quinta-feira, 30 de maio de 2013

Jornalismo impresso perto do fim?

Nessas últimas semanas morreram dois magnatas da imprensa brasileira. Por acaso, estava na redação no momento em que chegou a informação sobre a morte de Ruy Mesquita, do Estadão, na terça-feira, dia 21 de maio. No fim de semana seguinte, fui convocado de última hora para fazer o plantão, no lugar de uma colega que machucara o pé, e, no domingo, ao fim do primeiro clichê (edição), chegou a notícia da morte de Roberto Civita. Nas duas ocasiões, fizemos segundo e terceiro clichês, mobilizamos repórteres em várias cidades para repercutir com autoridades e personalidades as mortes, e fizemos algumas trocas rápidas de edição (quando se para a rotativa para acrescentar uma informação importante: o velho grito de "parem as máquinas!")

O mais comum é que esses momentos de pura adrenalina na redação ocorram devido a fatos extraordinários (O Globo, por exemplo, fez um caderno inteiro em duas horas no 11 de Setembro de 2001), o que se chamava, nos primórdios, de "bomba!". No mais, quase sempre temos segundo clichê e, em algumas editorias, como a Rio e a seção de Esportes, um terceiro clichê não é nada raro. Ao fim das mudanças, saímos cansados, mas com a sensação do dever cumprido, imaginando que o leitor, no dia seguinte, encontrará os dados mais atualizados possíveis e as informações relevantes sobre seja qual for o assunto.

Mas isso já não é mais assim, hoje em dia. Saí do fechamento dos dois óbitos cansado e consciente de ter ajudado a fazer uma boa edição. Mas, no dia seguinte, ao pegar o jornal na portaria de casa, me deparei com um jornal velho. Já havia lido na versão online, antes de descer, informações mais atualizadas, como local do velório, novos depoimentos de personalidades sobre os mortos etc. Poderia ter jogado o jornal fora, não fossem as informações de fundo, as análises e a voz dos especialistas tratando do assunto. Me convenci de uma vez por todas que o único caminho de salvação para o jornalismo impresso é investir no conteúdo analítico, de qualidade. O jornalismo impresso, ainda atrelado à era industrial, precisa mudar para concorrer com o jornalismo online, que traz a notícia em tempo real. E a única forma é por meio da produção de conteúdo de qualidade. Não adiantam investimentos, reorganizações internas, unificação das redações se os gestores responsáveis pelo jornalismo impresso não entenderem que, cada vez mais, têm que oferecer um jornalismo reflexivo e analítico.

De repente, chega a notícia de um passaralho (demissão em massa) no jornal Valor. Na tentativa de enxugar os gastos, demitiram 50 funcionários, dos quais 30 jornalistas. Mas não 30 jornalistas quaisquer. Foram para a rua os mais antigos e os mais graduados. Ao comentar com um colega no Globo esses cortes, ele me perguntou, com razão: que conteúdo é esse em que eles estão apostando, se demitem suas melhores cabeças?

O problema é complexo. De um lado, a imprensa hoje é um negócio voltado para gerar dividendos a seus acionistas e, portanto, precisa ser gerida profissionalmente com esse foco. No topo executivo dos principais conglomerados de comunicação os homens de imprensa foram substituídos por executivos de outras áreas, administradores a maioria. E, ao mesmo tempo em que o jornalismo passa a ser um híbrido entre uma instituição pública, com o dever de informar, e uma empresa privada, com foco no lucro, ocorre em outro campo uma revolução tecnológica sem precedentes.

A internet, as redes sociais, os gadgets eletrônicos e a mobilidade conectada em nuvens de informações transformaram radicalmente a relação emissor-receptor. Hoje, o leitor não é mais um sujeito passivo. Ele não só seleciona melhor as notícias que quer ler, mas as reproduz em suas redes pessoais.

Essa realidade atingiu em cheio o saber jornalístico. Um saber que se situa entre o senso comum e o saber científico ou acadêmico. O jornalista tinha acesso a muitas informações, algumas delas especializadas, e, assim, interpretava para o público leigo o saber mais complexo da academia, das corporações, dos especialistas etc. Agora, essa relação se tornou opaca. Com o bombardeio de informações que todos recebem o tempo todo e a facilidade em consultar dados antes obscuros, o leitor comum hoje passou a ter acesso a um saber que se equivale ao do jornalista, diminuindo sua dependência em relação à imprensa. Qualquer cidadão que goste de futebol, por exemplo, pode ter um blog com suas análises, pareceres e opiniões. Antes, essa possibilidade inexistia. 

Então, para o jornalismo impresso só cabe uma saída: investir na qualidade e na profundidade das informações.  É preciso recriar um saber especializado que desperte no leitor a necessidade de se informar melhor por meio do jornal. Apostar em colunas, crônicas, artigos, seções de ciências e tecnologia, campos onde as informações são mais complexas e analíticas. Trabalhar a notícia quente, que também estará no online, com sua análise, esmiuçando as consequências e desdobramentos.

2 comentários:

soraya disse...

Paulinho, excelente o seu artigo. Você tocou nos pontos-chave, do que está acontecendo e de qual deve ser a aposta. Teu texto devia ser publicado no caderno Opinião. O Globo não pensa em fazer um seminário a respeito? (se é que já não fez).

ipaco disse...

Acho que pode entrar na grade do nosso curso no Globo e no Extra, não é mesmo?

bjs