sábado, 18 de dezembro de 2010

Modern Sound, o fim de uma era

A Modern Sound fecha as portas definitivamente no dia 31 de dezembro

Amigos, reproduzo abaixo um post recente em que antecipava o fim inevitável da Modern Sound, conforme noticiado nos jornais esta semana, afetada pelas transformações no mercado do disco. Com o fim da loja, acaba um dos melhores espaços de música ao vivo da cidade, e dos mais baratos. O clima musical da loja, criado não só pelos produtos à venda, mas sobretudo pela presença constante de músicos, DJs, produtores musicais, estudantes e amantes da música, é insubstituível. Havia um intercâmbio constante de idéias e informações sobre o mundo do disco, dos shows etc. Quem viveu, viveu.

Mergulhamos agora na era do superindividualismo. Cada um no seu canto, com seu iPod ou coisa que o valha, sem ouvidos para o mundo que o cerca. O compartilhamento de sons e idéias, só por e-mail e afins. Para ouvir um bom show, só pagando os preços exorbitantes que se cobram por aí. Para comprar CDs, só baixando na internet ou indo ao supermercado. Como lembra o Pedro Tibau, um dos sócios, há dez anos havia 40 lojas de discos em Copacabana, hoje, só resta a Modern.

Mas a loja vai fechar as portas no dia 31 de dezembro e, até lá, venderá seu acervo de CDs e tais com 30% de desconto. Também vale a pena conferir a programação musicial até o último dia do ano.

O silêncio ronda a Modern Sound

Uma sessão de jazz na Modern Sound, no sábado pela manhã

O tempo escorre pelos dedos, incessante, para sempre... O mundo digital vai se insinuando em nossas vidas de forma tão avassaladora quanto silenciosa. Quando nos damos conta, nossos hábitos já mudaram. Há alguns anos, estava almoçando com minha amiga Denise Lopes no bistrô da Modern Sound, o Allegro Bistrô. Era uma feijoada despretensiosa para abrir o sábado de folga. Por coincidência acabamos numa mesa a menos de um metro do palco, onde rolava a tradicional sessão de jazz e bossa nova da programação da manhã da casa. Naquele sábado era o quarteto do saxofonista Idriss Broudrioua, com Sergio Barroso, no baixo; Boto na batera; e Dario Galante, no piano. A poucos metros de nossa mesa, meio escondida por uma pilastra, almoçava a mesma feijoada nada menos que Leny Andrade, com amigos.

Leny Andrade dando uma canja na apresentação de Idriss Broudrioua: feijoada e jazz

Ao percebê-la, chamei a atenção de Denise, afirmando que apostava que ela ia acabar dando uma canja. Ficamos ali na expectativa e, dito e feito. Lá pelas tantas, Idriss convida a diva para cantar com o grupo. Ela reluta, diz que está almoçando, mas as palmas do público e a insistência do saxofonista francês acabam falando mais alto. Leny então sobe ao palco, Pedrinho Tibau rapidamente providencia um microfone e abre um canal na mesa de som. E lá fomos nós embalados por uns cinco ou seis temas, com direito a improvisação vocal e o escambau.

Leny dando canja para deleite do público da Modern

Me lembrei então de uma frase do Ruy Castro: a Modern Sound é o único lugar do mundo onde se ouve jazz e boa música pelo preço de uma coca-cola. E é verdade. Se em vez de feijoada eu estivesse apenas bebendo um refrigerante, era isso que a conta traria no final. O Lula Vieira me disse certa vez, emocionado, que em todas suas viagens pelo mundo nunca havia encontrado um lugar como a Modern. Nem mesmo em Nova York, cidade dos night clubs, como Blue Note, Village Vanguard, entre tantos, você encontra um ambiente tão musical como a Modern. Meu orientador na tese, prof. Marco Antonio da Silva Mello, é outro fã incondicional. Ele, que é compositor nas horas vagas de temas sofisticadíssimos, encontra ali um espaço de puro prazer. Todos os gringos que levei lá piraram. E olha que levei muito gringo lá.

O Arthur Dapieve certa vez escreveu uma belíssima crônico sobre a inutilidade de resistir à tentação que os CDs exercem a um desavisado que garimpe nos móveis da Modern. Quantas vezes me vi nessa situação. Me lembro que deixei boa parte de uma indenização recebida na loja, e saí satisfeito com umas cinco sacolas de CDs. Minha amiga Bia Caiado lembra das dicas do Pedrinho: mais do que dicas, seduções de um vendedor de discos.

É um ambiente freqüentado por músicos e periféricos. Gente com instrumentos ou CDs, perambulando palas baias onde se garimpam preciosidades difíceis de encontrar. O papo é sobre arranjos, partituras, concertos e shows, instrumentos musicais, jam sessions, timbres e petit histoires e anedotas que viram lendas e mitos. Vi ali figuras no início de carreira a músicos consagrados, como Paulo Moura, Claudio Roditi, Carlos Malta, Mauro Senise, Nivaldo Ornellas, entre tantos. E amigos queridos, como Andrea Dutra. Vi shows antológicos de samba e MPB, com Moisés Marques, Edu Krieger, Orquestra Lunar, Bárbara Mendes, Maria Rita e Monica Salmaso. Vi dois shows do meu pai, Gaudencio Thiago de Mello. Enfim, a Modern é um lugar de músicos e amantes de música.

Show do meu pai na Modern Sound

E é também um botequim, não na sua infra-estrutura, mas na sua atmofesra calorosa. Quer dizer, por trás de toda aquela sofisticação tem um ambiente absolutamente relex, informal e barato. A loja tem mais de 40 anos e começou com a venda de discos importados pelo patriarca da casa, Pedro Passos, que, diga-se de passagem, foi dono do botequim Rosa de Ouro, no Baixo Voluntários, antes de abrir uma portinha para vender seus discos, na galeria do antigo cinema Bruni Copacabana. A casa sobreviveu à crise que devastou suas rivais (como a Bill Board) graças a um estoque variadíssimo. Na Modern se encontra desde Reginaldo Rossi a gravações raras de Von Karajan. Uma puta seção de clássicos e outra de jazz. Mas também, música do mundo, rock'n'roll, pop, trilhas, MPB, importados, independentes, caseiros e por aí vai. Me lembro que comprei discos vinis de Marlui Miranda, Bola de Nieve e Dom Salvador. Depois, CDs de Ani DiFranco, Serge Gainsburg, Papa Wemba, Miossec, uma versão japonesa dourada do Kind of Blue, com Miles Davis, John Coltrane, Bill Evans e Cannonball Arddeley.

Mas aí chegou a era digital. E como disse lá no início, o tempo escorre e o mundo muda. E esse lugar único, está com os dias contados. Conversando outro dia com Pedrinho Tibau, ele desabafou:

— A internet matou os direitos autorais. Das fotos à música, todos baixam tudo pela internet, de graça. Não tem como concorrer com isso. E logo, logo o setor literário também vai entrar nessa onda, com os leitores digitais. Vamos ver as livrarias desaparecer, como estamos vendo as lojas de disco.

Há uma proposta de transformar o lugar num miniCanecão, uma casa de shows de médio porte e um palco menor para concertos mais comedidos, reduzindo o espaço da loja de CDs. Neste momento, enquanto escrevo estas mal traçadas, alguns possíveis investidores analisam a proposta. O Rio de Janeiro está mesmo precisando de um lugar como a Modern. Um lugar que não seja nos confins da Barra da Tijuca e que não cobre um olho ou uma orelha por um show. Já perdemos o Mistura Fina, o Tio Patinhas, o Ponto de Encontro, o Beco das Garrafas, o Hipódromo Up, o Cinemathèque, e tantos outros. Se ficarmos sem a Modern, o Rio ficará mais silencioso. Todo mundo ouvindo seus iPods turbinados, individualmente, mas sem um lugar para os músicos e os amantes da música transitarem, se encontrarem, sem jam sessions, sem improvisações. Terei que pagar R$ 200 só de ingresso para ouvir Leny Andrade numa casa de shows da Barra da Tijuca.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Visite Botafogo antes que acabe

A velha guarda no Vol au Vent, domingo à tarde.

Mal tinha baixado o post anterior sobre este enclave de Botafogo, delimitado pelas ruas da Passagem, General Polidoro e Álvaro Ramos (clique aqui) e, ao sair do prédio onde moro, na Passagem, esbarro com jovens tremulando bandeiras coloridas e vendedores distribuindo panfletos do condomínio que será erguido à rua Arnaldo Quintela, onde funcionava o prédio da Oi, quase em frente ao bar Vol au Vent. O marketing do panfleto não deixa dúvida sobre o tipo de sonho imobiliário que o empreendimento, chamado Opera de Milano Residenza, está vendendo: “chegou o 3 e 4 quartos que vai deixar Botafogo muito mais elegante e sofisticado”.

É um projeto da João Fortes Engenharia que está sendo comercializado pela Patrimóvel, com imóveis entre 89m2 e 119m2, cujo valor inicial do metro quadrado é de R$ 7.400, ou seja, estamos falando de mais de R$ 650 mil por um apartamento de três quartos, preço impensável há um ano. Mas, segundo a vendedora com quem falei à porta da obra, trata-se de uma pechincha, pois um empreendimento rival na esquina (Solar alguma coisa) está pedindo mais de R$ 8 mil pelo metro quadrado. Nessa realidade de preço, chego à conclusão que o valor de R$ 1,5 milhão proposto ao dono do Vol au Vent não é nada. Como as novas construções do bairro, o condomínio oferece salão de jogos, churrasqueira com forno de pizza, área de repouso com SPA, sala de brinquedos para crianças, sauna a vapor e uma imensa piscina. Elementos que, segundo a ideologia que movimenta tudo isso, vai melhorar e sofisticar o bairro.

O panfleto do Opera di Milano: exclusividade e sofisticação

O que temos aí, portanto, é o choque de mentalidades diferentes que se digladiam em torno do território, esbarrando-se nas esquinas. E o que tenho visto em Botafogo, simplificando perigosamente o raciocínio, são visões de mundo que valorizam, de um lado, uma idéia de “autenticidade”, presente nos moradores mais antigos, e, de outro, uma noção de “exclusividade” e “sofisticação”, presente no marketing de imobiliárias e construtoras direcionado a um consumidor de renda mais generosa.

Evidentemente, estou simplificando as coisas ao colocá-las nesses pólos. Na verdade, é tudo muito mais complexo, inclusive se formos considerar aspectos de preconceito e discriminação social, políticas de reforma urbana, forças políticas de variadas tendências que disputam o espaço público e os territórios da cidade, o problema das ocupações, favelização, remoções etc e tal. Mas ao conversar com esses moradores, novos e antigos, do bairro, percebe-se o encontro e o desencontro de noções do mundo distintas no que se refere a habitar e a conviver: enquanto uns valorizam uma idéia de “autenticidade”, outros pensam em “exclusividade”.

Sem querer ser exageradamente esquemático e fetichista, vejo que nessas conversas está, de um lado, o habitante que busca conforto, status e segurança num condomínio exclusivo (e, se é exclusivo, é diferente do convencional e, portanto, isolado, distante e distinto); e de outro, o morador antigo, que se vê como representante “legítimo” e “autêntico” dos valores culturais do bairro, que participa de sua vida, instituições, festividades e boemia (e, portanto, se sente integrado).

Pode ser a roda de samba espontânea no Bar da Adelina, puxada por Seu Vavá, ou a procissão de Santa Cecília, padroeira de Botafogo, ou ainda o Bloco do Barbas no carnaval, ou simplesmente o comércio de rua. São valores que o morador mais antigo vê, de modo geral, ameaçados ou pelo menos não compartilhados por esse novo vizinho, mais rico e distante, física e socialmente, dele.

O casario da praça Mauro Duarte, com ruas São Manuel e Fernandes Guimarães: na esquina (com toldo verde) funciona o Sabor da Morena

Alguns conflitos evidenciam esse distanciamento. Um condomínio erguido há dois ou três anos na rua Fernandes Guimarães, por exemplo, trouxe moradores que destoam dos vizinhos das vilas e velhos prédios da rua. O samba que ocorria no bar Sabor da Morena foi um dos pontos iniciais de conflito. Algumas reclamações no disque-ruído e o bar acabou autuado pela prefeitura. Por outro lado, no playground do novo prédio, quase que todos os sábados ocorrem festas de aniversário de crianças, com palhaços e música da Xuxa em alto volume, o que, por sua vez, incomoda os moradores da vila ao lado. A diferença é que estes não usam ou não conhecem o recurso de reclamar com o disque-ruído.

Lembro-me sempre da pesquisa de um amigo antropólogo da UFF sobre o ruído. Ele pesquisou as reclamações do disque-ruído, chegando à conclusão que o problema não era o ruído físico em si, o volume de decibéis propriamente dito, mas sim “quem” produzia o barulho. As reclamações eram todas adjetivadas: “uma macumba infernal”, “um samba de malandros”, “um funk de bandidos”, “um culto pentecostal” e assim por diante. Dependendo de quem fazia o barulho, o delito era mais ou menos tolerável. Talvez, se na Morena, em vez samba, rolasse um jazz...

De qualquer modo, esses conflitos entre vizinhos têm um lado bom Significa que ainda há diversidade no bairro. Isto é, que diferentes tipos de noções de cidadania, de usos dos espaços públicos e de civilidades convivem e às vezes se chocam. A convivência de diferenças é que torna um lugar vivo. Basta ver o exemplo do Greenwich Village, em Nova York, tão bem retratado por Jane Jacobs, no livro Morte e vida de grandes cidades. O Village foi um bairro interessante, dinâmico, abrigando gente rica e operários, músicos, artistas e escritores e comerciantes, negros e latinos, entre outros grupos sociais. Foram os conflitos dessa convivência rica que marcaram a dinâmica do bairro. Com tantas diferenças, o espaço público acabou preservado como o espaço de todos (aqui, se tem, por exemplo, o carro que estaciona ocupando toda a calçada, ou o condomínio que privatiza a rua com cancelas e segurança)

Quando o aburguesamento — ou gentrification, como preferem os britânicos e americanos — tomou conta do Village, os moradores antigos, sem condições de arcar com o novo custo de vida estratosférico, se deslocaram para outras áreas de Nova York, como o Brooklyn, e o Village virou um lugar caro e sem a vida interessante que tinha antes. Mais um arremedo estiloso e marqueteiro do que fora dos anos 20 aos 80. Um pouco como o Leblon dos anos 60-70.

Botafogo tem uma vocação para ser um bairro dinâmico. Cinemas, bares, comércio de rua (e shoppings também) em uma região que faz a ligação entre o Centro e a Zona Sul do Rio. E, ao mesmo tempo, é um bairro de tradição, na boemia, no samba, na vida comunitária (veja a luta dos moradores para criar a Praça Mauro Duarte, que teria virado outro espigão, não fosse a mobilização de vizinhos). Botafogo ainda mantém boa parte do casario antigo, das vilas, dos prédios baixos e uma dinâmica quase interiorana em alguns trechos, como no enclave Passagem-Polidoro-Álvaro Ramos. Mas a velocidade com que novos empreendimentos vêm tomando conta do lugar ameaça esse equilíbrio dinâmico, sustentável e saudável.

Como diz meu amigo Jason Vogel: "Visitem Botafogo antes que acabe."

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Crônica de uma morte anunciada

O Vol au Vent, na Arnaldo Quintela, à frente da vila. Ao lado, o terreno de uma nova obra, após a derrubada do velho casario, e ao fundo um condomínio novo ainda em obras: um retrato do bairro

Como muitos pés-sujos da cidade, o Vol au Vent, apesar do nome chic, é um botequim simples, montado numa casa de rua, à entrada de uma vila na rua Arnaldo Quintela em Botafogo. Trata-se de um balcão simples, de um lado, e duas ou três mesinhas, do outro. Na calçada em frente ao bar, vasos de planta delimitam o território e impedem que um desavisado qualquer estacione seu carro ali. Aos domingos, a velha guarda do bairro freqüenta a casa, em frente à qual é armada uma churrasqueira. É a turma do Bar da Adelina, que, como Deus, descansa no sétimo dia da semana e não abre seu boteco na rua vizinha Rodrigo de Brito.

Essa festa dominical, porém, está com os dias contados. A informação já corre solta entre os convivas: uma construtora ofereceu R$ 1,5 milhão ao dono do singelo botequim, para transformá-lo em pó. O resto da vila já foi vendida, asseguram os fregueses. Em seu lugar subirá mais um condomínio, dos muitos que vem transformando as feições de um dos bairros mais charmosos do Rio. Charme, diga-se de passagem, que atrai as pessoas, enobrece a área, mas que, na sofreguidão com que as construções se sucedem, vai acabar por matar essa sua característica de lugar especial.

Meu amigo, colega de Globo e vizinho no bairro, Jason Vogel, foi quem me apresentou os dois botequins. E sobretudo seus personagens, moradores antigos de Botafogo, como Adelina, Lea, Vera e Seu Vavá, entre outros. Personagens que contam a história do bairro e acompanham com preocupação as grandes modificações que vêm alterando o modo de vida desse enclave de Botafogo, delimitado pelas ruas da Passagem, General Polidoro e Álvaro Ramos. É um trecho antigo, com muitas vilas, prédios baixos sem elevador, praças, esquinas, comércio tradicional de rua e gente que se considera filhos “autênticos” do bairro, participando de suas instituições e manifestações públicas, como o bloco de carnaval, associação, entre outros.

Mas o bairro também vem sendo ocupado por outro tipo de habitante, trazido sobretudo pelas recentes construções de condomínios modernos, gradeados, com as janelas distantes da rua, e moradores com poder aquisitivo maior e hábitos de consumo distintos. Sua presença crescente modifica a chamada morfologia social do bairro. Não apenas porque cada nova edificação significa a destruição de vilas e prédios antigos, mas também porque os novos habitantes não partilham dos mesmos valores comuns. Com eles, começam a chegar também novos tipos de comércio, coiffeurs no lugar de barbeiros, cafés no lugar de botequins, bancos no lugar de oficinas mecânicas, e assim por diante.

Do mesmo modo, os preços dos produtos começam a subir à medida que os comerciantes percebem que estão lidando com um consumidor com maior poder aquisitivo. Os preços dos imóveis, valorizados numa bolha financeira que se alimenta da expansão econômica e de eventos como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, saltam. E com eles, os dos aluguéis também, estimulados ainda pela nova lei do inquilinato. Os condomínios modernos, auto-suficientes, cobram taxas exorbitantes, mas oferecem estrutura de clube, desestimulando a presença do morador na rua. Nessa nova realidade de preços, os moradores de renda mais baixa se vêem pressionados a deixar o bairro.

Em resumo, Botafogo passa por um processo de aburguesamento, como ocorreu com o Leblon nos anos 70, com o impulso de Sergio Dourado, que transformou o bairro de área de classe média baixa em um dos metros quadrados mais caros da cidade. Eu, que vivi no bairro nos anos 60, me lembro de aviários em plena rua Dias Ferreira, um tipo de comércio impensável hoje em dia. Apesar disso, o Leblon manteve a vida na calçada, graças a sua robusta boemia, consolidada desde os tempos da Bossa Nova, nos anos 50. Do contrário, seria um bairro de ruas vazias.

Não é o caso de Botafogo, onde a lógica dos novos condomínios (a cada semana empresas como a CHL erguem um novo espigão no bairro) é o de moradia defensiva. Isto é, o condomínio fornece o máximo possível de serviços e segurança (dos equipamentos aos profissionais) e estimulam o morador amedrontado a evitar o máximo possível a vida nas calçadas. Em algumas calçadas, transformadas por esse tipo de construção e sem comércio de rua, já é possível constatar o vazio, que, isto sim, torna o local ermo e perigoso.

Quando esse assunto aflora, todos parecem concordar que o processo de ocupação do bairro deveria ser feito com cuidado e não sofregamente, como ocorre hoje, estimulado por todos os motivos citados acima. Mas também há um ar de desalento e desestímulo entre os moradores que se consideram “autênticos” representantes do bairro. O poder público tampouco se manifesta, refém de grandes incorporadoras e imobiliárias que estão financiando parte da reforma urbana da cidade, através de parcerias público-privadas. E ninguém discute o tipo de bairro e cidade que se quer construir. Mais uma vez, a vida de um bairro carioca será determinada pela avalanche de novas construções, sem que se tenha um estudo de impacto, de crescimento sustentável e que preserve o patrimônio físico e simbólico de Botafogo, e que, sobretudo, considere as variadas noções de vida dos moradores.

Enquanto isso, a velha guarda aproveita aos domingos as últimas cervejas geladas do Vol au Vent, antes da chegada dos tratores.

sábado, 13 de novembro de 2010

O samba chegou na primeira hora


Outro dia, chegava em casa vindo do jornal, exausto, a meia-noite já se anunciando, quando no boteco da esquina esbarro com meu querido mano véio Gabriel da Muda, numa mesa repleta de músicos e poetas. Com sua voz de trovão, ele manda:

— Você será o primeiro a ganhar meu CD, que acaba de sair do forno — disse, enquanto me passava o primeiro exemplar de O que vai ficar pelo salão, ainda com cheiro de fábrica, retirado da caixa de papelão onde outras 24 unidades compunham a primeira leva da impressão.

Ele estava ali com os músicos e seu parceiro na poesia das composições, Roberto Didio, celebrando o trabalho. Apresentações feitas, agradeci o presente e o privilégio como pude, oferecendo o CD Disk-Tum-Derrei, do meu pai, Gaudencio Thiago de Mello, que, por coincidência, levava lacrado na mochila. Reciprocidade.

A vida tem dessas sincronicidades bacanas.

Mas o gesto generoso de meu amigo se completou mesmo no dia seguinte, quando, ao tomar café da manhã, botei o CD pra tocar. Que beleza! A música preencheu a casa, numa gravação de altíssima qualidade, os instrumentos presentes na mesma intensidade da poderosa voz de Gabriel, que no CD assina como Gabriel Cavalcante. O disco todo é bom. Tem convidados especiais, como Áurea Martins, Cristina Buarque e Moacyr Luz, que foi quem, aliás, me apresentou ao Gabriel num tarde memorável no Armazém Senado, com Paulinho Lemos, compositor brasileiro radicado na Espanha.

No CD, que mostra o maduro lado compositor de Gabriel, tem ainda uma pérola de Moa e Didio, o Cio e a paz, que, na voz de Gabriel, evocou a mesma emoção que senti ao ouvir pela primeira vez Sinal fechado, de Paulinho da Viola. Ou seja, a nova geração do samba mostra que está aí sem dever nada à velha guarda. Belíssimo trabalho.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Les Demoiselles D'Avignon


Les Demoiselles D’Avignon, de 1906, é considerado um marco do modernismo e o evento que deu início ao cubismo como movimento, mesmo não sendo ele um quadro cubista no sentido estrito. É uma dessas obras que ficam no limbo das conceituações, dando margem a uma miríade de interpretações e alumbramentos. Escapa inclusive à própria intenção do autor, por algum mecanismo que se insinua, vindo do fundo do inconsciente, com uma força que se sobrepõe ao projeto autoral. Porém, mesmo tendo esse percurso incontrolável e selvagem — na verdade, justamente por ser assim — produz um resultado íntegro. Por isso é tão perturbador. O próprio Picasso ficou incomodado com aquela tela de dimensões desproporcionais que tantas reações causou às mentes racionalistas daquele então.

Dizem os especialistas que, iniciada em 1905, sua pintura foi encerrada abruptamente no ano seguinte, deixando o quadro incompleto. Parece que Picasso queria acrescentar dois homens vestidos entre as mulheres nuas, mas desistiu. A tela estava pronta independentemente da vontade do pintor. A obra se impôs na força das mulheres nuas, nos seus rostos distorcidos, no movimento da imagem, em sua luz e cores e na fúria das pinceladas... e se tornou arrebatadora. Imagine uma mente cartesiana e puritana, tão comum naqueles tempos (como hoje, talvez) olhando aquele delírio erótico. Justamente no auge do mundo das certezas, naquele começo de século XX, o raciocínio lógico e moralista seria tão confrontado pela arte moderna, pela psicanálise, pela antropologia, pelo urbanismo, pela arquitetura, pelas revoluções utópicas...

As Demoiselles inauguram um tipo de arte que se presta mais firmemente a esse tipo de ilusionismo da alma. Um traço a mais, uma pincelada um pouco mais forte e lá vem uma imagem que estava escondida no inconsciente do pintor, além ou aquém de sua intenção racional e muito mais do que uma tradução de sua intuição emocional. Talvez, uma questão de soltar a mão e deixar o fluxo do movimento seguir o curso numa semi-consciência. E Picasso foi sábio o suficiente para saber que naquela tela havia algo que surgira para além de sua intenção, algo que mudaria para sempre o fluxo das coisas, como só uma obra de arte pode fazer.

Por isso me incomoda muito a idéia da arte como mero entretenimento. Como algo que existe para nos alegrar e divertir. Uma noção perigosa que anda disseminada hoje em dia em mentes brilhantes, com medo de fugir de padrões de sucesso. Abraham Moles descreve esse gozo do entretenimento como o kitsch, que seria o oposto da arte. O kitsch, ensina ele, não é só a obra cafona, é sobretudo a obra que entretém, que diverte, que esvazia do seu objeto a potência da arte, tornando-a confortável e conformada. Já a obra de arte nem sempre é agradável e bonitinha. Muitas vezes é repulsiva e dolorosa, angustiante e, quase sempre, transformadora. Quem passa por uma obra de arte, seja um romance, um filme ou uma exposição, não sai mais o mesmo que entrou. Alguma coisa interna muda e seu olhar para o mundo também se transforma. Sem que se dê conta. Já o kitsch deixa tudo como está, conforma, confirma.

Quando se fala em vanguarda, e é interessante ler os inúmeros manifestos que surgiram desde o século XX, para mim o que está em jogo é a ruptura com o que havia antes. Uma ruptura é um movimento necessariamente brusco e violento, no mínimo, agressivo. Só possível se ocorrer numa obra de arte ou num ato concreto de violência, como uma revolução. Mas o sistema também aprende a se defender dessas, digamos, convulsões, sobretudo incorporando e esvaziando sua linguagem revolucionária, sua capacidade de mobilização artística e da consciência, através do sentimento, da emoção. E hoje, me parece, vivemos o paroxismo desse processo de absorção e esvaziamento das coisas essenciais, nessa pós-modernidade em que os sentidos se esfacelam, as modas se sucedem velozmente, o kitsch domina, o niilismo impera e a alma se esfarela.

Outro dia assistia ao programa Altas horas, do Serginho Groissman, uma espécie de Chacrinha modernizado para adolescentes, bastante agitado e de múltiplos estímulos. Mas, ao contrário do Chacrinha original, Serginho é bastante educativo e moralista. Havia tanta gente interessante: atrizes, escritores, bandas de rock e pop, convidados curiosos, público participante e tal. Me pareceu um caldeirão (curiosamente o nome de outro programa de TV) em que se jogam todos esses artistas, misturados com depoimentos de especialistas sobre temas morais, como sexo, e outras atrações curiosas. Tudo dissolvido há aí uma poção pop. Se isso tem um lado genial de colocar esses indivíduos num ambiente que se impõe sobre eles, também tem um inegável elemento que dilui e diminui aquelas singularidades artísticas, exceto nos casos de pessoas realmente genais, como um Hermeto Pascoal, por exemplo, que é capaz de subverter o script. Bem, isso é a TV, certo?

Mas as Demoiselles, essas mulheres insinuantes, putas num bordel, estão aí como um lembrete sensual, hoje tão necessário, de que a obra de arte, além de revolucionar a alma das pessoas que entram em contato com ela (a começar pelo artista), também tem o potencial de transformar o mundo. Por isso, a arte, como expressão do inconsciente humano, é potencialmente subversiva frente a qualquer sistema político, a qualquer dogma moral, a qualquer racionalização.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Folias metafísicas de Geraldo E. Carneiro


Foi pelas letras para as canções da Barca do Sol, grupo emblemático em que seu irmão era um dos compositores, e as sofisticadas composições de Egberto Gismonti, em cujos LPs vinham encartados um jornalzinho literário, que cheguei ao texto de Geraldo Carneiro. Na ocasião, no que me pareceu ser uma fina gozação com os poetas britânicos, assinava seus versos como Geraldo E. Carneiro. Desde a primeira leitura foi um impacto. Me recordo de expressões como “terroso”, entre outros termos viscosos e densos, assim como sua forma de narrar a sensualidade feminina. Era tão próximo, tão perto de mim, que me dava a sensação de que o poeta roubava, através de um mecanismo patafísico qualquer, minha verve. Geraldinho dizia coisas que eu diria e, assim, me deixava sem palavras.

Nem mesmo com Thiago de Mello, mestre querido e orientador de tudo em mim — prosa ou verso — que se transforma em palavra escrita, tive essa sensação de simbiose literária. Ou ainda Manduka, que, inalcançável, apenas me cabe admirar. Mas sendo poeta apenas nas horas vagas e sem competência para criar versos, deixo que Geraldinho Carneiro atue como um parâmetro de qualidade literária para mim. E quando afirmo que me identifico com ele na poesia, quero dizer o tudo que ela carrega: o seu humor peculiaríssimo, muitas vezes autosacaneável, a erudição literária e filosófica, a elegância métrica e, sobretudo, a forma de olhar e ver o mundo.

É engraçado, Geraldo é da mesma geração de Chacal, Ana Cristina César, Waly Salomão, Cacaso, Tavinho Paes, da turma da poesia marginal, geração 70, retratada por Heloisa Buarque de Holanda em 26 poetas hoje. Portanto, uma geração anterior à minha. Eu comecei a rabiscar os primeiros versos na entrada dos anos 80, com a gang da poesia pornô e a feira de poetas independentes da Cinelândia: Mano Mello, Tanussi Cardoso, Kairo Assis Trindade, Eduardo Kac, Claufe Rodrigues, Flavio Nascimento, Lapí, entre outros. No entanto, tenho essa forte impressão, lendo os versos e a prosa de Geraldo, que compartilhamos o mesmo olhar sobre a vida, ou quase. Me indentifico mais com ele do que com os meus contemporâneos.

Comprovo isso mais uma vez ao folhear a edição de seus Poemas reunidos. Ali está uma seleção de sua produção poética desde 1972, ano em que eu entrava definitivamente na adolescência, ao cruzar, no início do verão, com uma morena esguia, (des)vestindo a inédita tanga, nas “dunas do barato”, no Pier de Ipanema. O corpo molhado e quase nu, saindo da água, parecia a imagem de uma deusa que vinha anunciar que o mundo começava naquele instante. Tempo, como escreveu Tavinho Paes numa síntese precisa: “em que as paixões entravam em combustão espontânea, incendiavam a libido das pessoas e a AIDS ainda não era uma ameaça.” Ou seja, quando não havia pecado do lado de baixo do Equador ou, como preferiria o próprio Geraldo: “no subúrbio do Ocidente”.


Os poemas reunidos são uma delícia em vários níveis e me contenho para degustá-lo aos poucos, como convém, exceto nos versos apaixonados, que pedem uma deglutição mais voraz. Vejam, a guisa de exemplo, os versos desse poema chamado Os fogos da fala:

a fala aflora à flor da boca
às vezes como fogos de artifício
fulguração contra os terrores do silêncio
só espada espavento espelho
ou pedra ficção arremessada
ou canção pra cantar as graças
as virilhas as maravilhas da amada
a deusa idolatrada do amor:
essa outra voz quase jazz
que subjaz ventríloqua de si mesma

Ou ainda este À flor da língua:

uma palavra não é uma flor
uma flor é seu perfume e seu emblema
o signo convertido em coisa-imã
imanência em flor: inflorescência
uma flor é uma flor é uma flor
(de onde talvez decorra
o prestígio poético das flores
com seus latins latifoliados
na boca do botânico amador)
a palavra, não: é só florilégio
ficção pura, crime contra a natura
por exemplo, a palavra amor.


Os dois poemas são do livro Folias metafísicas, escritos entre 1993 e 1995, e estão presentes na antologia. Aliás, o livro traz um pertinente prefácio de Nelson Archer, que situa Geraldinho em meio aos poetas de sua geração e posterior, afirmando que, embora dialogue com as linhagens e tradições literárias brasileiras, que fizeram escola nas atuais gerações, Geraldo Carneiro não se filia cegamente a nenhuma delas. Suas influências mais marcantes seriam a de poetas de várias escolas: Bilac, Bandeira e Vinícius. Muito boa companhia.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Três poetas da geração 70


Por uma estranha coincidência, li em seqüência nos últimos dois anos a biografia de Torquato Neto, feita por Toninho Vaz, e a reedição d’Os últimos dias de Paupéria, reorganizado por Vaz em dois volumes, que separam a produção do Nosferatu tropicalista e marginal na coluna Geléia Geral, de seus textos mais íntimos (poemas inéditos, cartas e anotações do período em que ficou internado no sanatório, material que não tinha nas edições anteriores, organizadas por Waly Salomão e Ana Maria Duarte, mulher de Torquato). Em seguida me caiu em mãos, numa edição amorosa do Instituto Moreira Salles, um grande livro ilustrado com textos inéditos e fac-símile dos cadernos de poemas de Ana Cristina César, chamado de Antigos e soltos. Muito generosa, a edição permite vislumbrar um pouco do processo criativo de Ana, bem como sua intensidade emocional. Em alguns momentos é possível vislumbrar como o poema surgiu e como foi sendo trabalhado por Ana até sua forma final.

Vindo dessa leitura incrivelmente densa e ao mesmo tempo pesada, já que os dois poetas se suicidaram ainda jovens (ele com 28, em 1972, e ela, aos 31, em 1983), caí, por puro acaso, na leitura da autobiografia, ou coisa que o valha, de Chacal. Não o terrorista, mas o poeta marginal da geração de Ana, e pródigo agitador cultural, figura maior do “coletivo” (como se dizia nos anos 70) de poetas: Nuvem Cigana, e maestro das estripulias — ou artimanhas como prefere o poeta —, do CEP 20.000, passando por experiências lisérgicas e herbanárias, conforme ditavam os tempos naqueles anos de chumbo, com Asdrúbal trouxe o trombone, Circo Voador, Parque Lage e outras explosões performáticas daqueles dias, pra lá de psicodélicas (não nos esqueçamos da famosa urinada de Tavinho Paes no palco de um teatro de São Paulo, mas isso é assunto para outro post). E sobretudo as produções mambembes de livros de poesia em mimeógrafos, vendidos na noite da boemia, e independentes de editores.

Não posso precisar se meu sentimento foi influenciado pela seqüência de leitura — Torquato, Ana C e Chacal —, uma espécie de relativismo injusto a priori, mas fiquei com a sensação de que Chacal descreve em vez de narrar sua vida. E faço aqui uma referência à oposição que Georg Lukács estabeleceu em seu ensaio Narrar ou descrever?, no clássico livro Ensaios sobre literatura. Segundo ele, descrever nivela todas as coisas no texto, ao passo que narrar hierarquiza, dando densidade psicológica à narrativa. E mostra exemplos concretos apresentando a descrição uma corrida de cavalos em dois romances, Naná, de Émile Zola, e Ana Karenina, de Tolstói. Ao ler as duas passagens, fica bastante claro o que ele quis dizer com essa oposição.

Pois bem, não sou especialista, mas me pareceu que Chacal descreve mais do que narra sua vida no livro. Tanto é assim que a leitura flui como água, com pouca densidade, mesmo em momentos mais dramáticos e cruciais, como seu atropelamento quase fatal em São Paulo, e na descrição de sua queda no Jóquei, após uma noitada intensa com Cazuza no Baixo Gávea. Momentos que, se narrados, nos colocariam quem sabe no coração do poeta, na sua cabeça, do lado de dentro, como ocorre com o livro de Torquato. Talvez esse seja o preço da autobiografia: a dificuldade de um mergulho total no fundo da alma. Provavelmente coisas de superego vigilante.

Fico com a impressão, talvez injusta, admito, que o texto de Chacal tem essa forma descritiva para além das intenções conscientes do autor. Mas pensando bem, é um pouco como sua poesia, e não poderia deixar de ser. Seus versos nunca me pegaram (como também não me pegaram os de Waly Salomão, mas por minha culpa: não soube lê-los), o que não quer dizer muito. Aliás, dessa geração, gosto imensamente de Geraldo Carneiro e, entre os tropicalistas, Capinam, embora goste muito de Torquato também. Mas Capinam é um mestre. Também gosto de muita coisa de Ana C. No caso de Chacal, a leitura da biografia me permitiu descobrir versos dignos. Mas, para saciar meu gosto, tenho que garimpar em sua vasta produção. Aliás, o próprio Chacal escreve: “Para o mundo acadêmico sou um poeta descartável, de poucos recursos e baixo repertório. Para o mundo pop, um poeta, um intelectual, um crânio. E todos têm razão. Menos eu. Menos eu."

Honestidade é a principal virtude do livro, que tem também muitos defeitos, na minha amadora opinião (não estou nem no mundo acadêmico nem no mundo pop, olho Chacal do limbo). O principal defeito é sinalizar com um jantar e oferecer um sanduíche. Há trechos que parecem ter saído no primeiro vômito, sem qualquer lapidação, com repetições e construções pobres. Há muita informação mas pouca densidade narrativa, me pareceu, sobretudo, um texto preguiçoso, em que as situações são descritas friamente, sem circunstâncias. É um texto bem mais informativo do que emocional. Quase um registro enciclopédico da literatura marginal da zona Sul carioca desde os anos 70.

Mas, como informativo, o livro é um mergulho no tempo recente. Eu que sou da geração imediatamente posterior à do poeta, curti ler sobre momentos especiais da vida na cidade. Chacal fala das “dunas do barato”, como Waly Salomão apelidou as dunas do Pier, na praia de Ipanema. E isso me trouxe a minha adolescência, início dos anos 70, quando surgiu a tanga e o amor era livre, mas difícil. Em 1975, o Asdrúbal, com a peça Trate-me leão. “Nós somos jovens...”

Volto a dizer: é um livro honesto. Honesto sobretudo com o que Chacal me parece ser, como poeta e como pessoa. Apesar de minhas opiniões rabugentas e pedantes, o livro me levou a desfrutar melhor a sua letra e mais ainda seu dom de maestro de movimentos cósmicos em torno da poesia, sobretudo a poesia recitada em público. De extrema importância soltar o verbo (lembro-me do poeta Erickson Luna esbravejando seus versos perfeitos no mercado de Recife para um público diverso...), embora não tenha nada contra livros de poesia.

O título do livro, Uma história à margem, com direta referência ao movimento do qual fez parte e ajudou a criar, me lembrou a abertura que Paulinho Pires fez do livro sobre Torquato, a quem situa como um artista “à margem da margem da margem”. Colocado nesta perspectiva, as coisas se encaixam melhor na seqüência de leitura que fiz, pois estabelece um nível de hierarquia entre radicalismos distintos dos três poetas.

E saio convencido de que devo ser mais generoso em minha leitura. Abaixo versos de Chacal:

O outro

só quero
o que não
o qee nunca
o inviável
o impossível

não quero
o que já
o que foi
o vencido
o plausível

só quero
o que ainda
o que atiça
o impraticável
o inaudito

não quero
o que sim
o que sempre
o sabido
o cabível

eu quero
o outro.

sábado, 2 de outubro de 2010

A invenção das marés


Não deixam nunca de me surpreender as marolas que a mídia cultural faz, criando ciclos virtuosos de marés, contra as quais nem é bom pensar em remar. Há coisa de uns dez anos, havia toda uma euforia em torno da poesia de João Cabral de Melo Neto, à revelia do próprio autor, que era tido meio que como um elo racional entre a poesia, digamos, literária propriamente dita e as rebeldias e inovações das vanguardas, notadamente o concretismo. O poeta, nessas narrativas jornalísticas, dava sentido racional a uma identidade literária brasileira, que começava no modernismo e chegava ao presente, no tropicalismo. Cabral foi, nesse período, o poeta aplaudido pela crítica dos cadernos culturais e de literatura, que olhava — e olha — com certo desdém para as linhagens e as tradições que não se vinculavam mais diretamente ao eixo: modernismo, antropofagia, Cabral, concretismo e tropicalismo. Mesmo essa linha do tempo sendo questionável, ela estava na lógica dos argumentos que figuravam no jornalismo cultural.

Passado algum tempo, e os holofotes agora lançam luz sobre a figura de Ferreira Gullar, que acaba de lançar sua antologia completa, participou de gravações de sua poesia, recitando o maravilhoso Poema sujo, entre outras efemérides, que permitiram resgatar o poeta do limbo, também, como em Cabral, à revelia do próprio Gullar. Quando Cabral dominava nas páginas da Ilustrada ou nas citações de Caetano Veloso, entre uma canção e outra, alguns viam Gullar com olhos muito menos generosos naquele então, chegando mesmo a classificá-lo como uma espécie de Judas do concretismo, por ter rejeitado o movimento que ajudara a criar.

Não importa o mérito dessas considerações, isto é, se Gullar ou Cabral são ou não de fato “o cara”, exceto para ressaltar as ondas cíclicas de admiração e ódio de especialistas e críticos (sejam estes jornalistas, acadêmicos ou mesmo escritores) de nossa imprensa “especializada”. O que me faz lamentar mesmo é a falta de generosidade com as manifestações que não estão no fluxo na maré. E considerando-se o momento pós-moderno, ou seja lá como se chama isso que vivemos, e que Tavinho Paes define muito bem quando diz que se trata de uma reafirmação incontrolável de “mais, mais, mais, mais, mais... do mesmo”, isso se torna de fato algo grave.

Em primeiro lugar, há muito pouca informação sobre determinados processos, certas correntes e manifestações individuais ou coletivas. A chamada geração de 45, por exemplo, saco de pancada dos moderninhos de plantão, é desenhada como um movimento amplo a ponto de incluir Gullar como uma de suas referências na poesia. No entanto, também é vista como um movimento que dá passo retrógado em relação ao modernismo, principalmente com respeito à sua segunda geração, pois propõe a volta à técnica literária e uma atenção às regras de linguagem, mesmo que seja para quebrá-las. Dominar as redondilhas e os sonetos, para poder abandoná-los em seguida.

Na prosa, como sempre, tudo é muito mais fácil. Nesse campo, definem a geração de 45 como o texto que abandona os enfoques culturalistas e ideológicos do período precedente, para instaurar um regionalismo, de um lado, ou urbanismo, de outro; mas com aprofundamentos psicológicos e inovações na linguagem. Um movimento para cima, que surfa na onda da redemocratização, do fim da segunda guerra, do desenvolvimento econômico e social de JK. Vêm daí nomes como Guimarães Rosa e Clarice Lispector, inventando linguagens — regional e urbana —, narrando aspectos psicológicos profundos e intimistas: narrativas em fluxo de consciência, entre outros experimentalismos, colocando o leitor na mente dos protagonistas, entre outras bossas.

Nenhum escritor de prosa da geração de 45, e vamos incluir na lista, marcada pela diversidade, Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Lygia Fagundes Telles, Ariano Suassuna, entre muitos outros, enfrenta tanta crítica, quanto os poetas considerados pertencendo ao mesmo movimento. Mesmo levando-se em conta que o “formalismo” dessa geração é, talvez, o que tenha pavimentado a ligação entre o modernismo e as chamadas vanguardas literárias que surgiriam na geração seguinte, nos anos 50, a começar pelo concretismo, mas não apenas ele (não esqueçamos, por exemplo, do Poema Processo).

Mas isso tudo são banalidades quando se olha com o filtro do tempo. Fico feliz que tenham resgatado Gullar do exílio em que se achava, tachado de “poeta engajado” por seu histórico político ou de mais um “parnasiano enrustido”, querendo pôr regras no verso livre. E me pergunto: quantos poetas e escritores não estarão ainda perdidos no limbo, fora do alcance de nossos intelectuais de plantão nas páginas culturais dos jornais. Tenho encontrado algum conforto em páginas de blogs, como o de Antonio Cícero (no link ao lado), Tavinho Paes, entre outros, assim como em revistas literárias digitais. Pode ser que esses espaços, ainda um tanto espalhados e perdidos na imensidão da internet, abram caminhos alternativos à miopia dos que hoje inventam o fluxo da maré.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Entrevista com Vandré

Vandré, a mente afiada e boas histórias guardadas

Assisti um tanto angustiado e ansioso a entrevista que o Geneton Moares fez com o Geraldo Vandré para a GloboNews. Não sei se o Vandré vetou alguns temas a priori ou se o Geneton estava nervoso por estar fazendo a primeira entrevista com o autor de Pra não dizer que não falei das flores e Disparada após quase 40 anos de silêncio misterioso, mas foi uma entrevista travada, e me deu a impressão que o Geneton não dialogou de fato com o entrevistado. Em algumas respostas, Vandré claramente abria caminhos para o entrevistador seguir, mas ele não percebia, tão focado que estava em sua prancheta, com o roteiro de perguntas. De novo, o problema de sair da redação com a história pronta. Isso tira a sensibilidade do repórter para o inesperado, o imponderável.

É verdade que o Vandré, além de ser difícil nas cordialidades do face a face, foi evasivo sobre vários assuntos que não lhe interessavam. Sobre outros temas, porém, indicou que falaria bem, mas não foi estimulado a fazer isso pelo repórter, que não percebeu as deixas. De fato, a entrevista é uma arte complicada, sobretudo quando se fala com pessoas geniais e muito inteligentes, como é o caso do Vandré.

De qualquer modo, certos trejeitos, maneirismos, a ênfase incomum em certos trechos da frase, características de Vandré, me lembraram muito de Manduka, seu parceiro em 1972, no Chile de Allende, quando fizeram juntos Pátria amada idolatrada salve salve, um diálogo entre um homem e uma mulher ou entre a pátria e o exilado. Foi emocionante ver Vandré recitando trecho da letra de memória. Bastante afiada, por sinal.

Manduka conviveu com Glauber no Chile, onde o primeiro foi ator do segundo no filme inacabado Estrela da manhã

Manduka, com menos de 20 anos, começando sua carreira de músico no Chile, vivendo aquela efervescência toda. Convivendo diariamente com Vandré e Glauber Rocha, com os músicos dos Los Jaivas, dos filhos de Violeta Parra, introduzindo guitarras na música andina, um pouco como os Novos Baianos fizeram com a MPB. Dando ares de Bossa Nova a canções tradicionais do altiplano andino, como Naranjita. E depois o caminho que ele seguiu, gravando discos improváveis e raros em Cuba, com Pablo Milanés, no México, um de seus mais lindos discos, na França, com Naná Vasconcelos e no Brasil.

Manduka sempre conviveu com essas figuras e ele próprio era um gênio, por seu lado. Agora, depois de morto, cresce o movimento na internet atrás de seus discos. O disco do Chile, com Vandré e Los Jaivas, e a bela cantora Soledad Bravo, é um dos mais populares nessas redes. Mas quando se ouve cronologicamente o trabalho, percebe-se a trajetória do artista.

A contracapa do disco de Manduka, gravado no Chile em 1972, com Vandré como parceiro

E é essa trajetória de Manduka que me permite transferir, meio freudianamente, para Vandré e todos aqueles que conviveram no mesmo ciclo a mesma intensidade dos momentos que se foram. Por isso, a entrevista feita pelo Geneton me deixou emocionado por um lado e frustrado, por outro. A prancheta impediu que ele vislumbrasse ali a possibilidade de uma trajetória, ficando preso a questões pontuais de seu roteiro jornalístico. Faltou olhar para o entrevistado, olho no olho, e embarcar na viagem que, no fim, ficou no porto.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Inflação de botequim

Capela: preços inflacionados pelo sucesso

Tá legal, eu aceito o argumento, mas não meu velho pé-sujo tanto assim. Olha que a rapaziada está sentido a falta de um chope barato num botequim. É isso mesmo, amigos, os preços dos botequins estouraram numa espiral inflacionária que nenhum fundamento econômico pode explicar. Nada justifica uma conta de mais de R$ 100 após uma hora e meia no Capela ou no Lamas. Sobretudo quando ainda se encontram pés-sujos sensacionais como o Bar da Adelina, onde um PF e duas latinhas de cerveja saem por cerca de por R$ 15, depois de duas horas de conversa jogada fora, ouvindo um sambinha ao vivo.

Em parte, acho que essa alta maluca veio da valorização, digamos, social do botequim na cidade. Toda a onda que o Rio Botequim detonou, ao mostrar que o botequim não era apenas o lugar do alcoólatra e do vagabundo, mas igualmente uma insituição cultural representativa da boemia carioca, levou para o boteco hordas de consumidores que não eram aqueles velhos boêmios de outrora, tipo Jaguar e a turma do Pasquim, ou a malandragem de Vila Isabel e a turma do samba. De repente, os bares se viram invadidos por clientes "classe A", que exigem banheiro limpo e serviço à paulista. Tudo impecável.

Passados 20 anos desse processo, veio a conta. Qualquer boteco um pouco mais arrumadinho cobra os olhos da cara, nega a saideira e tem maitre para discutir com os clientes. Pendurar? Nem pensar. Outro dia, num encontro de jornalistas no Joaquina, mais de 15 coleguinhas, a conta deu uns R$ 800, e ainda assim os caras negaram uma rodada de cortesia de saideira. Taí um pé-limpo que, apesar do bom chope, evito. No Odorico, também num encontro de colegas de jornal, foi uma luta para pagar com cheque a conta. Cheque especial, vejam bem. Risquei do caderninho. Prefiro beber meu chope na Adega da Velha, onde o cardápio tem duas opções: cara e barata. E, numa emergência, dá pra gritar:

— Pendura essa, Chico!

Pendurar é vender a crédito. E crédito, o próprio nome diz, é acreditar. Acreditar em alguém, não no cliente, mas no freguês, aquele assíduo, de confiança. É uma relação de confiança que só pode existir num comércio de proximidade. Proximidade física e simbólica. É preciso estar afetivamente perto. Comerciante e cliente. É preciso conhecer o esforço do Chico, saber que ele tem, além do filho que trabalha lá, mulher e filha. Saber os problemas do dia-a-dia do negócio. Os fiscais que não dão trégua, o cliente que está devendo há mais de três meses e por aí vai.

Bar do Serafim: o que acontecerá com ele?

Será sinal dos tempos? O Juca se foi e o Bar do Serafim é agora uma incógnita. A Adega Pérola ainda está lá após a morte do dono, mas até quando? E os que sobraram estão metendo a mão, sem justificativa. Jobi, dos meus queridos Narciso e Manuel, sempre cobrou caro; o Bracarense também. Mas hoje, quando passo perto, o bolso dói e eu dobro a esquina, para não me sentir tentado. Pois ninguém, de boa cepa, bebe um ou dois chopes apenas, não é mesmo?

Segundo os economistas, trata-se da velha lei da oferta e demanda. Com tanta publicidade e marketing, a procura saltou e até patricinha hoje freqüenta botequim ou pseudobotequim. O preço tem que subir. Pois essa clientela nova é inclusive uma clientela com dinheiro no banco. Mas acho também que esse movimento está começando a chegar perto da saturação. Tenho visto o salão do Lamas, por exemplo, vazio e não creio que seja apenas culpa da lei seca ou da proibição de fumar em local fechado. Um bife simples, isto é, sem acompanhamento, cujo tamanho hoje é um terço do que era nos bons tempos, está em promoção: R$ 44. O preço oficial é R$ 10 mais caro. O Capela também tem andado às moscas.


Aproveito para acrescentar uma foto do Bar da Adelina

Enquanto isso, proliferam pequenas vans vendendo sopa de ervilha e churrasquinhos de gato. A rapaziada se alimenta nesses "podrões", como dizem os paulistas, e depois vão para o bar da moda, beber uma cervejinha. Estratégias de sobrevivência nesses tempos de carestia boêmia.

domingo, 12 de setembro de 2010

A magia de Hermeto


O Hermeto Pascoal é chamado de bruxo. A sua figura albina, com longos cabelo e barba brancos ajuda o imaginário da gente a confirmar o título. Mas é obviamente por sua música que ele é chamado dessa forma desde os anos 70. E a grande mágica de Hermeto, na minha opinião, não é a intricada progressão harmônica de suas músicas, mas a construção aparentemente simples de suas melodias. As músicas de Hermeto, quase todas, são cantaroláveis ou assoviáveis. Temas lindos, como Música das nuvens e do chão, ou o famoso Bebê, só para citar dois deles, ficam nos nossos corações por dias, depois de escutá-los. Mas digo aparentemente, porque mesmo em sua simplicidade sonora, essas melodias são complexas, contorcendo-se em sutis variações, sem matar a idéia central do tema.

Alie-se a isso a maestria harmônica do bruxo e temos aí o segredo de sua magia. Por isso, ainda hoje não consigo me comover com as performances de Tom Zé, sua batida de panelas no palco (coisa que o Hermeto fazia já nos anos 60). Sei que muitos não concordarão, mas como não entendo nada desse assunto, me aventuro sem medo pelo mar bravio. A impressão que tenho é que Tom Zé se esforça demais para soar original. É, talvez, a maldição das vanguardas, que estão sempre condenadas a inventar o novo, a anunciar o futuro, que já fica velho no momento mesmo de seu anúncio.

Em termos musicais, Tom Zé perde longe para Hermeto, em minha opinião. Em termos perfomáticos, perde para outros, como Walter Franco, cantando Cabeça, num dos últimos festivais; ou ainda para Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, estes últimos também grandiosos em termos musicais, com um estilo consistente e vanguardista.

Bem, talvez esteja sendo injusto e meus amigos músicos possam me corrigir. Afinal, só vejo Tom Zé em performances aqui e ali na TV, num Programa do Jô, ou coisa que o valha. Não compro seus discos e nem vou a seus shows. Mas do pouco que vejo na TV não sinto tesão para mergulhar em seu universo musical. Talvez, não esteja simplesmente a altura dele.

No século XVI, quando estudava música e fantasiava me tornar um artista nesse ramo, compartilhava com meus colegas o desdém pela simplicidade e a emoção. Achava que as intricadas fórmulas matemáticas do estudo harmônico me dariam a chave para fazer uma verdadeira arte. Uma arte superior à chorumela brega da música comercial, uma música só para quem tivesse condição de “entender”. Alguém que, ao ouvir minha música, dissesse: “Veja, aqui ele inverteu o acorde e colocou a nona no baixo”, ou coisa que o valha. E quanto mais mergulhei nesse mundo racional e lógico, mais fui perdendo a espontaneidade que tinha, e a sonoridade foi se esvaindo de mim, até que não sobrou nada, exceto partituras, manuais de harmonia jazzística e cadernos de solfejo. A música acabara. Vazio de sons, fui cuidar da minha vida.

Creio que esse racionalismo excessivo, que se perde do emocional, é um perigo. Quando se está nessa febre, gostamos ou deixamos de gostar de um tema musical à medida que compreendemos sua linguagem matemática, sua racionalidade. A mensagem do autor. Ao mesmo tempo tendemos a desprezar coisas simples, harmonias simples, repetitivas, pouco variadas, populares e exageradamente sonoras.

Penso que uma das grandes virtudes do Tropicalismo, sobretudo em Caetano Veloso, é a exaltação de músicas simples, bregas, melodiosas, melodramáticas. E mestres como Tom Jobim, para citar outro grande, caminham num equilíbrio entre os planos racional e emocional. Por isso, o bater de panelas no palco de Tom Zé é muito diferente daquele que faz o Hermeto.
Falando em Hermeto, estou organizando uma série de gravações caseiras de meu pai, o músico Gaudencio Thiago de Mello, feitas entre 1967 e 1972. Ele recebia os amigos em sua casa em Nova York e tudo acabava em música, que o velho registrava num gravador de fita rolo. Recentemente, sugeri a ele que passasse esse material todo para digital, num estúdio, equalizando, masterizando e o escambau.

Acabo de receber cinco CDs: O primeiro é um ensaio de 1967 do grupo que estavam montando Carmen Costa (vocal), Moacir Santos (raríssimo tocando piano), o velho no violão, e Richard Kimball, no contrabaixo. O segundo é um solo de berimbau de Naná Vasconcelos. O terceiro, é o velho, Dom Um Romão e Gilberto Gil, em 1972, com Gil mostrando Oriente e outra canção. No mesmo ano, Hermeto Pascoal mostra várias de suas canções, inclusive Bebê, com Flora Purim e Airto Moreira. Mais recentemente, em 1988, tem uma jam session na sua casa, com Claudio Roditi (trompete e piano), Romero Lubambo (guitarra), Roberto Sion (sax e piano), Nilson Matta (baixo), Barry Olsen (trombone), Gaudencio (percussão), Helio Schiavo (bateria) e Susan Davis (piano e percussão). Estou querendo propor um programa de rádio sobre isso.

sábado, 11 de setembro de 2010

Todos juntos e misturados


Ao deitar os olhos sobre o Prosa & Verso de hoje, me deparei com uma resenha do meu querido Luiz Antonio Simas, a quem acompanho pelo blog Histórias Brasileiras, acessível na lista de links deste Pendura Essa, sobre o mais recente livro do grande Nei Lopes, Oiobomé, a utopia de uma nação (Ed. Agir, 224 pgs, R$ 44,90). Simas é apontado no rodapé da resenha como professor de história, mas isso diz pouco do que ele realmente é. Na verdade, embora sua fama como professor que domina o ofício e ensina com paixão seja algo bastante disseminada, sobretudo entre estudantes, meu amigo é antes de tudo um humanista de primeira estirpe e é isso que lhe confere autoridade para discorrer sobre qualquer coisa. Some-se a isso, seu estilo de crônica, suave e preciso. Ecos de suas aulas antológicas me chegam por variados interlocutores, como a sobrinha de uma ex-namorada. Acho que foi o Eduardo Goldenberg, do blog Buteco do Edu (aqui), que se referiu certa vez a Simas como mestre zen. E é verdade, mas um mestre zen brasileiro com nosso orientallismo miscigenado, que tem em Dorival Caymmi a versão mais completa.

Sobre o livro de Nei, Simas apresenta, sob o título Um épico da mestiçagem brasileira, o mais recente esforço hercúleo do escritor/compositor de chamar a atenção, de forma extremamente erudita, para os aspectos africanos de nossa cultura. O autor inventa uma nação, Oiobomé, construída por um ex-escravo e composta por africanos ameríndios. E Simas conclui, muito a seu jeito, afirmando que sai da leitura com duas convicções: a primeira é que a saga de Oiobomé daria um belo enredo de escola de samba, se as escolas de samba ainda estivessem interessadas em enredos grandiosos e culturais. A segunda convicção é, e eu diria mais importante, é a de Nei Lopes escreveu mais um livro fundamental “para que o Brasil se reconheça e reconheça seu povo”.

Nei Lopes é um intelectual que ainda não foi devidamente reconhecido pela academia, sobretudo pela área de história social. Ele me lembra o caso de Nunes Pereira, autor de Moronguetá, o decamerão indígena, um trabalho etnológico de recolhimento de lendas e mitos sexuais dos indígenas no médio Amazonas, sobretudo os maués. Nunes Pereira, tendo sido um dos melhores do ramo, nunca foi reconhecido como antropólogo.

Mas quero aproveitar a deixa do livro de Nei para dar um pitaco sobre um assunto que, em geral, evito, já que vem cercado de controvérsia enfurecida, o que dilui muito a possibilidade de um diálogo honesto e profícuo. Trata-se da questão das cotas raciais. E para começo de conversa coloco minha posição sobre esse tema: sou a favor de cotas sociais, não raciais. Acho que os caboclos ribeirinhos da Amazônia, os nordestinos pobres de pele morena clara, ou camponeses do sul do país, branquelos, também devem ter acesso à universidade, pois a grande barreira hoje é social, não racial. Agora, dito isto, não há como deixar de reconhecer que racismo e preconceito racial são pragas presentes na nossa sociedade hoje.

Para mim, o problema principal das cotas raciais é que elas instalam uma divisão por raça que segrega a nossa sociedade e isso, a meu ver, se deve à influência do movimento negro americano, que foi incorporada sem críticas por alguns dos grupos que compõem o movimento negro no Brasil. Sucede que os EUA são um país multiculturalista e o Brasil, um país sincrético, mestiço. Isso significa que lá existem muitos grupos étnicos ocupando seus lugares isolados na sociedade e a disputa política, econômica e social se dá na arena pública, que deve ser igualitária, embora nem sempre funcione assim. Aqui, há miscigenação, mestiçagem. Somos todos, na maioria, meio brancos, meio negros, meio índios, meio árabes meio judeus, e por aí vai, “todos juntos e misturados”, como dizia Jean Charles de Menezes, um mestiço brasileiro assassinado pela polícia britânica ao ser confundido com um fundamentalista islâmico. O problema no Brasil, penso eu, é a esfera pública, tremendamente desigual e corrupta, uma desigualdade mais social do que qualquer outra coisa e uma corrupção atávica às instituições. E acho que, sendo um país mestiço, o combate à desigualdade deve ser sobretudo pelo seu aspecto social e não étnico, privilegiando um grupo e discriminado outro.

Não concordo nem mesmo com o argumento, que ouvi de alguns, segundo o qual a cota racial pelo menos seria uma forma de reparar uma dívida histórica com os negros, que sofreram com a escravidão. Acho que seria tentar amenizar um erro com outro. Mas, sobretudo, a questão que mais me move é que ao adotar o raciocínio racial, dão-se as costas para a potencialidade que uma nação mestiça tem no mundo contemporâneo. Vamos mais uma vez imitar os americanos, jogar fora o somos e instaurar a divisão de raças e etnias com argumentos parecidos aos de Arthur de Gobineau, um dos pais das teorias racistas, que escreveu sobre sobre a pureza das raças e os defeitos “genéticos” da mestiçagem, dividindo, como os americanos, o mundo entre brancos (exclusivamente anglo-saxões e arianos) e negros (o resto). Um perigo.

O próprio Nei Lopes, que, pelo que sei, defende a política de cotas raciais, com sua pesquisa incansável sobre a cultura africana no Brasil dá argumentos para um discurso mestiço. Acho que a melhor forma de combater o racismo, a discriminação racial e valorizar aquilo que nos torna uma nação, é estimular trabalhos como os de Nei Lopes e Nunes Pereira. Com exceção da contribuição européia, há muito pouco material sobre influências culturais que foram apropriadas, ou como preferiria Oswald de Andrade, deglutidas pelos brasileiros e, incorporadas à nossa realidade. Gostei da resenha de Simas porque ele teve a sensibilidade de destacar essa importância do Nei.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Doença como metáfora


O Prosa & Verso, caderno literário do Globo, trouxe no sábado passado um excelente artigo do psiquiatra e psicanalista Orlando Coser. Ele tratou de um assunto que venho considerando também, já há algum tempo, por um viés, digamos, mais antropológico. Trata-se da invenção de doenças pelo mercado farmacêutico e a indústria médica. No artigo, Coser, com uma clareza espetacular, analisa a profusão de lançamentos de tranquilizantes, antidepressivos, estabilizadores, neuromoduladores, enfim psicotrópicos que, alardeados como anjos que trazem redenção, acabam por alterar a percepção de médicos, psiquiatras, pacientes, farmacêuticos, entre outros, sobre as enfermidades mentais. A coisa é tão forte, que se chega ao ponto de inventar novas doenças, ao criar nomenclaturas e novas descrições para sintomas.

Coser é muito preciso ao afirmar como medicamentos, inicialmente usados em casos severos de esquizofrenia, se tornaram cada vez mais acessíveis e disseminados. A introdução dos psicotrópicos trouxe, do ponto de vista antropológico, uma inversão importante na gênese dos estados mórbidos ou eufóricos: não é o sintoma que provoca alterações psicoquímicas no cérebro, e sim o inverso. Difundiu-se, de forma bastante lucrativa para as indústrias que produzem esses remédios, a idéia de que esses distúrbios são tratados e resolvidos mediante o consumo de pílulas guardadas em caixinhas com tarja preta, que milagrosamente vão equilibrar hormônios, deficiências ou excesso de agentes neuroquímicos e, assim, "curar" o paciente. A Associação Mundial de Psiquiatria, sob forte influência americana, inclusive mudou os nomes das enfermidades: em vez de neurose, psicose etc., agora temos transtorno bipolar ou transtorno disso e daquilo, cada qual associado a uma miríade de medicamentos miraculosos. Criou-se, assim, um mercado que substitui o velho mundo do pobre e ultrapassado alienista.

Como chama atenção em seu artigo, Coser afirma que "o principal efeito desta estratégia mercadológica é o menosprezo à clínica médica. Parte do saber, da ciência, da tradição médica, é substituída pelo convencimento através de ampla ação de marketing, destinada não só a profissionais de saúde como, a partir de comunicação direta, a leigos.” E assim se criam e se apagam doenças na nossa sociedade.

Uma história ilustra processo parecido. Estava conversando com uma amiga na França e, ao mencionar a expressão TPM, fui repreendido por ela:

— Não existe TPM — disse de forma tão categórica, que não me restou alternativa a não ser concordar com ela. — TPM é uma invenção dos americanos para vender remédios.

Bem, muitas amigas minhas aqui no Brasil discordam da francesa, sobretudo quando aparecem determinados sintomas desconfortáveis “naqueles dias”. Mas sendo um pouco indulgente com o raciocínio dela, é verdade que a expressão TPM é relativamente recente para explicar o fenômeno e, de fato, veio do marketing da indústria farmacêutica associando a medicamentos ou absorventes. “Incomodada ficava sua avó”, apregoa um antigo comercial de TV, nos ensinando como, nos tempos atuais, devemos nos referir ao mesmo fenômeno físico. Só que ao mudar a nomenclatura do fenômeno, mudamos também nossa percepção sobre ele e, muitas vezes sem perceber, incorporamos valores que nos empurram na direção de um consumo questionável. É assim que TPM vira uma doença a ser tratada.

TPM é, portanto, a metáfora de uma situação contemporânea, à qual estão associados valores sociais importantes, como a independência da mulher, que não precisa mais se incomodar, que pode trabalhar e ocupar seu novo lugar na sociedade etc e tal. Mas esse novo lugar da mulher está associado igualmente a um padrão de consumo. Ou seja, com a "liberdade", a "modernidade" etc. vem também o uso de produtos associados, pelo marketing, a essas noções. A liberdade, assim, vira mercado.

Coser acerta em cheio ao se referir a uma nova metáfora no mundo psi: “a categoria ‘transtornos comportamentais’, genérica o suficiente para não ter limites, porém específica o bastante para indicar um problema a ser resolvido.” Um problema a ser resolvido via medicamentos sofisticados, que insinuam que podem “curar” uma perturbação mental simplesmente ajustando os níveis de serotonina. Coser chama a atenção também para a disseminação do uso desses medicamentos, indicados inclusive por não especialistas e sem acompanhamento clínico.

Antes que me joguem pedra, esclareço: não sou contra o uso de medicamentos. E acho inclusive que, em alguns casos, eles são mais do que necessários. Apenas chamo a atenção para como o marketing dessas indústrias tenta incutir nas nossas pobres almas certos valores. Muitas coisas são terapêuticas em determinados níveis. Ter um cachorro ou gato de estimação tem lá sua função terapêutica; seguir um culto; fazer ioga. Sou de um tempo em que a psicanálise e outras psicoterapias funcionavam muito precisamente para desatar nós que nenhum medicamento sozinho milagrosamente jamais o fará, independentemente dos comerciais na TV.

domingo, 5 de setembro de 2010

Mas o que faz o bom jornalismo, afinal?

Suzana Blass, do Sindicato dos Jornalistas do Rio, e Fernando Gabeira, no ato contra o fim do JB. Gabeira me disse: "O Rio precisa de mais vozes."

A reportagem sobre o fim do Jornal do Brasil na sua versão impressa, publicada no Globo na semana passada e reproduzida no post abaixo, me fez nergulhar num agudo exercício de reflexão sobre esse ofício, que vem se transformando à mesma proporção dialética que mudam a mídia e o jornalismo contemporâneo. O fato de orientar os estagiários da redação do Globo que chegam à editoria de economia também me dá elementos de observação sobre a nova geração de jornalistas e os ritos de interação no ambiente de trabalho, objeto da minha tese de doutorado em antropologia.

Não cabe aqui uma avaliação saudosista, que afirma que os rumos da profissão pioraram. Apenas verifico que o jornalismo que se faz hoje é outro, com características próprias muito distintas daquelas dos anos 80, quando me formei, ou, para analisar em termos de períodos, dos anos 50 ao início dos anos 90, quando o computador entrou na redação e se aposentaram a lauda jornalística e as máquinas de escrever. Mas há concretamente uma sensação de piora, inclusive entre as novas gerações que sequer viveram o auge do jornalismo heróico. Essa sensação vem, penso eu, de coisas concretas, como a baixa remuneração, o aumento da rotatividade de emprego no setor, isto é, da precarização do ofício, que inclusive deixou de ser reconhecido como tal pelo Supremo Tribunal Federal, que lhe negou a obrigatoriedade do diploma.

Ao mesmo tempo, as empresas de comunicação também vivem um processo incontrolável de transformação, sem saber bem para onde vai o negócio da comunicação. Elas não conseguem acompanhar a rápida evolução que novas tecnologias trazem ao setor, criando novas formas de fazer e viver o jornalismo. As empresas investem pesado em novas tecnologias, que, seis meses depois, já estão obsoletas, de modo que a sensação nas redações é de que se está sempre atrasado em relação à realidade. Enquanto isso, permanece o caráter ambíguo das empresas jornalísticas, como corporações que buscam o lucro de seus acionistas, mas que são igualmente instituições fundamentais para o exercício da democracia nas sociedades capitalistas. Esse caminhar entre o papel de empresa e o papel cívico impõe dilemas constantes.

Durante minha tese, tive acesso a pesquisas sociológicas sobre a profissão de jornalista interessantes. Uma delas, um artigo escrito pela antropóloga Alzira Alves de Abreu, enfocava as representações sociais de gerações distintas de jornalistas. Alzira entrevistou inúmeros jornalistas de redação e concluiu que a visão do ofício entre a geração mais velha, que ela chama de "boêmios" e "heróicos", é muito distinta da geração mais nova, que ela chama de "profissionais". Enquanto os primeiros viam a profissão com um olhar cívico, acreditando que seu trabalho era importante para, entre outras coisas, consolidar a democracia; os mais novos tinham uma preocupação mais profissional, acreditando que o papel do ofício é informar, e ponto final. Enquanto os primeiros faziam do bar uma extensão da redação, os segundo se preocupavam mais em avançar na hierarquia interna dos cargos e salários, daí a classificação que ela faz entre boêmios e profissionais, embora haja exceções dos dois lados, evidentemente.

A boemia e, sobretudo, os botequins tinham de fato um papel importantíssimo para o desempenho do ofício, quando comecei. Isso podia ser medido inclusive pelo alto número de profissionais com problemas de alcoolismo. Os botecos e restaurantes que fechavam mais tarde eram uma espécie de válvula de escape, após a dura jornada na redação. Era ali que se comentava, não sem brigas e polêmicas, as edições que iriam para a rua no dia seguinte. Era ali que se desabafava os percalços do ofício e das empresas, reclamando da aspereza dos chefes, da baixa remuneração, entre outros assuntos recorrentes. Nos bares, os coleguinhas de diferentes jornais e assessores de imprensa se encontravam e a impressão que se tinha era que o trabalho seguia ali. E de fato seguia.

Quantas discussões intermináveis no Capela, no Cervantes, no Vermelinho, no Fiorentina, Luna's Bar, Alvaro's, Degrau, Jobi, Jangadeiros e por aí vai... No Lamas, lá pelas duas da manhã, entrava o vendedor com a edição do Dia, que acabara de rodar. Depois chegavam o Globo e o JB. A partir daí verificava-se quem havia furado quem, discutiam-se abordagens, enfoques etc.

O timing do ofício também era outro. O pessoal do fechamento (editores, redatores, secretários, entre outros) terminava seu trabalho na madrugada. Era preciso fazer o acompanhamento gráfico, verificar se as fotos e as legendas batiam corretamente, por exemplo. Quando tudo estava certo, dava-se o sinal verde para as oficinas rodarem o jornal. E quando algo extraordinário acontecia nesse momento, o grito traficional, que virou jargão: "Parem as máquinas!".

Essa relação com a gráfica, a parte de oficina, fabril mesmo, fordista, com suas imensas rotativas, dava um tom industrial ao ofício, que hoje em dia mal se percebe, já que tudo é feito eletronicamente, digitalmente. Era a gráfica que ditava o ritmo do trabalho na redação, estabelecendo os deadlines de fechamento, para que o jornal rodasse a tempo hábil de ser distribuído em todo o país. O nível de tensão crescia proporcionalmente à medida que se aproximavam os prazos de fechamento. Atrasar era impensável.

Daí a invenção do texto jornalístico com o lide e a chamada pirâmide invertida. A informação mais importante era colocada logo no início do texto, de preferência no primeiro parágrafo, e se escrevia em ordem decrescente de importância. Desse modo, se o prazo apertasse e a matéria estivesse estourando o tamanho projetado pelo diagramador para a página, o redator sabia que podia cortar o texto pelo pé, pois, teoricamente, os fatos menos relevantes estavam narrados ali.

Era uma época em que as reportagens eram redigidas em laudas, batidas em máquinas de escrever Hemington, com cópia carbomo. Verificar a grafia de um nome ou a data de um evento histórico exigia trabalho na sala de pesquisa. As consultas a manuais, enciclopédias, dicionários e vocabulários ortográficos eram penosas, pois obrigavam a interromper o trabalho de redação. Era uma época também que havia uma exigência de qualidade muito cruel. Um erro de português podia significar a demissão do autor, como tantas vezes ocorreu. Por isso, todos se esmeravam em apurar bem e escrever corretamente, apesar dos prazos exíguos. Não havia recursos como Google ou Wikipedia num terminal de computador de última geração. Hoje, por exemplo, faço a pauta de assuntos internacionais de economia no Globo com outros dois colegas redatores, compartilhando um arquivo comum no Google Docs, o que nos permite atualizar a pauta simultaneamente.

Assim, o bar deixou de ter esse papel tão visceralmente ligado à redação. Entrevisto jovens que chegam ao Globo e nenhum deles freqüenta o botequim "profissionalmente". Suas fontes estão em outros lugares e as polêmicas e debates sobre as edições são preferencialmente feitas mediante redes sociais como o Facebook e o Twitter. Em vez da discussão acalorada, entre tulipas e pilhas de bolachas de chope, emoticons e outros recursos gráficos para expressar o assombro ou o encantamento de um ofício que mudou radicalmente. Além do que, eles chegam à redação em idade muito inferior aos de minha geração. A média hoje dos estagiários é de 19-20 anos, enquanto que, nos anos, 80, era de 25 anos ou mais.

Se antes a edição ficava velha e embrulhava o peixe no dia seguinte, hoje a notícia envelhece a cada clicada na internet. Isso, evidentemente, transformou a forma de se fzer jornalismo e a qualidade final da notícia. Há uma profusão interminável de informações despejadas sobre o leitor/internauta. Desse modo, é preciso atualizar constantemente, praticamente em tempo real, os sites de informaçõess, as versões online dos jornais impressos etc. Junto ao texto, há hiperlinks para vídeos, áudios, fotos, infográficos etc., mas o tipo de apuração também se apressou, voltando-se para notas sociais sobre celebridades e temas mais sensacionalistas, capazes de atrair e prender a atenção dos leitores navegantes. E os jornais impressos em vez de se especializarem em reportagens, com medo do furo imposto pela concorrência, tentam correr atrás da informação mais quente possível, mesmo sabendo que será sempre uma edição gelada em comparação à versão online e digital.

Penso que seria o momento ideal para que os jornais impressos voltassem a fazer boas reportagens. Reportagens que, de tão raras hoje em dia, são sempre acrescidas de um adjetivo: reportagem especial, reportagem investigativa e por aí vai. Reportagem é reportagem, e ponto final. Uma boa apuração e um bom texto são suficientes para levar ao leitor uma boa história. E isso ainda é o que define, na essência, o jornalismo de ontem e de hoje.