domingo, 3 de março de 2013
Chico, Vinícius e as mulheres
Sei que é uma estratégia velha e batida, muito usada no Brasil, desde antes de Gregório de Mattos. Mas essa tática de atacar certas figuras ou certos valores tem limite. Um limite que deve ser a própria insignificância do agressor. Responder a esse tipo de crítica é cair na armadilha, mas às vezes a coisa merece nem que seja uma reflexão. Já acompanhei boas polêmicas, envolvendo figuras divergentes, mas com graus de inteligência, cultura e raciocínio elevadíssimos, o que tornava o debate, por mais agressivo que fosse, como uma espécie de embate platônico. José Guilherme Merquior e Carlos Henrique Escobar, por exemplo. Isso sem falar em grandes nomes da rabugice nacional, como Paulo Francis, ou mais ainda, o genial Nelson Rodrigues, e suas frases imortais. Glauber Rocha e o próprio Caetano Veloso, para citar nomes inquestionáveis quanto as suas genialidades.
Quando penso na constelação de nomes citados acima, alguns mais à direita outros nem tanto, sinto um certo alívio em perceber que, nestes tempos de pulverização de valores, até essa estratégia anda abalada pela contemporaneidade. Quem são os grandes polemistas de hoje em dia? Uns tucanos contratados pela Veja? Assisti outro dia ao Manhattan Connection, um programa baba-ovo e subserviente à fantasia de prosperidade nova-iorquina, que interrompe e inverte a originalidade de latino-americanos talentosos que, desde os anos 1960, foram à Grande Maçã com projetos de revolucionar o Império. Figuras como Helio Oiticica, o próprio Glauber, Ruben Gerchman, o argentino Gato Barbieri e músicos brasileiros como Naná Vasconcelos, Claudio Roditi, Dom Salvador, Dom Um Romão e, com licença da puxada de brasa, meu pai, Gaudencio Thiago de Mello, entre outros. Mas enfim, o programa mostrava os comentaristas de sempre e, entre eles, um energúmeno chamado Diogo Mainardi, um desqualificado que fazia insinuações de que Chico Buarque não sabe escrever, não é um poeta e sei lá mais o quê.
Era mais uma vez, nitidamente, a velha estratégia: bate-se no ícone, na referência, para chamar a atenção sobre si. Mas, quando se volta para o idiota, o que se vê? Idiotice, é claro. E, infelizmente, cada vez mais esse conservadorismo com sotaque paulistano vai ocupando a mídia atual. A mesma elite de Alto Pinheiros e do Alto Leblon, com sua ojeriza a tudo que cheire a popular. Cada vez mais um discurso conservador, retrógado e elitista vai se disseminando por progamas, como uma série de idiotices femininas, para a "mulher moderna", como Saia Justa e outros tantos lixos, como se o telespectador fosse um mentecapto. Nos painéis do Globonews Painel raramente são convidados especialistas de várias correntes, sejam elas políticas, acadêmicas ou ideológicas. Outro dia, para discutir demarcação de terra indígena, William Waack convidou advogado, empresário, políticos, menos índio e antropólogo. Que liberdade de expressão é essa? Nas discussões sobre ciência política e geopolítica, estão sempre os mesmos embaixadores do Itamaraty, todos da época de Fernando Henrique Cardoso... enfiando a porrada, daquele jeito educado, no Amorim e no Patriota. Enfim, os exemplos abundam.
E tudo isso faz parte do momento. A mídia no Brasil tem uma posição ideológica nítida e utiliza seus canais para expressá-la. Democracia é assim, dizem. Então, vamos em frente. Mas, daí, o energúmeno do Manhattan Connection desancar o Chico para aparecer é um pouco demais.
De qualquer modo, a resposta veio no GNT, num documentário, que eu ainda não tinha visto, sobre o Chico e sua relação com as mulheres. Ele desmentiu o mito que se disseminou por aí, de que ele entendia a alma feminina como ninguém, pois só assim seria capaz de escrever as letras do ponto de vista feminino tão intimamente bem. Segundo o Chico o que o fez escrever tão bem sobre a mulher, e sobretudo, a partir do olhar feminino, foi seu desejo pela mulher. Sua curiosidade por um universo que, no fim das contas, ele não entende nada. E, é verdade, as razões femininas são tão misteriosas que nos aturde.
Nosso clube masculino é todo lógico. As regras são claras e as competências e disputas bem demarcadas. Nossa sensibilidade passa por outros canais. Mas a atração pela mulher nos obriga a um jogo de alteridade que abre nossa percepção e sensibilidade num outro nível. E é isso que permitiu ao Chico escrever sobre a alma feminina com tanta propriedade, pelo menos para certa geração de mulheres. Talvez, algumas letras hoje não façam mais sentido. Mas a estrutura cognitiva que subjaz a isso certamente continua lá.
Tenho duas amigas que amam o Vinícius de Moraes. Uma desconhece as histórias do Vinícius mulherengo, a outra me emprestou um livrinho do Affonso Romano de Sant'Anna, chamado Tempo de delicadeza. Nele, Sant'Anna tem uma pequena crônica chamada Confraria dos machos, que é sensacional e explica muita coisa. Ele narra, e muito bem, a história de uma paixonite de Vinícius, já com 60 e tantos, por uma jovem de 17 anos. Uma paixão recíproca que acaba com os dois fugindo para Roma, com ajuda dos amigos de Vinicius, inclusive o Chico. Daí a ideia de confraria. Esse bando de meninos quarentões, sessentões, brincando de paixão. Uma coisa bem masculina e dionisíaca. Todos do clube, uns sátiros apaixonados por curvas e ancas femininas. Para perscrutar tão bem a alma feminina, como Chico e Vinicius fazem, só mesmo com tanto estranhamento.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Mormaço na floresta remix
Já mandei avisar que não irei. Que, dessa vez, descansarei os pés e pouparei meu espírito de tantas ocorrências. Dessa vez, olharei o horizonte, espreguiçando uma moleza no oscilar da rede, estrategicamente armada na varanda. Observarei pássaros e insetos ainda não catalogados pela ciência ao ritmo do balançar suave do pêndulo de pano. Me entregarei aos poucos e definitivamente à natureza, em torno da casa de madeira e vidro na floresta. Estarei com Manoel de Barros e Thiago de Mello, companhias propícias ao mormaço.
Não, meu amor. Dessa vez não cairei na folia. É minha alma que solicita essa delicadeza. Ter com os bichos do mato, ver os índios mais uma vez, o pôr do sol de aquarela, enquanto o banzeiro chacoalha o barco e me faz sentir no esplendor de minha insignificância. Esperarei o frescor que vem da chuva das 17h e tomarei um sorvete com a cabocla na avenida verde da cidade que não está no mapa. Depois imaginarei você, inteira e nua, no torpor do mormaço, ao meu lado, ali, na rede que range o ritmo do dia. Serei feliz para sempre no instante.
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Sonho de uma noite de verão
E chega o sábado em meio ao calor desse verão indeciso.
Desperto de sonhos tumultuados. Coração, vísceras e uma imagem difusa dela. Nua.
Não consigo fazer um enredo. Uma sucessão de cenas desconexas. Ruídos,
intromissões. Isso me lembra a entrevista que li ontem com Joel Birman, em que
ele diz que, agora, na contemporaneidade, a função do sonho, tal como Freud
descreveu, já não se aplica mais. Pelo menos de forma categórica. Já não se
tratam mais de expressões reprimidas do desejo, embaralhado pelo Superego para
se tornar suportável à luz da consciência.
Agora, diz o Birman, os sonhos se tornaram meros pesadelos,
em que o sujeito desejante sucumbe à fragmentação da atualidade. Uma atualidade
em que, em termos freudianos, o “sofrimento” foi substituído pela “dor”, e o “desamparo”,
pelo “desalento”. Em que o tempo perdeu o predomínio sobre o espaço. Em que a
drogadição, a alimentação e o consumo compulsivos compõem as novas subjetividades
do sujeito perante o mundo. Ou seja, muitas
das observações do pai da psicanálise precisam ser atualizadas nesses tempos do
triunfo do neoliberalismo, que alguns chamam de pós-modernidade.
Mas não é esse o assunto. Mencionei o Birman porque sonhei. E
meus sonhos ainda emergem do inconsciente, muito nitidamente, naquela velha forma
onírica, cheia de metáforas e símbolos, desejos e pulsões. Às vezes, nem tão
metafórico assim. Ocasionalmente acordo de sonhos tão cristalinos com coisas e
seres que desejo que fico aturdido, a ponto de indagar: cadê a poesia do sonho?
Mas, lendo o Birman, agora me pergunto
como me adapto a este não tão admirável mundo novo que ele descreve?
Reforço a sensação de que sou (e toda minha geração também) um
ser literário, em minha formação cognitiva básica, em oposição ao sujeito
multiplataforma atual. Nem mesmo audiovisual eu sou. Minha transa com a imagem
ainda é toda literária. Diante dela, construo histórias. Talvez, por isso, seja
tão fascinado pelos portraits. Os retratos são portas de entrada para enredos
infinitos. Dramas humanos sem fim. Vida.
Essa forma de ser, tal como a percebo narcisicamente, me
coloca no mundo com certa estranheza, e é assim que, neste sábado, desperto
tentando entender o sonho que me perturbou a noite. Buscando sentidos, em
meio ao calor do dia, para a imagem desejosa dela, que, de resto, se constitui
de distância e saudade.
domingo, 27 de janeiro de 2013
Caipirinha Appreciation Society
Kika Serra e MC Suing fazem, já há algum tempo, um extraordinário programa de rádio, via podcast, chamado Caipirinha Appreciation Society. Trata-se de música brasileira na veia, mas não os clichês que abundam as rádios brasileiras e festivais patrocinados por gravadoras. Ou seja, trata-se de uma rádio em que se pode ouvir coisas interessantes, raras, criativas, artistas geniais desconhecidos, e poder ter uma ideia de que música brasileira não se conformou a uma ordem industrial internacional e continua sendo de algum modo original e criativa.
Graças à Kika e ao MC Suing, vê-se que a tese de Hugo Sukman, de que o tropicalismo colocou a MPB na ordem mundial do pop e matou o que havia de diferente e original na música do país, é uma verdade relativa. As pessoas continuam compondo de forma independente e criativa, o problema é que não têm voz na mídia tradicional.
No site deles, quem quiser pode se inscrever para receber as atualizações dos programas e ouvir programas anteriores, todos armazenados como podcast. O Caipirinha Appreciation Society pode ser acessado aqui, e o Google+ vai fazer uma transmissão especial deles sobre o carnaval.
Graças à Kika e ao MC Suing, vê-se que a tese de Hugo Sukman, de que o tropicalismo colocou a MPB na ordem mundial do pop e matou o que havia de diferente e original na música do país, é uma verdade relativa. As pessoas continuam compondo de forma independente e criativa, o problema é que não têm voz na mídia tradicional.
No site deles, quem quiser pode se inscrever para receber as atualizações dos programas e ouvir programas anteriores, todos armazenados como podcast. O Caipirinha Appreciation Society pode ser acessado aqui, e o Google+ vai fazer uma transmissão especial deles sobre o carnaval.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
No quarto das meninas
A fotógrafaa libanesa Rania Matar migrou para os Estados Unidos nos anos 1990, onde, depois de ter se formado em arquitetura, se dedicou à fotografia. Em seu site oficial, que pode ser acessado aqui, ela apresenta uma série de retratos de adolescentes na intimidade de seus quartos. São adolescentes americanas, libanesas, refugiadas palestinas entre outras. Suas fotos mostram o que há de comum e de distinto entre essas meninas-a-se-tornarem-mulheres com uma riqueza de detalhes que só uma imagem pode mostrar. Algo bem além das palavras para os corações sensíveis. Estão ali o que aproxima essas meninas e o que as separa, como, por exemplo, o lenço muçulmano. Suas imagens insinuam sonhos que se tocam, no devir feminino que vai se constituindo, mas que são culturalmente distantes ao mesmo tempo.
A adolescência não é um fenômeno da natureza. Está na ordem da cultura. Da nossa cultura, genericamente chamada de ocidental. É, portanto, uma invenção nossa. Em algumas outras culturas esse longo período de transformação da criança em adulto se dá por meio de ritos de passagem, em que a criança se torna adulta para a sociedade onde está inserida, e para si própria, em sua subjetividade. Quando estive com os índios Karajá, na Ilha do Bananal, entre Tocantins e Mato Grosso, nos idos de 1980, percebi bem esse processo. Havia adultos e crianças. Nenhum adolescente. Apenas jovens adultos, empenhados na divisão do trabalho da aldeia. O tuxaua Maurê me contou que as meninas quando menstruam pela primeia vez são isoladas, na casa das mulheres, onde são socializadas nas coisas do mundo feminino. Quando saem, após um período relativamente longo, já são consideradas adultas, independentemente da idade, aptas a casar e assumir as tarefas das mulheres na aldeia. Elas então ganham a marca dos Karajá, um círculo tatuado com espinha de peixe em cada bochecha.
Andrea, libanesa de Beirute, em seu quarto. Reparem nas medalhas. Foto de Rania Matar
Por sua vez, entre os índios Maué, no médio rio Amazonas, os meninos passam pelo ritual do Tocandira ao se tornarem homens. Tocandira é uma formiga-de-fogo, preta e minúscula, cuja picada provoca dores lacinantes, similares à picada de vespa. O ritual consiste em danças e cantos, em que os meninos vestem uma série sucessiva de sete luvas repletas das tais formigas. O pajé dá umas baforadas de fumo mágico nas luvas, e os garotos dançam e cantam em um círculo formado por mulheres no primeiro anel e homens no segundo. Luva após luva, cada um deles dança na sua vez até que uma das mulheres, compadecida ou interessada, tira o menino do círculo e o leva para sua rede, onde começa uma espécie de casamento. Se, por acaso, o jovem não for escolhido por uma das mulheres, o xamã, então determina o momento em que ele conclui o ritual.
Brianna, adolescente americana, também fotografada por Rania Matar
Em todas as culturas humans, a passagem entre isso que chamamos infância e aquilo que chamamos vida adultua é sempre marcada ritualisticamente. Afinal, a adolescência não deixa de ser um longo rito de passagem na nossa sociedade. O mesmo, aliás, pode ser dito em relação ao nascimento e à morte. Nenhuma sociedade ou cultura é indiferente a esses fenômenos.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Feito tatuagem
A revista New Yorker, na sua seção Photo Booth, traz na presente edição um slide show de mulheres tatuadas no início do século passado, revelando que a relação entre a inscrição no corpo das mulheres da cultura ocidental de desenhos, símbolos e textos é bastante antiga. Veja o link aqui. Peguei "emprestado" da revista duas fotos que me chamaram muito a atenção. A primeira foto é de Maud Wagner, que me impressionou pela expressão dos olhos, tão bem capturadas no portrait, mais do que pelas tatuagens. A foto é de 1911 e ela é considerada a primeira tatuadora americana. O outro retrato é de Bobbie Librarry, tirada em 1976 por Inogen Cunninghan, quando ela tinha 93 anos, a poucos meses de sua morte.
Fico imaginando essas duas mulheres americanas, naquele mundo vitoriano, puritano e positivista. Deviam perturbar a ordem das coisas. Isso me lembrou uma amiga que, recentemente, ensaiou duas vezes a intenção de ser tatuada para marcar um momento muito especial de sua vida. Na hora H, porém, ela desistiu. Talvez porque o que ela esteja vivendo tenha a ver com "trasitoriedade", como ela mesma definiu; e não deixa de ser, a meu ver, uma certa contradição marcar esse "movimento" com algo tão definitivo.
Fiquei pensando nos sentidos intimos que as pessoas dão à tatuagem (e às outras inscrições no corpo, como piercings, depitlações eternas, malhações, cirurgias etc.). Hoje, tatuagem se tornou algo tão comum e tão "na moda", que não consigo deixar de pensar que houve um esvaziamento dos sentidos mais profundos de tal gesto. No fim, ele perdeu força. Por isso, fiquei aliviado que minha amiga, tão extraordinariamwnte singular, tenha desistido (pelo menos temporariamente) de fazer a sua. Até porque há outras formas de celebrar seu rito de passagem, tão dolorido como libertador.
No mais, estou começando a achar que num mundo tão pulverizado de sentidos e ideais como o atual, onde somos afogados por tantos significados, informações e palavras, não ter qualquer sinal gravado no corpo talvez seja a atitude mais radical de todas.
PS: O Francisco Bosco respondeu ao que parece ter sido uma série de críticas à sua coluna da semana passada sobre a Índia. Ele não menciona as ponderações que fiz no post abaixo, mas cita a questão do etnocentrismo e o classico antropológico de Louis Dumont, Homo Hierarchicus, sobre a Índia. Vale a pena ler a resposta dele, disponível aqui.
Fico imaginando essas duas mulheres americanas, naquele mundo vitoriano, puritano e positivista. Deviam perturbar a ordem das coisas. Isso me lembrou uma amiga que, recentemente, ensaiou duas vezes a intenção de ser tatuada para marcar um momento muito especial de sua vida. Na hora H, porém, ela desistiu. Talvez porque o que ela esteja vivendo tenha a ver com "trasitoriedade", como ela mesma definiu; e não deixa de ser, a meu ver, uma certa contradição marcar esse "movimento" com algo tão definitivo.
Fiquei pensando nos sentidos intimos que as pessoas dão à tatuagem (e às outras inscrições no corpo, como piercings, depitlações eternas, malhações, cirurgias etc.). Hoje, tatuagem se tornou algo tão comum e tão "na moda", que não consigo deixar de pensar que houve um esvaziamento dos sentidos mais profundos de tal gesto. No fim, ele perdeu força. Por isso, fiquei aliviado que minha amiga, tão extraordinariamwnte singular, tenha desistido (pelo menos temporariamente) de fazer a sua. Até porque há outras formas de celebrar seu rito de passagem, tão dolorido como libertador.
No mais, estou começando a achar que num mundo tão pulverizado de sentidos e ideais como o atual, onde somos afogados por tantos significados, informações e palavras, não ter qualquer sinal gravado no corpo talvez seja a atitude mais radical de todas.
PS: O Francisco Bosco respondeu ao que parece ter sido uma série de críticas à sua coluna da semana passada sobre a Índia. Ele não menciona as ponderações que fiz no post abaixo, mas cita a questão do etnocentrismo e o classico antropológico de Louis Dumont, Homo Hierarchicus, sobre a Índia. Vale a pena ler a resposta dele, disponível aqui.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
A Índia de Bosco e Antonia
Em sua coluna semanal no Segundo Caderno do Globo, Francisco Bosco usou a notícia sobre o estupro coletivo de uma jovem de 23 anos em Nova Délhi, que resultou em sua morte, para contar suas impressões pessoais sobre a misoginia na Índia, a partir de uma viagem realizada com sua mulher, minha amiga Antonia, há alaguns anos. O ataque, com requintes de perversão e violência, provocou uma onda de protestos no país e revoltou a chamada comunidade internacional. A pressão oriunda da indignação geral foi tão grande, que acabou resultando na aprovação às pressas de uma legislação que torna mais severas as penas para agressões contra as mulheres, algo bastante comum e quase sempre impune.
Esse caso já havia chamado minha atenção não apenas como fait divers, mas pela forma como foi coberto pela imprensa em geral. De todos os jornais que acompanhei, apenas o francês Le Monde e o americano New York Times fizeram um esforço para contextualizar a história dentro da complexidade cultural indiana. Nem mesmo o El País foi além da história do estupro. Essa contextualização é importante especialmente para quem não é indiano e desconhece a complexidade cultural daquela sociedade: patriarcal, misógina, dividida em castas, impregnada de tradições religiosas conservadoras se olhadas do ponto de vista ocidental, onde os casamentos são ainda arranjados segundo determinados valores etc.
O ataque não foi apenas um estupro coletivo qualquer, mas uma reação furiosa contra uma classe média que vem surgindo na Índia, estimulada pelo avanço econômico como potência emergente, e que vem incorporando alguns valores seculares ocidentais. Os seis assassinos e estupradores mostraram todo o seu ódeio contra essa nova Índia, expressa nas roupas e nas maneiras do jovem casal de estudantes. Enfim, não sou especialista em Índia, mas, talvez, a "afronta" maior do casal, e sobretudo da jovem, tenha sido a expressão de um individualismo, como valor moral, em uma sociedade traficional, patriarcal, misógina, e extremamente hierarquizada em seus valores.
Me lembrei do episódio da jovem que foi agredida em Ipanema, nos anos 80, por fazer topless. Hoje, não crieo que haveria tanta reação, embora, se não me engano, o topless seja proibido por lei. Será que mudamos tanto? Valores e costumes estão sempre em choque nos processos sociais urbanos, pois as metrópoles vão se transformando incessantemente, apesar de vivermos nossos costumes como imutáveis e absolutos.
Esperei que Bosco, um filósofo que admiro muito, fosse fazer uma avaliação mais sensível da Índia e acabei surpreendido por um certo etnocentrismo, expresso ao narrar o sufoco que passou com Antonia na viagem dos dois à Índia e, sobretudo, Nova Délhi, descrita por ele como uma metrópole caótica, densa e provinciana. Ele chega a mencionar a falta de capacidade da população local de relativizar o outro, o estrangeiro com costumes distintos, como sintoma de provincianismo, sem se dar conta da sua própria falta de relativização nesta análise generalizadora daquela sociedade. Eu que fou fã dos textos dele, confesso que fiquei surpreso com essa falta de, digamos, sensibilidade antropológica.
Em determinado momento ele conta que foram visitar uma mesquita, cujo acesso se dá por uma rua estreita de bazar (que ele chama de camelôs, diluindo toda riqueza do suq árabe), e acabaram barrados grosseiramente porque Antonia estava de bermuda. Taí a expressão nítida de um choque cultural. Mas creio que se faltou sensibilidade aos guardiões muçulmanos do templo, também faltou sensibilidade ao casal brasileiro em entender que estava num país estrangeiro, com costumes tradicionais e religosos conservadores, e que era preciso observar essas regras. Não dá simplesmente para achar que o mundo todo tem que aceitar o padrão ocidental como valor cultural universal. Até porque aniquilaria as diferenças culturais tão fundamentais para a sobrevivência do ser humano.
Por outro lado, perdoo Bosco, pois escreveu seu texto a partir do sentimento de amor e proteção à minha querida Antonia, o que torna uma análise mais isenta difícil. E é particularmente comovente, em sua narrativa, a parte em que descreve a crise de choro de minha amiga, sua mulher. Qualquer leitor sensível terá, no mínimo, compreendido a frustração de Antonia naquele momento.
A deplorável violência contra as mulheres na Índia está dentro de um contexto cultural complexo. É preciso entendê-lo. A reação da população à violência dos estupradores mostrou exatamente o tipo de choque cultural que está acontecendo ali e, mais do que isso, aponta para mudanças importantes, que se estabelecerão ou serão violentamente massacradas pela tradição. O tempo dirá.
Esse caso já havia chamado minha atenção não apenas como fait divers, mas pela forma como foi coberto pela imprensa em geral. De todos os jornais que acompanhei, apenas o francês Le Monde e o americano New York Times fizeram um esforço para contextualizar a história dentro da complexidade cultural indiana. Nem mesmo o El País foi além da história do estupro. Essa contextualização é importante especialmente para quem não é indiano e desconhece a complexidade cultural daquela sociedade: patriarcal, misógina, dividida em castas, impregnada de tradições religiosas conservadoras se olhadas do ponto de vista ocidental, onde os casamentos são ainda arranjados segundo determinados valores etc.
O ataque não foi apenas um estupro coletivo qualquer, mas uma reação furiosa contra uma classe média que vem surgindo na Índia, estimulada pelo avanço econômico como potência emergente, e que vem incorporando alguns valores seculares ocidentais. Os seis assassinos e estupradores mostraram todo o seu ódeio contra essa nova Índia, expressa nas roupas e nas maneiras do jovem casal de estudantes. Enfim, não sou especialista em Índia, mas, talvez, a "afronta" maior do casal, e sobretudo da jovem, tenha sido a expressão de um individualismo, como valor moral, em uma sociedade traficional, patriarcal, misógina, e extremamente hierarquizada em seus valores.
Me lembrei do episódio da jovem que foi agredida em Ipanema, nos anos 80, por fazer topless. Hoje, não crieo que haveria tanta reação, embora, se não me engano, o topless seja proibido por lei. Será que mudamos tanto? Valores e costumes estão sempre em choque nos processos sociais urbanos, pois as metrópoles vão se transformando incessantemente, apesar de vivermos nossos costumes como imutáveis e absolutos.
Esperei que Bosco, um filósofo que admiro muito, fosse fazer uma avaliação mais sensível da Índia e acabei surpreendido por um certo etnocentrismo, expresso ao narrar o sufoco que passou com Antonia na viagem dos dois à Índia e, sobretudo, Nova Délhi, descrita por ele como uma metrópole caótica, densa e provinciana. Ele chega a mencionar a falta de capacidade da população local de relativizar o outro, o estrangeiro com costumes distintos, como sintoma de provincianismo, sem se dar conta da sua própria falta de relativização nesta análise generalizadora daquela sociedade. Eu que fou fã dos textos dele, confesso que fiquei surpreso com essa falta de, digamos, sensibilidade antropológica.
Em determinado momento ele conta que foram visitar uma mesquita, cujo acesso se dá por uma rua estreita de bazar (que ele chama de camelôs, diluindo toda riqueza do suq árabe), e acabaram barrados grosseiramente porque Antonia estava de bermuda. Taí a expressão nítida de um choque cultural. Mas creio que se faltou sensibilidade aos guardiões muçulmanos do templo, também faltou sensibilidade ao casal brasileiro em entender que estava num país estrangeiro, com costumes tradicionais e religosos conservadores, e que era preciso observar essas regras. Não dá simplesmente para achar que o mundo todo tem que aceitar o padrão ocidental como valor cultural universal. Até porque aniquilaria as diferenças culturais tão fundamentais para a sobrevivência do ser humano.
Por outro lado, perdoo Bosco, pois escreveu seu texto a partir do sentimento de amor e proteção à minha querida Antonia, o que torna uma análise mais isenta difícil. E é particularmente comovente, em sua narrativa, a parte em que descreve a crise de choro de minha amiga, sua mulher. Qualquer leitor sensível terá, no mínimo, compreendido a frustração de Antonia naquele momento.
A deplorável violência contra as mulheres na Índia está dentro de um contexto cultural complexo. É preciso entendê-lo. A reação da população à violência dos estupradores mostrou exatamente o tipo de choque cultural que está acontecendo ali e, mais do que isso, aponta para mudanças importantes, que se estabelecerão ou serão violentamente massacradas pela tradição. O tempo dirá.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Folhas no chão
Querida amiga, o farfalhar do vento nas folhas soltas em minha mesa espalhou ideias pela casa e me fez perceber o silêncio. Não fora o torvelino espiralado dos papéis em branco dançando no ar, não me teria dado conta do escorrer silencioso do tempo, dilatando os dias, prolongando as horas, lento avanço, enquanto espero um sinal de vida. Passado o susto, tento desintegrar a nuvem de concreto, transcender o virtual e respirar o mesmo ar. Talvez seja tarde demais. O tempo empedrou meus extremos, os ossos doem e meus olhos enxergam em preto e branco. Mas há algo ainda que pulsa, amiga. Desconfio que ainda sei abraçar e tenho sede de amor.
sábado, 29 de dezembro de 2012
The situation table
Aos 79 anos, consumido por um câncer raro e sem tratamento, meu pai vai levando a vida como é possível. Ele vive em Nova Jersey, nos EUA, e fui visitá-lo em novembro. Foi dureza entrar em sua rotina, cheia de prescrições e limites. E mais duro ainda vê-lo abatido, tão distinto do que fora sempre em sua vida. Seu dia a dia é bastante restrito. Boa parte do tempo se esvai em frente à televisão. Notícias e futebol, basicamente. Ou então ouvindo música, passando de um CD a outro, variando enormemente os estilos. Ele nunca foi muito de ler ou escrever, sua existência se dá pela sonoridade; é a música que faz sentido em sua mente.
No sofá da sala, há um canto onde
ele prefere sentar, próximo a uma mesinha com abajur e a base do telefone sem
fio. Defronte ao sofá, há uma mesa de chão, que eu e minha irmã, num humor muito
peculiar, mexendo com ele, chamamos de “the situation table”, numa referência
mordaz à expressão “the situation room”, à qual os jornalistas da CNN recorrem
em grandes coberturas jornalísticas, como eleições, e que, no meu tempo, se
chamava algo como quartel general ou simplesmente, centro de operações. Nessa
área, supostamente, estão todos os elementos que chegam pelos repórteres e
outras fontes para serem transformados em informação e notícia.
A gozação tem a ver com a
quantidade de badulaques e inutilidades que ele coloca ali, “caso precise”. Num
inventário rápido, feito de memória, citaria: tesoura; tipos diferentes de
fitas durex ou tape; óculos de leitura; alguns CDs de sua autoria; variadas
edições de palavras cruzadas em português e inglês; remédios de toda sorte;
copo com água misturada com tônica; copo com suco de laranja misturado com
manga; fotografias de família; cartas e contas; calculadora, clips; cotonetes;
luvas; carteira de dinheiro; óleo para massagear as pernas; vitaminas; etc. Em
tiras de fita tape, coladas nos cantos da mesa, estão anotados os números de
telefone considerados urgentes, e ele ainda é capaz de escrever no vidro de vitamina
C, em letras caprichadas: “old”, para diferenciar a embalagem que está sendo
usada da nova.
Cada um desses itens responde a
um temor específico e funciona não apenas para que ele não precise se levantar
o tempo todo para pegar as coisas que acha que precisará, mas como um
inventário, que o permite perceber a escassez de determinado item e
providenciar sua compra, como se sua existência dependesse disso. A mesa é um
espelho da mente diante da ideia de morte iminente, em que nada mais importa,
mas todos os detalhes são essenciais. Detalhes que geram uma sensação de
conforto, muito mais imaginada do que real. Por isso, há uma séria crise quando
um dos itens, que se somam as centenas, falta. Se algum elemento acaba ou
desaparece, imediatamente toca um alarme mental e ele prepara a lista de
compras. Quando estive lá, por exemplo, ele comprou quatro lanternas, para
garantir que, no próximo furacão, quando faltar luz, ele não fique às escuras.
Às vezes, por necessidade própria
de sanidade, eu chamava sua atenção para a inutilidade da maioria dos elementos
sobre a mesa. Tentava desconstruir sua ordem, só para mostrar que novas ordens
eram possíveis, e que a vida não precisa ir se amarrando tanto. Acho que fazia
isso para buscar o velho pai, outrora tão autônomo, que se empedrara nessa
personagem debilitada. Mas, diante de uma sentença tão terrível, faz sentido
que ele busque, como um dom Quixote, um mundo onde tudo está no seu devido
lugar, mesmo que intimamente, bem lá no fundo, ele saiba que tal mundo inexiste.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Humano, demasiadamente humano
O drama e sua potencialidade como estimulador de afeto
humano é o que nos une. Nossa capacidade de perceber a dor do outro e nos
sensibilizarmos por meio de um processo inconsciente de transferência, nos colocando no lugar do outro, imaginando
seu sofrimento. Não se trata de sentir pena, do sentimento cristão de
compaixão. O que está por trás desse movimento, a meu ver, é algo mais
profundo, uma espécie de identificação, que se dá por meio da dor. É como se o
sofrimento do outro nos empurrasse para um momento de abrupta constatação,
mesmo que inconsciente, de que somos todos passíveis daquela dor, pois somos
todos humanos.
Luc Boltanski escreveu sobre isso do ponto de vista
filosófico, levando tal capacidade de empatia pela dor alheia para a instância de
relações à distância. Ele fala da capacidade de mobilização que este fenômeno
da empatia pode gerar, ampliado pelos meios de comunicação. O título de seu
livro, em tradução livre, é algo como Sofrimento à distância.
Eu penso e me interesso mais pelo mesmo processo, mas num
viés mais próximo, face a face. Esse foi inclusive um dos motores que me
levaram a pesquisar o bairro, o botequim, a convivência urbana nas cidades. A capacidade
de nos mobilizarmos pelo outro, por meio de empatias e solidariedades. Algo que
a princípio pareceria impossível ou improvável na metrópole, na cidade com sua
multidão assustadora de desconhecidos.
Sempre me intrigou essa nossa capacidade de reconhecimento
do outro como igualmente humano, já que ele é capaz de sofrer como nós.Insisto, trata-se mais de identificação do que mera compaixão.
Esta pode até surgir e se estabelecer como mediadora da relação, mas antes dela
há uma identificação primitiva, que a torna possível.
E assim se sucedeu outro dia. O primeiro dia após o
apocalipse maia. Com a Terra, pelo menos aparentemente, ainda intacta, girando
na sua rotina em torno do sol, decidi sair de casa a esmo, aproveitando a minha
folga para perambular pelo bairro. Depois de uma boa hora de andança, passada
por sebo para folhear livros e comprar mais alguns, me sentei à mesinha de um
bar uma calçada nova de Botafogo, gentrificada.
Trata-se de um admirável mundo novo homogêneo, que tanto
encanta os burgueses por sua pureza étnica e social. Todos iguais, classe
média, sem pobreza, sem mendigos, sem pivetes, sem miséria. Gosto do lugar
menos pela frequência do que pelo chope de excelente qualidade. E louvo o
esforço do dono em remar contra a (o)pressão do monopólio da AmBev e vender sua
própria marca, entre outras, muitas outras.
Foi então que reparei que a garçonete, uma jovem simpática e
bonita que sempre me atende quando apareço por lá, estava nesse dia com ares de
que as premonições maias haviam de fato se concretizado; pelo menos em nível
pessoal. Seu ar era de uma tristeza profunda e urgente, que se localizava
sobretudo nos olhos. Estava, ademais, desatenta, distante e um tanto fria. Para
quem já fora atendido por ela tantas vezes, era óbvio que ela não estava bem.
Aquilo provocou em mim uma angústia de dupla mão. De um lado
a impotência por não ter a capacidade de poder “curar” minha amiga de sua dor.
De outro, pelos meus próprios fantasmas, prontos para se identificar, farejando
o ar da melancolia e do infortúnio. Imediatamente pus de lado a distância
protocolar de nossos papéis sociais e perguntei, num tom quase de amizade, o
que havia com ela. Sua resposta se deu em forma de lágrimas copiosas. Minha
mão estendida sem querer derrubou a barreira que segurava o dique. Sem
conseguir contê-lo, o choro por fim aflorou.
Constrangida, hesitou entre o profissionalismo e o choro.
Sorriu amarelo e tratou de enxugar, inutilmente eu diria, o rosto. Balbuciou
algo como: “não estou bem” e pediu desculpas pela quebra de protocolo. Disse a
ela que ficasse tranquila e segurei sua mão para reforçar o que dizia. Disse as
coisas inúteis que dizemos nessas horas, como “seja o que for, vai passar” e
outras besteiras. Percebi um certo alívio em seu rosto, quando ela percebeu que
eu, por meu lado, também me emocionara. Meus olhos marejaram encorajados pelas
lágrimas dela.
Pensei nas coisas que me entristeciam, na solidão da vida,
na morte que ronda meu pai na forma de um tumor, nos amores fracassados que tive
e sei lá mais o quê. Me dei conta então que minha tristeza era tudo o que podia
oferecer a ela em solidariedade ao seu sofrimento. Era a dor que nos amarrava
em nossa humanidade. Humanidade que compartilhamos daquela forma.
Em seguida, ela desapareceu. Outro garçom passou a me
atender e fiquei preocupado, sem saber se perguntava por ela e chamava a
atenção dos colegas para o que se passava com ela. Mas, uma boa meia-hora
depois ela voltou. Me disse que pediu ao gerente uns minutos para espairecer e
foi dar uma caminhada. Ela se sentia melhor. Eu também. Estávamos os dois nos
sentindo mais humanos.
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