quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Nova York, dia 1




Newark, Nova Jersey, 7.11.2012. Embora hoje seja meu segundo dia, a “sensação térmica”, como se diz por aqui é como se tivesse acabado de chegar. Ontem, foi um dia de espantos, assombros e encontros. Estava insone e completamente chapado pelo cansaço da viagem, preocupado com o que haveria de encontrar por aqui, após a passagem do furacão Sandy, e pelo que virá pela frente, com a previsão de uma nevasca para hoje à noite. Meu fuso horário ainda é o do Rio, três horas à frente. Engraçado, ano passado, quando fui à Paris, quatro horas de diferença, não tive jet lag. Dessa vez senti e ainda sinto o fuso horário, como uma espécie de torpor. A calefação seca o ar e parece que estou ainda no avião, com a boca e o nariz secos. Mas vou me adaptando. Escrevo rápido, sem muito rebuscamento, preocupado com o tempo da bateria do computador. Ainda não tenho tomada que funcione aqui.

Hoje, sim, senti a cidade. Acordei com a expectativa de neve, mas tive uma notícia melhor: a vitória de Obama. Alívio e, por estas bandas, o Nordeste americano, a maioria está contente. Como acontece sempre quando estou em trânsito, fico num estado de alerta sensível nos primeiros dias. Por isso, aproveito para escrever. Faz dez anos que vim à Nova York pela última vez, e estou aproveitando o estranhamento para anotar coisas, que depois desaparecerão na naturalização que se dá com a adaptação à nova realidade. Esse estado é muito intenso. A sensação acordou já no embarque, ainda no Rio. E minha atenção foi se aguçando a cada etapa: embarque, acomodação no assento, decolagem, viagem, aterrissagem, chegada, imigração, malas, alfândega, transporte para a cidade. O primeiro passo no novo solo.

Fui acolhido por Alberto Ocampo. Um taxista colombiano, amigo de meu pai. Foi um luxo. Atravessei do aeroporto JFK para Nova Jersey, passando pelo Brooklyn e fazendo um inventário dos destroços que Sandy deixou. A temperatura? Zero grau. O horizonte de edifícios nova-iorquinos continua lá. Um cartão postal clássico da cidade, como aquela foto acima do Corcovado, em que se vê a Baía de Guanabara; ou os telhados de Paris. A diferença é que aqui e em Paris a luz é cristalina. No Rio, só no outono e no inverno o ar permite uma mesma luz tão limpa. 


Sempre viajo com um romance. Normalmente aquele que está há tempos na cabeceira, mas que, no corre-corre do dia a dia, nunca abri. Trouxe o livro da portuguesa Alexandra Lucas Coelho, chamado E a noite toda (ia trazer o romance do Paulinho Pires, que também tem a ver com meu momento, mas não achei na minha bagunça, na hora de fazer a mala) A história também é marcada por viagens, aeroportos, check points, e um romance polifronteiras, como já vivi também. E os personagens são jornalistas cobrindo conflitos pelo mundo, o que também me soa bastante familiar. Pautas, deadlines, hotéis baratos, entrevistas coletivas, fontes obscuras, fotografia, perigo. Vamos ver como acaba. O livro é realmente muito bom, com uma narrativa leve, mas profunda. Texto ligeiro, conteúdo profundo. Uma boa combinação.

Pensei nas minhas viagens, Manágua, os sandinistas (a primeira máscara que ilustra este post é de lá); Amazônia, a natureza; Paris, o amor que ganhei e perdi entre estações. E as coisas materiais que marcam um certo cosmopolitismo, o jantar especial com vinho de adega; os encontros com personagens especiais e suas histórias extraordinárias. Os idiomas e as confusões que emergem em atos falhos, como responder a Alberto, ontem, em francês uma pergunta feita em castelhano. Essas coisas.

Quando estou neste tipo de situação, uma espécie de narrador literário assume meus olhos e tudo o que vejo vai se transformando em narrativa. Frases de efeitos, no início, bem exageradas e piegas, mas depois vou lapidando o texto. Faço anotações, escrevo códigos que depois descortinam toda uma ideia complexa, com muitas ramificações. Queria ser assim o tempo todo, mas não suportaria tanta sensibilidade. Acabaria com queimaduras de terceiro grau. Depois que a naturalização se impõe, o narrador vai embora. Só aparece em momentos especiais.

Acontece que esta é uma viagem especial. Além do que foi mencionado há uma circunstância especial e inédita: o encontro com meu pai. É simultaneamente uma despedida e um encontro original. Pela primeira vez estou com meu pai sem a mediação do Ego, dos projetos de sucesso, do artista genial. Pela primeira vez encontro o homem, com seus altos e baixos, à medida que a sombra da morte paira à esquina. A memória rateando, um tumor no centro do corpo, as funções mais básicas submetidas a uma sensibilidade outra, limitadora. O apetite que se sacia antes do tempo; as manias obsessivas que se desvanecem em meio à uma sensação de desordem geral inevitável.

Mas, apesar desses sinais, apesar da magreza assustadora, lá está o velho. O humor de sempre, o tom de voz, o carinho. O personagem é quase o mesmo. Mas a relação também mudou. Estamos sem expectativas. Apenas estamos juntos e vivemos o agora. E o tempo passa. A TV ligada, o som ligado, certa cacofonia tecnológica para nos lembrar de um cotidiano que, antes, incomodava e agora traz um alívio, como se pudéssemos reinstalar a normalidade por meio desses aparelhos que nos cercam a vida inteira. E, assim, este é o momento: viagem, viajantes, cotidiano, provincianismo, cosmopolitismo... encontros e despedidas. Tudo ao mesmo tempo agora.

sábado, 3 de novembro de 2012

De volta a Nova York



A janela embaçada pela diferença de temperatura. Na rua, um gelo, em casa, calor

Nova York é um lugar esquisito na minha vida. Depois de morar lá nos anos 1970, no fim da adolescência, percebo que construí uma intimidade e uma história em meio àquelas ruas e avenidas numeradas, que fazem da cidade muito mais do que um ponto turístico ou mesmo um lugar de visita. Sempre vivi a cidade, seu dia a dia, mesmo quando não mais morava lá e estava apenas de passagem.

Aliás, me dou conta de que sempre viajei assim. Nunca fiz, por exemplo, esses roteiros europeus, tipo: três dias numa capital, dois em outra e, ao fim de 15 dias, visitou-se três, quatro cidades sem conhecer nenhuma. Não consigo sentir o lugar em tão pouco tempo. Preciso entrar no cotidiano local e isso demanda um tempo mínimo de entrega, de abertura à realidade que se descortina e também requer boa dose de esquecimento da realidade de onde se vem. É um processo denso, que exige do viajante saber o seu lugar no mundo, seja este o destino ou a origem, os dois ou nenhum. Quando essas coisas não estão claras, o viajante vive no limbo, numa espécie de não-lugar. Está sempre de passagem, incapaz de fincar raízes. 

Claudinha, uma amiga no Central Park, na última que estive em NYC, em 2002

Tinha 17 anos quando me mudei, mala, cuia e greencard à mão, para Nova York. A cidade vivia o frenesi do Saturday Night Fever, o verão do filho de Sam, a chegada do humor britânico do Monty Python, o jazz leve de gente como Grove Washington Jr, ou pesado, como o de Dexter Gordon, e o funk jazzístico dos Crusaders. Havia índices cariocas de violência urbana e o meu cotidiano consistia estudar inglês na Columbia University (tive a sorte ganhar uma bolsa integral) e conhecer a cidade.

O Brasil que ficara para trás estava no auge da repressão política, na transição do Médici para o Geisel. Na Maçã, aderi como simpatizante à militância política, participando de um grupo de defesa de prisioneiros políticos da América Latina, chamado Usla, ligado ao partido trotkista. Organizávamos protestos em frente aos consulados das ditaduras latino-americanas, como o Brasil e o Chile, cobrando a divulgação do paradeiro de presos políticos desaparecidos. Também estudava música, influenciado por meu pai, Gaudencio Thiago de Mello, compositor e multi-instrumentista, o que me permitiu conviver com músicos incríveis e aprender com eles. Depois vi que meu negócio era escrever. 

A rua 22, em Chelsea, onde morei nos anos 70. Outros tempos

Cada vez que voltei a Nova York desde então, de certo modo recuperei um pouco dessa vivência interrompida por minha volta prematura ao Brasil, em 1979, e pude reviver a experiência da cidade. Na última vez que estile lá, em setembro de 2002, vi as cicatrizes do 11 de Setembro, visitei endereços onde morei nos anos 1970 e vi que, por exemplo, o prédio onde vivi na rua 22, havia sido destruído por um incêndio. E, mesmo diante daquela ausência, onde uma outra construção foi erguida, me lembrei da velha morada.

E, agora, preparo as malas para chegar à cidade devastada pelo furacão Sandy,  para me despedir do meu pai que está bem doente. Essa sim parece ser mais que uma viagem dentro de uma viagem, uma jornada, cujos sentidos e consequências só serão apreendidos em algum momento no depois. No agora, é fazer as malas e encarar os percalços do vendaval.

sábado, 27 de outubro de 2012

A verdadeira ameaça ao botequim


A turma da cozinha no saudoso Penafiel do Saara

Para mim, um dos sinais mais contundentes de decadência social é o sujeito beber sozinho no botequim, esse clube social informal, cuja única entrada que se cobra é que se participe das conversas, de preferência bebendo. Quando o ser humano chega ao ponto em sua vida em que, estando num pé-sujo, não consegue mais interagir com ninguém, é porque algum tipo de perturbação mental ou da alma o aflige. Nesses casos, ir do botequim para o sanatório é um pulo. E não é a toa que o pé-sujo é também o reduto de todo o desajustado social. Como diz minha amiga Soraya Simões, com o coração genuinamente aflito, o que seria dos loucos se não houvesse o botequim?

O botequim do Rio de Janeiro teve em seu nascimento como instituição urbana o mérito de servir de refúgio para a classe operária e a população pobre em geral. Daí a fama de lugar de loucos, bêbados, ociosos, vagabundos, malandros, bandidos e que tais. Creio que a circunstância histórica de servir de cenário e espaço para esse tipo de encontro, essa ocorrência urbana, espécie de sobrevivência do simpósio de Platão na modernidade, tornou o botequim relativamente imune às mais conspícuas ou, ao contrário, sutis ameaças à sua existência. A cidade precisa do botequim. E não por seu cardápio popular e criativo, menos ainda por seu cenário típico ou sua arquitetura histórica. Mas exatamente por funcionar como um clube social, onde quase qualquer um pode chegar e participar da conversa.

Meu mano véio Jason no Bar da Adelina, um clube de vizinhança em Botafogo

Digo quase qualquer um porque o botequim ainda é um lugar essencialmente masculino, independentemente da presença cada vez mais frequente da mulher. Não se trata de uma questão de frequência, mas sim de ambiência. O ethos, para dar um pouco de formalismo acadêmico a essa conversa fiada, é essencialmente masculino. Ou seja, a conversa é de homens, e isso aparece nos temas, no linguajar e, sobretudo, na adoração ou na crítica à mulher. O que os homens falam da mulher no botequim daria uma enciclopédia ilustrada da perplexidade que resume o nosso vasto e contraditório sentimento em relação a essas sherazades, ninfas, afrodites, harpias, bruxas, deusas, enfim, citando Geraldinho Carneiro, essas alucinações do espírito.

É verdade que nos botequins familiares, como o Bar da dona Adelina, ali em Botafogo, é perfeitamente normal uma mulher do grupo chegar sozinha para beber sua cervejinha sem qualquer problema. Mas ali ela está em casa e certamente não ficará sozinha por muito tempo. Todos a conhecem, inclusive aqueles que por ventura entrarem ao acaso no estabelecimento. Pois estará óbvio, por meio de vários sinais, que ela pertence ao grupo e, portanto, não está sozinha, mesmo que esteja.

Minha querida Mila Chaseliov, que hoje bebe em outra freguesia, prepara uma tese sobre a presença feminina no bar

Em geral, as mulheres frequentam o botequim em grupo ou com seus homens. Ou então trabalham na casa, como garçonetes, filha ou mulher do dono, ou mesmo sendo a proprietária, como dona Adelina. Algumas são protegidas pelos garçons ou mesmo o dono, que não deixam a rapaziada falar palavrão em voz alta ou assediá-las. Nos pés-sujos mais populares, as que insistem em ir sozinhas beber sua dose no balcão, sofrem discriminação, cantadas grosseiras, são vistas como piranhas, e acabam ou sendo expulsas ou, incrivelmente, enfim, acolhidas de uma vez por todas, como doidas maravilhosas, que conquistaram, numa postura masculinamente destemida, seu lugar naquele mundo dos homens. Essas últimas são sensacionais, e também a exceção que confirma a regra.

Dizem que Antonio Ribeiro provocou uma revolução ao comprar o Belmonte quando colocou espelho no banheiro feminino. A casa atraiu o mulherio. E atrás, evidentemente, vieram os homens. Sucesso total. Mas, por outro lado, muitos sequer consideram o Belmonte pós-reforma um botequim. Qualquer mulher que frequenta botequim sabe o verdadeiro rali que é fazer xixi. E isso é o sinal físico da ambiência masculina. Em alguns bares, o dono tranca e controla como um velho patriarca a chave do banheiro feminino. Esta normalmente presa a um pau de tamanho avantajado, como um aviso de que é ele quem regula certas funções biológicas de suas clientes. E só isso já daria ótimos ensaios psicanalíticos e antropológicos sobre os significados simbólicos desse tipo objeto, uma espécie de totem e tabu do patriarcado boêmio. Com as chaves do banheiro, a dama pode também receber alguns nacos de papel higiênico, um privilégio.

Mas, voltando às ameaças ao botequim, percebo que o fato de ser um espaço menos desigual do que a sociedade que o contém, o pé-sujo se preserva. Por menos desigual quero dizer que as pessoas que na rua, no trabalho, na praia etc. são discriminadas pela aparência, pela posição social, pela cor etc. têm no botequim uma existência como pessoa reconhecida. Ali elas existem de fato. Embora o pé-sujo também tenha suas hierarquias, etiquetas e moralidades próprias e que são bastante complexas.

Pernil e ovo colorido, receitas de botequim

E falo dessa qualidade de clube social informal independentemente do merecido sucesso de botecos, como o Aconchego Carioca, o Bar da Frente, o Enchendo Linguiça, o Bracarense, entre outros, que souberam apostar na qualidade do serviço, mas sem descaracterizar a ambiência e o espírito de botequim. Com todo o sucesso, mais do que merecido, a Katita, por exemplo, continua a mesma dona de botequim que sempre foi e a maior virtude de seu bar não são os bolinhos de feijoada ou o camarão na moranga, mas o clube social que ela criou ali (um dos meus orgulhos é estar numa fotografia na parede do bar). Valéria e Mariana, as meninas do Bar da Frente, o Fernando do Enchendo Linguiça, e o Kadu Thomé, do Braca, também.

Acredito que o botequim sobreviverá enquanto for um espaço para a conversa fiada. E, nesse sentido, para mim a maior ameaça não está nos bares da moda que se travestem de botequim para vender uma falsa ideia de boemia, mas sim na revolução tecnológica que colocou, por exemplo, a TV de plasma, como bem salientou outro dia o Edu Goldenberg, não mais exclusivamente para que os convivas assistissem aos jogos de futebol, mas como uma onipresença em que já há casos em que se manda falar baixo para não atrapalhar a novela. Mas mais ainda, penso nos gadgets eletrônicos, como smartphones e iPads, que interferem na conversa e podem alimentar aquela figura solitária, que bebe sozinha e prefere dialogar com o mundo virtual.

Paiva, Ed e eu, no Jobi. História de botequim (foto de Nelson Vasconcelos)


PS: Na semana passada participei de dois eventos em que o botequim foi o tema central. O primeiro foi um debate com Edu Goldenberg e Carlos Lessa, no FIM do Livro no Porto, em que teoricamente iriamos discutir sobre o decreto de tombamento dos bares, mas acabamos falande de outras coisas também, mais o Lessa do que qualquer outro. E o segundo foi na Academia Brasileira de Letras, um pouco mais formal e sem debate, apenas palestra, com Sergio Cabral (pai), Hermínio Belo de Carvalho e, novamente, Carlos Lessa. O tema foi bar, boemia e intelectuais. Mas, para mim, a semana foi fechada com chave de ouro, com a homenagem que a turma do Villarino fez a este pobre e desvalido escriba, criando um prato com meu nome: bolo de carne à Paulo Thiago, que é o bolo recheado com paio ou linguiça calabresa, acompanhado de arroz, lentilhas e salada de tomate. Isso sim é imortalidade. Ainda mais num bar como o Villarino com toda a história que tem. Obrigado!

domingo, 21 de outubro de 2012

Adeus à Soneca

Soneca não era muito afeita a posar para fotografia. Buscando em meus arquivos vi que, em tantos anos de convivência tinha pouquíssimas fotos dela. Mas achei esta, mal feita por mim, mas que é tão a cara dela, acomodada confortavelmente no sofá, intensa, linda.


Ontem, foi um sábado de intensidades. Depois de 12 dias direto de trabalho sem folga, estava programado para falar sobre botequim no FIM (Fim de Semana do Livro no Porto), numa mesa com meu querido Edu Goldenberg e Carlos Lessa. O encontro tinha sua importância pessoal, pois seria a primeira vez em que eu e Edu conversaríamos pessoalmente, e logo numa espécie de mesa diante de uma plateia, sobre esse tema que nos é muito caro. Edu é um defensor dos botequins, muito mais radical do que eu, que me limito a analisar os fenômenos que consigo perceber. Ele não. Ele faz de seu blog (Buteco do Edu) uma trincheira em defesa de uma boemia e uma identidade carioca que se vê ameaçada por mudanças, esquecimentos, desrespeitos e que tais.


Ocorre que, ao levantar, fui pego pela notícia triste da morte de uma amiga querida. Mais uma vítima do câncer (é impressionante a quantidade de pessoas com câncer e mais ainda a quantidade de pessoas que estão morrendo da doença, é uma verdadeira epidemia). Sonia Prestes, minha amada Soneca, de quem andava afastado nos últimos anos e, por isso, sequer soube que ela estava doente. Foi um susto triste, um sopro de melancolia a notícia. Ela foi cremada ontem, mais ou menos na hora em que eu estava falando no Morro da Conceição.

Conheci a Soneca quando tinha uns 8 ou 9 anos. Mãe de um colega de turma, o Beto Ninô, na escola pública Manoel Cícero, ali, uma daquelas construções gêmeas (a outra escola, se não me engano, é a Julio de Castilho), em frente à Praça Santos Dumont. Depois a vida seguiu, morei no exterior, voltei, e o Beto se casou com uma prima minha, o que acabou me reaproximando de Soneca. Ela fizera uma revolução em sua vida, tornando-se uma psicanalista de percepção arguta e sensível, principalmente nas relações entre pais e crianças. Ela era acima de tudo uma entusiasmada defensora do poder da análise na transformação da vida das pessoas para melhor, no sentido de deixar desabrochar potencialidades e disponibilidades para a vida.

Me lembro que eu devia ter uns 20 e poucos anos, nós costumávamos andar pelo calçadão da praia, quilômetros e quilômetros de conversas estratosféricas. Um dia perguntei sobre a importância da análise em sua vida e ela me disse que seu único arrependimento era ter começado muito tarde, pois ela queria ter podido sentir mais cedo a libertação que sentia naquele momento da vida dela (ela se aproximava dos 50 anos). Impressionado com suas palavras, eu logo tratei de fazer análise. E. de fato, fiz algumas revoluções internas que hoje me permitem ser quem eu sou. Soneca, generosamente, me deu isso de presente.

Apaixonada por dança de salão, Soneca era amiga de todos os bambas, como Carlinhos de Jesus, Jaiminho e outros. Bem antes disso se tornar moda. Frequentava os salões e gafieiras e fazia, às vezes, suas próprias festas no velho apartamento de Ipanema. Aparentada ao velho Prestes, tinha uma mente de esquerda, mas muito avançada para a pequenez das picuinhas partidárias e de diretórios. Ela era sobretudo uma libertária. Denunciava na hora as velhas tentativas de domínio e manipulação que certas personalidades apresentam. Foi de uma dissidência de um grupo de psicanalistas e depois seguiu um caminho próprio na terapia, incorporando à coisa freudiana elementos que seus pacientes traziam.

Sua atenção principal eram as crianças, pelo que me lembro. A forma como se criam os pequenos, com o dia a dia se sobrepondo a certas violências silenciosas, maus tratos imperceptíveis a olhos comuns, que depois se desenvolvem em carências, neuroses e tais.

Bem, não sou psicanalista para fazer uma avaliação séria, mas o que vejo na Soneca que me parecia raro era a atenção e a torcida que ela tinha não só por seus clientes e amigos, mas por qualquer pessoa que cruzasse com ela. Ela realmente torcia pelas pessoas. Quando ela percebia algo que a animava em relação a alguém, falava disso com entusiasmo contagiante. E raro. Só fui ver um entusiasmo igual na Flavinha Bali, que fala das pessoas próximas, pacientes ou não, com emoção genuína, igualmente contagiante.

Era impressionante, às vezes bastava uma conversa casual, à praia, à rua. E ela vinha cheia de alegria por aquela pessoa, dizendo algo como: “que caráter admirável”.  Soneca era assim: entusiasmada com o ser humano e sua capacidade infinita de superar traumas, se desvencilhar de amarras emocionais, de se reinventar, desde que estimuladas pela coisa certa, no momento certo. Podia ser a análise, a religião, um cachorro de estimação. Tudo para Soneca tinha o poder de ser terapêutico. Talvez seja por isso que, mesmo distante dela nesses últimos anos, eu sentisse sua presença pairando sobre mim, e, ontem, ao saber de sua morte, não tenha conseguido reprimir uma sensação de desamparo.

sábado, 13 de outubro de 2012

Samba minimalista


Caiu em minhas mãos um CD excelente. Minimalista bem de acordo com os tempos atuais, reúne a cantora paulista Juliana Amaral a poucos e bons músicos. Batizado de SM, XLS (samba mínimo, extra luxo super), o disco tem como proposta a música no esplendor do básico. A voz, excelente, de Juliana, acompanhada por um instrumento básico (a maioria das vezes um violão de sete cordas, bem executado por Gian Corrêa) e uma percussão sutil para realçar alguma ideia musical da poesia das letras, ou como acompanhamento rítmico (também muito bem executado por Samba Sam). Ouvindo o pandeiro, me lembrei do que me disse certa vez minha amiga Joana Saraiva: o pandeiro pode muito bem substituir uma bateria em algumas circunstâncias. E isso se comprova no disco de Juliana.

Quando Manduka estava gravando seu primeiro disco no Brasil, em 1979, tive o privilégio de acompanhar todo o processo. Vi algumas das canções nascendo, depois o Joca, guitarrista fenomenal, arranjando as bases e, em cima de seus arranjos, Celinha Vaz, colocando orquestrações. Tudo excelente, tudo sensacional. Mas intimamente preferia, por meu gosto, ouvir apenas o violão majestosamente tocado por Manduka e sua voz singular. Mas os tempos eram ainda aqueles em que a simplicidade era considerada um defeito. Naquele início dos anos 1980, fazia-se música para ouvidos profissionais, achando que os pobres mortais se encantariam mesmo sem entender as operações matemáticas das sofisticadas harmonias, com suas inversões e malabarismos timbrísticos. E sobre a base colocavam-se camadas de arranjos, de certa forma, apagando a essência da canção. E eu, que conhecia as músicas de Manduka tocadas pelo próprio em seu excelente violão, me sentia um tanto frustrado de perder essa essência.


O que Juliana faz neste CD é valorizar extremamente, como nenhuma orquestra poderia fazê-lo, a interpretação da cantora e o acompanhamento como suporte à voz, mas com suas próprias sutilezas e maestria. O estúdio gravou inclusive uns soluços, que transbordaram pela garganta da cantora, reforçando essa sensação visceral. E, voilà, o que era minimalista se torna grandioso.

Destacaria ainda a regravação de Acabou Chorare, do grande Moraes Moreira. Juliana coloca sua alma ali e, ao mesmo tempo, evoca o tom igualmente intimista da gravação original dos Novos Baianos. O disco traz ainda um recado paulista e, nesse sentido, é regionalista e um tanto mesmo provinciano, mas num bom sentido, com a competência e a qualidade que os paulistas normalmente empregam em suas produções. Incorpora composições de músicos de São Paulo ou que ali se abrigraram, como Itamar Assumpção e Tom Zé, além de vários compositores paulistas contemporâneos. Ela inclusive grava O mistério do samba, de Fred Zero Quatro e Marcelo Pianinho, que afirmam que o samba não é carioca nem baiano, mas sim pura invenção. Bem, isso é outro assunto e dá pano pra manga.

Mas fica a sugestão do belíssimo CD de Juliana, mais um disco bom para abrir o fim de semana. Voz e violão ou voz e clarinete ou voz e cavaquinho ou voz ou vibrafone... com uma percussão sutil e presente.

sábado, 6 de outubro de 2012

Gritos e sussurros

No post abaixo, sobre pelos pubianos, mencionei que da minha geração para cá até a forma de gemer mudou. Aqui e no Facebook várias amigas revelaram uma curiosidade sobre o que, afinal, eu quis dizer com essa afirmação tão improvável. Bem, tento aqui tratar disso, retomando do post anterior a ideia de “coletividade” que se impõe, quase que "durkheinianamente", sobre nossos costumes tupiniquins. As modas e as ondas não se restringem a roupas, circuitos boêmios e comportamento público. Elas intervêm também na intimidade, pois esta é cada vez mais compartilhada em redes sociais, sejam elas virtuais ou reais.

Como sempre, corro um grande risco ao generalizar as coisas, mas como estamos num blog cujo subtítulo aponta para “escritos sem compromisso”, olho a coisa como se estivesse à mesa de um botequim, refletindo sobre mitos fulgurantes da nossa cultura contemporãnea. Assim, comparativamente, retorno à minha geração, que, com toda a repressão política e sexual que se abatia sobre nós, ensaiou uma fracassada revolução sexual. Estou falando dos anos 1960-1970, quando a pornografia era perseguida e o rigor moralista católico se manifestava por meio dos olhos vigilantes de pais, professoras, padres, inspetores etc. Sexo era um tabu, inclusive e sobretudo enquanto discurso — e o anjo pornográfico Nelson Rodrigues captou muito bem essa energia que subjazia sussurrada sob o manto de normalidade.


Ao contrário de hoje, não se falava do assunto abertamente, exceto na intimidade do quarto, nas alcovas barrocas da literatura erótica, ou na pornografia descuidada, como os catecismos de Zéfiro, que se adquiriam em certas bancas de jornal, e serviam como catálogos de perversões mal ilustradas. À rua, a juventude chamada de “transviada” — que, com seus cabelos longos e aderência ao rock’n’roll, se extraviara do bom caminho —, era agredida verbalmente e, às vezes, fisicamente. Os meninos com cabelos compridos eram tachados de “viados”. As meninas, putas. Todos vistos como viciados, almas perdidas: “aonde o mundo vai parar, dona Rosinha?, indagavam, aflitas, as mães às suas comadres de igreja”.

Mas, a partir da revolução comportamental de 1968 (uma espécie de Primavera Árabe mundial da época; só que em vez de hijab, batas indianas; em vez de moderação e abstinência, sexo, drogas e rock’n’roll), a nova geração, não sem conflitos, ensaiou uma afirmação existencial própria, negando o moralismo hipócrita dos caretas. Começavam, embora mais no plano do desejo do que no da realização concreta, tentativas de enterrar aquele moralismo religioso, quase rural. Isso se refletia em todos os campos, na academia, nas artes e na filosofia, e no comportamento cultural (é nesse momento, por exemplo, que a Tropicália emerge como movimento de vanguarda).

É claro que o buraco é mais embaixo. O psiquismo das pessoas não muda da noite para o dia, convertido pela “revolução”. Mas ali começava um movimento dialético, alternando enfrentamento e aderência ao sistema, que acabou por, de fato, transformar o comportamento da sociedade, ainda que a caretice e o moralismo tenham sobrevivido relativamente bem e se apresentem hoje com roupagens mais adequadas aos novos tempos. Não é à toa que vejo gente da minha geração reclamar que os filhos são mais caretas que seus pais haviam sido. O conservadorismo continuou latente, e as contradições entre discurso libertário e ação repressiva explodiram nos limites, culturais e psicológicos, de cada um.


No plano do discurso, começou realmente um movimento importante, que ao longo do tempo acabou mudando a sociedade. Hoje, somos muito diferentes do que éramos então. Porém, a caretice e o moralismo conservador permanecem renascidos e revigorados por novas expressões e atitudes. Os jovens nas igrejas, por exemplo, têm cabelos compridos e tocam corinhos em ritmo de rock'n'roll. Como se vê, dos anos 1960 para cá, muita coisa se perdeu nesse processo, além dos pentelhos.

O tabu que remetia o sexo para a alcova se desfez à proporção que o assunto veio para a sala de jantar; à medida que saiu do fundo das bancas de jornal em esquinas obscuras para as livrarias mais nobres da cidade. O assunto virou talkshow em programas como Papo Calcinha, Saia Justa, entre outros; foi desinfetado por sexólogos pops (como a menina do Altas Horas) e médicos como Dr. Drauzio Varella; virou bestseller, numa literatura rápida, em que a narrativa dramática — como se via, por exemplo, em um Henry Miller ou numa Anaïs Nin — perdeu espaço para a descrição detalhada, ginecológica e, voltando à noção de pureza e impureza, asséptica.

Há alguns anos, médicos alertaram, preocupados, que havia uma procura muito grande de adolescentes saudáveis por cirurgias plásticas, para aumentar os peitos. Alguém conjecturou que elas estavam seguindo um modelo estético das atrizes pornôs americanas, que entopem os peitos com silicone a ponto de quase explodirem. E, quando trepam, eles balançam como melões soltos sob a pele, como se não fizessem parte do corpo. Os filmes pornôs, que nos anos 1970 fizeram experiências estéticas (clássicos como Garganta profunda e Atrás da porta verde, e o surpreendente musical Alice no país das maravilhas, por exemplo), tornaram-se uniformes e educativos. Mostram tudo explicitamnte, mas encaretaram. E estão acessíveis a qualquer um pela internet. Daí, talvez, venha essa estética pornô clean, que não se restringe ao corpo, mas às formas de trepar e... de gemer.

A sonoridade que escapa pela garganta durante um ato prazeroso e proibido — e que, portanto, nos aproxima o máximo possível da condição humana — é mais gutural, chorada, suspirada... ecoa num volume explosivo, por mais sussurrada que seja. Está sempre por um fio, entre os dentes, precária. Não pode ressoar da mesma forma que os gemidos industriais, assépticos, e, num certo sentido, banais, que emergem de grandes produções pornôs, mesmo que o cenário destas seja a nossa cama.

domingo, 30 de setembro de 2012

Mulheres naturais e mulheres anti-idade

Outro dia, sem querer causei reboliço numa roda de amigos, a maioria mulheres de gerações distintas, ao expressar meu apreço por uma mulher que não se depila. O ar chegou a ficar tenso, após o silêncio que se seguiu à afirmação, aparentemente, tão descabida. Aquela situação me fez lembrar outra cena, em que o reboliço foi meu. Uma amiga paulistana me contou, numa divertida discussão em Paris, que havia feito um tratamento a laser para que nunca mais crescessem pelos no púbis. Estávamos num café em frente ao mercado d’Aligre. Eu, ela e outra amiga, esta carioquíssima, que apoiou a companheira contra meus argumentos e espanto. Ignorante do mundo cosmético que vivemos, eu nem sabia que havia uma possibilidade tão radical de eliminar, de uma vez por todas, os pelos da xoxota.

Na conversa, argumentei que a mulher careca era algo como uma espécie de perversão ou brincadeira que fazíamos na minha geração para apimentar a transa (ainda se fala transa?). Era algo como a lingerie preta ou velas ou qualquer outra coisa fora do ordinário na hora do sexo. De repente, aquela sua mulher, ao tirar a roupa, descortinava uma vulva careca e era uma alegra inesperada. Mas, depois de um tempo, a fantasia perdia o sortilégio e parecia que se estava trepando com uma menina em vez de uma mulher. Ou talvez nossas índias, com suas “vergonhas saradinhas”, que tanto assombraram o padre Antonio Vieira.

Bem, mas a conversa seguiu no café, regada por um chope Leffe (fazia calor e o sábado era de sol), e a veemência de nossa discussão cresceu à mesma proporção de nosso entusiasmo pelo assunto, ainda bem que em bom português. Embora desconfie que as pessoas ao redor soubessem do que falávamos. De qualquer modo, cheguei a ficar indignado quando ambas associaram os pelos à falta de higiene. Que elas optem por raspar suas partes íntimas vá lá; mas que condenem quem não o faz ao papel de irresponsáveis e insalubres, é demais. Imediatamente baixou o antropólogo. Me lembrei do livro de Mary Douglas chamado Pureza e perigo, em que ela trata comparativamente dessas noções de pureza e impureza em várias culturas e sociedades. Nada como um bom relativismo para refrescar o calor das afirmações.

Como se trata de uma noção fortemente associada à identidade pessoal e social de cada um, pureza e impureza têm uma força extraordinária, mas são, como diria Mia Couto, noções ou representações transitórias e precárias. Estão aí os pelos pubianos que não me deixam mentir: tão abundantes no fim do século passado, eles hoje se transformaram em desvio e sujeira. Na verdade, até a forma de gemer de prazer mudou, mas isso é outro longo assunto.

Coincidentemente, a revista dominical do Globo — que na edição anterior chocou seus leitores ao expor na capa uma bela imagem do “ruivo, raro isóscele perfeito” (c.f. Manuel Bandeira), devidamente guarnecido de uma frondosa floresta — traz hoje uma matéria, de minha colega Joana Dale, sobre quatro mulheres de gerações distintas que têm em comum o fato de não aparentarem a idade que de fato têm. A reportagem inventa uma nova categoria social: a mulher anti-idade. Em resumo, trata-se de mulheres que buscam um equilíbrio, desfazendo os excessos de certos grupos de mulheres, que fizeram a alegria de cirurgiões plásticos, levantando aqui, reduzindo ou ampliando ali, inclusive adolescentes botando peitos e coisa e tal.


Não que elas não mais recorram a eles hoje em dia, mas o fazem, segundo a reportagem, de forma mais comedida e, o que é mais importante, sem ir contra a natureza do próprio corpo. Ou seja, nada de botox em excesso para “parecer uma Barbie” ou arrebitar o nariz adunco. Gastando até R$ 2 mil por mês (e, portanto, também estamos falando exclusivamente de mulheres de classe média ou alta) com sua aparência/identidade, elas entram em dietas inteligentes, tomam sucos energéticos, aderem à medicina cosmética associada a terapias alternativas e coisa e tal, com a filosofia de que é possível atenuar o envelhecimento sem maltratar muito o corpo.

Mas o interessante é que Joana abre a reportagem falando da conversa entre as quatro personagens, quando foram reunidas para fazer a foto que ilustra a história. O assunto flui de cinema a livro, passando por novela e outros temas, que funcionam como um indicador de pertencimento social. “As quatro falam a mesma língua”, diz Joana na reportagem, para concluir: “mostrando que não há mais fronteiras entre as gerações.”

Aqui, correndo o risco de generalizar, eu vejo um elemento que distingue nossa cultura da europeia ou norte-americana. Nós somos muito mais coletivos do que individualistas no sentido do consumo e do comportamento público, da praia, da rua, do verão etc. Lemos os mesmo livros, vemos os mesmos filmes e compartilhamos os mesmos dramas, como envelhecimento e coisa e tal. Isso, obviamente, tem aspectos positivos e negativos. Mas me permite entender porque os pentelhos, antes parte integrante da anatomia cultural, uma vez banidos, ou seja, incorporados à categoria do impuro, se tornaram um “problema” a ser eliminado. Mesmo quem hoje resiste à pressão social para raspá-los, o admite apenas em voz baixa, quase com vergonha.

No Brasil, somos uma aldeia, onde compartilhamos uma cultura que se impõe mais pelo coletivo do que pelo individualismo. Uma cultura que, entre outras exigências, vem demandando que as mulheres tenham as “vergonhas saradinhas”, para voltar ao padre Vieira. E essas exigências e demandas são incorporadas inconscientemente e rapidamente naturalizadas, isto é, passam a valer como uma verdade absoluta, como se fossem uma coisa “natural”, da natureza humana. É como se raspar os pelos que nascem no corpo a partir da puberdade marcasse uma passagem simbólica, do lado animal para o humano, do impuro para o puro, do sujo para o limpo.

Mesmo que se trate de uma decisão individual, é inegável que há uma pressão coletiva. Embora, ainda bem, haja inúmeras exceções por aí, que confrontam essa, digamos, ordem social. Mas tolerando alguns exageros generalizantes e reducionistas, tenho a impressão que se você quer pertencer ou simplesmente não sofrer as sanções explícitas ou simbólicas no Brasil, é melhor se integrar às coisas todas que compõem essa ordem coletiva. Saber, por exemplo, quem são os personagens da novela, ou ter lido o último livro ou visto o último filme sobre o qual todos estão falando. E, é claro, ter o corpo adequado àquilo que a ordem determina como certo. É uma postura coletiva que tem a ver com uma imagem projetada de mulher, sem idade, pura (moral e higienicamente), sensual, maternal etc. e tal; e de homem, forte, inteligente, agora com um pouco mais de sensibilidade, e sei lá mais o quê.

Na Europa e nos Estados Unidos, apesar de toda a futilidade e as modas imperiais, vi mais mulheres do que no Brasil que são abertamente contra essas “imposições” (da indústria cultural, da publicidade, do jornalismo, dos vizinhos etc.) de uma beleza eternamente jovem e saudável, que deve compor a mulher ideal. Elas odeiam papos como “relógio biológico”, “TPM” e que tais.

Há, por exemplo, uma modelo, rejeitada por agências como Ford, que é hoje extremamente requisitada por fotógrafos de renome. Ela tem uma beleza absolutamente rústica, tipo nariz grosso, e embora seja magra, não é cadavérica. As curvas estão todas lá. Os pelos também, inclusive debaixo do braço, para horror de minha amigas. No entanto, é uma mulher de uma sensualidade irresistível. Seu nome é Nettie Harris e ela tem um blog, no qual posta suas fotos (e de onde tirei as fotos que ilustram este post). Vale a pena conferir, pois me parece uma reação à onda de beleza e sensualidade convencionais.

Há também um movimento que defende a "mulher natural", que é igualmente fetichista, pois não existimos de forma absoluta na natureza, mas sempre mediados pela cultura. Assim, falar de mulher natual é falar de uma ideia fetichista, construída por parâmetros morais e culturais. Mas, de qualquer modo, me soa como uma reação saudável a esta outra suposição de pureza, tão bem refletida nas mulheres anti-idaade. É cono se a "mulher natural" dissesse à "mulher anti-idade": meninas, não tenham vergonha de seus pentelhos.

sábado, 22 de setembro de 2012

Bestiário

Leoa. Tem os filhores ao alcance da intuição e exibe o dom materno na naturalidade com que lhes lambe as feridas. Puxa-os, amassa-os, e morre de saudade de seus "bebês", mas sem lamentos melodramáticos. Orgulhosa, quer que ganhem o mundo, imperiais. Quando está solta na selva, é toda instinto. O faro se insinua alma adentro, levando o cheiro da caça. É a rainha da floresta, dona do mundo e, com seu rugido furioso, amedronta os mortais. Evito irritá-la. Próximo a ela, calo em silenciosa reverência. Sua musculatura perfeita, seus ossos alongados e a elasticidade quase invertebrada a tonram tão sedutora, que não me resta outro destino, exceto me entregar, feliz, às suas garras. Morro mil vezes de amor, enquanto ela se diverte. Esquece seus trovões ao menor gesto de carícia e rola na relva sob o toque de meus dedos, até devorar-me, para sempre esquecida em sua paixão.

sábado, 15 de setembro de 2012

Egberto na voz e piano de Delia Fischer

Não foi sem emoção que iniciei o sábado retornando ao universo musical de Egberto Gismonti. Dessa vez, pelas mãos ou, mais precisamente, pelo piano e pela voz de minha querida amiga Delia Fischer. No repertório, clássicos do mago de Carmo, especialmente as parcerias com o poeta Geraldo Carneiro, para mim, uma das melhores vozes da poesia brasileira dos anos 70. Foi mais ou menos assim: ontem, trouxe da redação uma boa dúzia de lançamentos, a maioria novidade para mim. Mas entre eles, veio esse CD da Delia, chamado Saudações, título de uma das canções de Gismoti.

Por sincronicidade, hoje tem no Segundo Caderno do Globo uma resenha do Calbuque sobre um outro achado fortuito: a gravação de um concerto de Gismonti, com o saxofonista Jan Garbarek e o baixista Charlie Haden, realizado na Alemanha em 1981. A fita do show estava em excelente estado, perdida nos arquivos da ECM, a gravadora de Gismonti.



Já Delia sempre foi uma espécie de alucinação do espírito. Conheci essa menina linda nos anos 80, quando ela gravara, se não me engano, seu primeiro disco. E me tornei seu fã para sempre. Na época, fiz fotos que foram usadas na produção do projeto. Depois, fui companhando sua carreira de longe e de perto. Sua temporada na Modern Sound me tinha lá aos sábados religiosamente. Ela também participou de um CD do meu pai, Gaudencio Thiago de Mello, chamado Amor mais que perfeito, em que ele trabalha com cantoras: Fátima Guedes, Cris Delano, Itamara Koorax e Andrea Dutra. 

Mas não me lembro de ouvi-la cantar. E hoje foi essa surpresa deliciosa, deixar sua voz se espalhar pela casa, se insinuando por entre a harmonia sofisticada do piano, as peças elaboradíssimas de Gismonti e o lirismo profundo de Geraldinho Carneiro. Além disso, o disco traz a companhia de excelentes músicos instrumentistas, acrescentando baixo, guitarra, cavaquinho, violino, entre outros. Fica a dica: Delia Fischer. Saudações.