quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Agrupamentos e movimentos


Estava lendo o catálogo da exposição sobre a poesia marginal que o IMS organizou. Me lembrei da exposição que vi em Paris sobre Richard Prince, da turma underground americana dos anos 1960. Também estou lendo os cadernos do Helio Oiticica, onde ele maquinava seus projetos de instalações e arte conceitual. Muito interessante ver o registro da mente de uma pessoa genial como HO.

Mas voltando ao catálogo dos marginais, a introdução, escrita por Frederico Coelho, faz uma boa análise, mas senti uma certa forçação para dar a esse grupo heterogêneo de poetas um sentido de grupo. Uma das suas estratégias é separá-los de outros grupos de poetas da nossa contemporaneidade. Mas como isso é insuficiente, ele não tem como escapar a certas contingências históricas que explicam por que escritores distantes em seus estilos foram reunidos sob o signo de marginal.

Isso me deu asas pra pensar muitas coisas, que só vou alinhavar aqui, enquanto elas vão ganhando uma forma mais consistente em meu raciocínio. Em primeiro lugar, fica claro que há agrupamentos e movimentos. Uma coisa são os modernistas e as vanguardas pós-1950, com seus manifestos e cânones. Por mais vanguardistas que sejam, esses movimentos têm vinculações com linhagens com tradições. Como dizia o Risério, a vanguarda tem uma relação dialética com a tradição, nem que seja o rompimento. E esses grupos se forjaram por meio desse relacionamento problemático, o rompimento do filho com o pai, como uma espécie de processo psicanalítico coletivo. Daí suas regras estritas expressas em manifestos e prescrições. Combatem formalismo com formalismo.

Outra coisa bem diversa são agrupamentos. Os poetas marginais e os da geração de 45 estão a meu ver nesse segundo grupo. Não dá para classificar a poesia marginal ou a produção dos poetas de 45 como um movimento, pois o que os amarra no discurso descritivo são coisas contingenciais, como a forma material de produzir (o mimeógrafo, no caso dos marginais), ou como preocupações estéticas gerais, como o retorno a certo formalismo para romper com ele novamente, como no caso da geração de 45. Como colocar no mesmo grupo, por exemplo, Geraldo Carneiro e Chacal; Cacaso e Wally Salomão?

Há muito fetichismo e considerável desconhecimento sobre esses agrupamentos. O próprio Coelho, na introdução do catálogo da exposição dos marginais, se refere ao soneto como uma obrigatoriedade da produção poética da geração de 45. Taí um agrupamento pouco debatido, compreendido e mergulhado num relativo esquecimento da crítica, da mídia e dos poetas contemporâneos. A volta ao formalismo rompido pelos modernistas nunca foi perdoado. Foi mal compreendido como um retrocesso em relação à vanguarda dos anos 1920. Mas, na verdade, a experiência do retorno à forma era a forma de poder romper novamente com a tradição. Antes de recorrer ao verso livre, aprender a redondilha e as formalidades das linhagens tradicionais, reforçando a experiência do rompimento.

Mas isso não está escrito em lugar nenhum. Aparece em conversas dispersas, em pedaços de declarações e depoimentos incompletos. Nas entrelinhas. É preciso pescar essa percepção das empoeiradas estantes das bibliotecas, mas isso dá trabalho e uma geração como a de 45 não desperta interesse midiático. É melhor falar de poetas ligados a certos movimentos, como as vanguardas pós-50, abençoadas pelo tropicalismo de Caetano & Gil. Taí uma explicação possível para o sucesso editorial da poesia de Leminski: sua vinculação por afinidade a uma estética e filosofia que se tornou vitoriosa na contemporaneidade. O tropicalismo é o hoje o nosso cânone.  


Enquanto isso, lembro que o Coletivo Chama convida para o show de lançamento do segundo CD do Escambo, Neon, hoje, no Espaço Cultural Sérgio Porto, às 20h.

domingo, 8 de setembro de 2013

Enquanto isso




Não me lembro se foram nove setembros ou sete novembros. O tempo não escorria assim naquele hiato. Era um estar estando, e quando o raciocínio vinha, o momento já era outro. É como se ideia como tal só fosse possível no passado. O pensamento como algo ido. Lá atrás. Ou então se projetava para frente. Num a-vir, num a-qualquer-momento. Como será tudo lá adiante. Amanhã. Depois da esquina de nossos dias. Enquanto isso, no agora, só vida e sonho. Intensa vida ao seu lado, amiga. Circulando, embrenhando, penetrando. Sofrendo, gozando. Simbiose. Um limbo tão extasiante quanto irreal. Tão irreal como tempo esquecido em tantos outubros, em muitos dezembros.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O velho Aurora de volta

Uma pausa na revolução em andamento para falar de coisas da vida. O velho Aurora foi comprado. O histórico bar da Visconde de Caravelas com Capitão Salomão, no limite entre Botafogo e Humaitá, faz parte da minha vida desde o fim dos anos 1970. Desde a época em que havia a figura história do garçom Lima, com sua arruda na orelha e um atendimento como não se vê mais. Nos primórdios era um ponto de encontro da juventude, especialmente músicos e atores. Suas paredes eram repletas de cartazes de shows e peças de teatro, na época em que as camisetas “Vá ao teatro” ainda não tinham sido sacaneadas pela turma do Cassetta com o complemento: “Mas não me chame”.Me lembro de mesas com Manduka, Enrica Bernardelli, Geraldinho Azevedo, entre outros, e discussões intermináveis e estratosféricas.

O casarão, de 1898, abriga um ambiente amplo, típico dos botequins do início do século 20. A cozinha tinha o bem servido carro-chefe: Lulas com arroz e brócolis. A lula vinha desfiada em tiras finas e o arroz verde ficava suculento. Comiam três. O lombo de bacalhau (àquela época ainda era possível comer bacalhau em botequim sem ficar pobre) à moda portuguesa era outro sucesso do bar. Tudo receita da família de meu amigo Rogério Loro, que trocou o bar pelo jornalismo. 


Depois, a família de Loro saiu, deixando o outro sócio tomando conta do lugar, a coisa começou a decair aos poucos. O prato com lula e arroz e brócolis nunca mais foi o mesmo (hoje em dia é possível comer algo semelhante no Bismarque, em Botafogo), e as carnes entraram firme, substituindo os peixes e frutos do mar. Além disso, o bar passou a ter o defeito de fechar cedo. Às 21h30 já era possível sentir o nervosismo dos garçons, apressando pedidos, avisando que a cozinha iria fechar e coisa e tal. A gota d’água foi a última vez que fui lá, há pouco tempo, com minha amiga Renata Malkes: só estavam servindo cerveja Itaipava. Só. 

Para mim, foi o sinal do fim de uma longa agonia. Aquela história do paciente com uma doença terminal e muito sofrimento, cuja morte acaba trazendo tanto alívio quanto dor. No caso do Aurora, temi que se tornasse mais um Belmonte. Mas eis que na terça-feira recebo a boa notícia: meu querido amigo Kadu Tomé, um dos sócios do Bracarense, comprou a casa. Kadu é um jovem empreendedor do ramo de botequim, com alma de botequineiro. Tenho certeza que saberá preservar a memória da casa e recuperar a imagem do velho Aurora, melhorando o que há para melhorar.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

O Maracanã da gentrificação


Botafogo, em plena transformação, com demolições de vilas e sobrados, para dar lugar a novos condomínios fechados.

Eu me lembro, quando estava em Paris, da discussão sobre as reformas das estações do metrô. A prefeitura da cidade encomendou a diferentes escritórios de arquitetos a renovação das plataformas e o que se percebeu foi que as mudanças também visavam a impedir que os sem-teto pudessem transformar os bancos em cama, além de uma série de modificações que tornavam uma prolongada permanência na estação um tanto desconfortável. A ideia era tornar tudo bonito, funcional e moderno, sem dar brecha a usos não planejados pelos gestores para as plataformas. Não adiantou muito, porque as pessoas passaram a dormir deitadas no chão. Mas as mudanças provocaram acaloradas discussões, com opiniões a favor e contra na mídia e nas universidades, e evidenciou-se, mais uma vez, o problema do que fazer com a miséria e a pobreza na cidade.

Em plena era das cidades-mercadorias, em que as metrópoles disputam entre si os fluxos do capital globalizado, seja atraindo turistas ou investimentos em negócios, criar as condições para receber esses recursos tornou-se uma prioridade para as administrações municipais. Questões como violência, miséria, má infraestrutura, transportes, limpeza urbana, mobilidade e sinalização, oferta de serviços, realização de megaeventos, políticas de tolerância zero e choques de ordem viraram prioridade, apoiadas num discurso vertiginoso de desenvolvimento e euforia com a cidade que o cidadão herdará como consequência dessas reformas.

Vemos exemplos que, aparentemente, deram certo, servindo de modelo e se repetindo em outras cidades, como as políticas de segurança adotadas em Bogotá, que inspiraram parte da políticas das UPPs no Rio; a política de tolerância zero do prefeito de Nova York, Rudy Guiliani, transformada em choque de ordem aqui. A renovação da área portuária, normalmente degradada, em área de serviços e de negócios, com um museu feito por um arquiteto renomado, enfim, os exemplos se repetem. Tudo isso, exigiu que o Poder Público gerisse a cidade como uma empresa, com gestão profissional e metas de produtividade. E, com os cofres vazios, as prefeituras (e demais instâncias executivas) se associaram à iniciativa privada, que em troca, abocanhou boa parte das benesses dessas reformas urbanas, a começar por mudança no plano diretor para alterar gabaritos de construção e mudar zoneamento de áreas urbanas para a construção de shoppings, prédios residenciais de negócios etc.

O setor imobiliário, aliás, foi o que mais se beneficiou dessa lógica de gestão urbana. Apoiou-se inicialmente nas isenções tributárias concedidas pelo governo federal, preocupado com a geração de emprego no setor da construção civil. Em seguida, o Congresso aprovou a reforma da lei do inquilinato, com o objetivo de destravar o mercado de imóveis, mas com mudanças que tornaram precárias a posição dos inquilinos. O resultado foi uma renovação do tecido urbano dos bairros com uma profusão de construção de prédios, descaracterizando bairros tradicionais, e um êxodo urbano interno provocado pelo que os sociólogos britânicos e americanos chamam de gentrificação.

Mas o problema dessa lógica é que, na bela cidade do futuro, não há lugar para certa parcela da população. Exatamente essa que vai sendo expulsa de bairros tradicionais ora por políticas de remoção, como a que presenciamos na zona portuária ou na Vila Autódromo, ou expulsas pela gentrificação. Ao mesmo tempo, questões básicas como educação, pobreza, saúde, transportes, violência urbana, que exigem investimentos com uma lógica social, sem gerar uma visibilidade imediata, que torne a cidade mais atraente ao capital globalizado, vão sendo relegadas ao segundo plano. O importante é tornar visíveis as reformas urbanas, as belezas naturais, a cultura da população, criando uma imagem de marketing que transforme a cidade em marca internacional.

Protesto na inauguração do Maracanã contra a privatização do estádio e a demolição de imóveis do entrono (foto: André Durão/Globo Esporte)

Quem foi ao Maracanã ontem, na inauguração do estádio, como meu amigo Jason Vogel, ficou impressionado com a beleza, a organização e limpeza do Estádio Mário Filho. Depois dos elogios, no entanto, nos lembramos de jogos históricos que presenciamos ali (eu vi Brasil 1 x 0 Paraguai, gol de Pelé, em 1969, na eliminatória da Copa do Mundo de 70, com o maior público de todos os tempos no Maraca: 210 mil torcedores), falamos de “geraldinos” e “arquibaldos”, e Jason constatou: “O novo Maracanã não tem pobre. É o Maracanã da gentrificação”.

Esse tipo de lógica urbana é uma contradição com a filosofia de inclusão social, que o governo federal conseguiu implementar, ainda que precariamente, nos últimos anos, distribuindo um pouco melhor a renda nacional, gerando empregos formais, reformando leis coloniais de empregados domésticos, entre outras iniciativas. Ela inclusive ameaça a continuidade dessa maior integração social, atrasando investimentos em educação, moradia e saúde, os pontos centrais de uma gestão humana, voltada para as pessoas e não exclusivamente para determinadas parcelas da população e para a criação de uma imagem fantasiosa de cidade maravilhosa, meramente como uma marca publicitária.

Fantasia que vai fazendo água diante da realidade de tiroteios, tráfico e turistas atacados em favelas pacificadas; no caos do trânsito (em que se colocam motoristas de ônibus como vilões e carrascos de ciclistas, mas não se fala do poder e da responsabilidade das empresas de ônibus no problema do transporte urbano), nas reformas de áreas urbanas segundo lógicas de demolições e sem uma consciência clara e definida do patrimônio histórico, da identidade cultural do tecido urbano, resultando a cidade numa esquizofrenia arquitetônica. E são muitos os exemplos de realidade que, aqui e ali, explodem na cara do morador anestesiado pela euforia,

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Jornalismo impresso perto do fim?

Nessas últimas semanas morreram dois magnatas da imprensa brasileira. Por acaso, estava na redação no momento em que chegou a informação sobre a morte de Ruy Mesquita, do Estadão, na terça-feira, dia 21 de maio. No fim de semana seguinte, fui convocado de última hora para fazer o plantão, no lugar de uma colega que machucara o pé, e, no domingo, ao fim do primeiro clichê (edição), chegou a notícia da morte de Roberto Civita. Nas duas ocasiões, fizemos segundo e terceiro clichês, mobilizamos repórteres em várias cidades para repercutir com autoridades e personalidades as mortes, e fizemos algumas trocas rápidas de edição (quando se para a rotativa para acrescentar uma informação importante: o velho grito de "parem as máquinas!")

O mais comum é que esses momentos de pura adrenalina na redação ocorram devido a fatos extraordinários (O Globo, por exemplo, fez um caderno inteiro em duas horas no 11 de Setembro de 2001), o que se chamava, nos primórdios, de "bomba!". No mais, quase sempre temos segundo clichê e, em algumas editorias, como a Rio e a seção de Esportes, um terceiro clichê não é nada raro. Ao fim das mudanças, saímos cansados, mas com a sensação do dever cumprido, imaginando que o leitor, no dia seguinte, encontrará os dados mais atualizados possíveis e as informações relevantes sobre seja qual for o assunto.

Mas isso já não é mais assim, hoje em dia. Saí do fechamento dos dois óbitos cansado e consciente de ter ajudado a fazer uma boa edição. Mas, no dia seguinte, ao pegar o jornal na portaria de casa, me deparei com um jornal velho. Já havia lido na versão online, antes de descer, informações mais atualizadas, como local do velório, novos depoimentos de personalidades sobre os mortos etc. Poderia ter jogado o jornal fora, não fossem as informações de fundo, as análises e a voz dos especialistas tratando do assunto. Me convenci de uma vez por todas que o único caminho de salvação para o jornalismo impresso é investir no conteúdo analítico, de qualidade. O jornalismo impresso, ainda atrelado à era industrial, precisa mudar para concorrer com o jornalismo online, que traz a notícia em tempo real. E a única forma é por meio da produção de conteúdo de qualidade. Não adiantam investimentos, reorganizações internas, unificação das redações se os gestores responsáveis pelo jornalismo impresso não entenderem que, cada vez mais, têm que oferecer um jornalismo reflexivo e analítico.

De repente, chega a notícia de um passaralho (demissão em massa) no jornal Valor. Na tentativa de enxugar os gastos, demitiram 50 funcionários, dos quais 30 jornalistas. Mas não 30 jornalistas quaisquer. Foram para a rua os mais antigos e os mais graduados. Ao comentar com um colega no Globo esses cortes, ele me perguntou, com razão: que conteúdo é esse em que eles estão apostando, se demitem suas melhores cabeças?

O problema é complexo. De um lado, a imprensa hoje é um negócio voltado para gerar dividendos a seus acionistas e, portanto, precisa ser gerida profissionalmente com esse foco. No topo executivo dos principais conglomerados de comunicação os homens de imprensa foram substituídos por executivos de outras áreas, administradores a maioria. E, ao mesmo tempo em que o jornalismo passa a ser um híbrido entre uma instituição pública, com o dever de informar, e uma empresa privada, com foco no lucro, ocorre em outro campo uma revolução tecnológica sem precedentes.

A internet, as redes sociais, os gadgets eletrônicos e a mobilidade conectada em nuvens de informações transformaram radicalmente a relação emissor-receptor. Hoje, o leitor não é mais um sujeito passivo. Ele não só seleciona melhor as notícias que quer ler, mas as reproduz em suas redes pessoais.

Essa realidade atingiu em cheio o saber jornalístico. Um saber que se situa entre o senso comum e o saber científico ou acadêmico. O jornalista tinha acesso a muitas informações, algumas delas especializadas, e, assim, interpretava para o público leigo o saber mais complexo da academia, das corporações, dos especialistas etc. Agora, essa relação se tornou opaca. Com o bombardeio de informações que todos recebem o tempo todo e a facilidade em consultar dados antes obscuros, o leitor comum hoje passou a ter acesso a um saber que se equivale ao do jornalista, diminuindo sua dependência em relação à imprensa. Qualquer cidadão que goste de futebol, por exemplo, pode ter um blog com suas análises, pareceres e opiniões. Antes, essa possibilidade inexistia. 

Então, para o jornalismo impresso só cabe uma saída: investir na qualidade e na profundidade das informações.  É preciso recriar um saber especializado que desperte no leitor a necessidade de se informar melhor por meio do jornal. Apostar em colunas, crônicas, artigos, seções de ciências e tecnologia, campos onde as informações são mais complexas e analíticas. Trabalhar a notícia quente, que também estará no online, com sua análise, esmiuçando as consequências e desdobramentos.

sábado, 11 de maio de 2013

Três meninas


Três meninas brincam de roda
Três meninas se multiplicam
Em rodas, carnavais e bodas
Rodam as saias três meninas
Produzidas, belas, poderosas
Giram, rodopiam minha vida
Três meninas, três amigas
Que me invadem sem querer
E me enredam em seu rodar.


Fim das férias

Voltando aos poucos depois de um mês de férias... cito o verso dos Beatles murmurado lamentosamente no Sargent Pepper's:

"I'd love to turn you on!"


domingo, 3 de março de 2013

Chico, Vinícius e as mulheres


Sei que é uma estratégia velha e batida, muito usada no Brasil, desde antes de Gregório de Mattos. Mas essa tática de atacar certas figuras ou certos valores tem limite. Um limite que deve ser a própria insignificância do agressor. Responder a esse tipo de crítica é cair na armadilha, mas às vezes a coisa merece nem que seja uma reflexão. Já acompanhei boas polêmicas, envolvendo figuras divergentes, mas com graus de inteligência, cultura e raciocínio elevadíssimos, o que tornava o debate, por mais agressivo que fosse, como uma espécie de embate platônico. José Guilherme Merquior e Carlos Henrique Escobar, por exemplo. Isso sem falar em grandes nomes da rabugice nacional, como Paulo Francis, ou mais ainda, o genial Nelson Rodrigues, e suas frases imortais. Glauber Rocha e o próprio Caetano Veloso, para citar nomes inquestionáveis quanto as suas genialidades.

Quando penso na constelação de nomes citados acima, alguns mais à direita outros nem tanto, sinto um certo alívio em perceber que, nestes tempos de pulverização de valores, até essa estratégia anda abalada pela contemporaneidade. Quem são os grandes polemistas de hoje em dia? Uns tucanos contratados pela Veja? Assisti outro dia ao Manhattan Connection, um programa baba-ovo e subserviente à fantasia de prosperidade nova-iorquina, que interrompe e inverte a originalidade de latino-americanos talentosos que, desde os anos 1960, foram à Grande Maçã com projetos de revolucionar o Império. Figuras como Helio Oiticica, o próprio Glauber, Ruben Gerchman, o argentino Gato Barbieri e músicos brasileiros como Naná Vasconcelos, Claudio Roditi, Dom Salvador, Dom Um Romão e, com licença da puxada de brasa, meu pai, Gaudencio Thiago de Mello, entre outros. Mas enfim, o programa mostrava os comentaristas de sempre e, entre eles, um energúmeno chamado Diogo Mainardi, um desqualificado que fazia insinuações de que Chico Buarque não sabe escrever, não é um poeta e sei lá mais o quê.

Era mais uma vez, nitidamente, a velha estratégia: bate-se no ícone, na referência, para chamar a atenção sobre si. Mas, quando se volta para o idiota, o que se vê? Idiotice, é claro. E, infelizmente, cada vez mais esse conservadorismo com sotaque paulistano vai ocupando a mídia atual. A mesma elite de Alto Pinheiros e do Alto Leblon, com sua ojeriza a tudo que cheire a popular. Cada vez mais um discurso conservador, retrógado e elitista vai se disseminando por progamas, como uma série de idiotices femininas, para a "mulher moderna", como Saia Justa e outros tantos lixos, como se o telespectador fosse um mentecapto. Nos painéis do Globonews Painel raramente são convidados especialistas de várias correntes, sejam elas políticas, acadêmicas ou ideológicas. Outro dia, para discutir demarcação de terra indígena, William Waack convidou advogado, empresário, políticos, menos índio e antropólogo. Que liberdade de expressão é essa? Nas discussões sobre ciência política e geopolítica, estão sempre os mesmos embaixadores do Itamaraty, todos da época de Fernando Henrique Cardoso... enfiando a porrada, daquele jeito educado, no Amorim e no Patriota. Enfim, os exemplos abundam.


E tudo isso faz parte do momento. A mídia no Brasil tem uma posição ideológica nítida e utiliza seus canais para expressá-la. Democracia é assim, dizem. Então, vamos em frente. Mas, daí, o energúmeno do Manhattan Connection desancar o Chico para aparecer é um pouco demais.

De qualquer modo, a resposta veio no GNT, num documentário, que eu ainda não tinha visto, sobre o Chico e sua relação com as mulheres. Ele desmentiu o mito que se disseminou por aí, de que ele entendia a alma feminina como ninguém, pois só assim seria capaz de escrever as letras do ponto de vista feminino tão intimamente bem. Segundo o Chico o que o fez escrever tão bem sobre a mulher, e sobretudo, a partir do olhar feminino, foi seu desejo pela mulher. Sua curiosidade por um universo que, no fim das contas, ele não entende nada. E, é verdade, as razões femininas são tão misteriosas que nos aturde.

Nosso clube masculino é todo lógico. As regras são claras e as competências e disputas bem demarcadas. Nossa sensibilidade passa por outros  canais. Mas a atração pela mulher nos obriga a um jogo de alteridade que abre nossa percepção e sensibilidade num outro nível. E é isso que permitiu ao Chico escrever sobre a alma feminina com tanta propriedade, pelo menos para certa geração de mulheres. Talvez, algumas letras hoje não façam mais sentido. Mas a estrutura cognitiva que subjaz a isso certamente continua lá.

Tenho duas amigas que amam o Vinícius de Moraes. Uma desconhece as histórias do Vinícius mulherengo, a outra me emprestou um livrinho do Affonso Romano de Sant'Anna, chamado Tempo de delicadeza. Nele, Sant'Anna tem uma pequena crônica chamada Confraria dos machos, que é sensacional e explica muita coisa. Ele narra, e muito bem, a história de uma paixonite de Vinícius, já com 60 e tantos, por uma jovem de 17 anos. Uma paixão recíproca que acaba com os dois fugindo para Roma, com ajuda dos amigos de Vinicius, inclusive o Chico. Daí a ideia de confraria. Esse bando de meninos quarentões, sessentões, brincando de paixão. Uma coisa bem masculina e dionisíaca. Todos do clube, uns sátiros apaixonados por curvas e ancas femininas. Para perscrutar tão bem a alma feminina, como Chico e Vinicius fazem, só mesmo com tanto estranhamento.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Mormaço na floresta remix


Já mandei avisar que não irei. Que, dessa vez, descansarei os pés e pouparei meu espírito de tantas ocorrências. Dessa vez, olharei o horizonte, espreguiçando uma moleza no oscilar da rede, estrategicamente armada na varanda. Observarei pássaros e insetos ainda não catalogados pela ciência ao ritmo do balançar suave do pêndulo de pano. Me entregarei aos poucos e definitivamente à natureza, em torno da casa de madeira e vidro na floresta. Estarei com Manoel de Barros e Thiago de Mello, companhias propícias ao mormaço.

Não, meu amor. Dessa vez não cairei na folia. É minha alma que solicita essa delicadeza. Ter com os bichos do mato, ver os índios mais uma vez, o pôr do sol de aquarela, enquanto o banzeiro chacoalha o barco e me faz sentir no esplendor de minha insignificância. Esperarei o frescor que vem da chuva das 17h e tomarei um sorvete com a cabocla na avenida verde da cidade que não está no mapa. Depois imaginarei você, inteira e nua, no torpor do mormaço, ao meu lado, ali, na rede que range o ritmo do dia. Serei feliz para sempre no instante.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Sonho de uma noite de verão



E chega o sábado em meio ao calor desse verão indeciso. Desperto de sonhos tumultuados. Coração, vísceras e uma imagem difusa dela. Nua. Não consigo fazer um enredo. Uma sucessão de cenas desconexas. Ruídos, intromissões. Isso me lembra a entrevista que li ontem com Joel Birman, em que ele diz que, agora, na contemporaneidade, a função do sonho, tal como Freud descreveu, já não se aplica mais. Pelo menos de forma categórica. Já não se tratam mais de expressões reprimidas do desejo, embaralhado pelo Superego para se tornar suportável à luz da consciência.

Agora, diz o Birman, os sonhos se tornaram meros pesadelos, em que o sujeito desejante sucumbe à fragmentação da atualidade. Uma atualidade em que, em termos freudianos, o “sofrimento” foi substituído pela “dor”, e o “desamparo”, pelo “desalento”. Em que o tempo perdeu o predomínio sobre o espaço. Em que a drogadição, a alimentação e o consumo compulsivos compõem as novas subjetividades do sujeito perante o mundo.  Ou seja, muitas das observações do pai da psicanálise precisam ser atualizadas nesses tempos do triunfo do neoliberalismo, que alguns chamam de pós-modernidade.

Mas não é esse o assunto. Mencionei o Birman porque sonhei. E meus sonhos ainda emergem do inconsciente, muito nitidamente, naquela velha forma onírica, cheia de metáforas e símbolos, desejos e pulsões. Às vezes, nem tão metafórico assim. Ocasionalmente acordo de sonhos tão cristalinos com coisas e seres que desejo que fico aturdido, a ponto de indagar: cadê a poesia do sonho?  Mas, lendo o Birman, agora me pergunto como me adapto a este não tão admirável mundo novo que ele descreve?

Reforço a sensação de que sou (e toda minha geração também) um ser literário, em minha formação cognitiva básica, em oposição ao sujeito multiplataforma atual. Nem mesmo audiovisual eu sou. Minha transa com a imagem ainda é toda literária. Diante dela, construo histórias. Talvez, por isso, seja tão fascinado pelos portraits. Os retratos são portas de entrada para enredos infinitos. Dramas humanos sem fim. Vida.

Essa forma de ser, tal como a percebo narcisicamente, me coloca no mundo com certa estranheza, e é assim que, neste sábado, desperto tentando entender o sonho que me perturbou a noite. Buscando sentidos, em meio ao calor do dia, para a imagem desejosa dela, que, de resto, se constitui de distância e saudade.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Caipirinha Appreciation Society

Kika Serra e MC Suing fazem, já há algum tempo, um extraordinário programa de rádio, via podcast, chamado Caipirinha Appreciation Society. Trata-se de música brasileira na veia, mas não os clichês que abundam as rádios brasileiras e festivais patrocinados por gravadoras. Ou seja, trata-se de uma rádio em que se pode ouvir coisas interessantes, raras, criativas, artistas geniais desconhecidos, e poder ter uma ideia de que música brasileira não se conformou a uma ordem industrial internacional e continua sendo de algum modo original e criativa.

Graças à Kika e ao MC Suing, vê-se que a tese de Hugo Sukman, de que o tropicalismo colocou a MPB na ordem mundial do pop e matou o que havia de diferente e original na música do país, é uma verdade relativa. As pessoas continuam compondo de forma independente e criativa, o problema é que não têm voz na mídia tradicional.

No site deles, quem quiser pode se inscrever para receber as atualizações dos programas e ouvir programas anteriores, todos armazenados como podcast. O Caipirinha Appreciation Society pode ser acessado aqui, e o Google+ vai fazer uma transmissão especial deles sobre o carnaval.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

No quarto das meninas

Jovem Karajá que passou pelo ritual que a torna uma adulta na aldeia e lhe confere as marcas dos Karajá, o círculo tatuado nas bochechas (fiz essa foto na aldeia Karajá da Ilha do Bananal, em 1987).

A fotógrafaa libanesa Rania Matar migrou para os Estados Unidos nos anos 1990, onde, depois de ter se formado em arquitetura, se dedicou à fotografia. Em seu site oficial, que pode ser acessado aqui, ela apresenta uma série de retratos de adolescentes na intimidade de seus quartos. São adolescentes americanas, libanesas, refugiadas palestinas entre outras. Suas fotos mostram o que há de comum e de distinto entre essas meninas-a-se-tornarem-mulheres com uma riqueza de detalhes que só uma imagem pode mostrar. Algo bem além das palavras para os corações sensíveis. Estão ali o que aproxima essas meninas e o que as separa, como, por exemplo, o lenço muçulmano. Suas imagens insinuam sonhos que se tocam, no devir feminino que vai se constituindo, mas que são culturalmente distantes ao mesmo tempo.

A adolescência não é um fenômeno da natureza. Está na ordem da cultura. Da nossa cultura, genericamente chamada de ocidental. É, portanto, uma invenção nossa. Em algumas outras culturas esse longo período de transformação da criança em adulto se dá por meio de ritos de passagem, em que a criança se torna adulta para a sociedade onde está inserida, e para si própria, em sua subjetividade. Quando estive com os índios Karajá, na Ilha do Bananal, entre Tocantins e Mato Grosso, nos idos de 1980, percebi bem esse processo. Havia adultos e crianças. Nenhum adolescente. Apenas jovens adultos, empenhados na divisão do trabalho da aldeia. O tuxaua Maurê me contou que as meninas quando menstruam pela primeia vez são isoladas, na casa das mulheres, onde são socializadas nas coisas do mundo feminino. Quando saem, após um período relativamente longo, já são consideradas adultas, independentemente da idade, aptas a casar e assumir as tarefas das mulheres na aldeia. Elas então ganham a marca dos Karajá, um círculo tatuado com espinha de peixe em cada bochecha.

Andrea, libanesa de Beirute, em seu quarto. Reparem nas medalhas. Foto de Rania Matar

Por sua vez, entre os índios Maué, no médio rio Amazonas, os meninos passam pelo ritual do Tocandira ao se tornarem homens. Tocandira é uma formiga-de-fogo, preta e minúscula, cuja picada provoca dores lacinantes, similares à picada de vespa. O ritual consiste em danças e cantos, em que os meninos vestem uma série sucessiva de sete luvas repletas das tais formigas. O pajé dá umas baforadas de fumo mágico nas luvas, e os garotos dançam e cantam em um círculo formado por mulheres no primeiro anel e homens no segundo. Luva após luva, cada um deles dança na sua vez até que uma das mulheres, compadecida ou interessada, tira o menino do círculo e o leva para sua rede, onde começa uma espécie de casamento. Se, por acaso, o jovem não for escolhido por uma das mulheres, o xamã, então determina o momento em que ele conclui o ritual.

Brianna, adolescente americana, também fotografada por Rania Matar

Em todas as culturas humans, a passagem entre isso que chamamos infância e aquilo que chamamos vida adultua é sempre marcada ritualisticamente. Afinal, a adolescência não deixa de ser um longo rito de passagem na nossa sociedade. O mesmo, aliás, pode ser dito em relação ao nascimento e à morte. Nenhuma sociedade ou cultura é indiferente a esses fenômenos.