Mostrando postagens com marcador furacão sandy. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador furacão sandy. Mostrar todas as postagens

sábado, 3 de novembro de 2012

De volta a Nova York



A janela embaçada pela diferença de temperatura. Na rua, um gelo, em casa, calor

Nova York é um lugar esquisito na minha vida. Depois de morar lá nos anos 1970, no fim da adolescência, percebo que construí uma intimidade e uma história em meio àquelas ruas e avenidas numeradas, que fazem da cidade muito mais do que um ponto turístico ou mesmo um lugar de visita. Sempre vivi a cidade, seu dia a dia, mesmo quando não mais morava lá e estava apenas de passagem.

Aliás, me dou conta de que sempre viajei assim. Nunca fiz, por exemplo, esses roteiros europeus, tipo: três dias numa capital, dois em outra e, ao fim de 15 dias, visitou-se três, quatro cidades sem conhecer nenhuma. Não consigo sentir o lugar em tão pouco tempo. Preciso entrar no cotidiano local e isso demanda um tempo mínimo de entrega, de abertura à realidade que se descortina e também requer boa dose de esquecimento da realidade de onde se vem. É um processo denso, que exige do viajante saber o seu lugar no mundo, seja este o destino ou a origem, os dois ou nenhum. Quando essas coisas não estão claras, o viajante vive no limbo, numa espécie de não-lugar. Está sempre de passagem, incapaz de fincar raízes. 

Claudinha, uma amiga no Central Park, na última que estive em NYC, em 2002

Tinha 17 anos quando me mudei, mala, cuia e greencard à mão, para Nova York. A cidade vivia o frenesi do Saturday Night Fever, o verão do filho de Sam, a chegada do humor britânico do Monty Python, o jazz leve de gente como Grove Washington Jr, ou pesado, como o de Dexter Gordon, e o funk jazzístico dos Crusaders. Havia índices cariocas de violência urbana e o meu cotidiano consistia estudar inglês na Columbia University (tive a sorte ganhar uma bolsa integral) e conhecer a cidade.

O Brasil que ficara para trás estava no auge da repressão política, na transição do Médici para o Geisel. Na Maçã, aderi como simpatizante à militância política, participando de um grupo de defesa de prisioneiros políticos da América Latina, chamado Usla, ligado ao partido trotkista. Organizávamos protestos em frente aos consulados das ditaduras latino-americanas, como o Brasil e o Chile, cobrando a divulgação do paradeiro de presos políticos desaparecidos. Também estudava música, influenciado por meu pai, Gaudencio Thiago de Mello, compositor e multi-instrumentista, o que me permitiu conviver com músicos incríveis e aprender com eles. Depois vi que meu negócio era escrever. 

A rua 22, em Chelsea, onde morei nos anos 70. Outros tempos

Cada vez que voltei a Nova York desde então, de certo modo recuperei um pouco dessa vivência interrompida por minha volta prematura ao Brasil, em 1979, e pude reviver a experiência da cidade. Na última vez que estile lá, em setembro de 2002, vi as cicatrizes do 11 de Setembro, visitei endereços onde morei nos anos 1970 e vi que, por exemplo, o prédio onde vivi na rua 22, havia sido destruído por um incêndio. E, mesmo diante daquela ausência, onde uma outra construção foi erguida, me lembrei da velha morada.

E, agora, preparo as malas para chegar à cidade devastada pelo furacão Sandy,  para me despedir do meu pai que está bem doente. Essa sim parece ser mais que uma viagem dentro de uma viagem, uma jornada, cujos sentidos e consequências só serão apreendidos em algum momento no depois. No agora, é fazer as malas e encarar os percalços do vendaval.