sábado, 25 de abril de 2009

Tragédia em Maria da Graça


A chopeira do Amendoeira, cuja serpentina teria 96 metros

A essa altura, todo mundo já leu a má notícia. César Resende, dono do inigualável Bar da Amendoeira, foi assassinado ontem, aos 60 anos, após uma briga com um cliente e desafeto antigo. Não conhecia o César muito bem. Nas poucas palavras que trocamos vi simpatia, de modo que não consigo imaginar uma cena de briga tão violenta, que se deteriore para porretadas e tiros. Não combina. Prefiro manter à memória o velho botequim, batizado oficialmente de Café e Bar Lisbela e que, ao longo dos anos em que, imperioso, residiu à esquina da Conde de Azambuja com a Miguel Gama, em Maria da Graça, na zona Norte do Rio, se tornou uma referência para a boemia carioca.


César em pé, entre Julico (à esquerda), do Rio Botequim, e o querido Baiano

Fundado em 1935, como um aramzém, também já se chamou Café Rio D’Ouro, Armazém Dois-Dois, Cenaca Gelada, Bar do Manoel e Bar do Mário. Mas foi sempre a frondosa amendoeira, árvore da família das rosáceas, que chegou ao Brasil vinda da África, que deu nome ao estabelecimento.


Um garotinho na pressão, sobre o balcão do Amendoeira

O endereço também é o de um dos melhores chopes da cidade. Fazendo pesquisa pelo Rio Botequim, onde o Amendoeira é um dos poucos bares a ter saído em todas as edições, o César exagerava sobre o tamanho da serpentina. Um ano disse que ela tinha 96 metros e, em outro, 120. Não importa. A qualidade do chope é atestada pela nata da boemia carioca. O Amendoeira forma com o Adonis minhas referências de chope de excelente qualidade da zona Norte, onde predominam os bares com cerveja. Para o estômago, a estrela da casa é a carne seca (segundo o César, o consumo é em média de 30 quilos por dia), preferencialmente na sua versão tira-gosto, com farofa. Mas também se come uma excelente costelinha com quiabo e uma boa feijoada. Aos sábados, tem angu à baiana.


Mais uma do bar, o chope sempre impecavelmente vestido com colarinho

Um dado curioso é o sistema inventado pela casa para controlar as doses da malagueta: um canudo de plástico é colocado na compota da pimenta e bastar apertar uma das pontas que o canudo vira um conta-gotas. Pura física de botequim.


O Bar da Amendoeira, visto de dentro

Lembro de uma ida ao Amendoeira com a turma do Rio Botequim mais Wilson Flora, o Baiano, e Moacyr Luz. Estávamos vindo do Bar do Paulinho, em Higienópolis, e paramos ali para a saideira. Ficamos numa mesinha na calçada, perto da amendoeira. O Moa pegou um violão velho e a tarde virou noite suavemente. Foi um lindo anoitecer carioca. Quem viveu, viveu.


Moa, com o violão, interpretando velhas canções: parece uma pintura impressionista

O bar, que já abrigou uma mercearia, mantém os detalhes arquitetônicos dos anos 50, com luminárias antigas, espelhos com formas arredondadas, cabides para pendurar o chapéu e o muro de cobogós, que divide o ambiente interno. A briga que resultou na tragédia, segundo a notícia publicada nos jornais, teria começado há tempos por causa da instalaçáo de um ventilador...

br
A amendoeira que dá nome ao bar e sua fachada, com a turma do Rio Botequim na calçada

Ontem foi um dia triste. Me lembrou a morte do saudoso Armando, do Bracarense.


César, de costas, recebendo a galera na mesa na calçada

Leiam mais sobre o bar e o crime nos blogs Pé-Sujo, do Juarez Becoza, clicando aqui (ou no link, lá embaixo), e no Blog do Moa, clicando aqui.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Boteco, ruídos e choque de ordem


Bar do Belmiro enfrenta a ira dos moradores de um condomínio em frente

Outro dia me falaram que o condomínio transversal ao Belmiro entrou com uma ação contra o boteco por causa do barulho provocado pelas rodas de samba periódicas da casa. Ontem, eu fui à roda de samba do Sabor da Morena. Muito bom e devo dizer que a casa pegou. Estava lotada com pessoas de todas a idades e aquele clima gostoso de boemia. Aquela esquina entre as ruas Fernando Guimarães e São Manuel, diante da praça Mauro Duarte, é um recanto em Botafogo, com seus sobrados e prédios pequenos. Ar de surbúbio, atmosfera de interior, com a molecada jogando bola, soltando pipa, andando de bicicleta, mães com bebês na pracinha e coisa e tal.


Sabor da Morena foi multado por excesso de mesinhas na calçada

Mas já a especulação imobiliária começa a desfigurar o lugar. E o povo de um novo edifício, erguido em tempo recorde e que derrubou três sobrados centenários, já anda reclamando do barulho. Os novos moradores não freqüentam a rua; têm tudo em seu condomínio. De modo que entram e saem de carro, passando por grades com câmeras e preferem fazer suas compras em shoppings, em vez de prestigiar o comércio de rua do bairro. Enfim, são os novos tempos e logo, logo esse trecho de Botafogo sucumbirá à "civilização" e a rua morrerá.


O Alfredinho, do Bip Bip, proibiu bateção de palmas e controla o ruído

Enquanto isso, o choque entre dois tipos de moradores vai se dando em conflitos dessa natureza, como o uso da calçada e o lazer coletivo. O boteco Salvação chegou a um acordo com a vizinhança. Pára o samba às 21h em ponto. Essa é a melhor saída, na minha opinião. Todo mundo satisfeito, e o casal que reclamou na prefeitura já até freqüenta o samba. O Bip Bip tem uma história longa com a vizinhança. Ações na Justiça e o escambau. E o samba do Alfredinho é silencioso perto das rodas que tenho visto por aí.


O samba do Salvação, aos domingos, acaba às 21h em ponto: acordo com os vizinhos resolveu o impasse

Tudo isso me lembrou a pesquisa de um colega antropólogo sobre o ruído na cidade. Ele fez um levantamento em cima das queixas do disque-barulho e descobriu que 90% das reclamações não se referiam ao nível de ruído em si, mas ao tipo de barulho, que vinha sempre adejtivado: "macumba infernal", "pagode de cachaceiro", "funk de bandido", "culto evangélico de pentecostal" e coisa e tal. Ou seja, não era necessariamente o barulho, em termos de volume de decibéis, mas o evento propriamente dito que despertava a contrariedade e a indignação do reclamante.

São sacações como essa que os fiscais responsáveis pelo choque de ordem do prefeito Paes não levam em conta. Têm um modelo de cidade na cabeça, aquela da classe média da zona Sul, e vão impondo a ferro e fogo, sem ouvir o bairro, os moradores, a vizinhança. Sem entender a importância da convivialidade na rua, na calçada. Sem perceber que alguns bairros formam uma comunidade e outros, são lugares sem vida nas esquinas: prédios e prédios que parecem fortalezas e a calçada vazia. Não entendem que cada bairro tem uma personalidade e um jeito de ser.

É verdade que há exageros. Ontem mesmo, depois que o samba acabou no Sabor da Morena, um grupo de fregueses se sentou à calçada, perto de 1h da manhã, e começou a cantar a plenos pulmões, cada um num tom, cada instrumento de percussão batucado de qualquer jeito. Aí nem mesmo os vizinhos que gostam da roda e defendem o bar vão apoiar. O exagero de um lado e de outro é que não deveria vigorar.

sábado, 18 de abril de 2009

Em busca dos malditos


Manuscrito do Gould: sua obra ficou fragmentada, espalhada e inacabada

Meu amigo Marcelo Moutinho, que pode ser encontrado no link do Pentimento abaixo ou clicando diretamente aqui, escreveu um post sobre o grande personagem nova-iorquino Joe Gould, um escritor, vagabundo, dos anos 40-50, que trocava seus textos por bebida e algum canto para dormir. Vivia nas ruas de Manhattan desde que baixara a inspiração para escrever sua obra-prima: The Oral History of Our Time (A história oral de nosso tempo), um romance sobre os personagens das ruas, moradores sem-tero do Metrô, alcoólatras e malucos como ele, pessoas que contavam suas histórias ou pensamentos ou sentimentos, em conversas longas ou curtas, inteligentes ou tolas, saborosas ou irritadas. Isso bem antes que o conceito sociológico de história oral fosse criado.


Retrato de Joe Gould, feito pela Agência Magnum

Já escrevi sobre isso no Pindorama, mas o assunto é recorrente e fascinante. Acho que essas figuras são essenciais à vida urbana, embora estejam se tornando cada vez mais escassas. Penso, trazendo a coisa para cá, no Profeta Gentileza, por exemplo. Essa coisa intermediária entre a marginalidade e a genialidade de quem não pode mais viver sob as regras convencionais. Pessoas que vêem o mundo de um jeito único e, quando cruzam nosso caminho, primeiro assustam e, depois, nos encantam e seduzem, porque se tornam a encarnação da certeza de que a possibilidade humana de ser e estar no mundo é infinita. Diante de suas dificuldades com o mundo convencional, elas se reinventam, muitas vezes de forma sofrida, dramática ou trágica.


Manduka na capa de seu primeiro disco, de 1972

Essa coisa foi tão marcante para as gerações dos anos 60-70, que até se inventou o adjetivo maluco-beleza. Quem é da minha geração deve se lembrar do Jimi Hendrix, um mendigo que dormia nas areias do Pier de Ipanema e sua presença era denunciada pelo forte cheiro de éter. Andava com um violão compondo canções cósmicas. Desapareceu repentinamente, numa época que se removiam favelas a ferro e fogo e sumiam com os moradores de rua da zona Sul. Mas isso é outro assunto.


Erickson Luna recitando em Recife

Penso também nos artistas malditos, sobretudo escritores, poetas e músicos, que são também personagens limítrofes entre a normalidade e a loucura. Normalmente elaboram uma arte requintada, arguta, expressiva e absolutamente marginal, que passa desapercebida pelo mainsstream, pela indústria do setor, pela mídia e todos os mecanismos que hoje domesticam o artista convencional. Eles não se curvam ao sistema, por assim dizer, mais por uma insubordinação atávica do que por uma postura ideológica.


A capa do livro de Luna

Joe Gould era desse quilate porque escrevia para beber. Porém, mais do que um escritor, era um ilusionista, pois sua obra-prima, A história oral de nosso tempo, nunca existiu na inteireza. Apenas em fragmentos que ele fornecia, quando as dúvidas sobre um texto tão exuberante começavam a crescer entre aqueles que o conheciam. E eram trechos geniais. Após sua morte, em 1957, se não me engano, a obra completa nunca foi encontrada. O jornalista que fez seu perfil para a revista New Yorker, Joseph Mitchell, foi em vários endereços onde Gould dissera que havia deixado, fregmentados, os manuscritos da História oral. Necas. Ela nunca havia sido concluída. Apenas trechos que apareciam aqui e ali, e que Gould relutava em mostrar e só em troca de uma boa dose de bourbon (seria ele adpeto do Jack ou do Jim?), liberava a leitura para uns poucos e ávidos privilegiados.


Manduka no México

Na parede do boteco nova-iorquino Minnetta Tarven, freqüentada pelo velho escritor-ilusionista, pode-se ler: "Escrevo para o meu próprio deleite, já que sucede de eu ser o único Joe Gould deste sistema solar. Com isso, não quero excluir a possibilidade de que existam outros sistemas solares cheios de Joe Goulds." De fato, os universos paralelos estão cheios de figuras geniais e até mesmo mais interessantes que Gould, no sentido de terem produzido de fato obras essenciais. Penso, por exemplo, no Erickson Luna, o poeta pernambucano que vivia nas ruas do Recife, cuja voz rascante troava nos mercados e praças em meio a versos de extrema qualidade e beleza. Luna publicou seus poemas num livro solo e em algumas coletâneas apareceram poemas dispersos. Esse era radical e maldito a vera. Morreu na glória da sarjeta, poeta das ruas. E quem o viu recitar, absolutamente mendigo, absolutamente poeta, não o esquecerá.

Luna formava com Francisco Espinhara, outro grande poeta do Recife contemporâneo, falecido pouco meses depois de seu companheiro de letras e bar, o movimento da Poesia Pessimista. Não sei quem cunhou o nome, penso que talvez ele limite um pouco a força lírica dos versos desses homens geniais. Meu amigo jornalista do Recife Braulio Brilhante, amigo de ambos, tem a tarefa hercúlea de escrever a história desses poetas.

Foram forjados na mesma estirpe: Manduka, Sergio Sampaio e Glauber Rocha, entre outros. Coincidentemente ou não, todos mortos. Talvez os tempos atuais não permitam mais o surgimento ou a permanência de figuras como essas, cujos ecos aparecem incompletos em histórias de raro esplendor. Pessoas que, depois de mortas, são transformadas em fetiche (bem, um pouco como faço agora, mas pelo menos tenho a desculpa de ter conhecido a maioria deles).

Acho que, mais do que nunca, são figuras boas para a gente garimpar por aí, em busca de seus resquícios, os fiapos de suas idéias, suas obras incompletas. Tentar entender suas mensagens. Vejo uma garotada, na faixa dos 20 e poucos, escrevendo febrilmente, compondo música, fazendo filmes e buscando inspiração fora das convenções. Mas o mundo se tornou muito audiovisual e virtual, de modo que a carne e o sangue das experiências me parecem um tanto diluídas. Por isso acho os botequins, os mercados, as ruas e os becos lugares viscerais.

Não se trata de salvar a memória de uma forma de fazer arte ou simplesmente de estar no mundo, embora isso seja importante tamném. Trata-se mais de um lembrete de que o mundo não se limita aos limites que conhecemos.

Obs.: As fotos desse post foram surripiadas da internet e algumas são reproduções. Infelizmente não sei o nome dos autores originais.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Amigos e botecos em imagens (3)


A cozinha do Penafiel do Saara. Fechou ano passado, pouco antes de completar 90 anos

Num post recente, tratei de bares centenários da cidade, aproveitando a publicação de uma reportagem que fiz com o fotógrafo Custódio Coimbra para a Revista O Globo, que sai nas edições dominicais do jornal. Tratamos nessa matéria de casas tradicionais como o Decolores, o Paladino, o Armazém Senado, o Restaurante 28 e o Bar do Jóia. A primeira, na Ponta D'Areia, em Niterói, e as demais, no velho Centro do Rio. Todas centenárias. A matéria, que pode ser lida na reprodução alguns posts abaixo, tem um tom de arqueologia de um tipo de comércio de rua, com sua gastronomia e cultura típicas, que vai desaparecendo à medida que não encontra nos herdeiros a disposição de continuar a dura tarefa de tocar o negócio. No texto, menciono rapidamente o Penafiel do Saara, que fechou há quase um ano, pouco antes de completar 90 anos. Pois bem, remexendo meus arquivos para essa série de posts fotográficos, achei algumas fotos do velho Penafiel, que fiz pouco antes do fim Uma casa de pasto, onde se escolhia a comida depois de olhar as panelas com o cardápio do dia. Assim, para matar (ou piorar) a saudade, abro essa seção de fotos com algumas do velho Pena.


O salão do Penafiel, com os velhos ventialdores e o aconchego dos velhos tempos. Fiz essas fotos um pouco antes de atacar uma carne assada com batatas coradas e molho ferrugem. Inesquecível


Na Lapa, o Nova Capela é também um representante da velha tradição. Famoso por seu cabrito com arroz com brócolis e alho, o bar é ponto obrigatório da saideira daqueles que freqüentam os shows do bairro boêmio


Cícero, o garçom boa praça do Capela, que acaba de ganhar a enquete promovida pelo Correio da Lapa, que perguntava quem era o melhor: ele ou Paiva (ex-Jobi)


Amigos jornalistas no Capela, depois do fechamento das edições o bar é uma excelente opção, pois a cozinha atravessa a madrugada funcionando a todo vapor


Amigos no Aurora, chope decente e barato em Botafogo. A cozinha não é mais a mesma dos velhos tempos que as lulas com arroz e brócolis eram referência na zona Sul. Mas ainda assim é um bar onde me sinto bem

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Amigos e botecos em imagens (2)


O Amendoeira ao cair da tarde, numa tarde em que vários amigos se reuniram à sua entrada

Nada mais carioca do que encontrar os amigos no bar. De preferência o da esquina, que é sempre o melhor. O melhor por ser mais próximo, o melhor por ser, na maioria dass vezes, o mais simples. Todo dono de boteco que conheço tem lá sua mania de grandeza. Alguns sonham em reformar o banheiro, outros querem trocar as mesinhas. O senso estético quase sempre insólito. Mas, na maior parte das vezes, o tema é apenas assunto de balcão. Nasce e morre ali.


O chope e a carne seca desfiada são as estrelas do Amendoeira, em Maria da Graça

Os novos bares que estão surgindo, no entanto, têm mostrado em geral um ar tão suntuoso que dificilmente dá pra classificá-los na categoria botequim. Vejam bem, nada contra. São bares onde acontecem shows programados, eventos sociais, como lançamento de disco, e coisa e tal. São espaçosos, iluminados (às vezes excessivamente, como o Chico & Alaíde), decorados e impecáveis no serviço. Ótimo. Vamos ver o novo show do Moa, vamos conhecer o novo livro do Marcelo Moutinho. Mas no dia seguinte, de bermuda e sandália, não deixemos de ir à esquina, encontrar os amigos da vizinhança, pedir uma gelada e comentar o futebol e a política e admirar as belas que passam, alheias, em frente ao bar. Se der fome, atacar o prato da casa.


Baiano diante de uma rabada e ampolas geladas no Bar do Paulinho, em Higienópolis

É a idéia de estar à toa que me comove e atrai para essas casas. A idéia materializada do ócio criativo (quantas idéias sensacionais, quantos projetos não surgem nesses lugares?) e, o que é melhor, compartilhado com amigos e mesmo desconhecidos. Bem, como disse no post anterior, as fotos expostas aqui são, na maioria das vezes, de momentos em que esse sentimento estava presente, assim como os amigos.


A bela Isabel de Luca na Adega Tudo do Mar, na Ilha. O bar pode não ser grande coisa, mas a Isabel...


Balcão do Real Chope, em Copacabana. Botequim de esquina e excelente chope


Codorna do Feio, no Méier. O nome diz tudo, tanto em relação à qualidade da codorna na brasa, quanto à beleza natural do dono, o cearense Sebastião de Souza


O Bar da dona Maria, na Muda, me lembra carnaval, samba e Moacyr Luz


Juninho, da Adega da Velha, em Botafogo. Reparem nas cachaças à direita


Denise Lopes sapecando azeite em seu risoto transmontano, no Bar do Serafim, em Larangeiras

sábado, 4 de abril de 2009

Amigos e botecos em imagens (1)

Amigos, remexendo nos arquivos fotográficos de anos de perambulações por botequins desta cidade maravilhosa, deparei-me com imagens de tempos distintos, momentos entre as mesas dessas casas onde passei boa parte do meu tempo. Também imagens de amigos. Então decidi fazer uma seleção, meio sem sentido, apenas obedecendo o gosto deste pobre e desvalido blogueiro. Ei-las (depois virão mais):


Mila Chaseliov, a Miloca, grande amiga, na Adega Pérola, há uns três ou quatro anos, se a memória me ainda me serve


A Adega da Velha, do meu querido amigo Chico Rufino e seu filho Júnior. Palco da minha dissertação de mestrado: "Pendura essa: A complexa etiqueta nas relações de reciprocidade em um botequim do Rio de Janeiro", defendida na UFF, em 2003


Soraya Simões (à esquerda) e Jussara Freire, em pleno carnaval de 2007, onde devoramos uma feijoada branca na Adega Flor de Coimbra, com a fome de quem saiu antes no bloco do Bola Preta


Visão aérea do Aurora, um boteco centenário em Botafogo


Bar Lagoa fechando, o bar art déco da Lagoa, ex-café Berlin


A cozinha do Cervantes após a reforma de 2008. Um pouco mais de espaço pra rapaziada que prepara os recheios dos sanduíches da casa


A turma da antropologia na calçada do Decolores, na Ponta D'Areia, em Niterói: (Felipe Berocan, à esquerda, Marco Antonio da Silva Mello, com o violão, Dri Duval, Soraya, à cabeceira, Letícia e Fabinho

domingo, 29 de março de 2009

Saudades do Juca


Zé Lins do Rêgo na caricatura de Baptistão

Li no Blog do Moa que o Juca, do Bar do Serafim e outras tantas boas casas do ramo, faleceu na última quinta-feira. Alguns dias antes, já havia publicado aqui uma nota sobre sua internação. Pena. Eu e Zé Octávio estávamos combinando uma visita surpresa ao amigo no hospital, falamos disso à mesa de bar, como convém. Mas o encontro não se materializou. A última vez que conversei com Juca foi no Serafim, coisa de meses, não me lembro bem. Ele já estava sem beber há algum tempo, mas o fígado não dava trégua. Quando soube que ele havia sido internado novamente e que o prognóstico não era bom, tive um mau pressentimento, que rapidamente afastei com a esperança de que ele saísse mais uma vez do hospital. Meu pressentimento estava mais certo que minha esperança.


Mila Chaseliov, Leo Feijó e Juca Ribeiro na premiação da Veja Rio aos melhores botequins do Rio, há três anos

Como disse no post anterior, tenho orgulho de estar na parede do Bar do Serafim, um dos meus prediletos. O pequenino boteco tem o tamanho certo do aconchego e uma relação de histórias tão saborosas como seus pratos transmontanos. Certa vez, por exemplo, estava ao balcão, trocando idéias com o Juca, quando chegou um velho freguês — velho tanto no sentido de antigo cliente como por ter a idade avançada —, vindo do hospital que fica a um quarteirão do Serafim. Entrou na casa eufórico, deu um soco no balcão, onde espalhou uma batelada de exames médicos: eletrocardiograma, exame de sangue, gráficos e tabelas de sua saúde. Em tom solene, entregou a papelada para um surpreso Juca do outro lado do balcão e mandou:

— Me serve uma branquinha, Juca, manda fazer um quadro e pendura esses exames na parede. Meu coração está tinindo.

Me lembro do orgulho vaidoso do Juca em relação aos bigodes a la Dom Pedro. Risonho, sempre me contava dos inúmeros anúncios de TV que fez por causa dos fios alongados dos bigodes. Motivo de gozação dos assíduos, como o Amaral, um coroa de barba branca e ar de general. Sempre que entra no Serafim, grita para a turma atrás do balcão:

— Canalhas!

É boa parte desse clima descontraído, dessa atmofera de gozação, que ficamos privados com a passagem do Juca. Mas fica o consolo de que ele viveu a boa vida. É a memória das coisas boas, das situações humanas, dos defeitos, daquilo tudo de singular que deu personalidade a uma existência que nos conforta e atormenta, com a passagem de pessoas queridas.


Thiago com o violão, no cardápio do almoço histórias de Zé Lins

Ano passado conversava com o poeta Thiago de Mello, num almoço emocionado, em que ele pegou o violão. Estávamos num dos raros momentos em que ele deixa a floresta para participar de alguma coisa no Rio. Nesse dia, falamos dessas perdas, a morte prematura de Manduka, seu filho, e ele me contou algumas passagens dos últimos dias de José Lins do Rêgo, no hospital, para onde o poeta se mudou para não deixar o amigo sozinho. Como Juca, Zé Lins morreu de complicações no fígado. No caso do autor de Fogo Morto, uma esquitossomose, pega na sua infância nos engenhos nordestinos.

Zé Lins era um gozador e bricalhão e Thiago me contou dos elaboradíssimos trotes telefonicos que, do leito do hospital, ele passava com a cumplicidade de seu amigo De Mello, como ele chamava o poeta.

Foi com essas coisas na cabeça, que assisti mais uma vez o documentário de Vladimir Carvalho, intitulado O engenho de Zé Lins. Com depoimentos de Ariano Suassuna, Carlos Heitor Cony e Thiago de Mello, além de inúmeras pessoas relacionadas à vida do escritor, o documento traça um retrado dessa alma genial e eu recomendo muitíssimo o filme. O final mostra um Thiago de Mello emocionado, chorando copiosamente, cantando uma música que fez para o amigo. É impossível não se emocionar também.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Notas tristes


Barril na rua e Juca, no centro, cercado de amigos, como Mila Chaseliov e Zé Octávio (à esquerda), o sócio Edgar e um amigo

Amigos, como a nota é triste, vou direto ao ponto. O querido Juca Ribeiro, dono do Bar do Serafim e de outras boas casas do ramo na Zona Sul e na Lapa carioca, está internado novamente. O fígado parece contrariar a enorme vontade de viver desse português de Trás Os Montes, famoso pelos bigodes à la século XIX, que conheci nos idos dos anos 80, quando ele tinha um pequeno pé-sujo perto do Lamas, chamado Adega do Juca, onde uma turma de velhos jornalistas costumava se calibrar com seu famoso coquinho, antes de atacar o filé do bar centenário. Anos mais tarde, quando comecei a fazer as pesquisas do Rio Botequim, nossa amizade se estreitou e hoje tenho orgulho de estar na parede do Bar do Serafim, numa foto ao lado dele.


Juca, à direita, e seus bigodes a la dom Pedro: simpatia transmontana

Dessa vez, a coisa é séria, segundo soube pelo Neto, ex-garçom e hoje braço-direito do Juca em vários empreendimentos (Taberna do Juca, Tasca do Edgar, Adega do Juca II e por aí vai). Nosso intrépido comerciante foi muito amigo do Serafim, também transmontano, que, ao adoecer, passou a casa ao conterrâneo, diante da resistência dos filhos em tocar o negócio. Sempre gostei muito do clima do Bar do Serafim, hoje mais aos cuidados do sócio de Juca, Marcelo, filho de um dos ex-sócios do Belmonte (o original).

Grande Juca, estou torcendo por sua recuperação.

Outra nota triste e atrasada: o seu Antonio da Adega Pérola faleceu. Soube pela turma de lá, que a filha assumiu o negócio e, em princípio, pretende tocar as coisas do jeito que o pai fazia. Vamos torcer. Estive lá outro dia e os petiscos continuavam sensacionais, com destaque para os rollmops. É uma pena que não consegui realizar a idéia de entrevistar seu Antonio, testemunha de acontecimento marcantes nos anos 60 em Copacabana, na época do Teatro Opinião, e mais tarde, na efervescência dos anos 70-80. Tenho certeza que ele teria grandes histórias para contar. Sempre na dele, seu Antonio tocava a Pérola com uma autoridade silenciosa e eficaz.


Seu Antonio, atrás do balcão, de onde comandava silenciosamente a Adega

Bem, ficam aqui os registros.

sábado, 14 de março de 2009

Glauber 70


Glauber em foto reproduzida da internet (não sei quem é o autor)

Amigos, peço licença para registrar nestas páginas dedicadas à boemia uma breve homenagem a Glauber Rocha, que hoje faria 70 anos. Conheci Glauber através de Manduka. Os dois, amigos inseparáveis e ambos artistas de um nível que não se vê mais por aí. Bem, é verdade que os tempos eram outros e, se por um lado, havia repressão e maniqueísmo por todos os lados, por outro, as pessoas, me parece, eram mais ousadas e criativas. A arte não havia se submetido às amarras do marketing, assessorias de imprensa, cadernos culturais e outros esquemas que condicionam o fazer artístico.


Capa do disco de Gato Barbieri: uma viagem sideral pela música

Mas, divago. Voltando a Glauber, para lembrar dele, colocquei hoje o disco Third World, de Gato Barbieri, que não saía da vitrole do cineasta brasileiro. É uma viagem alucinante e selvagem pela música do Brasil, passando por Villa-Lobos e Sergio Ricardo, além dos tangos de Piazolla, executado pelo quinteto do saxofonista porteño. É um disco totalmente acústico, ou seja, antes da fase elétrica de Gato e recomendo muitíssimo.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Moa surfando na grande rede

Queridos amigos, recebi ontem a boa notícia de que acaba de estrear na rede o Blog do Moa (clique aqui), onde se pode passaer pela prosa saborosa deste artista genial. Os puristas que me perdoem, mas não classifico Moacyr Luz como sambista (e, por favor, não me interpretem mal; não vai aqui nenhum demérito ao estilo musical que se confunde com nossa identidade nacional). É que, no caso desse artista, rotulá-lo dessa forma é pôr na penumbra outros aspectos de sua música genial e espaçosa. Como diria Manduka, o Moacyr Luz é um neorrenascentista, aquele tipo de artista, que ataca em várias áreas ao mesmo tempo, como o próprio Manduka fazia. Quem duvidar que vá ouvir o excelente CD recentemente lançado Batucando, seu melhor trabalho até agora, segundo ele próprio me confessou outro dia.


Moa e Marluci na festa de aniversário de Janjão, no ano passado

Conheci o Moa através do Baiano, quando trabalhava na primeira edição do Rio Botequim, no fim dos anos 90. Além de músico e compositor, Moa também é escritor de mão cheia e engana-se quem pensa que sua prosa é coisa das horas vagas, quando descança o violão. Dois livros com crônicas de botequins não me deixam mentir. Manual de sobrevivência nos botequins mais vagabundos, sobre o qual tive a honra de escrever uma resenha para o Prosa & Verso, e Botequim de bêbado não tem dono.

Arguto observador do cotidiano, Moa tem o dom do cronista da cidade, tirando dos pequenos e repetitivos rituais de convivências nos botecos lições profundas de vida, aulas de etiqueta social e convivência, enfim, um retrato vivo da cidade que se esconde nesse cotidiano. A esquina, o garçom, o balcão, o banheiro, o choro na dose de uísque etc. etc. etc. Nada escapa ao olhar perspicaz do artista.

Também quero indicar aqui o sensacional Correio da Lapa (clique aqui), um jornal eletrônico sobre o bairro boêmio carioca, editado por meu amigo Alfredo Herkenhoff. Só ali você encontra notícias de primeira mão sobre personagens lapianos, seus botecos e gurufins. Alfredo escreve febrilmente e sua coluna social, digamos, não convencional no Jornal do Brasil foi um dos últimos momentos de brilho desse ex-grande jornal. Toda essa verve agora está nas páginas eletrônicas do Correio da Lapa. Também aguardamos ansiosamente o Livro da Lapa, um projeto que Alfredo vem acalentando há alguns anos. Diz a lenda que há mais de mil nomes citados nas páginas desse livro mitológico.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Arqueologia de botequim


O Armazém Senado, botica de esquina no Centro antigo do Rio (todas as fotos desse post são de Custódio Coimbra)

Queridos amigos, aproveito este Sábado 14, cujo significado especial vocês podem ver num dos posts abaixo deste Pendura Essa, para dizer que amanhã a Revista do Globo publica uma reportagem deste pobre e desvalido escriba e do fotógrafo Custódio Coimbra, uma fera dos cliques urbanos, sobre bares centenários. Matéria que vou reproduzir aqui exclusivamente para os meus seis ou sete leitores cativos. A idéia original partiu do Custódio, que há meses vinha insistindo em fazer uma parceria comigo de texto e foto sobre esse assunto, nós que fomos pioneiros nas edições do Rio Botequim. Ele ia propor publicar na Editoria Rio do jornal, mas o convenci de que na revista, não só a matéria seria mais valorizada, como não correria o risco de ser substituída em cima da hora por um assunto qualquer considerado mais quente.

Conversamos então com a editora da revista, Isabel De Luca, que topou de imediato. Propusemos a ela evitar os bares centenários já consagrados, como o maravilhoso Bar Brasil, o Bar Luiz, Aurora e coisa e tal. A idéia era mesmo cavucar pelos velhos bairros do Rio e Niterói, em busca de casas menos conhecidas do público, digamos, leigo. O problema é que, nesse momento, me vi às voltas com a defesa de minha tese de doutorado e tive que ir adiando a matéria, incialmente prevista para novembro do ano passado. O Custódio, no pique de sempre, foi tocando as fotos de me mostrando, para seduzir.

Bem, enfim, passada a etapa acadêmica, pude voltar ao assunto para meu próprio deleite. E, vendo as fotos de Custódio, percebi de cara que essa reportagem merecia um tratamento diferenciado dos textos mais convencionais sobre botequim e boemia, que tendem a louvar o exotismo dos estabelecimentos e descrever os serviços. Percebi que o que ligava todos essas casas era o comércio de rua e o fato inexorável de que, sem herdeiros, esses bares centenários (assim como outros tipos de comércio, como barbeiros, açougueiros, jornaleiros etc.) vão tomando o rumo do fim. Esse acabou sendo o fio condutor do texto, o que deu à reportagem um cunho um tanto sociológico, mas, espero, sem academicismo exagerado.

Bem, como sempre, deixo ao julgamento de vocês. Abaixo reproduzo o texto que, amanhã, estará nas bancas.

Revista O Globo, nº 238, 15 de fevereiro de 2009

Os centenários — A luta de bares que existem desde os tempos do Rio Antigo para sobreviver aos novos hábitos da cidade

Paulo Thiago de Mello


Bar do Jóia, com a turma da confraria Viúvas do Gaiato desfrutando a feijoada de dona Neide

Em dezembro do ano passado, fregueses de um pé-sujo centenário, escondido num sobrado de esquina à Rua da Conceição, no Centro do Rio, deram um abraço simbólico ao bar. Era mais um encontro da confraria Viúvas do Gaiato, que reúne fregueses e amigos do Bar do Jóia. Alem da cerveja gelada, do saboroso tempero da feijoada de dona Neide, da conversa fiada e do clima de gozação que marcam cada encontro do grupo, pairava sobre os comensais um sentido de urgência: é preciso salver o velho boteco, que anda assombrado pelo fantasma do fim.

A poucos dias de se tornar centenário, o Bar do Jóia (oficialmente Café Rio Paiva) compartilha com inúmeros e pouco conhecidos botequins do início do século passado o dilema da sobrevivência, confrontado não só pela concorrência com fastfoods, restaurantes de comida a quilo e pastelarias, mas sobretudo pela ausência de herdeiros com disposição para tocar o negócio.

O caso do Bar do Jóia é exemplar. Desde que o português Joaquim Nunes da Silva, o seu Jóia, faleceu, em abril de 2007, aos 84 anos, sua viúva, dona Alaíde, tem tido dificuldade para administrar a pesada rotina do bar:

— Estou muito cansada — admite.

E o estabelecimento já teria fechado, não fosse a insistência da freguesia, que luta para que o Bar do Jóia permaneça aberto pelo menos até seu centenário, que será comemorado em uma série de eventos da confraria, a partir de 12 de março. Em seus encontros, o grupo louva a memória de seu Jóia, famoso pelo humor instável e uma rudeza que renderam inúmeras histórias e anedotas. Ao serem recontadas, essas narrativas (muitas delas relatadas no blog da confraria) mantêm vivas a presença do patriarca.

O grupo também discute possíveis soluções para o dilema, insistindo, por exemplo, para que um dos membros da confraria, um dentista com recursos, compre o bar. Mas, apesar da gravidade da situação, as marcas principais do boteco são a jocosidade e o bom humor. A própria idéia de abraçar o bar é uma gozação póstuma com seu Jóia, que detestava ser tocado.

O Bar do Jóia não esconde a idade. Pé-direito alto, portais em arco, pôsteres de mulheres dos anos 60 nuas, geladeiras de madeira, entre outros elementos típicos, fazem do boteco um cenário do Rio Antigo. Mas é o humor do dono, mesmo após sua morte, que marca o lugar. Para o escritor e compositor Moacyr Luz, seu Jóia é um tipo de comerciante em extinção:

— Pra mim, feito mico-leão-dourado, estão acabando os donos de botequins que só agem na intuição, os que nasceram pra viver atrás do balcão sem puxar saco do cliente, nem inventar marketing pra aparecer na mídia. Dono de boteco que sabe a diferença de São Jorge pra São Benedito e não concorda que jiló seja fruto ou fruta, aquele que detesta cartão de crédito, que não suporta emprestar garrafa, que jamais oferece o telefone pra uso pessoal e, de preferência, que reza para que não apareçam mais fregueses além dos chatos de sempre.


O Restaurante 28 com o velho espelho e os ganchos para pendurar chapéus e paletós

O problema da sucessão em empresas familiares se tornou relativamente, sobretudo nos pequenos comércios de rua. As gerações mais novas se formam em outras profissões, consideradas mais nobres, e perdem o interesse pelo negócio. Assim, ironicamente, o boteco que os sustentou acaba fechando ou cai em mãos de novos proprietários, que invariavelmente transformam o lugar. É esse o dilema dos irmãos Amândio e Jacinto Salgado, do Restaurante 28, localizado não muito distante do Bar do Jóia, à Rua Barão de São Félix:

— Futuramente isso vai acabar — prevê Amândio, de 71 anos. — Os filhos não querem saber do negócio. Então, só vai durar enquanto estivermos aqui.

No comando da casa desde 1960, quando chegou de Portugal convidado por parentes, seu Amândio vive no segundo andar do sobrado, como era comum no comércio de rua da cidade até meados do século passado. No fundo do bar, numa espécie de quintal, vive uma das empregadas com sua filha. Tudo isso reforça a atmosfera familiar do lugar.

O amplo salão do Restaurante 28 — cujo nome oficial é Restaurante e Café Pastoria — ainda tem antigos ventiladores nas laterais da parede e ganchos para que o cliente pendure o chapéu e o paletó. Na grande cozinha, duas senhoras dividem com a cozinheira Antonia da Costa, de 78 anos, a tarefa de preparar especialidades como o cabrito, elogiado na última edição do Rio Botequim, o leitão à pururuca e o tradicional cozido, com atendimento simpático da garçonete Claudia Machado. Coisa fina. O Restaurante 28 lembra o saudoso Penafiel do Saara, fechado no ano passado, pouco antes de completar 90 anos. Trata-se de uma memória gastronômica que vai, aos poucos, desaparecendo.

Na Ponta D'Areia, em Niterói, o pequeno Decolores, prestes a completar 100 anos, não enfrenta o problema da falta de herdeiros para levar adiante o bar. Comandado pelos irmãos Marcelo e Ângela Alves, ambos com menos de 50 anos, a casa sofre mesmo é com o rigor das regras de trânsito da estreita rua, situada de frente para a Baía de Guanabara. a proibição de estacionamento fez cair a clientela do bar.

—Estamos mal. Desde que essa operação exagerada dos guardas de trânsito começou, há cerca de dois anos, o movimento caiu entre 70% e 80% — diz Marcelo Alves. — A notícia de que não há lugar para estacionar se espalha e as pessoas deixam de vir. É triste ver que, em pouco tempo, esses agentes de trânsito conseguiram desfazer o trabalho de uma vida inteira.

E Marcelo pode realmente falar em vida inteira, já que trabalha no Decolores desde os 9 anos, quando começou ajudando o tio Fernando Fernandes. Ele assumiu a casa após o falecimento de Fernandes, 1998. Mesmo assim, o pé-sujo continua sendo ponto de encontro de seresteiros, às terças e quinta-feiras, e dos amantes de frutos do mar, especialmente as famosas sardinhas fritas, servidas abertas, e dos pratos tradicionais de bacalhau, em especial a versão à portuguesa, com batatas coradas, azeitonas pretas, ovos cozidos, cebola e pimentão.


Seu Antonio Ferreira, de 76 anos, um dos fregueses mais antigos do Decolores, tem uma memória prodigiosa

Seu Antonio Ferreira, de 76 anos, é um dos fregueses mais antigos do Decolores. Ele conheceu o primeiro dono da casa, Carlos Vieira de Castro, quando o bar se chamava Café Vila do Conde. Àquela época, o bairro da Ponta D'Areia era uma colônia portuguesa, o que valeu ao lugar o apelido de Portugal Pequeno. Hoje, a colônia se dispersou e o velho bairro passou a abrigar estaleiros como o Mauá Jurong, que modificaram sua morfologia social, transformando-o em área industrial.

Com ou sem estacionamento, é um excelente programa ir ao Decolores e sentar-se à beira da Baía de Guanabara, diante de um pequeno cais com várias embarcações pesqueiras e de plataformas de petróleo sendo construídas, com a Ponte Rio-Niterói ao fundo. E, nesse cenário inusitado, comer um farto bacalhau (o prato da casa serve três pessoas) ouvindo velhos boleros na voz de seresteiros, um deles, o garçom Joel Santana, quando está de bom humor.

O Armazém Senado, localizado à Rua do Senado, também escapou à sina de infortúnio na sucessão familiar. Com 101 anos de idade, o estabelecimento é administrado por Antônio Magalhães Pires, de 78 anos, e seus dois filhos, Henrique e Fernando. A casa mantém um dupla freguesia, os moradores da vizinhança, que recorrem ao Senado para consumir itens de armazém, como artigos de limpeza, produtos vendidos a granel, secos e molhados diversos e até camisas e sandálias Havaianas. E na hora do almoço e do happy hour chegam os fregueses do bar, em busca dos petiscos, da cerveja, da boa carta de cachaça e de conversa para jogar fora. Os velhos garrafões de vinho deram lugar a versões finas, do Chile e da Argentina, além de marcas nacionais, como as da Casa Valduga. Graças a um acordo de redução da margem de lucro, os vinhos são vendidos a preços incrivelmente baixos. Por isso, ninguém mais se espanta ao ver sobre o balcão do Senado garrafas de cachaça, cerveja e espumantes, que saem por menos de R$ 30.


O Armazém Senado, com seu Antonio sentado numa cadeira ao fundo: velha botica carioca

Boteco de esquina, Armazém Senado é uma grande botica e, como tal, um exemplo da origem do termo botequim, que nos dicionários aparece como uma redução do diminutivo botiquinha. O lugar onde os homens arrematavam as compras da semana, e aproveitavam para beber vinho e beliscar um salaminho, enquanto as "patroas" faziam a feira. No Senado, essa prática, com poucas mudanças, como a adesão da presença feminina, ainda se repete.

Esta é também uma das características de outro boteco centenário: o Paladino, na esquina das ruas Uruguaiana e Visconde de Inhaúma, ou Rua Larga, como preferem os tradicionalistas. Armazém de produtos finos e importados, a casa se estende internamente em mais dois ambientes, onde funciona o bar propriamente dito. Sua especialidades são as omeletes, que saem em versões requintadas, e os sanduíches suculentos, além do chope claro e escuro de qualidade.


As omeletes do Paladino são um prato requintado, crocantes por fora e moles por dentro

Com seus cafés, botequins, tascas e casas de pasto, o Centro do Rio viveu no início do século XX a sua belle époque, num momento em que a capital federal se transformava em metrópole e influenciava culturalmente o resto do país. Passados 100 anos, como não poderia deixar de ser, a cidade mudou completamente, para o bem e para o mal. O comércio de rua perdeu prestígio para os shoppings; ofícios desapareceram, e, com eles, a memória de um certo modo de viver na cidade.

Esse processo de transformação é inevitável e faz parte do transcurso natural da vida urbana. Os hábitos vão mudando à medida que novas gerações passam a consumir a cidade. Como dizia o jornalista e sociólogo Robert Ezra Park, um dos pais da sociologia urbana americana, uma cidade é muito mais do que o cojunto de ruas e bairros que a configuram; ela é sobretudo composta dos sonhos, desejos e usos que dela fazem as pessoas que as habitam. Mas a resistência também faz parte do processo, como mostra a mobilização da confraria do Bar do Jóia, e, em alguns casos, as histórias do passado conseguem comover as novas gerações, que voltam a valorizar costumes, do contrário fadados à extinção.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Bares centenários

Amigos, peço perdão pela ausência nestas bandas. Sucede que estou envolvido numa reportagem sobre bares centenários para a Revista do Globo, que deverá sair no próximo dia 15. Eu e meu amigo fotógrafo Custódio Coimbra estamos percorrendo algumas casas que têm mais de 100 anos ou estão prestes a se tornarem centenárias (alguns deles já citados aqui). Algumas delas correndo o risco de fehcar as postas. Esse assunto exige concentração e tempo, de modo que não estou conseguindo atualizar o Pendura Essa com a freqüência justa. Mas, em breve trarei novidades. Abraços.


Aqui, uma foto singela de miha autoria do Decolores, que estará na matéria fotografado pela lentes do Custódio