 anos — Histórias de um bar, lançado em dezembro de 2008, como parte de minha modesta contribuição com outros cento e tanto autores)

O Bip Bip fica na rua Almirante Gonçalves, 50 (entre Djalma Ulrich e Sá Ferreira), em Copacabana. Tel.: 2267-9696.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Abrindo os trabalhos

Amigos, a idéia deste espaço, apropriadamente batizado de Pendura Essa, é trazer à baila os assuntos relacionados à vida boêmia pelo mundo afora, mas sobretudo neste Rio de Janeiro do início do século XXI. Valem desde notinha até reportagens e crônicas sobre o assunto, ou simplesmente aquela conversa fiada de balcão.