Há coisa de uns cinco ou seis anos, estava em casa de bobeira, quando o telefone tocou. No outro lado da linha, o poeta Erickson Luna. Por sugestão de Soraya Simões, ele me ligava de um hospital do Recife, onde se recuperava de uma fratura. Estava sóbrio e falamos por uns cinco minutos, nesta que seria a nossa última conversa. Luna morreria alguns meses depois. Ele foi um poeta tão genial como radical. Desses artistas, como Manduka, que se entregam de corpo e alma à sua arte, sem concessões de qualquer espécie e que acabam morrendo abandonados, indigentes. Estar perto dessas pessoas é viver uma intensidade tal, que o cotidiano depois nos parece vazio de sentido. É uma experiência transcendental. E pessoas assim, me parece, hoje já não cabem no mundo compartimentado e digital que vivemos.
A primeira vez que vi Luna foi um susto. Estava com poetas, jornalistas e antropólogos, numa mesa misturados, num mercadinho no Centro velho de Recife. Braulio Brilhante, Chico Espinhara, Soraya, entre outros, pessoas que fazem a prosa voar, a conversa espiralar. Braulio e Espinhara tocando um movimento de poesia marginal da maior qualidade em Recife. Marginal no sentido da marginalidade mesmo, com todo o respeito ao CEP 20 mil (Espinhara morreu meses depois de Luna, consumido por versos e álcool). Naquele dia, esperávamos a chegada desse poeta genial, que queriam me apresentar. Era o bêbado que eu vira adormecido no chão, próximo à entrada do banheiro infecto do mercadinho.
De repente, como surgido da poeira, como uma entidade das ruas, aparece o mendigo-poeta. Era Luna, figura esquálida, com cavanhaque e cabelos desgrenhados. Uma fúria nos olhos, que ganhava vida em momentos de indignação. Muito parecido com Manduka nesse sentido. Luna sorriu para a mesa, mirou os olhos arrebatados de Soraya e recitou uns versos para ela, enquanto ouvíamos em silêncio. É difícil narrar isso sem soar piegas, mas, na intensidade do momento, foi uma chegada. Uma alma que faz falta ao mundo de hoje e que merece ser lembrada sempre
Deixo uns versos de seu último livro, Do moço e do bêbado:
Pra eu poder
e só
andar nas ruas
fez-se em volta uma cidade
Para se dar
mais colorido à noite
pôs-se acima um luminoso
E pra que eu
me sinta bem enfim
nesta cidade
há-se em mim um cidadão
Portanto livre
como o que é em noite
e que enche as ruas
perseguindo luzes
acordado
ainda que em sonhos
íntegro
ainda que meio-homem
plenamente meio
mariposa
quarta-feira, 26 de março de 2014
sexta-feira, 21 de março de 2014
Meditação
Hoje acordei em meio à ventania desarranjando a casa. Papéis no ar, garrafas ao chão... calor no primeiro dia do outono. A nova estação chegou para acalmar o espírito. Então ouvi dois CDs do Guinga. Fui entrando naquele universo harmônico de altíssimo bom gosto. Aqueles acordes estranhamente familiares. Choros, valsas que me lembram Manduka: aquela coisa rara que não se ouve por aí. Não vou falar sobre o popismo que domina a MPB e que iguala tudo numa escala de equivalência que os críticos e os empresários do mundo fonográfico podem entender e faturar. Uma linguagem comercial no seu sentido mais singelo. Não vou julgar as coisas de arrepio do momento. Fugazes melodias que embalam o dia a dia nos ônibus. Mas quando entro nessa outra esfera, dois passos acima do chão, além da mediana, a música se torna uma outra experiência. Uma implosão. O cansaço se desfaz, lavado pela emoção estranha. Aquela sem nome, incomum, especial. E desperto para o dia transformado.
sábado, 8 de março de 2014
Canção do outro
Uma sensação de saudade antiga — mistura de perda de alguém com o tempo que se foi. E além. Um vazio tão oco, que não se espreita ver o fundo. E que esse mesmo não há. Pois foi essa que veio, cedo, a luz do dia ainda esquecida de si, atrás do morro e o céu com estrela. Veio no silêncio sem ventos e quieta se instalou plena no centro do peito. E vi você tão longe que nem sei. Confundi os sopros. Vi que não era, na verdade, você. Outro você. Diferente o mesmo. Interno segredo íntimo de ser você e eu a mesma face do espelho. Embolados num mundo sem palavras. Sensações. Distância que não se mede em léguas. Tão longe que só se vê pelo coração cortado, escorrendo o sangue na dor do quase que fomos, no triz do ser que se incompleta de si. Inalcançável de tão dentro.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Guimarães Rosa, um regionalista?
Estou lendo o livro de cartas do Caio Fernando Abreu,
organizado por Italo Moriconi, e me deparei com uma delas, endereçada a Hilda
Hilst, na qual o escritor cita Guimarães Rosa como um escritor regional. Essa
classificação ficou me perturbando a mente dias e dias e, por fim, me obrigou a
refletir sobre o incômodo. Pra começo de conversa, preciso esclarecer que os
romances do Caio nunca me pegaram. Ele foi um bom escritor, mas não fez nada de
extraordinário no plano da literatura.
Nem acho que esse tenha sido o sua meta, sendo filho de uma época
desencantada com o fim de utopias que movimentaram as gerações anteriores, seja
pelo viés político da “revolução”, que trará justiça social ao mundo; ou pela
transcendência individual por meio do “desbunde”. É justamente esse caráter
iconoclasta de quem já não tem mais nada a perder que permite perturbar cânones
e inverter ordens. O que é bom.
Mas isso não confere necessariamente verdade e esses abalos, e achei rasa a afirmação de Caio sobre o velho Guima.
Chamá-lo de escritor regional é não perceber o vigor e a complexidade de sua
produção. É limitá-lo ao universo restrito da gemainschaft, o mundo rural em
oposição à vida urbana, rica em contrastes furiosos e constantes. Mas o universo
de Guimarães Rosa é de uma complexidade que está mais perto da gesellschaft. As grandes questões existenciais que perpassam o ser da cidade, também estão lá na mente dos personagens de Guimarães Rosa, enquanto olham a margem do rio.
Veja-se o caso de Grande Sertão: Veredas: Um romance em que o narrador é o protagonista, que dialoga com um interlocutor
invisível e que, muito provavelmente, vem do universo urbano. O pano de fundo
da história é uma guerra, justamente a guerra entre uma forma de vida de
valores patriarcais e religiosos que vai sendo confrontada pelo racionalismo da
República. Esse conflito é que põe o sertão em turbulência, com antigas e novas
forças sociais se digladiando Gerais afora adentro. Coronéis, jagunços,
vaqueiros, padres, policiais e outros personagens que se cruzam nesse drama
social trazem o contraste desses mundos em choque. Nosso protagonista,
Riobaldo, é arrastado contra sua vontade para esse conflito e se torna um
grande líder, depois de muito relutar. Ao mesmo tempo, se apaixona por um
companheiro, mergulhando numa crise de identidade profunda. Afinal, não se
reconhece como homossexual, mas não consegue explicar e muito menos negar a
atração por Diadorim. E, por fim, a profunda discussão metafísica sobre a existência
de Deus e o diabo. De fato, classificar um romance desse como uma mera produção
regional, com todo o respeito ao Caio, uma percepção míope.
Um trecho do Grande Sertão:
"O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro — dá gosto! A força dele, quando quer — moço! — me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho — assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza."
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Empata-foda
Querida amiga, outro dia pensava sobre nossas predileções literárias e
me dei conta do peso que esse gosto, tão pessoal, tem como parâmetro
amoroso entre as pessoas. Você, por exemplo, gosta do poeta V. e eu
sempre tive uma certa preguiça em relação à produção metafísica dele,
preferindo seu lado mundano e mulherengo. Portanto, V., para mim, é um
poeta parcial, pois não enveredei por suas inquietações sobre Deus e o
Cosmos. E, veja, não é que não goste de V.. Apenas não senti o impulso
de lê-lo nessa vibração espiritual, preferindo seu lado secular, sua
bossa nova, seus amores carnais. Nessa onda ele é genial. Mas é essa
divisão que me impede de elegê-lo como predileto. E me pergunto se não é
essa a verdadeira razão do nosso desencontro. Como um planeta
interceptado na quadratura de um signo incompatível ou coisa que o
valha. Por amor a você, até atravessaria as veredas de reflexões
patafísicas de V. na esperança de ver abrir em mim uma iluminação
reveladora do lirismo que antes não percebia, e, por meio de V, exibisse
orgulhoso todo o meu amor por você. Mas você mesma sentenciou: "Você
não gosta de V.", me disse outro dia, tão casualmente quanto alguém que
se resigna a uma diferença abissal e incompatível. Tremi de medo de que
não fôssemos mais o que quer que somos no campo do afeto, esse gostar
que fica aquém do que quero e além do que você suporta. Um limbo cheio
de aventuras perigosas. O seu poeta V. acabou ficando entre nós, veja
você, como um empata-foda, o que me fez escrever esse poema pra você,
querida amiga:
Queria ser um poeta
Como aquele que vive em teu peito
E repetes os versos d'alma
Queria poder estar tão dentro de ti
Habitado de teus sonhos
Como, sem saber, está o poeta
Aquele que vive em teu peito
Sem perceber-te entregue
Como entregue me ponto a ti
Queria ler teu corpo
Como teu poeta recita versos d'alma
Conjugaria teus músculos
E aprenderia teu beijo
Como quem decora poesia
Queria ser um poeta
Como aquele que vive em teu peito
E repetes os versos d'alma
Queria poder estar tão dentro de ti
Habitado de teus sonhos
Como, sem saber, está o poeta
Aquele que vive em teu peito
Sem perceber-te entregue
Como entregue me ponto a ti
Queria ler teu corpo
Como teu poeta recita versos d'alma
Conjugaria teus músculos
E aprenderia teu beijo
Como quem decora poesia
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
A vida como ela é
Você chega; me levanto, cortês e ansioso. O panamá na mão. Um abraço trêmulo e nos sentamos. Você diz: "Que calor!"; peço uma cerveja. Os olhos se cruzam, envergonhados, meio sem jeito. Trocamos frases cotidianas. De chegada. Assuntos alheios, mundanos. Mas os olhos dizem mais. Perscrutam minuciosamente. Sem deixar escapar nada. Mas são as palavras que vão abrindo as portas, criando trilhas; e somos eloquentes. A cada frase, a conversa adensa e nos aproximamos mais. Apesar da configuração difícil, quase impossibilidade, por outros laços em que nos atamos. Mas também descartamos a indiferença. E somos honestos em reconhecer, sem dizer, o desejo. A cerveja chega. Você diz ao garçom: "Obrigada!" Nos soltamos mais, aliviados pela situação cada vez mais definida em suas imprecisões. Há um campo de possibilidades, vasto, apesar dos laços alheios. "Vou ao banheiro", você diz, após o enésimo copo. Espero sua volta, como o tigre espreita a gazela na floresta. Quando chega, gesto felino, pego-a pela mão com firmeza; você para. Me levanto, ansioso. Pouco cortês, mas incisivo, ignoro as etiquetas, inclino para o beijo, enquanto puxo seu rosto. Vejo um pânico fugidio em seus olhos, mas, por fim, você aceita a investida e se entrega. O tempo para, enquanto sinto esse primeiro ato de amor, apesar da culpa. A obscenidade está fora de nós; não no beijo. "Sou puta?", você sussurra constrangida. Aperto seu corpo contra mim, como quem diz que não. "Te amo!", digo, como se isso fosse suficiente. Não é. Nos sentamos novamente e brindamos a vida como ela é. Me levanto e digo: "Minha vez!" E parto para o banheiro, exíguo, infecto, onde entro pisando em nuvens.
domingo, 5 de janeiro de 2014
Sobre perdas
Meu pai morreu dia 11 de novembro de 2013. Passou tranquilo,
dormindo, depois de uma vida bem vivida até os 80 anos. Reclamava um
pouco da solidão nos últimos anos e se empedrara num mundo todo seu,
onde as coisas mais básicas de que precisava estavam ao alcance da mão,
exceto, talvez, a companhia inexistente de alguém ao lado. Inclusive o
piano Steinway & Sons, onde compunha seus temas. Um câncer raro o
levou. Não fosse isso, creio que viveria até os 100 anos. Era forte e
saudável. Há muitos anos não bebia nem mesmo a cervejinha. Apenas um
aperitivo após o almoço. Quando foi avisado do diagnóstico, em agosto de
2012, o médico não escondeu as perspectivas sombrias, informando
inclusive as estatísticas de sobrevida das pessoas com esse tipo de
tumor: de três a seis meses, após o diagnóstico. Ele superou, portanto,
todas as expectativas e seguiu, inclusive apresentando uma melhora. Mas
dizia, em tom forçadamente casual, que cruzaria o Rio Jordão em abril.
Quando estive com ele em novembro de 2012, numa Nova York gelada,
indaguei de onde havia tirado aquele mês. "O médico falou", respondeu.
Então escrevi pra ele o poema que segue:
Quando abril chegar
E o sol mudar o arco de sua curva
Talvez não sejas mais
Do que memória e falta
Dependerá do sonho de vida
Que costuras agora no tecido do dia
Para cobrires tua existência
Quando abril chegar
Talvez seja tarde demais
E o tempo cumpra os presságios
Que murmuras hoje
Dependerá da vida que sonhas
A vontade de mudar o arco da curva
Que o sol desenha no espaço.
Em fevereiro estive novamente com ele. Me parecia mais saudável, embora não houvesse tratamento possível. O tempo se esgotava silenciosamente. Ainda assim recuperamos um pouco do humor. O café da manhã era o nosso melhor momento juntos. Sempre fora e, agora, tinha um valor especial, com a ideia de despedida. Eu fazia o café forte, como ele apreciava e comíamos conversando, contando histórias. Um dia, seu humor estava tão pra cima, que posou para mim com chapéu de Tupac Amaru e máscara sandinista.
Deixei-o com a promessa de voltar. Mas não consegui. Em novembro de 2013, na madrugada do dia 11, uma segunda-feira, ele atravessou o rio. Foi-se dormindo. Ao que consta, não sofreu. Durante todo o processo, só foi sentir dores nos últimos dias, quando recorreu à morfina.
Foi-se o homem ficou o mito. O grande artista, o compositor, o músico, multi-instrumentista. Obituário nos jornais. Organizamos agora uma expedição para cumprir seu último desejo: jogar suas cinzas no encontro das águas do Solimões e Negro, onde nasce o Rio Amazonas.
Ainda sob o impacto dessa perda, no dia 17 de dezembro foi a vez de minha mãe. Se a morte de meu pai foi vivida a distância, a da minha mãe foi sentida momento a momento, ao lado dela. Do primeiro dia em que foi internada com falta de ar e dificuldade para respirar, até a madrugada em que ligaram da clínica para avisar que ela havia passado. Enterramos em 12 horas. Não deu para avisar ninguém e, mesmo assim, compareceram ao São João Batista uma boa centena de pessoas. Amigos dos três filhos e as amigas dela. Umas donas arretadas, bossa nova, de humor mordaz.
Minha mãe não era artista. Era uma pessoa simples, que sofreu muito na vida, mas nunca deixou que isso tirasse sua leveza. No dia mesmo em que a levei ao hospital, quando fazia 40 graus sufocantes e ela mal respirava, ao descer do táxi, agradeceu, simpática, ao motorista. Impossível pensar que estaria entrando na clínica para não mais sair com vida. Morreu uns dez dias depois. E ainda me recupero do calvário que foi conviver com UTIs, médicos, enfermeiros, burocratas de hospitais e cemitério.
Agora a vida segue. Sinto a dor dessas perdas irreparáveis, uma angústia que vem com a sensação de desamparo, mas também me sinto pronto pra seguir em frente, tentando ter a mesma leveza que ela teve enquanto viveu.
Quando abril chegar
E o sol mudar o arco de sua curva
Talvez não sejas mais
Do que memória e falta
Dependerá do sonho de vida
Que costuras agora no tecido do dia
Para cobrires tua existência
Quando abril chegar
Talvez seja tarde demais
E o tempo cumpra os presságios
Que murmuras hoje
Dependerá da vida que sonhas
A vontade de mudar o arco da curva
Que o sol desenha no espaço.
Em fevereiro estive novamente com ele. Me parecia mais saudável, embora não houvesse tratamento possível. O tempo se esgotava silenciosamente. Ainda assim recuperamos um pouco do humor. O café da manhã era o nosso melhor momento juntos. Sempre fora e, agora, tinha um valor especial, com a ideia de despedida. Eu fazia o café forte, como ele apreciava e comíamos conversando, contando histórias. Um dia, seu humor estava tão pra cima, que posou para mim com chapéu de Tupac Amaru e máscara sandinista.
Deixei-o com a promessa de voltar. Mas não consegui. Em novembro de 2013, na madrugada do dia 11, uma segunda-feira, ele atravessou o rio. Foi-se dormindo. Ao que consta, não sofreu. Durante todo o processo, só foi sentir dores nos últimos dias, quando recorreu à morfina.
Foi-se o homem ficou o mito. O grande artista, o compositor, o músico, multi-instrumentista. Obituário nos jornais. Organizamos agora uma expedição para cumprir seu último desejo: jogar suas cinzas no encontro das águas do Solimões e Negro, onde nasce o Rio Amazonas.
Ainda sob o impacto dessa perda, no dia 17 de dezembro foi a vez de minha mãe. Se a morte de meu pai foi vivida a distância, a da minha mãe foi sentida momento a momento, ao lado dela. Do primeiro dia em que foi internada com falta de ar e dificuldade para respirar, até a madrugada em que ligaram da clínica para avisar que ela havia passado. Enterramos em 12 horas. Não deu para avisar ninguém e, mesmo assim, compareceram ao São João Batista uma boa centena de pessoas. Amigos dos três filhos e as amigas dela. Umas donas arretadas, bossa nova, de humor mordaz.
Minha mãe não era artista. Era uma pessoa simples, que sofreu muito na vida, mas nunca deixou que isso tirasse sua leveza. No dia mesmo em que a levei ao hospital, quando fazia 40 graus sufocantes e ela mal respirava, ao descer do táxi, agradeceu, simpática, ao motorista. Impossível pensar que estaria entrando na clínica para não mais sair com vida. Morreu uns dez dias depois. E ainda me recupero do calvário que foi conviver com UTIs, médicos, enfermeiros, burocratas de hospitais e cemitério.
Agora a vida segue. Sinto a dor dessas perdas irreparáveis, uma angústia que vem com a sensação de desamparo, mas também me sinto pronto pra seguir em frente, tentando ter a mesma leveza que ela teve enquanto viveu.
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Agrupamentos e movimentos
Mas voltando ao catálogo dos marginais, a introdução,
escrita por Frederico Coelho, faz uma boa análise, mas senti uma certa forçação
para dar a esse grupo heterogêneo de poetas um sentido de grupo. Uma das suas
estratégias é separá-los de outros grupos de poetas da nossa contemporaneidade.
Mas como isso é insuficiente, ele não tem como escapar a certas contingências
históricas que explicam por que escritores distantes em seus estilos foram
reunidos sob o signo de marginal.
Isso me deu asas pra pensar muitas coisas, que só vou
alinhavar aqui, enquanto elas vão ganhando uma forma mais consistente em meu
raciocínio. Em primeiro lugar, fica claro que há agrupamentos e movimentos. Uma
coisa são os modernistas e as vanguardas pós-1950, com seus manifestos e cânones.
Por mais vanguardistas que sejam, esses movimentos têm vinculações com linhagens com tradições.
Como dizia o Risério, a vanguarda tem uma relação dialética com a tradição, nem
que seja o rompimento. E esses grupos se forjaram por meio desse relacionamento
problemático, o rompimento do filho com o pai, como uma espécie de processo
psicanalítico coletivo. Daí suas regras estritas expressas em manifestos e
prescrições. Combatem formalismo com formalismo.
Outra coisa bem diversa são agrupamentos. Os poetas
marginais e os da geração de 45 estão a meu ver nesse segundo grupo. Não dá
para classificar a poesia marginal ou a produção dos poetas de 45 como um
movimento, pois o que os amarra no discurso descritivo são coisas
contingenciais, como a forma material de produzir (o mimeógrafo, no caso dos
marginais), ou como preocupações estéticas gerais, como o retorno a certo
formalismo para romper com ele novamente, como no caso da geração de 45. Como
colocar no mesmo grupo, por exemplo, Geraldo Carneiro e Chacal; Cacaso e Wally
Salomão?
Há muito fetichismo e considerável desconhecimento sobre
esses agrupamentos. O próprio Coelho, na introdução do catálogo da exposição
dos marginais, se refere ao soneto como uma obrigatoriedade da produção poética da geração de 45. Taí um agrupamento pouco debatido, compreendido e mergulhado num relativo
esquecimento da crítica, da mídia e dos poetas contemporâneos. A volta ao
formalismo rompido pelos modernistas nunca foi perdoado. Foi mal compreendido como
um retrocesso em relação à vanguarda dos anos 1920. Mas, na verdade, a
experiência do retorno à forma era a forma de poder romper novamente com a
tradição. Antes de recorrer ao verso livre, aprender a redondilha e as
formalidades das linhagens tradicionais, reforçando a experiência do
rompimento.
Mas isso não está escrito em lugar nenhum. Aparece em
conversas dispersas, em pedaços de declarações e depoimentos incompletos. Nas entrelinhas. É
preciso pescar essa percepção das empoeiradas estantes das bibliotecas, mas
isso dá trabalho e uma geração como a de 45 não desperta interesse midiático. É
melhor falar de poetas ligados a certos movimentos, como as vanguardas pós-50,
abençoadas pelo tropicalismo de Caetano & Gil. Taí uma explicação possível para o
sucesso editorial da poesia de Leminski: sua vinculação por afinidade a uma
estética e filosofia que se tornou vitoriosa na contemporaneidade. O tropicalismo
é o hoje o nosso cânone.
Enquanto isso, lembro que o Coletivo Chama convida
para o show de lançamento do segundo CD do Escambo, Neon, hoje, no Espaço Cultural Sérgio
Porto, às 20h.
domingo, 8 de setembro de 2013
Enquanto isso
Não me lembro se foram nove setembros ou sete novembros. O
tempo não escorria assim naquele hiato. Era um estar estando, e quando o raciocínio vinha, o momento já era outro. É como se ideia como tal só fosse
possível no passado. O pensamento como algo ido. Lá atrás. Ou então se projetava
para frente. Num a-vir, num a-qualquer-momento. Como será tudo lá
adiante. Amanhã. Depois da esquina de nossos dias. Enquanto isso, no agora, só vida e
sonho. Intensa vida ao seu lado, amiga. Circulando, embrenhando, penetrando. Sofrendo, gozando. Simbiose.
Um limbo tão extasiante quanto irreal. Tão irreal como tempo esquecido em
tantos outubros, em muitos dezembros.
quinta-feira, 4 de julho de 2013
O velho Aurora de volta
Uma pausa na revolução em andamento para falar de coisas da
vida. O velho Aurora foi comprado. O histórico bar da Visconde de Caravelas com
Capitão Salomão, no limite entre Botafogo e Humaitá, faz parte da minha vida
desde o fim dos anos 1970. Desde a época em que havia a figura história do
garçom Lima, com sua arruda na orelha e um atendimento como não se vê mais. Nos
primórdios era um ponto de encontro da juventude, especialmente músicos e
atores. Suas paredes eram repletas de cartazes de shows e peças de teatro, na
época em que as camisetas “Vá ao teatro” ainda não tinham sido sacaneadas pela
turma do Cassetta com o complemento: “Mas não me chame”.Me lembro de mesas com Manduka, Enrica Bernardelli, Geraldinho Azevedo, entre outros, e discussões intermináveis e estratosféricas.
O casarão, de 1898, abriga um ambiente amplo, típico dos
botequins do início do século 20. A cozinha tinha o bem servido carro-chefe:
Lulas com arroz e brócolis. A lula vinha desfiada em tiras finas e o arroz
verde ficava suculento. Comiam três. O lombo de bacalhau (àquela época ainda
era possível comer bacalhau em botequim sem ficar pobre) à moda portuguesa era
outro sucesso do bar. Tudo receita da família de meu amigo Rogério Loro, que
trocou o bar pelo jornalismo.
Depois, a família de Loro saiu, deixando o outro sócio
tomando conta do lugar, a coisa começou a decair aos poucos. O prato com lula e
arroz e brócolis nunca mais foi o mesmo (hoje em dia é possível comer algo
semelhante no Bismarque, em Botafogo), e as carnes entraram firme, substituindo
os peixes e frutos do mar. Além disso, o bar passou a ter o defeito de fechar
cedo. Às 21h30 já era possível sentir o nervosismo dos garçons, apressando
pedidos, avisando que a cozinha iria fechar e coisa e tal. A gota d’água foi a
última vez que fui lá, há pouco tempo, com minha amiga Renata Malkes: só estavam
servindo cerveja Itaipava. Só.
Para mim, foi o sinal do fim de uma longa agonia. Aquela história do paciente com uma doença terminal e muito sofrimento, cuja morte acaba trazendo tanto alívio quanto dor. No caso do Aurora, temi que se tornasse mais um Belmonte. Mas eis que na terça-feira recebo a boa notícia: meu querido amigo Kadu Tomé, um dos sócios do Bracarense, comprou a casa. Kadu é um jovem empreendedor do ramo de botequim, com alma de botequineiro. Tenho certeza que saberá preservar a memória da casa e recuperar a imagem do velho Aurora, melhorando o que há para melhorar.
Para mim, foi o sinal do fim de uma longa agonia. Aquela história do paciente com uma doença terminal e muito sofrimento, cuja morte acaba trazendo tanto alívio quanto dor. No caso do Aurora, temi que se tornasse mais um Belmonte. Mas eis que na terça-feira recebo a boa notícia: meu querido amigo Kadu Tomé, um dos sócios do Bracarense, comprou a casa. Kadu é um jovem empreendedor do ramo de botequim, com alma de botequineiro. Tenho certeza que saberá preservar a memória da casa e recuperar a imagem do velho Aurora, melhorando o que há para melhorar.
segunda-feira, 3 de junho de 2013
O Maracanã da gentrificação
Botafogo, em plena transformação, com demolições de vilas e sobrados, para dar lugar a novos condomínios fechados.
Eu me lembro, quando estava em Paris, da discussão sobre as
reformas das estações do metrô. A prefeitura da cidade encomendou a diferentes
escritórios de arquitetos a renovação das plataformas e o que se percebeu foi
que as mudanças também visavam a impedir que os sem-teto pudessem transformar
os bancos em cama, além de uma série de modificações que tornavam uma prolongada
permanência na estação um tanto desconfortável. A ideia era tornar tudo bonito,
funcional e moderno, sem dar brecha a usos não planejados pelos gestores para
as plataformas. Não adiantou muito, porque as pessoas passaram a dormir
deitadas no chão. Mas as mudanças provocaram acaloradas discussões, com
opiniões a favor e contra na mídia e nas universidades, e evidenciou-se, mais
uma vez, o problema do que fazer com a miséria e a pobreza na cidade.
Em plena era das cidades-mercadorias, em que as metrópoles
disputam entre si os fluxos do capital globalizado, seja atraindo turistas ou
investimentos em negócios, criar as condições para receber esses recursos
tornou-se uma prioridade para as administrações municipais. Questões como
violência, miséria, má infraestrutura, transportes, limpeza urbana, mobilidade
e sinalização, oferta de serviços, realização de megaeventos, políticas de
tolerância zero e choques de ordem viraram prioridade, apoiadas num discurso
vertiginoso de desenvolvimento e euforia com a cidade que o cidadão herdará
como consequência dessas reformas.
Vemos exemplos que, aparentemente, deram certo, servindo de
modelo e se repetindo em outras cidades, como as políticas de segurança
adotadas em Bogotá, que inspiraram parte da políticas das UPPs no Rio; a
política de tolerância zero do prefeito de Nova York, Rudy Guiliani,
transformada em choque de ordem aqui. A renovação da área portuária,
normalmente degradada, em área de serviços e de negócios, com um museu feito
por um arquiteto renomado, enfim, os exemplos se repetem. Tudo isso, exigiu que
o Poder Público gerisse a cidade como uma empresa, com gestão profissional e
metas de produtividade. E, com os cofres vazios, as prefeituras (e demais instâncias
executivas) se associaram à iniciativa privada, que em troca, abocanhou boa
parte das benesses dessas reformas urbanas, a começar por mudança no plano
diretor para alterar gabaritos de construção e mudar zoneamento de áreas
urbanas para a construção de shoppings, prédios residenciais de negócios etc.
O setor imobiliário, aliás, foi o que mais se beneficiou
dessa lógica de gestão urbana. Apoiou-se inicialmente nas isenções tributárias
concedidas pelo governo federal, preocupado com a geração de emprego no setor
da construção civil. Em seguida, o Congresso aprovou a reforma da lei do
inquilinato, com o objetivo de destravar o mercado de imóveis, mas com mudanças
que tornaram precárias a posição dos inquilinos. O resultado foi uma renovação
do tecido urbano dos bairros com uma profusão de construção de prédios,
descaracterizando bairros tradicionais, e um êxodo urbano interno provocado
pelo que os sociólogos britânicos e americanos chamam de gentrificação.
Mas o problema dessa lógica é que, na bela cidade do futuro,
não há lugar para certa parcela da população. Exatamente essa que vai sendo
expulsa de bairros tradicionais ora por políticas de remoção, como a que
presenciamos na zona portuária ou na Vila Autódromo, ou expulsas pela
gentrificação. Ao mesmo tempo, questões básicas como educação, pobreza, saúde,
transportes, violência urbana, que exigem investimentos com uma lógica social,
sem gerar uma visibilidade imediata, que torne a cidade mais atraente ao
capital globalizado, vão sendo relegadas ao segundo plano. O importante é
tornar visíveis as reformas urbanas, as belezas naturais, a cultura da
população, criando uma imagem de marketing que transforme a cidade em marca
internacional.
Quem foi ao Maracanã ontem, na inauguração do estádio, como
meu amigo Jason Vogel, ficou impressionado com a beleza, a organização e
limpeza do Estádio Mário Filho. Depois dos elogios, no entanto, nos lembramos
de jogos históricos que presenciamos ali (eu vi Brasil 1 x 0 Paraguai, gol de
Pelé, em 1969, na eliminatória da Copa do Mundo de 70, com o maior público de
todos os tempos no Maraca: 210 mil torcedores), falamos de “geraldinos” e “arquibaldos”,
e Jason constatou: “O novo Maracanã não tem pobre. É o Maracanã da
gentrificação”.
Esse tipo de lógica urbana é uma contradição com a filosofia
de inclusão social, que o governo federal conseguiu implementar, ainda que
precariamente, nos últimos anos, distribuindo um pouco melhor a renda nacional,
gerando empregos formais, reformando leis coloniais de empregados domésticos,
entre outras iniciativas. Ela inclusive ameaça a continuidade dessa maior
integração social, atrasando investimentos em educação, moradia e saúde, os
pontos centrais de uma gestão humana, voltada para as pessoas e não
exclusivamente para determinadas parcelas da população e para a criação de uma
imagem fantasiosa de cidade maravilhosa, meramente como uma marca publicitária.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Jornalismo impresso perto do fim?
Nessas últimas semanas morreram dois magnatas da imprensa brasileira. Por acaso, estava na redação no momento em que chegou a informação sobre a morte de Ruy Mesquita, do Estadão, na terça-feira, dia 21 de maio. No fim de semana seguinte, fui convocado de última hora para fazer o plantão, no lugar de uma colega que machucara o pé, e, no domingo, ao fim do primeiro clichê (edição), chegou a notícia da morte de Roberto Civita. Nas duas ocasiões, fizemos segundo e terceiro clichês, mobilizamos repórteres em várias cidades para repercutir com autoridades e personalidades as mortes, e fizemos algumas trocas rápidas de edição (quando se para a rotativa para acrescentar uma informação importante: o velho grito de "parem as máquinas!")
O mais comum é que esses momentos de pura adrenalina na redação ocorram devido a fatos extraordinários (O Globo, por exemplo, fez um caderno inteiro em duas horas no 11 de Setembro de 2001), o que se chamava, nos primórdios, de "bomba!". No mais, quase sempre temos segundo clichê e, em algumas editorias, como a Rio e a seção de Esportes, um terceiro clichê não é nada raro. Ao fim das mudanças, saímos cansados, mas com a sensação do dever cumprido, imaginando que o leitor, no dia seguinte, encontrará os dados mais atualizados possíveis e as informações relevantes sobre seja qual for o assunto.
Mas isso já não é mais assim, hoje em dia. Saí do fechamento dos dois óbitos cansado e consciente de ter ajudado a fazer uma boa edição. Mas, no dia seguinte, ao pegar o jornal na portaria de casa, me deparei com um jornal velho. Já havia lido na versão online, antes de descer, informações mais atualizadas, como local do velório, novos depoimentos de personalidades sobre os mortos etc. Poderia ter jogado o jornal fora, não fossem as informações de fundo, as análises e a voz dos especialistas tratando do assunto. Me convenci de uma vez por todas que o único caminho de salvação para o jornalismo impresso é investir no conteúdo analítico, de qualidade. O jornalismo impresso, ainda atrelado à era industrial, precisa mudar para concorrer com o jornalismo online, que traz a notícia em tempo real. E a única forma é por meio da produção de conteúdo de qualidade. Não adiantam investimentos, reorganizações internas, unificação das redações se os gestores responsáveis pelo jornalismo impresso não entenderem que, cada vez mais, têm que oferecer um jornalismo reflexivo e analítico.
De repente, chega a notícia de um passaralho (demissão em massa) no jornal Valor. Na tentativa de enxugar os gastos, demitiram 50 funcionários, dos quais 30 jornalistas. Mas não 30 jornalistas quaisquer. Foram para a rua os mais antigos e os mais graduados. Ao comentar com um colega no Globo esses cortes, ele me perguntou, com razão: que conteúdo é esse em que eles estão apostando, se demitem suas melhores cabeças?
O problema é complexo. De um lado, a imprensa hoje é um negócio voltado para gerar dividendos a seus acionistas e, portanto, precisa ser gerida profissionalmente com esse foco. No topo executivo dos principais conglomerados de comunicação os homens de imprensa foram substituídos por executivos de outras áreas, administradores a maioria. E, ao mesmo tempo em que o jornalismo passa a ser um híbrido entre uma instituição pública, com o dever de informar, e uma empresa privada, com foco no lucro, ocorre em outro campo uma revolução tecnológica sem precedentes.
O mais comum é que esses momentos de pura adrenalina na redação ocorram devido a fatos extraordinários (O Globo, por exemplo, fez um caderno inteiro em duas horas no 11 de Setembro de 2001), o que se chamava, nos primórdios, de "bomba!". No mais, quase sempre temos segundo clichê e, em algumas editorias, como a Rio e a seção de Esportes, um terceiro clichê não é nada raro. Ao fim das mudanças, saímos cansados, mas com a sensação do dever cumprido, imaginando que o leitor, no dia seguinte, encontrará os dados mais atualizados possíveis e as informações relevantes sobre seja qual for o assunto.
Mas isso já não é mais assim, hoje em dia. Saí do fechamento dos dois óbitos cansado e consciente de ter ajudado a fazer uma boa edição. Mas, no dia seguinte, ao pegar o jornal na portaria de casa, me deparei com um jornal velho. Já havia lido na versão online, antes de descer, informações mais atualizadas, como local do velório, novos depoimentos de personalidades sobre os mortos etc. Poderia ter jogado o jornal fora, não fossem as informações de fundo, as análises e a voz dos especialistas tratando do assunto. Me convenci de uma vez por todas que o único caminho de salvação para o jornalismo impresso é investir no conteúdo analítico, de qualidade. O jornalismo impresso, ainda atrelado à era industrial, precisa mudar para concorrer com o jornalismo online, que traz a notícia em tempo real. E a única forma é por meio da produção de conteúdo de qualidade. Não adiantam investimentos, reorganizações internas, unificação das redações se os gestores responsáveis pelo jornalismo impresso não entenderem que, cada vez mais, têm que oferecer um jornalismo reflexivo e analítico.
De repente, chega a notícia de um passaralho (demissão em massa) no jornal Valor. Na tentativa de enxugar os gastos, demitiram 50 funcionários, dos quais 30 jornalistas. Mas não 30 jornalistas quaisquer. Foram para a rua os mais antigos e os mais graduados. Ao comentar com um colega no Globo esses cortes, ele me perguntou, com razão: que conteúdo é esse em que eles estão apostando, se demitem suas melhores cabeças?
O problema é complexo. De um lado, a imprensa hoje é um negócio voltado para gerar dividendos a seus acionistas e, portanto, precisa ser gerida profissionalmente com esse foco. No topo executivo dos principais conglomerados de comunicação os homens de imprensa foram substituídos por executivos de outras áreas, administradores a maioria. E, ao mesmo tempo em que o jornalismo passa a ser um híbrido entre uma instituição pública, com o dever de informar, e uma empresa privada, com foco no lucro, ocorre em outro campo uma revolução tecnológica sem precedentes.
A internet, as redes sociais, os gadgets eletrônicos e a
mobilidade conectada em nuvens de informações transformaram radicalmente a relação
emissor-receptor. Hoje, o leitor não é mais um sujeito passivo. Ele não só
seleciona melhor as notícias que quer ler, mas as reproduz em suas redes
pessoais.
Essa realidade atingiu em cheio o saber jornalístico. Um saber que se situa entre o senso comum e o saber científico ou acadêmico. O jornalista tinha acesso a muitas informações, algumas delas especializadas, e, assim, interpretava para o público leigo o saber mais complexo da academia, das corporações, dos especialistas etc. Agora, essa relação se tornou opaca. Com o bombardeio de informações que todos recebem o tempo todo e a facilidade em consultar dados antes obscuros, o leitor comum hoje passou a ter acesso a um saber que se equivale ao do jornalista, diminuindo sua dependência em relação à imprensa. Qualquer cidadão que goste de futebol, por exemplo, pode ter um blog com suas análises, pareceres e opiniões. Antes, essa possibilidade inexistia.
Essa realidade atingiu em cheio o saber jornalístico. Um saber que se situa entre o senso comum e o saber científico ou acadêmico. O jornalista tinha acesso a muitas informações, algumas delas especializadas, e, assim, interpretava para o público leigo o saber mais complexo da academia, das corporações, dos especialistas etc. Agora, essa relação se tornou opaca. Com o bombardeio de informações que todos recebem o tempo todo e a facilidade em consultar dados antes obscuros, o leitor comum hoje passou a ter acesso a um saber que se equivale ao do jornalista, diminuindo sua dependência em relação à imprensa. Qualquer cidadão que goste de futebol, por exemplo, pode ter um blog com suas análises, pareceres e opiniões. Antes, essa possibilidade inexistia.
Então, para o jornalismo impresso só cabe uma saída: investir na qualidade e na profundidade das informações. É preciso recriar um saber especializado que desperte no leitor a necessidade de se informar melhor por meio do jornal. Apostar em colunas, crônicas, artigos, seções de ciências e tecnologia, campos onde as informações são mais complexas e analíticas. Trabalhar a notícia quente, que também estará no online, com sua análise, esmiuçando as consequências e desdobramentos.
sábado, 11 de maio de 2013
Três meninas
Três meninas brincam de roda
Três meninas se multiplicam
Em rodas, carnavais e bodas
Rodam as saias três meninas
Produzidas, belas, poderosas
Giram, rodopiam minha vida
Três meninas, três amigas
Que me invadem sem querer
E me enredam em seu rodar.
Fim das férias
Voltando aos poucos depois de um mês de férias... cito o verso dos Beatles murmurado lamentosamente no Sargent Pepper's:
"I'd love to turn you on!"
"I'd love to turn you on!"
domingo, 3 de março de 2013
Chico, Vinícius e as mulheres
Sei que é uma estratégia velha e batida, muito usada no Brasil, desde antes de Gregório de Mattos. Mas essa tática de atacar certas figuras ou certos valores tem limite. Um limite que deve ser a própria insignificância do agressor. Responder a esse tipo de crítica é cair na armadilha, mas às vezes a coisa merece nem que seja uma reflexão. Já acompanhei boas polêmicas, envolvendo figuras divergentes, mas com graus de inteligência, cultura e raciocínio elevadíssimos, o que tornava o debate, por mais agressivo que fosse, como uma espécie de embate platônico. José Guilherme Merquior e Carlos Henrique Escobar, por exemplo. Isso sem falar em grandes nomes da rabugice nacional, como Paulo Francis, ou mais ainda, o genial Nelson Rodrigues, e suas frases imortais. Glauber Rocha e o próprio Caetano Veloso, para citar nomes inquestionáveis quanto as suas genialidades.
Quando penso na constelação de nomes citados acima, alguns mais à direita outros nem tanto, sinto um certo alívio em perceber que, nestes tempos de pulverização de valores, até essa estratégia anda abalada pela contemporaneidade. Quem são os grandes polemistas de hoje em dia? Uns tucanos contratados pela Veja? Assisti outro dia ao Manhattan Connection, um programa baba-ovo e subserviente à fantasia de prosperidade nova-iorquina, que interrompe e inverte a originalidade de latino-americanos talentosos que, desde os anos 1960, foram à Grande Maçã com projetos de revolucionar o Império. Figuras como Helio Oiticica, o próprio Glauber, Ruben Gerchman, o argentino Gato Barbieri e músicos brasileiros como Naná Vasconcelos, Claudio Roditi, Dom Salvador, Dom Um Romão e, com licença da puxada de brasa, meu pai, Gaudencio Thiago de Mello, entre outros. Mas enfim, o programa mostrava os comentaristas de sempre e, entre eles, um energúmeno chamado Diogo Mainardi, um desqualificado que fazia insinuações de que Chico Buarque não sabe escrever, não é um poeta e sei lá mais o quê.
Era mais uma vez, nitidamente, a velha estratégia: bate-se no ícone, na referência, para chamar a atenção sobre si. Mas, quando se volta para o idiota, o que se vê? Idiotice, é claro. E, infelizmente, cada vez mais esse conservadorismo com sotaque paulistano vai ocupando a mídia atual. A mesma elite de Alto Pinheiros e do Alto Leblon, com sua ojeriza a tudo que cheire a popular. Cada vez mais um discurso conservador, retrógado e elitista vai se disseminando por progamas, como uma série de idiotices femininas, para a "mulher moderna", como Saia Justa e outros tantos lixos, como se o telespectador fosse um mentecapto. Nos painéis do Globonews Painel raramente são convidados especialistas de várias correntes, sejam elas políticas, acadêmicas ou ideológicas. Outro dia, para discutir demarcação de terra indígena, William Waack convidou advogado, empresário, políticos, menos índio e antropólogo. Que liberdade de expressão é essa? Nas discussões sobre ciência política e geopolítica, estão sempre os mesmos embaixadores do Itamaraty, todos da época de Fernando Henrique Cardoso... enfiando a porrada, daquele jeito educado, no Amorim e no Patriota. Enfim, os exemplos abundam.
E tudo isso faz parte do momento. A mídia no Brasil tem uma posição ideológica nítida e utiliza seus canais para expressá-la. Democracia é assim, dizem. Então, vamos em frente. Mas, daí, o energúmeno do Manhattan Connection desancar o Chico para aparecer é um pouco demais.
De qualquer modo, a resposta veio no GNT, num documentário, que eu ainda não tinha visto, sobre o Chico e sua relação com as mulheres. Ele desmentiu o mito que se disseminou por aí, de que ele entendia a alma feminina como ninguém, pois só assim seria capaz de escrever as letras do ponto de vista feminino tão intimamente bem. Segundo o Chico o que o fez escrever tão bem sobre a mulher, e sobretudo, a partir do olhar feminino, foi seu desejo pela mulher. Sua curiosidade por um universo que, no fim das contas, ele não entende nada. E, é verdade, as razões femininas são tão misteriosas que nos aturde.
Nosso clube masculino é todo lógico. As regras são claras e as competências e disputas bem demarcadas. Nossa sensibilidade passa por outros canais. Mas a atração pela mulher nos obriga a um jogo de alteridade que abre nossa percepção e sensibilidade num outro nível. E é isso que permitiu ao Chico escrever sobre a alma feminina com tanta propriedade, pelo menos para certa geração de mulheres. Talvez, algumas letras hoje não façam mais sentido. Mas a estrutura cognitiva que subjaz a isso certamente continua lá.
Tenho duas amigas que amam o Vinícius de Moraes. Uma desconhece as histórias do Vinícius mulherengo, a outra me emprestou um livrinho do Affonso Romano de Sant'Anna, chamado Tempo de delicadeza. Nele, Sant'Anna tem uma pequena crônica chamada Confraria dos machos, que é sensacional e explica muita coisa. Ele narra, e muito bem, a história de uma paixonite de Vinícius, já com 60 e tantos, por uma jovem de 17 anos. Uma paixão recíproca que acaba com os dois fugindo para Roma, com ajuda dos amigos de Vinicius, inclusive o Chico. Daí a ideia de confraria. Esse bando de meninos quarentões, sessentões, brincando de paixão. Uma coisa bem masculina e dionisíaca. Todos do clube, uns sátiros apaixonados por curvas e ancas femininas. Para perscrutar tão bem a alma feminina, como Chico e Vinicius fazem, só mesmo com tanto estranhamento.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Mormaço na floresta remix
Já mandei avisar que não irei. Que, dessa vez, descansarei os pés e pouparei meu espírito de tantas ocorrências. Dessa vez, olharei o horizonte, espreguiçando uma moleza no oscilar da rede, estrategicamente armada na varanda. Observarei pássaros e insetos ainda não catalogados pela ciência ao ritmo do balançar suave do pêndulo de pano. Me entregarei aos poucos e definitivamente à natureza, em torno da casa de madeira e vidro na floresta. Estarei com Manoel de Barros e Thiago de Mello, companhias propícias ao mormaço.
Não, meu amor. Dessa vez não cairei na folia. É minha alma que solicita essa delicadeza. Ter com os bichos do mato, ver os índios mais uma vez, o pôr do sol de aquarela, enquanto o banzeiro chacoalha o barco e me faz sentir no esplendor de minha insignificância. Esperarei o frescor que vem da chuva das 17h e tomarei um sorvete com a cabocla na avenida verde da cidade que não está no mapa. Depois imaginarei você, inteira e nua, no torpor do mormaço, ao meu lado, ali, na rede que range o ritmo do dia. Serei feliz para sempre no instante.
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