quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Les Demoiselles D'Avignon


Les Demoiselles D’Avignon, de 1906, é considerado um marco do modernismo e o evento que deu início ao cubismo como movimento, mesmo não sendo ele um quadro cubista no sentido estrito. É uma dessas obras que ficam no limbo das conceituações, dando margem a uma miríade de interpretações e alumbramentos. Escapa inclusive à própria intenção do autor, por algum mecanismo que se insinua, vindo do fundo do inconsciente, com uma força que se sobrepõe ao projeto autoral. Porém, mesmo tendo esse percurso incontrolável e selvagem — na verdade, justamente por ser assim — produz um resultado íntegro. Por isso é tão perturbador. O próprio Picasso ficou incomodado com aquela tela de dimensões desproporcionais que tantas reações causou às mentes racionalistas daquele então.

Dizem os especialistas que, iniciada em 1905, sua pintura foi encerrada abruptamente no ano seguinte, deixando o quadro incompleto. Parece que Picasso queria acrescentar dois homens vestidos entre as mulheres nuas, mas desistiu. A tela estava pronta independentemente da vontade do pintor. A obra se impôs na força das mulheres nuas, nos seus rostos distorcidos, no movimento da imagem, em sua luz e cores e na fúria das pinceladas... e se tornou arrebatadora. Imagine uma mente cartesiana e puritana, tão comum naqueles tempos (como hoje, talvez) olhando aquele delírio erótico. Justamente no auge do mundo das certezas, naquele começo de século XX, o raciocínio lógico e moralista seria tão confrontado pela arte moderna, pela psicanálise, pela antropologia, pelo urbanismo, pela arquitetura, pelas revoluções utópicas...

As Demoiselles inauguram um tipo de arte que se presta mais firmemente a esse tipo de ilusionismo da alma. Um traço a mais, uma pincelada um pouco mais forte e lá vem uma imagem que estava escondida no inconsciente do pintor, além ou aquém de sua intenção racional e muito mais do que uma tradução de sua intuição emocional. Talvez, uma questão de soltar a mão e deixar o fluxo do movimento seguir o curso numa semi-consciência. E Picasso foi sábio o suficiente para saber que naquela tela havia algo que surgira para além de sua intenção, algo que mudaria para sempre o fluxo das coisas, como só uma obra de arte pode fazer.

Por isso me incomoda muito a idéia da arte como mero entretenimento. Como algo que existe para nos alegrar e divertir. Uma noção perigosa que anda disseminada hoje em dia em mentes brilhantes, com medo de fugir de padrões de sucesso. Abraham Moles descreve esse gozo do entretenimento como o kitsch, que seria o oposto da arte. O kitsch, ensina ele, não é só a obra cafona, é sobretudo a obra que entretém, que diverte, que esvazia do seu objeto a potência da arte, tornando-a confortável e conformada. Já a obra de arte nem sempre é agradável e bonitinha. Muitas vezes é repulsiva e dolorosa, angustiante e, quase sempre, transformadora. Quem passa por uma obra de arte, seja um romance, um filme ou uma exposição, não sai mais o mesmo que entrou. Alguma coisa interna muda e seu olhar para o mundo também se transforma. Sem que se dê conta. Já o kitsch deixa tudo como está, conforma, confirma.

Quando se fala em vanguarda, e é interessante ler os inúmeros manifestos que surgiram desde o século XX, para mim o que está em jogo é a ruptura com o que havia antes. Uma ruptura é um movimento necessariamente brusco e violento, no mínimo, agressivo. Só possível se ocorrer numa obra de arte ou num ato concreto de violência, como uma revolução. Mas o sistema também aprende a se defender dessas, digamos, convulsões, sobretudo incorporando e esvaziando sua linguagem revolucionária, sua capacidade de mobilização artística e da consciência, através do sentimento, da emoção. E hoje, me parece, vivemos o paroxismo desse processo de absorção e esvaziamento das coisas essenciais, nessa pós-modernidade em que os sentidos se esfacelam, as modas se sucedem velozmente, o kitsch domina, o niilismo impera e a alma se esfarela.

Outro dia assistia ao programa Altas horas, do Serginho Groissman, uma espécie de Chacrinha modernizado para adolescentes, bastante agitado e de múltiplos estímulos. Mas, ao contrário do Chacrinha original, Serginho é bastante educativo e moralista. Havia tanta gente interessante: atrizes, escritores, bandas de rock e pop, convidados curiosos, público participante e tal. Me pareceu um caldeirão (curiosamente o nome de outro programa de TV) em que se jogam todos esses artistas, misturados com depoimentos de especialistas sobre temas morais, como sexo, e outras atrações curiosas. Tudo dissolvido há aí uma poção pop. Se isso tem um lado genial de colocar esses indivíduos num ambiente que se impõe sobre eles, também tem um inegável elemento que dilui e diminui aquelas singularidades artísticas, exceto nos casos de pessoas realmente genais, como um Hermeto Pascoal, por exemplo, que é capaz de subverter o script. Bem, isso é a TV, certo?

Mas as Demoiselles, essas mulheres insinuantes, putas num bordel, estão aí como um lembrete sensual, hoje tão necessário, de que a obra de arte, além de revolucionar a alma das pessoas que entram em contato com ela (a começar pelo artista), também tem o potencial de transformar o mundo. Por isso, a arte, como expressão do inconsciente humano, é potencialmente subversiva frente a qualquer sistema político, a qualquer dogma moral, a qualquer racionalização.

2 comentários:

Edson Carvalho disse...

Incrível o que me fez aprender seu comentário. Parabéns!

~L disse...

Sua perspectiva sobre arte é incrível. Li que essa pintura inspirou um poema do francês Apollinaire, você já ouviu falar dele?