domingo, 5 de setembro de 2010

Mas o que faz o bom jornalismo, afinal?

Suzana Blass, do Sindicato dos Jornalistas do Rio, e Fernando Gabeira, no ato contra o fim do JB. Gabeira me disse: "O Rio precisa de mais vozes."

A reportagem sobre o fim do Jornal do Brasil na sua versão impressa, publicada no Globo na semana passada e reproduzida no post abaixo, me fez nergulhar num agudo exercício de reflexão sobre esse ofício, que vem se transformando à mesma proporção dialética que mudam a mídia e o jornalismo contemporâneo. O fato de orientar os estagiários da redação do Globo que chegam à editoria de economia também me dá elementos de observação sobre a nova geração de jornalistas e os ritos de interação no ambiente de trabalho, objeto da minha tese de doutorado em antropologia.

Não cabe aqui uma avaliação saudosista, que afirma que os rumos da profissão pioraram. Apenas verifico que o jornalismo que se faz hoje é outro, com características próprias muito distintas daquelas dos anos 80, quando me formei, ou, para analisar em termos de períodos, dos anos 50 ao início dos anos 90, quando o computador entrou na redação e se aposentaram a lauda jornalística e as máquinas de escrever. Mas há concretamente uma sensação de piora, inclusive entre as novas gerações que sequer viveram o auge do jornalismo heróico. Essa sensação vem, penso eu, de coisas concretas, como a baixa remuneração, o aumento da rotatividade de emprego no setor, isto é, da precarização do ofício, que inclusive deixou de ser reconhecido como tal pelo Supremo Tribunal Federal, que lhe negou a obrigatoriedade do diploma.

Ao mesmo tempo, as empresas de comunicação também vivem um processo incontrolável de transformação, sem saber bem para onde vai o negócio da comunicação. Elas não conseguem acompanhar a rápida evolução que novas tecnologias trazem ao setor, criando novas formas de fazer e viver o jornalismo. As empresas investem pesado em novas tecnologias, que, seis meses depois, já estão obsoletas, de modo que a sensação nas redações é de que se está sempre atrasado em relação à realidade. Enquanto isso, permanece o caráter ambíguo das empresas jornalísticas, como corporações que buscam o lucro de seus acionistas, mas que são igualmente instituições fundamentais para o exercício da democracia nas sociedades capitalistas. Esse caminhar entre o papel de empresa e o papel cívico impõe dilemas constantes.

Durante minha tese, tive acesso a pesquisas sociológicas sobre a profissão de jornalista interessantes. Uma delas, um artigo escrito pela antropóloga Alzira Alves de Abreu, enfocava as representações sociais de gerações distintas de jornalistas. Alzira entrevistou inúmeros jornalistas de redação e concluiu que a visão do ofício entre a geração mais velha, que ela chama de "boêmios" e "heróicos", é muito distinta da geração mais nova, que ela chama de "profissionais". Enquanto os primeiros viam a profissão com um olhar cívico, acreditando que seu trabalho era importante para, entre outras coisas, consolidar a democracia; os mais novos tinham uma preocupação mais profissional, acreditando que o papel do ofício é informar, e ponto final. Enquanto os primeiros faziam do bar uma extensão da redação, os segundo se preocupavam mais em avançar na hierarquia interna dos cargos e salários, daí a classificação que ela faz entre boêmios e profissionais, embora haja exceções dos dois lados, evidentemente.

A boemia e, sobretudo, os botequins tinham de fato um papel importantíssimo para o desempenho do ofício, quando comecei. Isso podia ser medido inclusive pelo alto número de profissionais com problemas de alcoolismo. Os botecos e restaurantes que fechavam mais tarde eram uma espécie de válvula de escape, após a dura jornada na redação. Era ali que se comentava, não sem brigas e polêmicas, as edições que iriam para a rua no dia seguinte. Era ali que se desabafava os percalços do ofício e das empresas, reclamando da aspereza dos chefes, da baixa remuneração, entre outros assuntos recorrentes. Nos bares, os coleguinhas de diferentes jornais e assessores de imprensa se encontravam e a impressão que se tinha era que o trabalho seguia ali. E de fato seguia.

Quantas discussões intermináveis no Capela, no Cervantes, no Vermelinho, no Fiorentina, Luna's Bar, Alvaro's, Degrau, Jobi, Jangadeiros e por aí vai... No Lamas, lá pelas duas da manhã, entrava o vendedor com a edição do Dia, que acabara de rodar. Depois chegavam o Globo e o JB. A partir daí verificava-se quem havia furado quem, discutiam-se abordagens, enfoques etc.

O timing do ofício também era outro. O pessoal do fechamento (editores, redatores, secretários, entre outros) terminava seu trabalho na madrugada. Era preciso fazer o acompanhamento gráfico, verificar se as fotos e as legendas batiam corretamente, por exemplo. Quando tudo estava certo, dava-se o sinal verde para as oficinas rodarem o jornal. E quando algo extraordinário acontecia nesse momento, o grito traficional, que virou jargão: "Parem as máquinas!".

Essa relação com a gráfica, a parte de oficina, fabril mesmo, fordista, com suas imensas rotativas, dava um tom industrial ao ofício, que hoje em dia mal se percebe, já que tudo é feito eletronicamente, digitalmente. Era a gráfica que ditava o ritmo do trabalho na redação, estabelecendo os deadlines de fechamento, para que o jornal rodasse a tempo hábil de ser distribuído em todo o país. O nível de tensão crescia proporcionalmente à medida que se aproximavam os prazos de fechamento. Atrasar era impensável.

Daí a invenção do texto jornalístico com o lide e a chamada pirâmide invertida. A informação mais importante era colocada logo no início do texto, de preferência no primeiro parágrafo, e se escrevia em ordem decrescente de importância. Desse modo, se o prazo apertasse e a matéria estivesse estourando o tamanho projetado pelo diagramador para a página, o redator sabia que podia cortar o texto pelo pé, pois, teoricamente, os fatos menos relevantes estavam narrados ali.

Era uma época em que as reportagens eram redigidas em laudas, batidas em máquinas de escrever Hemington, com cópia carbomo. Verificar a grafia de um nome ou a data de um evento histórico exigia trabalho na sala de pesquisa. As consultas a manuais, enciclopédias, dicionários e vocabulários ortográficos eram penosas, pois obrigavam a interromper o trabalho de redação. Era uma época também que havia uma exigência de qualidade muito cruel. Um erro de português podia significar a demissão do autor, como tantas vezes ocorreu. Por isso, todos se esmeravam em apurar bem e escrever corretamente, apesar dos prazos exíguos. Não havia recursos como Google ou Wikipedia num terminal de computador de última geração. Hoje, por exemplo, faço a pauta de assuntos internacionais de economia no Globo com outros dois colegas redatores, compartilhando um arquivo comum no Google Docs, o que nos permite atualizar a pauta simultaneamente.

Assim, o bar deixou de ter esse papel tão visceralmente ligado à redação. Entrevisto jovens que chegam ao Globo e nenhum deles freqüenta o botequim "profissionalmente". Suas fontes estão em outros lugares e as polêmicas e debates sobre as edições são preferencialmente feitas mediante redes sociais como o Facebook e o Twitter. Em vez da discussão acalorada, entre tulipas e pilhas de bolachas de chope, emoticons e outros recursos gráficos para expressar o assombro ou o encantamento de um ofício que mudou radicalmente. Além do que, eles chegam à redação em idade muito inferior aos de minha geração. A média hoje dos estagiários é de 19-20 anos, enquanto que, nos anos, 80, era de 25 anos ou mais.

Se antes a edição ficava velha e embrulhava o peixe no dia seguinte, hoje a notícia envelhece a cada clicada na internet. Isso, evidentemente, transformou a forma de se fzer jornalismo e a qualidade final da notícia. Há uma profusão interminável de informações despejadas sobre o leitor/internauta. Desse modo, é preciso atualizar constantemente, praticamente em tempo real, os sites de informaçõess, as versões online dos jornais impressos etc. Junto ao texto, há hiperlinks para vídeos, áudios, fotos, infográficos etc., mas o tipo de apuração também se apressou, voltando-se para notas sociais sobre celebridades e temas mais sensacionalistas, capazes de atrair e prender a atenção dos leitores navegantes. E os jornais impressos em vez de se especializarem em reportagens, com medo do furo imposto pela concorrência, tentam correr atrás da informação mais quente possível, mesmo sabendo que será sempre uma edição gelada em comparação à versão online e digital.

Penso que seria o momento ideal para que os jornais impressos voltassem a fazer boas reportagens. Reportagens que, de tão raras hoje em dia, são sempre acrescidas de um adjetivo: reportagem especial, reportagem investigativa e por aí vai. Reportagem é reportagem, e ponto final. Uma boa apuração e um bom texto são suficientes para levar ao leitor uma boa história. E isso ainda é o que define, na essência, o jornalismo de ontem e de hoje.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A morte do Jornal do Brasil impresso

Amigos, reproduzo aqui a matéria sobre o fim do JB impresso, publicada ontem no Globo.





O adeus ao Jornal do Brasil: Após 119 anos, um dos diários mais importantes do país deixa de existir na sua versão em papel

Paulo Thiago de Mello

A partir desta quarta-feira, o Jornal do Brasil, fundado em 1891, deixa de circular na sua versão impressa. Aos leitores, restará apenas a opção da edição digital, via internet, mediante uma assinatura mensal de R$ 9,90.

Para a empresa que administra a publicação há nove anos, trata-se de um passo rumo ao futuro, mas para muitos profissionais de imprensa a iniciativa significa uma espécie de morte de um dos mais importantes jornais do país.

Fundado num 9 de abril, o JB marcou seu lugar na história dos grandes jornais como um precursor de inovações, como o uso de agências de notícias e o envio de correspondentes ao exterior.

Lançado menos de dois anos após a Proclamação da República, o JB foi identificado inicialmente como um jornal monarquista e, desde então, manteve uma intricada relação dialética com a vida republicana brasileira.

— Eu resumo a história do JB em dois períodos. Um século de glória e duas décadas de agonia — afirma Alberto Dines, do Observatório da Imprensa e ex-diretor de redação do JB, onde trabalhou de 1962 a 1973. — Era um jornal liberal no sentido de ser antimilitarista e, portanto, contrário à República, que nasceu pelas mãos de um golpe militar.

Fundado pelo jornalista Rodolfo Dantas, o Jornal do Brasil passou a ser comandado, na década de 20, pelo conde Ernesto Pereira Carneiro, que fez a transição de um diário popular para um jornal mais moderado e moderno. O JB teve entre seus profissionais nomes como os de Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Barbosa Lima Sobrinho, João Saldanha, Carlos Castello Branco, Otto Lara Resende e Ziraldo, entre tantos outros. Em 1954, após a morte do conde Pereira Carneiro, sua viúva, a condessa Maurina Dunshee de Abranches Pereira Carneiro, passou a dirigir o jornal. Anos mais tarde, passou o bastão ao genro Manuel Francisco do Nascimento Brito, eternizado como o "doutor Brito".

Entre as décadas de 50 e 80, viveu seu auge. A reforma gráfica de 1959, a cargo de Amílcar de Castro, introduziu novidades como diagramação vertical e eliminação de fios entre as colunas, que acabaram influenciando jornais dentro e fora do Brasil. No plano editorial, as mudanças foram realizadas pela equipe de Odylo Costa Filho, na qual estavam jovens jornalistas como Wilson Figueiredo, Carlos Lemos, Jânio de Freitas, entre outros. Os textos ficaram mais leves e foram criados suplementos, até então inexistentes na imprensa brasileira.

— Nos anos 60 e 70 ele revolucionou a imprensa brasileira, era o modelo a ser seguido, tanto gráfica como editorialmente — diz Orivaldo Perin, que entrou no JB como estagiário, onde trabalhou "três encarnações". — Sua importância estava mais no conteúdo que na tiragem. A venda média do jornal, mesmo nos áureos tempos, ficava entre os 100 mil e os 150 mil exemplares/dia, mas tudo o que publicava, repercutia.

— O JB também foi muito importante para O Globo. A concorrência entre os dois obrigou cada um a entrar na seara do outro, com bom jornalismo e conteúdo. Foi um dos momentos mais bonitos da história do jornalismo brasileiro. Quem ganhou foi o leitor — afirma Dines.

A família Nascimento Brito dirigiu o jornal por décadas e, após sucessivas crises, arrendou a marca para a Companhia Brasileira de Multimídia, do empresário Nelson Tanure, em 2001.

Nos anos do regime militar, o jornal teve um papel decisivo. Entrou para a história a primeira página de 14 de dezembro de 1968, no dia seguinte à decretação do Ato Institucional número 5 (AI-5) em que, no canto esquerdo, dizia: "Tempo negro. Temperatura sufocante. O país está sendo varrido por fortes ventos. Mínima 5 graus no Palácio Laranjeiras. Máxima 37 graus em Brasília". No entanto, já em crise, na década de 80, o jornal foi acusado de flertar com o malufismo.

A partir dos anos 90, o jornal teve altos e baixos na linha editoral e, em persistente crise financeira, foi entregue a Tanure, que adotou a versão berliner e transferiu a sede da Avenida Brasil 500 - onde estava desde 1973 - para o casarão da Avenida Paulo de Frontin. Nas últimas semanas, o prédio do Rio Comprido tem pendurada uma faixa de "aluga-se". Com uma dívida estimada em R$ 100 milhões, o jornal impresso ainda empregava cerca de 60 profissionais.
Em 2008, o JB - e a Gazeta Mercantil, que também desapareceu pelas mãos de Tanure — deixou de ser filiado ao IVC, o Instituto Verificador de Circulação (IVC) e, por isso, não há números precisos da sua tiragem recente.

— Ele (o JB) não morreu de repente. Veio morrendo aos poucos. Quando o jornal fez um século, já estava mal — afirma Alberto Dines, lembrando que o jornal cometeu erros políticos e econômicos.

Flávio Pinheiro, ex-editor-executivo do JB, emenda:

— O JB que morre hoje (ontem) nas bancas já estava inteiramente desfigurado. Irreconhecível na sua fisionomia e na sua alma — diz Pinheiro.

O colunista Ancelmo Gois, também ex-JB, concorda:

— O JB acabou faz tempo. Era um cadáver insepulto. Digo isso com tristeza. É difícil dizer quando exatamente o jornal acabou, mas, certamente, não foi agora. Em que pese o esforço quase heroico dos coleguinhas que estavam lá, o jornal já tinha perdido a alma.

— Não lamento agora o fim do JB. Já lamentei anos atrás. Não identificava no jornal que circulou até agora, e do qual me mantive assinante, o JB dos bons tempos — diz Artur Xexéo, que iniciou a carreira no JB.


Um passado que entrou para a história

Paulo Thiago de Mello (com colaboração de Bruno Rosa)

RIO - Impulsionado pelos bons ventos do pós-Guerra, o Brasil entrava nos anos 50 apostando na prosperidade. Nesse clima de euforia, os poetas concretos abalaram as estruturas da literatura, decretando o fim do poema, ao mesmo tempo em que soavam os primeiros acordes dissonantes da Bossa Nova. Nas telas, filmes do Cinema Novo. Nos anos 50, com Juscelino Kubitschek na Presidência, o Jornal do Brasil lançou o Suplemento Dominical (1956), criado pelo poeta Reynaldo Jardim e que se transformaria no embrião do futuro Caderno B, quatro anos depois. Além de Jardim, nomes como Ferreira Gullar, Mário Faustino, os irmãos Augusto e Haroldo de Campos e Mário Pedrosa tiveram forte influência no Suplemento Dominical. Em 1959, fazia a sua reforma gráfica.

— O JB já chamava a atenção e prestígio intelectual, com o seu Suplemento Dominical, que trouxe uma nova noção estética concretista, misturando artes plásticas, literatura, ciência. No aspecto gráfico, Amílcar de Castro eliminou os fios, implantando a diagramação vertical e valorizando os espaços brancos das páginas — lembra Wilson Figueiredo, colunista do jornal.

No suplemento cultural, liberdade de estilos

De fato, mais uma vez o JB lançava moda. O Caderno B foi o primeiro suplemento exclusivamente voltado para assuntos culturais, de entretenimento e variedades, pondo o Rio numa caixa de ressonância nacional. Mas a inovação do Caderno B não se restringia à forma gráfica. Os repórteres e colaboradores do suplemento tinham liberdade estilística em suas narrativas, dispensando os padrões de objetividade do texto jornalístico. Um dos nomes de destaque era Wilson Coutinho, crítico de arte. Além disso, o caderno aceitava colaboração de escritores, artistas e intelectuais.

— A reforma de 59 foi a mais duradoura da imprensa brasileira. Inspirada em padrões estéticos criativos, como o concretismo, antecipou tendências. Uma revolução no design, que inspirou os jornais sem fios — afirma Alberto Dines, do Observatório da Imprensa e ex-diretor de redação do JB.

A diagramação ousada do JB tinha no Caderno B um de seus espaços privilegiados. Várias capas do suplemento entraram para a história do jornalismo brasileiro por seu arrojo. O destaque dado a fotos, ilustrações e infográficos, além da valorização de espaços em branco na página, realçava as reportagens.

Em entrevista ao Jornal da ABI, o jornalista Carlos Lemos, então na editoria de Esportes, lembra que foi o primeiro a retirar os fios da diagramação, ideia de Amílcar de Castro, mas que ainda não havia sido implementada:

"O Amílcar defendia tirar os fios que separavam as colunas do jornal. Foi a brecha que eu tive para imprimir minha mudança. Fui à oficina, pedi para aumentar a medida entre as colunas e tirar os fios, responsabilizando-me por qualquer problema que acontecesse."

A importância do JB não se restringiu ao Rio de Janeiro. Apesar da transferência da capital federal para Brasília, o Rio continuava dando o tom na vida cultural e política do país e o jornal era um veículo que formava opinião, sendo lido religiosamente pelas classes política e artística e a intelectualidade.

Perda de credibilidade foi o golpe de misericórdia

Flavio Pinheiro, ex-editor-executivo, lembra que o JB promoveu outras inovações na imprensa brasileira:

— Criou a primeira revista dominical, uma revista de programação de fim de semana, o caderno Idéias, o espaço para humor — enumera. O espaço dado à charge de Chico Caruso era um desses exemplos.

Mas, quando a capital fluminense entrou em processo de degradação, o JB, com problemas financeiros, acompanhou e também começou a perder prestígio, lembra Pinheiro:

— Quando, anos atrás, morreu o grande jornal, morreu mais um pouco a altivez republicana e a presunção cosmopolita do Rio.

— A importância do JB foi imensa. Contando só os anos do jornal que vivi ou conheci, de meados dos anos 50 e aos anos 90, acho que todo jornal no Brasil queria de certa maneira ser o JB. Mas isso passou há muito tempo. Ele é um jornal que se limitou a sobreviver nas últimas décadas. Cada vez que ele fazia um esforço para melhorar, ficava mais parecido com os outros jornais, porque sua fórmula original estava esquecida — afirma Marcos Sá Corrêa, ex-editor-chefe do Jornal do Brasil.

Para alguns profissionais, no entanto, a crise acabou por afetar o principal patrimônio do JB: a sua credibilidade.

— Antes da venda da empresa, mesmo com todos os problemas de gestão, o jornal tinha credibilidade, que sempre foi seu ativo mais precioso. Os novos donos não conseguiram ou não quiseram entender isso. A venda foi um golpe forte na credibilidade da marca, e depois dela a morte do jornal nas bancas tornou-se uma questão de tempo — diz Orivaldo Perin, ex-chefe de redação do jornal. — É uma morte ruim para todos, principalmente para os leitores. Em vez de fazer história, o JB vira história.


Livro e filme registram a história do JB

Paulo Thiago de Mello e Lucila de Beaurepaire

RIO - Certo dia, um graduado executivo do Jornal do Brasil telefonou para a redação de um iate em Angra dos Reis para dizer que o corpo de Ulisses Guimarães havia sido encontrado e que o JB deveria noticiar no segundo clichê da edição de domingo. O então secretário Roberto Pimentel Ferreira se negou a publicar a versão sem comprovação e foi aplaudido no dia seguinte. Mesma sorte não teve uma repórter "foca" da agência JB, que acatou o "furo" e perdeu o emprego. Essa é uma das histórias que Alfredo Herkenhoff, ex-secretário de redação, conta no livro Jornal do Brasil - Memória de um secretário - Pautas e fontes (edição do autor, 336 págs, R$ 70), lançado nesta terça-feira.

Herkenhoff reuniu relatos de colegas e casos que ele próprio testemunhou nos 20 anos que passou no jornal, em duas fases distintas. A ex-editora do Caderno B Regina Zappa e o fotógrafo Rogério Reis, também um ex-JB, uniram-se ao diretor Sergio Sbragia para fazer um documentário sobre o jornal, batizado de Av. Brasil, 500, em referência à sede que abrigou a redação por três décadas.

— Chamamos ex-funcionários do JB para um encontro na sede destruída. A convocação por e-mail logo formou uma rede, ganhando contornos de um movimento — explica Regina. — No dia da gravação, apareceram mais de cem pessoas.

Herkenhoff coleciona há décadas histórias do JB:

— O livro é uma imitação do jornal, desde sua capa, com o famoso "L" dos classificados.

Regina, por sua vez, lembra da filmagem com emoção:

— Foi emocionante. Um sábado nublado, frio, o que contribuiu para um certo clima de melancolia. Algumas pessoas choraram ao subir as escadas no escuro — diz ela. — Mas não foi apenas tristeza. As pessoas lembraram histórias engraçadas.

Ana Arruda Callado, uma das primeiras mulheres na redação do JB, lembra das discussões intermináveis sobre o jornal, após o fechamento, em algum bar ou restaurante.

— Era um jornal que não poderia existir nos tempos de hoje — diz Ana.

A fotografia do JB também fez escola, arrebatando sucessivos prêmios. Nomes como Alberto Ferreira, que imortalizou uma bicicleta de Pelé; os inúmeros cliques de Evandro Teixeira e o célebre Erno Schneider, que traduziu como ninguém a indecisão do presidente Jânio Quadros, em 1961, com os pés enviesados e arrebatou o Esso em 1962.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Desenhos verbais de Manoel de Barros


O grande artista Manduka me contou uma históra sobre o mágico encontro entre o poeta Manoel de Barros e o escritor João Guimarães Rosa, nos anos 50, se não me falha a memória. O autor de Sagarana, pouco depois de suas peregrinações pelas Gerais, o cerrado e o sertão nordestino, resolveu visitar o pantanal e conhecer pessoalmente o poeta que tanto o encantava por sua linguagem própria e inusitada, embolada com as coisas da terra, os musgos, muros de pedra, passarinhos e sapos, que são "um pedaço do chão que pula".

E sucede que o método de trabalho de Guimarães Rosa é o do etnógrafo, com sua caderneta de campo, anotando tudo: conversas, expressões, sonhos, visões... suas e das pessoas com quem esbarra. Vem daí o manancial de palavras que avolumam seu vocabulário singular. Além disso, Rosa era mineiro, o que diz muito de uma personalidade introspectiva, arguta na observação, mística e um tanto paranóica, vendo sempre conjurações escondidas nas mais límpidas intenções. De modo que a maneira de perquirir de Rosa era um tanto silenciosa: "O sinhô anota tudo!", disse um de seus interlocutores, certa feita.

Foi com esse jeito, tímido e introspectivo, que Rosa foi apresentado ao poeta do pantanal. E mal ele começou a falar sobre o pantanal e outras profundidades que emergem de conversas banais entre dois grandes, Rosa sacou sua caderneta e fez as primeiras anotações. A partir desse momento, Manoel de Barros ficou monossilábico, respondendo sim ou não às perguntas jeitosas de Rosa. Isso prosseguiu por um tempo, até que o escritor mineiro se foi. Barros então virou-se para um outro interlocutor, que testemunhara o encontro histórico, e disse:

— Quando senti que ele me especulava, me empedrei!

Adoro essa história que, sendo verdade ou não, é verossímil o suficiente para se espalhar como uma anedota que realça ambas personalidades e manias. E a razão dessa prosa é que acabo de comprar a antologia poética de Manoel de Barros (Poesia Completa, editora Leya, foto da capa acima), numa edição bem cuidada e com um lindo prefácio do próprio poeta. Estou desfrutando dessas páginas que, na minha estante, ficarão lado a lado aos livros de João.

Manoel de Barros diz que seus poemas são desenhos verbais de imagens e é assim que ele termina a brevíssima "entrada" de seu livro:

"Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer, a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades."

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A propósito de enredos e linguagens

Guimarães Rosa: lingaguem e enredo


Amigos, adicionei na lista de links ao lado um acesso ao site do jornal literário Rascunho. É um jornal excelente, que tem também uma versão online. Estava lendo uma das edições mais recentes, onde há uma longa entrevista com Alberto Mussa, a quem conheci pessoalmente de forma muito breve, certa vez, no lançamento de um romance de Antônio Torres. Fui apresentado a ele por Marcelo Moutinho, mas conversamos pouco. Desde então acompanho com interesse sua trajetória e tenho alguns de seus livros. É um escritor brilhante.

Mas sua entrevista, confesso, me surpreendeu um pouco pelas opiniões ousadas, e, por outro lado, compreensíveis, sendo Mussa da geração que é. Duas coisas me chamaram a atenção: a apenas discreta admiração por Guimarães Rosa e até mesmo um certo desprezo por sua produção final. Justificava ele sua posição defendendo o uso de uma linguagem pelo autor em que se sinta confortável e, mais do que isso, verdadeiro. Em outras palavras, para contar histórias, não é necessário, diz ele, inventar uma linguagem.

Ele diz que, tendo estudado literatura nos anos 1980, com forte influência do estruturalismo, os escritores estavam confrontados com coisas como semiótica e o escambau. Não se esperava uma boa história, mas sim uma linguagem nova, à exemplo, inclusive, do fizeram alguns como o próprio Guimarães Rosa, que não apenas colocou no discurso a cognição do caboclo e do vaqueiro do interior do Brasil, mas também inventou, ele próprio, um vocabulário seu, para além daquele do sertão, fruto de suas pesquisas inclusive com outros idiomas. Mussa não menciona em sua crítica, mas eu acrescentaria as vanguardas literárias, como o concretismo (que chegou a decretar o fim do poema), o poema processo e por aí vai. Ou seja, se não houvesse um experimentalismo formal, a obra não valia a pena, por melhor e mais interessante que fosse o enredo.

Mussa defende um equilíbrio, em que se dê vez à história, ao enredo, ao plot. Eu também defendo o equilíbrio, mas acho que se, naquele então, havia uma distorção pró linguagem e contra o enredo, hoje, a coisa se inverteu, a ponto de não se tolerar mais qualquer extravagância de linguagem. Um bom romance é apenas uma boa história e seu dever é se limitar a entreter. Uma linguagem que vá além do cotidiano só atrapalharia esse projeto. Em outros termos, a linguagem hoje deve ser invisível, desaparecer, para que a história apareça na sua plenitude dominadora. Isso me lembra demais as normas da redação jornalística, em que se jogam fora adjetivos e outros recursos semânticos para dar voz aos "fatos" puros, substantivos.

Ou seja, do jeito que a coisa está hoje, Guimarães Rosa e Clarice Lispector, para citar dois que bricaram com a linguagem, teriam dificuldades de colocar nas patrateleiras das livrarias obras como Grande Sertão: Veredas e Sagarana, de um lado, e A paixão segundo G H e Água Viva, de outro. Para trazer mais perto: Catatau, de Paulo Leminski, enfrentaria a mesma dificuldade.

Cada vez mais, acho que devemos ser indulgentes e mesmo navegar alguns quilômetros contra a maré de nossos instintos e gostos. Sempre descobrimos coisas novas e interessantes, inclusive coisas que vêm a reforçar nossas posições.

Em outra parte da entrevista ao Rascunho, Mussa faz uma critica sociológica à Macunaíma e, por extensão, a Mário de Andrade e ao modernismo de 22. Ele reforça o caráter preconceituoso do autor ao ressaltar características sociais negativas atribuídas ao índio e ao negro, como preguiça, mau-caratismo, feiura, entre outras. Achei a crítica injusta, pois trata a literatura de Mário pelo viés sociológico (ou meramente jornalístico) e não literário propriamente dito. Ora, sendo o Mário, como Rosa, Lispector e Leminski, um inventor de linguagem, Mussa poderia ter seguido por aí, que estaria construindo uma posição mais pertinente do que discordar da posição social do escritor, que inclusive foi contra as normas então estabelecidas.

Isso me lembrou um post no blog do Luciano Trigo, anunciando o debate que haverá na Flip sobre Gilberto Freyre, com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como mediador ou participante da mesa, não me lembro bem. Trigo afirma no blog que não deixa de ser curioso que FHC participe dessa homenagem a Freyre, tendo ele escrito um livro, que desce o pau no trabalho do sociólogo pernambucano. Me lembro que comentei que qualquer análise sobre Freyre deve dar o desconto histórico e das circunstância da formação intelectual do autor de Casa Grande e Senzala. Dizia que, feito esse desconto, a obra de Freyre, cuja influência intelctual mais visível é a do antropólogo Franz Boas, mostra um vigor original muito superior à obra de FHC, muito vinculada à linhagem USPiana e sua interpretação do marxismo.

Acho que Mário merece a mesma cortesia. Retirados os filtros, digamos, cronocêntricos (que julgam o passado com os valores e representações atuais), que pregam uma posição politicamente correta no que se refere a preconceitos de ordem racial, social, étnica, religiosa e o escambau, Macunaíma ainda é um obra de vigor literário profundo. Ou não? Os caminhos que abriu por sua ousadia literária, por sua originalidade visceral. Ou não? E mesmo sua proposta, digamos, sociológica, de interpretação do Brasil das três raças e da valorização da malandragem e outras inversões de estigmas tem a ver com o que o modernismo pregava em geral naquele momento: ir contra o estabelecido.

Não que Mussa não reconheça isso. Ele mesmo admite que, tendo tido uma experiência pessoal profunda na umbanda e no candomblé, a forma como a religião foi pintada por Mário o perturba a ponto de não gostar da obra. Mas aí é outra questão.

domingo, 25 de julho de 2010

Fluido como água


Alguns escritores são muito felizes na construção de sua narrativa, lapidando as palavras com cuidado, a ponto de evitar excessos pernósticos, mas também sem nos deixar morrer de sede por escassez de uma lírica mínima. Nas coisas que escrevo é este equilíbrio que se mostra o mais difícil de obter. Depois que a idéia cai no papel, ou na tela do computador, é um duro trabalho de enxugamento buscando esse balanço delicado. E, no fim, nunca estou certo se consegui ou não. Por isso, gosto muito de alguns escritores, hoje clássicos, mas também da nova safra, como se diz.

Há exato um ano comprei o Dicionário amoroso da língua portuguesa, e só hoje comecei a ler. Trata-se de um projeto de meu amigo Marcelo Moutinho e Jorge Reis-Sá, editado pela Casa da Palavra. A idéia de ambos foi reunir 35 escritores de países onde se fala e se escreve o português, propondo a eles que escrevessem um conto em torno de uma palavra-chave central, que se tornaria então um dos verbetes do Dicionário. Entre os escritores estão feras como Antônio Torres, Bruna Lombardi e Alexei Bueno. Também profissionais das letras de Angola, Moçambique, Portugal e Timor Leste.

Mas queria falar um pouco sobre o conto que abre o livro, justamente o de Moutinho, inaugurando o dicionário com o verbete água. É um conto brevíssimo, sobre o amor entre pai e filho, expresso num banho. O tema do envelhecimento, do constrangimento que as perdas das habilidades físicas traz, são narrados de forma fulminante e fluida, como sugere o verbete. A vida escorre no banho, e, apesar de todo o afeto, expresso, por exemplo, um dolorido "obrigado", não se sai limpo e leve ao fim do banho. A água e o banho como metáforas do ciclo da vida se insinuam na narrativa direta sobre a inversão da relação entre pai e filho e a estranheza que essa troca de papéis provoca, combinando um efeito singular e raro. Água é o conto de um grande escritor.

Lembrei-me da participação de Moutinho no Projeto MaPa, que reunia no palco do saudoso Cinemathèque escritores e músicos. Na sua apresentação, ele levou a platéia a um passeio sideral com suas palavras, do mesmo modo como nos guia agora no verbete que lhe coube no Dicionário amoroso.

Moutinho vem de uma geração pródiga em bons escritores, com suas marcas, características e defeitos. Conversava semana passada sobre isso com o poeta Thiago de Mello, que apesar dos elogios rasgados aos escritores da safra atual, reclama da sua imprecisão gramatical ("É preciso dominar o idioma", disse ele). Quanto a mim, não gosto de uma certa mistura da narrativa jornalística com o texto literário. Problemas, diga-se de passagem, que Moutinho não tem. Apesar de ser jornalista por formação, o texto literário de Moutinho não tem o defeito de soar como uma reportagem. Isso é um sinal de maturidade literária. E é maturidade que encontro no conto Água.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Adeus a Paulo Moura


Nesses dias de abundância de informação, soube com "atraso" da morte de Paulo Moura, vitima de câncer. Taí uma notícia que não queria ler ou saber, mas é ligar o computador e ser bombardeado pelo mundo. Um saxofonista criativo e um virtuose do clarinete, Paulinho lançou nos idos dos anos 1970 um disco ainda hoje futurista: Confusão urbana, suburbana e rural e inspirou gerações e gerações de músicos brasileiros, tornando-se uma referência.

Imediatamente, ao ler a notícia de sua morte, me lembrei da parceria entre ele e meu pai, o músico Gaudêncio Thiago de Mello. O velho, tendo migrado para Nova York em 1966, estava gravando seu primeiro disco em 1972, com uma constelação de músicos extraordinários, como o compositor e pianista Dom Salvador, o trompetista Claudio Roditi, o pianista Richard Kimball, entre outros. Recomendado por um amigo em comum, Paulo, de passagem por Nova York, procurou meu pai e imediatamente foi integrado ao time.

Anos e anos mais tarde, o disco, de selo independente, foi relançado em CD com co-produção de Arnaldo De Souteiro (reproduzo a capa acima), rebatizado como Amazon, o nome da banda do velho, que durante anos incendiou a noite de sábado do Sweet Basil. Também tocou no Village Gate e no Jazzmania. Está lá o sopro de Paulo Moura. Na foto abaixo (borrada pela pouca luz), um reencontro entre os dois no bistrô da Modern Sound, há dois ou três anos.

domingo, 11 de julho de 2010

A terceira margem do sonho


Então você veio assombrar meu sono mais uma vez... Eu, que já a tinha perdido no fundo da memória, a ponto de esquecer seu nome, me vi assaltado no meio da noite, levado por suas mãos novamente àquele mundo que se dissolve em sensações. E mesmo no plano onírico você tecia os enredos de sua alma, colocando-se quase ao alcance de meu abraço. Sempre pronta para ir embora... aeroportos, o mundo de lá... Mas no sonho seus olhos tinham brilhos cintilantes. Não a dureza cinza e opaca que se fixou em mim na despedida remota. A frieza inerte do gesto que não se fez. No sonho você era o avesso, travessa e feliz... Me deixou roubar o beijo, antes de embarcar, e sentiu a mão que passeava por seus poros arrepiados... Confusa, duvidou do próprio destino. O navio apitava e já não sabia se devia embarcar. Olhava-me inquirindo. Via o mundo pela primeira vez com meus olhos, lá da margem, de onde acenava comigo o chapéu do adeus e dizia: quero ficar. E o abraço se completou enquanto se punha o sol. Assim, atravessamos o entardecer do sonho em silêncio, ouvindo a música do vento, sentido o calor morrer em cores quentes no horizonte... Éramos nós agora na proa rumo ao mundo novo. Mas enquanto o dia morria no sonho, a luz nascia no mundo real, trazendo a cidade em seus ruídos indiferentes. Despertei então e me vi esparramado, ofegante, teso e só. Tão vívida fora sua presença... Abriu todos os meus baús e o quarto se encheu de fantasmas.

Último pitaco da Copa 2010

Bem, com a merecida vitória da Espanha, a Copa acabou não saindo muito cara para o Brasil. A fúria tem, enfim, seu primeiro título e o escrete canarinho permanece como única seleção pentacampeã. A Itália, que poderia igualar o feito, dançou na primeira fase. E Alemanha, que poderia encostar, com um tetra, dançou para a Espanha. E a Argentina, que chegaria ao tri, mas aqui na nossa vizinhança, também dançou, e bem.

Agora, observando o nível da final, vê-se nitidamente que se o Brasil tivesse ousado, lavando um time criativo e jovem, para compor com os craques que foram escalados, não sei não... E ninguém saberá. Optamos por um time retranqueiro e dependente ao extremo de alguns jogadores que não estavam em sua forma física ideal. Pagamos o preço. Não estou chutando cachorro morto, porque fiz essas críticas aqui, antes mesmo do início da Copa.

Foi uma final emocionante apenas por ser final, porque o futebol em si deixou muito a desejar. A Espanha dominou e a Holanda ameaçou nos contra-ataques. Mas o futebol foi feio, os jogadores sem domínio da bola, sem conseguir concluir com chutes a gol. Jogo atravancado, de faltas. Enfim, o típico futebol sem talento que parte para cima, de um lado, versus o retranqueiro, do outro.

Pelo menos não se fez uma injustiça histórica, com uma vitória da Holanda na África do Sul. A Holanda colonizou a África do Sul e inventou o sistema do apartheid. Seria ruim vencer justo ali.

sábado, 3 de julho de 2010

Dois pitacos sobre a Copa antes das semifinais

Se a Alemanha levar a Copa, será com justiça. Estou torcendo agora para o Uruguai, para manter o título entre os sul-americanos. Por outro lado, Espanha nunca venceu uma Copa, isso manteria as outras seleções ainda longe do desempenho do Brasil. A Alemanha será tetra, se vencer na África do Sul, como todos sabemos.

Ontem até esbocei uma simpatia pelo time de Maradona, após a eliminação do Brasil, mas ouvi na CBN que em Buenos Aires os portenhos comemoraram a derrota do escrete canarinho como se fosse uma vitória argentina... Tomei então a decisão de torcer pela Alamanha e secar o time de Maradona. Deu certo. Um chocolate de 4 a 0. Somos, afinal, latino-americanos, filhos do continente América e nos devoramos mutuamente em respeito e desdém. Os europeus, com sua civilização triste, torcem por uma vitória do continente.

Quanto à derrota do Brasil, não vou chutar cachorro morto. O que tinha a dizer, disse aqui antes do início da Copa. Mas temos que tirar o que há de positivo nisso: o fim do futebol pragmático e de resultados, o fim da era Dunga. Assim, como em 82, a pior derrata brasileira foi dar vez a essa lógica norte-americana do vencer ou vencer, de qualquer jeito, na retranca, nos pênaltis... agora, talvez os dirigentes entendam que se quiserem que o Brasil ganhe qualquer coisa, o melhor caminho será seguir aquilo que ele tem de melhor: a criatividade, o sensacoinal, o fora de série.

domingo, 27 de junho de 2010

Fotojornalismo contemporâneo


A fotografia digital chegou a tal avanço tecnológico, considerando-se desde as máquinas fotográficas a programas de tratamento de imagem, que hoje em dia qualquer mentecapto é capaz de fotografar em foco e com equilíbrio de luz. Lá no Globo, por exemplo, chegam fotos de leitores todos os dias e muitas delas são aproveitadas para registrar um evento, um instantâneo. Enfim, o domínio técnico, que sempre foi muito valorizado por estas bandas como diferecial entre profissionais e amadores, deixou de ser um grande abismo entre essas duas classes de fotógrafos.


No caso do fotojornalismo, se por um lado cresceu a concorrência, com centenas de fotos de leitores chegando ao jornal, por outro lado, obrigou os profissionais a repensarem o que os fazem distintos dos demais "retratistas", deslocando o assunto da técnica e do equipamento para a linguagem fotográfica propriamente dita. Isso vai levar, acredito, a uma produção fotográfica mais interessante, consciente e elaborada como linguagem, como identidade visual do fotógrafo etc.


Então, para encerrar essa série de posts sobre meus fotógrafos preferidos, coloco no ar algumas fotos de Michael Ackerman. Fotógrafo da prestigiosa agência Vu, uma sucessora da Magnum, que exige de seus fotógrafos uma identidade, uma marca visual. Tenho um livro dele, sobre a Índia, chamado End Time City, que foi à época um choque. Ackerman trabalha com câmara de grande formato e baixa velocidade, em preto e branco, borrando as imagens e dando um sentido de dramaticidade bastante eloqüente.

terça-feira, 22 de junho de 2010

As gangues de Joseph Rodríguez


A National Geographic era (e ainda é) considerada um sonho para muitos fotógrafos nas últimas décadas do século passado. O rigor com que os editores da revista selecionavam trabalhos fotográficos e colaboradores, tendo já uma staff de primeira linha, era altíssimo, de modo que publicar uma reportagem na Geo era garantir um cartão postal profissional invejável. Naqueles anos, a revista, que é na verdade nada mais do que o boletim da National Geographic Society, tinha uma linha editorial muito marcada por discussões sociais. Ou seja, embora fossem realizadas muitas matéiras das chamadas ciências duras (êpa!), geografia física, arqueologia, física, matemática etc., suas reportagens primavam bastante por um caráter etnográfico, temas antropológicos e sociológicos e de geografia humana.


Porém, no fim dos anos 1990, a Sociedade mudou o editor da revista e resolveu se concentrar nos assuntos tidos como "mais científicos". Para desapontamento de muitos fãs, a revista passou a ter muitas reportagens sobre biologia, química etc. A velha linha editorial, porém, deixou saudade e lançou alguns nomes. Uma das reportagens que mais gostei daquele período foi a realizada pelo fotógrafo Joseph Rodríguez sobre o Harlem hispânico nova-iorquino. Passei então a acompanhar o trabalho desse excelente fotógrafo e a forma etnográfica como trabalha, convivendo com as famílias e os grupos que retrata. Depois do Harlem, ele fez um sobre gangues de Los Angeles. São elas que estão neste post, tiradas da internet.

domingo, 20 de junho de 2010

Outros caminhos


A sacação de que há um instante decisivo na fotografia, como observou Cartier-Bresson, sugere, de um lado, uma integração entre fotógrafo, câmera e objeto, mas, ao mesmo tempo, um lugar para cada um desses três elementos no ato de fotografar, o que implica o afastamento do fotógrafo do objeto, mediado pela câmera. Os três entrariam em equilíbrio num determinado momento da cena, da ação. Essa integração é que constituiria, por assim dizer, a intuição do fotógrafo, levando-o a fazer o clique na hora certa. Esse raciocínio dominou a fotografia do século 20 e até hoje é muito válido, sobretudo no aspecto estético da fotografia instantânea. Mas há outros caminhos.

Sebastião Salgado é um exemplo. Seus trabalhos partem de um envolvimento com o objeto, que, aliás, não teria sequer esse nome frio e generalizante (e que coloca o fotógrafo numa posição de superioridade estética). Para Salgado, cada elemento de sua foto é uma pessoa, não um objeto. E mais. Cada pessoa tem um nome e uma história que vale a pena contar através da imagem. Seu primeiro trabalho que vi, no início da minha carreira como jornalista, no fim dos anos 80, foi a exposição do deserto de Sahel. Um trabalho impactante, muito superior aos trabalhos de fotojornalistas que estava acostumado a acompanhar por aqui, como Evandro Teixeira e Walter Firmo, para citar dois ícones do fotojornalismo brasileiro e excelentes fotógrafos, o primeiro vindo da tradição fotográfica do Jornal do Brasil, referência para o país naquela época.

Aquelas fotos de Salgado eram em todos os sentidos algo que ainda não havia visto. Eram mais do que o instante decisivo de Bresson. Eram de uma força viva. Os personagens tinham um quê de intimidade com a câmera e, por extensão, com quem olhasse aquelas imagens. Numa palestra-debate realizada após a inauguração da exposição, Salgado esclareceu isso, afirmando que convivia com as pessoas a ponto inclusive de saber os nomes de cada uma delas.


Outra coisa que me chamou a atenção naquele debate foi sua reclamação de que as perguntas dirigidas a ele restringiam-se basicamente a descobrir que equipamento ele usava, o tipo de filme etc. (uma Leica convencional e filme preto e branco Tri-X ou Plus-X, além de um puta trabalho de laboratório). Isso o incomodou a ponto de repreender a platéia: "Vocês não vão perguntar nada sobre o trabalho?" Aquilo me chamou a atenção para uma coisa comum naquele então: a preocupação com técnica e equipamento dominava o debate da fotografia no país, mas quase não se falava sobre estética ou os princípios que guiam o olhar do fotógrafo em seu ofício.

Ou seja, sabia-se tudo sobre as possibilidades do novo flash SB-26 e sua sincronicidade com o obturador, mas não se refletia muito sobre como estruturar uma história (jornalística, estética, antropológica, econômica etc.) em termos de imagens. Não se pensava, por exemplo, sobre a foto de abertura do documentário nem a diversidade de imagens possíveis e necessárias em torno de um tema para se contar sua história. Me pareceu que a fotografia brasileira estava condenada ao talento selvagem e intuitivo (ou seja, não reflexivo) de seus heróis, pois a grande maioria não conseguia sair do passo inicial de admiração com o mundo da técnica e do equipamento. De certo modo, acho que essa visão ainda perdura. Se o vocabulário agora é digital, a gramática permanece a mesma: a técnica.

Neste post, coloco algumas fotos de Salgado sobre o Sahel, encontradas na internet.

sábado, 19 de junho de 2010

Retrato americano


A tradição americana para o documentário e o retrato vem desde os primórdios da fotografia. Não estou falando dos fotógrafos voltados exclusivamente para o portrait, como Richard Avedon, Annie Leibovitz, Ralph Gibson ou Robert Mapplethorpe. Me refiro aos trabalhos que mesclam documentário e retrato, como, por exemplo, a produção quase arqueológica de Dorothea Lange, que fez o retrato da Grande Depressão americana, nos anos 30. É impressionante ver nos olhos daquelas pessoas a crise, a falta de trabalho, a nação falida.

Tratam-se de documentários em que o portrait também está de algum modo presente de forma poderosa, muitas vezes roubando a atenção da cena em si. Ou seja, dentro das imagens que contam história estão igualmente retratos de pessoas que humanizam essas histórias. Diane Arbus e seu olhar para o exótico, trazendo em imagens aquilo que a sociedade evitava olhar, acabou fetichizando a ideia de estigma, com uma expressiva produção, muitas vezes constrangedora. Seu trabalho era documentário, era retrato e, por isso, era arte. Impossível ver aquelas imagens sem se transformar interna e intimamente.

Mas, para mim, quem realmente encarna essa tradição documentarista e do retrato é Mary Ellen Mark. Sua produção é extremamente incrível e maravilhosa. Mas vou ilustrar esse post apenas com uma foto, exatamente a primeira que ela tirou que a fez se sentir fotógrafa. A adolescente do retrato acima é uma menina turca e, segundo Mary, foi a primeira foto que deu a ela a sensação de que havia feito algo, uma verdadeira fotografia. Foi realizada em 1966, em Trabzon. A fotógrafa conta, num depoimento ao livro Talking Picture, que não falava turco e não podia dar instruções à menina para posar assim ou assado. Foi a própria menina que se colocou espontaneamente dessa forma, trazendo toda a ambigüidade da adolescência, onde estão presentes os traços da menina que se vai e da mulher que se forma.

Diz Mary Ellen Mark, no livro: "Ela se posicionou ali. Ela está numa idade maravilhosa, um tempo na vida que todos reconhecemos. Para mim, essa foto diz todas aquelass coisaa que vêm à cabeça quando pensamos numa jovem menina que se torna mulher. A criança nos olha tão sedutora, mas ao mesmo tempo seu rosto é lindo e inocente. Suas roupas contradizem sua atitude. Seu rosto e seu corpo não pertencem juntos."

Volto ao Bresson: há um momento em que fotógrafo e objeto são um mesmo todo, unidos pelo visor da câmara. As coisas vão acontecendo nessa ligação e, em determinado ponto, entram em equilíbrio todas elass. É aí que se deve fazer o clique. E isso tudo num átimo, num záz. É difícil, mas quando ocorre, temos uma fotografia. Mary Ellen Mark se tornou uma mestra nessa arte.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O instante decisivo


Amigos, com este post inicio uma série sobre meus fotógrafos preferidos. E para começar, traduzi um texto do Henri Cartier-Bresson, chamado O instante decisivo, que resume toda a lógica do ato de fotografar do gênio francês, fundador, ao lado de Robert Capa e outros, da agência Magnum, a agência que abrigou a nata do fotojornalismo do século XX. Hoje, a fotografia se digitalizou, muitos recursos foram criados, sobretudo após o ato da fotografia em si, no Photoshop e coisa e tal. Mas as observações de Bresson continuam válidas e distinguem boa e más fotografias na superprodução que abunda a internet e outros meios atualmente.



O instante decisivo

Há um novo tipo de plasticidade na fotografia, produto das linhas instantâneas desenhadas pelo movimento do objeto. O fotógrafo trabalha em uníssono com o movimento, como se este fosse o desdobramento natural de como a vida se revela. Porém, em meio ao movimento existe um instante em que todos os elementos que se movem ficam em equilíbrio. A fotografia deve intervir neste instante, congelando o equilíbrio.

O olhar do fotógrafo está constantemente avaliando. Um fotógrafo pode captar a coincidência de linhas simplesmente ao mover a cabeça uma fração de milímetro. Pode também modificar a perspectiva com um leve dobrar de joelhos. Ao colocar a câmara próximo ou distante do objeto, o fotógrafo pode desenhar um detalhe — ao qual toda a imagem pode ficar subordinada, ainda que tiranize quem faz a foto. De qualquer forma, o fotógrafo compõe a foto quase no mesmo tempo que leva para apertar o disparador: na velocidade de um ato reflexo.

Algumas vezes o fotógrafo pára, atrasa, espera que a cena aconteça. Outras vezes, há a intuição de que todos os elementos da foto estão lá, exceto por um pequeno detalhe. Que detalhe? Talvez, alguém repentinamente entrando no enquadramento do visor. O fotógrafo, então, acompanha seu movimento através da câmara. Espera, espera e espera, até que, enfim, aperta o botão — e então o fotógrafo fica com a sensação de que captou algo (embora não saiba exatamente o quê). Mais tarde, no laboratório, ele faz uma ampliação da foto e procura nela as figuras geométricas que saltam aos olhos e o fotógrafo se dá conta, então, de que a foto foi feita no instante decisivo. O fotógrafo fixou um padrão geométrico sem o qual a foto estaria sem forma e sem vida.

A composição deve ser uma das preocupações do fotógrafo, mas no ato de fotografar isso só ocorre a partir de sua intuição, já que ele está ali para captar o momento fugidio e todas as relações dos elementos que compõem a cena estão em movimento. Ao aplicar a “regra dos terços”, o único compasso que o fotógrafo tem são seus próprios olhos. Qualquer análise geométrica, qualquer redução da foto a um esquema, só pode ser feita — devido à sua própria natureza — depois que a foto foi tirada, revelada e ampliada. E aí, ela só pode ser usada para um exame post-mortem da cena.

Espero nunca ver o dia em que as lojas de equipamentos fotográficos vendam esquemas geométricos para colocarmos nos visores de nossas câmaras; ou a "Regra dos Terços"(!) colada nos nossos óculos. Se um fotógrafo começa a cortar uma boa foto, isto representa a morte à correta relação geométrica das proporções entre os elementos que compõem a imagem. Além do que, raramente ocorre de uma má foto, que tenha sido mal composta, seja salva pela reconstrução de sua composição no laboratório, pois a integridade da visão do fotógrafo não estará mais lá. Há muita conversa sobre os ângulos da câmara, mas os únicos ângulos válidos existentes são os ângulos da geometria da composição e não naqueles fabricados pelo fotógrafo que se deita no chão ou coisa que o valha para encontrar seu enquadramento.

1. A "Regra dos Terços" consiste em dividir o enquadramento em linhas verticais e horizontais, das quais os pontos "nobres" da imagem seriam aqueles das interseções dessas linhas.

* Tradução livre e informal do inglês por Paulo Thiago de Mello de trecho do livro The Decisive Moment, New York, 1952. Copyright 1952 Cartier-Bresson, Verve and Simon and Schuster.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Bangüê e a arte de Zé Lins no tempo


Comecei a reler Bangüê, do Zé Lins do Rego, e fiquei surpreso com minha admiração que, entre essa e a primeira leitura há muitos e muitos anos, só fez crescer, sem que me desse conta. Me encanta o domínio da narrativa, ao mesmo tempo enxuta, como é o gosto da prosa de hoje, mas com elementos líricos, aqui e ali, que trazem aquela "imageria" a quem lê com sensibilidade. Isso me fez pensar, mais uma vez, na transição, ocorrida na segunda metade do século passado, de uma cultura em que a cognição era basicamente literária, sendo o rádio o meio de comunicação de massa mais utilizado e a TV ainda uma novidade, para a percepção extremamente audiovisual dos dias de hoje.

Com a nova cultura, uma nova moral, evidemente. E a tendência é achar que à medida que a humanidade ocidental "evolui", se torna mais liberal e livre de preconceitos. Mas, imagine o que aconteceria hoje, só para ficar no exemplo da pedofilia, com a mania de Lewis Caroll de escrever cartas a suas amiguinhas. Ou se Nabokov escrevesse hoje sua Lolita. Outro dia ajeitava os livros de casa e encontrei um do fotógrafo Jock Sturges, autor da foto que ilustra esse post, especializado em nus de famílias em campos de nudismo, cujos portraits trazem muitas crianças nuas, algumas mal entradas na puberdade. Acredito que hoje esse livro seria proibido, como um juiz proibiu a publicação de um trabalho de um fotógrafo paulista, cujo nome não me lembro, porque trazia crianças nuas.

Enfim, como sempre, trata-se do óbvio. Os tempos mudam e com eles as noções de certo e errado, de puro e impuro, sujo e limpo e por aí vai (hoje, por exemplo, muitas mulheres consideram os pelos pubianos um desleixo anti-higiênico imperdoável e andam todas raspadinhas por aí... hum!). A reação de quem vem de outro tempo, às vezes, é agarrar-se a valores que já foram embora, como melhores do que os atuais. Outros têm uma capacidade invejável de se atualizar constantemente, sendo pessoas de espírito desenraizado. De qualquer modo, fico feliz de deixar Zé Lins me levar mais uma vez por seu engenho e, com ele, me emocionar diante encontro com o amor e o baque bruto da desiluão no coração.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Terra santa


A foto acima é da AFP. É uma menina palestina que foi alvejada por uma bomba de gás antimotim, ou algo que o valha, durante um protesto, na sexta-feira passada, em Jerusalém Oriental, o bairro palestino na cidade, que vem sendo ocupado por judeus. Pelo acordo original que criou o Estado de Israel, no fim dos anos 40, Jerusalém deveria ser uma cidade transnacional, sob administração da ONU. Dá para entender a briga por Jerusalém (desde os tempos em que Saladino enfrentou os cruzados), sendo a cidade considerada santa para judeus, muçulmanos e cristãos — lá estão o santo sepulcro, o muro das lamentações e mesquitas sagradas — e, sua parte oriental, escolhida como a capital de um futuro Estado palestino. Mas, após a guerra dos seis dias, em 1967, Israel anexou a cidade e a declarou sua capital não oficial, embora isso não seja reconhecido pela ONU. Ou seja, na Terra Santa há uma confusão dos diabos e muito ódio sobrando.

O que me impressionou na foto, além de sua evidente violência, é a participação de jovens e adolescentes nos confrontos. Outro dia vi na TV, num documentário, duas adoelescentes israelenses, de origem judia, dizendo que os palestinos tinham que ser expulsos, sim, pois aquela era a capital de Israel e eles não tinham nada que estar fazendo ali. Não estou falando de judeus ortodoxos, que estão ocupando áreas palestinas a revelia do próprio governo israelense, mas sim de duas jovens aparentemente de classe média.

Do outro lado, radicais do Hamas e outros tantos grupos islâmicos querem destruir Israel e os judeus, a quem não reconhecem o direito à existência, muito menos a um Estado — alguns malucos, como o Ahmadinejad, chegam mesmo a negar uma calamidade histórica vergonhosa e lamentável como o holocausto, o que é absurdamente grave. Mas, mesmo sem considerar esses radicais, vê-se nas fotos, nas marchas e protestos, jovens comuns, até mesmo crianças.

Isso tudo me deixa muito pessimista quanto a uma solução. Trata-se de uma confusão que passa pelo religioso, passa pelo étnico (não podemos esquecer o preconceito largamente disseminado contra os judeus), passa pelo político e também pelo econômico. E cada ato alimenta a reação do outro num círculo vicioso sem fim. Ou seja, é uma confusão dos diabos.

Defendo o direito de ambos os povos, palestinos e judeus, terem seu Estado, autodeterminação, autonomia, território etc e tal. E que Jerusalém continue sendo uma cidade transnacional. Uma solução que, a considerar pelo ataque à flotilha humanitária que levava víveres à Gaza, parece cada vez mais difícil.

Aliás, sobre o ataque, merece entrar para a série "declarações infelizes", a nota oficial do consulado de Israel de que os barcos estavam apinhados de terroristas armados até os dentes. Estou mailing list do consulado de Israel e recebi a nota oficial do cônsul, dizendo que as tropas reagiram ao serem atacadas por terroristas e coisa e tal. E, enquanto lia essas desculpas esfarrapadas, via as fotos das agências de notícias, mostrando uma atiradeira apreendida... Era melhor ter ficado calado.

domingo, 30 de maio de 2010

Sexo & erotismo






No início dos anos 80, eu começava o curso de jornalismo na faculdade. Havia acabado de comprar uma câmera, uma Yashica, na zona franca de Manaus, e me matriculara num curso extracurricular de fotojornalismo, cum um sujeito extremamtente mal-humorado (naquela época fazia parte da identidade profissional do jornalista ser antipático, arrrogante e grosseiro, hoje, com o desprestígio do ofício, a coisa melhorou um pouco). Mas o curso era muito interessante porque era calcado na prática. O professor sorteava um tema, que podia ser qualquer coisa, e tínhamos então uma semana para fazer as fotos, um fim de semana para revelar, fazer contato, selecionar e ampliar o material (no laboratório da faculdade) e apresentar o trabalho para o julgamento do professor e demais colegas.

Meu primeiro tema foi: Central do Brasil. Fiz então umas fotos da estação e depois brinquei com os reflexos das janelas. Nada muito legal, mas tinha uma vergonha muito grande de me aproximar das pessoas, de modo que optei por fotografar coisas. Ao apresentar o trabalho ficou evidante a falta de gente nas fotos. Todos falaram sobre isso e me vi diante do dilema: se quero ser jornalista, não posso ter vergonha de me aproximar das pessoas, seja para fotografar seja para conversar. Aí, veio o segundo sorteio: sexo & erotismo. Apavorado e sem saber ao certo o que fazer, fui para a praia. Ou faria alguma coisa ou desistiria para sempre e pegaria um sol, pelo menos não perdia meu sábado.

Agora, remexendo os arquivos para scanear, achei as fotos acima. Fiz uma seqüência de uma amiga, a Tininha (que depois se tornou minha modelo em outros ensaios) comendo sanduíche de ricota com cebola, e fotografei corpos na areia. Naquele início dos anos 80, as meninas do Posto 9 usavam biquínis baixos, deixando um pouquinho dos pentelhos aparecendo e expunham, sem muita culpa ou vergonha, suas virtudes corporais. As fotos dos corpos não trouxeram nada demais, mas a idéia de fotografar alguém comendo sanduíche, como sexo & erotismo, provocou uma boa discussão no curso. As fotos acabaram expostas numa exposição realizada pelo Metrô, na Estação Carioca.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Vila Mimosa na livraria da Travessa

Amigos, nesta terça-feira, dia 18, na livraria da Travessa (na Ouvidor), será o lançamento do livro da antropóloga Soraya Silveira Simões, Vila Mimosa: Etnografia da cidade cenográfica da prostituição carioca (EdUFF), com fotos da fotógrafa francesa Olivia Gay e da brasileira Gianne Carvalho. A coisa começa lá pelas 18h e recomendo muitíssimo a todos. Reproduzo abaixo a resenha que fiz sobre o livro para o Prosa & Verso, do Globo:

A cidade cenográfica da prostituição

Antropóloga analisa a construção da nova identidade social da zona de meretrício em etnografia sobre a Vila Mimosa

Paulo Thiago de Mello

Manuel Bandeira escreveu, referindo-se às pessoas que trabalhavam numa antiga zona de prostituição do Rio de Janeiro, que "gente como a do Mangue vive porque é teimosa". E foi com pertinência que a antropóloga Soraya Silveira Simões recorreu à frase de Bandeira para abrir o capítulo inicial de seu livro, Vila Mimosa: Etnografia da cidade cenográfica da prostituição carioca (EdUFF, no prelo), uma adaptação de sua dissertação de mestrado, defendida na Universidade Federal Fluminense. Noções como teimosia e resistência estão no coração de sua narrativa, que, numa prosa bem costurada, leva o leitor a se aventurar pelos mais de 70 bordéis de uma rua sem saída da Praça da Bandeira.

Soraya parte da dramática relação de prostitutas e cafetinas do Mangue com o poder público, as corporações interessadas em ocupar a região, os planejadores urbanos com seus projetos de renovação, políticos e a polícia. É no bojo desse embate, que remonta aos anos 1980, que se consolida a organização política das prostitutas e surgem líderes como Gabriela Silva Leite, fundadora da ONG DaVida. Em 1996, porém, as meninas da Vila Mimosa, último resquício do Mangue, são removidas para dar lugar ao Teleporto e ao complexo da prefeitura, sugestivamente apelidado pela população de "Piranhão".



Com os recursos da indenização, as mulheres compram um galpão à rua Sotero dos Reis, formando o núcleo do que hoje passou a ser chamado de Vila Mimosa II — ou VM II —, um espaço, ou melhor, um lugar marcado por uma cenografia propícia ao jogo de sedução que caracteriza a ambiência da zona.

A mudança não se dá sem conflitos. Os moradores da área protestam, queimam pneus e apelam às autoridades contra a presença indesejada das prostitutas em seu bairro, temendo o contágio do estigma que marca a profissão. O movimento da Vila Mimosa, no entanto, acaba trazendo prosperidade ao local. Bares e hotéis, antes às moscas, passam a ganhar dinheiro com a crescente movimentação. E os moradores, antes desconfiados, descobrem que podem lucrar, alugando quartos, fazendo baby sitter, vendendo roupas etc.



Situada no espaço reservado pela sociedade ao desvio, à flexibilização de normas e etiquetas, a zona de prostituição cenograficamente construída na Vila Mimosa II acabou por constituir o que na sociologia urbana se chama "região moral", definida e demarcada por seu métier, reconhecido por todos em suas múltiplas representações. Soraya lembra que os lugares do desvio na cidade são circunscritos, geográfica e simbolicamente. É assim que se pode falar "de meninos de rua, travestis da Lapa e das putas da Vila Mimosa".

"Na Vila Mimosa não se chega, se entra"

E a VM II cumpre essa prescrição sem ambigüidade, ao contrário de outras áreas de prostituição do Rio, como a Praça Mauá, também reduto da boemia e zona portuária; ou a Avenida Atlântica, área turística e residencial. Por isso, lembra a autora, na Vila Mimosa "não se chega, se entra". O toldo amarelo de uma loja na metade da rua demarca o início da zona, separando simbolicamente aquele território moral do resto do bairro. Atravessar esse limite é entrar em outro universo, simultaneamente previsível e imponderável, onde o jogo de encenações dá aos atores papéis que só ali podem ser desempenhados.

A partir da mudança de endereço, os atores da zona se esforçam em mudar também as representações sociais sobre o ofício — hoje reconhecido pelo Ministério do Trabalho — como um negócio que tem no domínio do corpo seu principal ativo. A antropóloga mostra como, tendo um pé no Mangue como evocação da resistência do grupo — ou da teimosia percebida por Bandeira —, as pessoas envolvidas no negócio da prostituição na VM II deram novos sentidos à identidade social do ofício.



Nesse processo, é criada a Associação dos Moradores do Condomínio e Amigos da Vila Mimosa (AMOCVIM), para atuar não apenas como representante dos interesses de donos de casas, prostitutas, moradores e comerciantes da Vila Mimosa, mas também como agente propagador e controlador da nova imagem da prostituta. Através da Associação, as profissionais da VM II obtêm acesso a academia, cabeleireiro, manicure, clínica médica. Ela também promove uma série de atividades, como o concurso de beleza Gatinha Mimosa, churrascos e projeções de filmes, para sedimentar o novo conceito de zona.

A instalação da clínica evidenciou ainda uma forma de controle moral. Fazer exames tornou-se não só uma obrigação, mas um temor. Quem evitava o médico tornava-se suspeito de estar doente, aos olhos dos donos de casa e das próprias prostitutas, que condenam comportamentos de risco, como sexo sem camisinha ou sexo anal, classificando-os como "sem-vergonhice" ou "baixa auta-estima". Soraya menciona o caso de uma profissional que, ao ser diagnosticada como portadora do vírus HIV, teve as portas da Vila Mimosa fechadas para ela.

Pesquisa revela tensões do dia-a-dia da zona

O trabalho de campo também registra a tensa relação entre donos de casa e as prostitutas, os conflitos de interesse na disputa pelos clientes, o processo de sedução e de procura no espaço da Vila, a presença de curiosos, entre outros aspectos do dia-a-dia da zona.

No plano da luta política das prostitutas da Vila Mimosa, a etnografia detalha ainda a briga, ao lado do então deputado Fernando Gabeira, para retirar do Código Civil a criminalização de lenocínio, vadiagem e atentado ao pudor. São esses aspectos de criminalização que abrem espaço para a ação e domínio de agentes públicos corruptos nas áreas de prostituição. O livro também trata, numa de suas passagens mais interessantes, da formação da prostituta, a partir de sua chegada e acolhimento na Vila Mimosa. Estão ali ainda os enredos tristes como justificativa moral para a prostituição e o sonho de "largar essa vida" enunciado até por aquelas que assumem o ofício como vocação.



A inquietação que levou Soraya ao campo surgiu ao fazer um ensaio fotográfico sobre prostituição. Ao enquadrar aquelas mulheres em suas lentes, surpreendeu-se ao percceber que, onde achava só haver o outro exótico, ali estava também alguma possibilidade de "nós". Um reconhecimento do gênero através do sexo, não apenas em seu aspecto biológico, no elo que o corpo feminino estabelece, mas igualmente na sua forma social, com todos os papéis que a sociedade reserva à mulher. Tratou-se, portanto, de um encontro que se deu simultaneamente pelo contraste e pela complementaridade.

Associada ao Laboratório de Etnografia Metropolitana (LeMetro/IFCS/UFRJ), coordenado pelo antropólogo Marco Antonio da Silva Mello, Soraya faz parte de um grupo de pesquisadores que se debruçam sobre as questões da cidade, daí o uso de métodos de pesquisa tributários da etnografia urbana contemporânea. Hoje, ela é pesquisadora convidada do ClerséCentre Lillois d'Études et Recherches Sociologiques et Économiques, da Universidade de Lille 1, na França. Seu livro, com lançamento previsto para janeiro, certamente ajudará o leitor a ver além dos estereótipos e do estigma que marcam amais antiga profissão do mundo.