domingo, 30 de maio de 2010

Sexo & erotismo






No início dos anos 80, eu começava o curso de jornalismo na faculdade. Havia acabado de comprar uma câmera, uma Yashica, na zona franca de Manaus, e me matriculara num curso extracurricular de fotojornalismo, cum um sujeito extremamtente mal-humorado (naquela época fazia parte da identidade profissional do jornalista ser antipático, arrrogante e grosseiro, hoje, com o desprestígio do ofício, a coisa melhorou um pouco). Mas o curso era muito interessante porque era calcado na prática. O professor sorteava um tema, que podia ser qualquer coisa, e tínhamos então uma semana para fazer as fotos, um fim de semana para revelar, fazer contato, selecionar e ampliar o material (no laboratório da faculdade) e apresentar o trabalho para o julgamento do professor e demais colegas.

Meu primeiro tema foi: Central do Brasil. Fiz então umas fotos da estação e depois brinquei com os reflexos das janelas. Nada muito legal, mas tinha uma vergonha muito grande de me aproximar das pessoas, de modo que optei por fotografar coisas. Ao apresentar o trabalho ficou evidante a falta de gente nas fotos. Todos falaram sobre isso e me vi diante do dilema: se quero ser jornalista, não posso ter vergonha de me aproximar das pessoas, seja para fotografar seja para conversar. Aí, veio o segundo sorteio: sexo & erotismo. Apavorado e sem saber ao certo o que fazer, fui para a praia. Ou faria alguma coisa ou desistiria para sempre e pegaria um sol, pelo menos não perdia meu sábado.

Agora, remexendo os arquivos para scanear, achei as fotos acima. Fiz uma seqüência de uma amiga, a Tininha (que depois se tornou minha modelo em outros ensaios) comendo sanduíche de ricota com cebola, e fotografei corpos na areia. Naquele início dos anos 80, as meninas do Posto 9 usavam biquínis baixos, deixando um pouquinho dos pentelhos aparecendo e expunham, sem muita culpa ou vergonha, suas virtudes corporais. As fotos dos corpos não trouxeram nada demais, mas a idéia de fotografar alguém comendo sanduíche, como sexo & erotismo, provocou uma boa discussão no curso. As fotos acabaram expostas numa exposição realizada pelo Metrô, na Estação Carioca.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Vila Mimosa na livraria da Travessa

Amigos, nesta terça-feira, dia 18, na livraria da Travessa (na Ouvidor), será o lançamento do livro da antropóloga Soraya Silveira Simões, Vila Mimosa: Etnografia da cidade cenográfica da prostituição carioca (EdUFF), com fotos da fotógrafa francesa Olivia Gay e da brasileira Gianne Carvalho. A coisa começa lá pelas 18h e recomendo muitíssimo a todos. Reproduzo abaixo a resenha que fiz sobre o livro para o Prosa & Verso, do Globo:

A cidade cenográfica da prostituição

Antropóloga analisa a construção da nova identidade social da zona de meretrício em etnografia sobre a Vila Mimosa

Paulo Thiago de Mello

Manuel Bandeira escreveu, referindo-se às pessoas que trabalhavam numa antiga zona de prostituição do Rio de Janeiro, que "gente como a do Mangue vive porque é teimosa". E foi com pertinência que a antropóloga Soraya Silveira Simões recorreu à frase de Bandeira para abrir o capítulo inicial de seu livro, Vila Mimosa: Etnografia da cidade cenográfica da prostituição carioca (EdUFF, no prelo), uma adaptação de sua dissertação de mestrado, defendida na Universidade Federal Fluminense. Noções como teimosia e resistência estão no coração de sua narrativa, que, numa prosa bem costurada, leva o leitor a se aventurar pelos mais de 70 bordéis de uma rua sem saída da Praça da Bandeira.

Soraya parte da dramática relação de prostitutas e cafetinas do Mangue com o poder público, as corporações interessadas em ocupar a região, os planejadores urbanos com seus projetos de renovação, políticos e a polícia. É no bojo desse embate, que remonta aos anos 1980, que se consolida a organização política das prostitutas e surgem líderes como Gabriela Silva Leite, fundadora da ONG DaVida. Em 1996, porém, as meninas da Vila Mimosa, último resquício do Mangue, são removidas para dar lugar ao Teleporto e ao complexo da prefeitura, sugestivamente apelidado pela população de "Piranhão".



Com os recursos da indenização, as mulheres compram um galpão à rua Sotero dos Reis, formando o núcleo do que hoje passou a ser chamado de Vila Mimosa II — ou VM II —, um espaço, ou melhor, um lugar marcado por uma cenografia propícia ao jogo de sedução que caracteriza a ambiência da zona.

A mudança não se dá sem conflitos. Os moradores da área protestam, queimam pneus e apelam às autoridades contra a presença indesejada das prostitutas em seu bairro, temendo o contágio do estigma que marca a profissão. O movimento da Vila Mimosa, no entanto, acaba trazendo prosperidade ao local. Bares e hotéis, antes às moscas, passam a ganhar dinheiro com a crescente movimentação. E os moradores, antes desconfiados, descobrem que podem lucrar, alugando quartos, fazendo baby sitter, vendendo roupas etc.



Situada no espaço reservado pela sociedade ao desvio, à flexibilização de normas e etiquetas, a zona de prostituição cenograficamente construída na Vila Mimosa II acabou por constituir o que na sociologia urbana se chama "região moral", definida e demarcada por seu métier, reconhecido por todos em suas múltiplas representações. Soraya lembra que os lugares do desvio na cidade são circunscritos, geográfica e simbolicamente. É assim que se pode falar "de meninos de rua, travestis da Lapa e das putas da Vila Mimosa".

"Na Vila Mimosa não se chega, se entra"

E a VM II cumpre essa prescrição sem ambigüidade, ao contrário de outras áreas de prostituição do Rio, como a Praça Mauá, também reduto da boemia e zona portuária; ou a Avenida Atlântica, área turística e residencial. Por isso, lembra a autora, na Vila Mimosa "não se chega, se entra". O toldo amarelo de uma loja na metade da rua demarca o início da zona, separando simbolicamente aquele território moral do resto do bairro. Atravessar esse limite é entrar em outro universo, simultaneamente previsível e imponderável, onde o jogo de encenações dá aos atores papéis que só ali podem ser desempenhados.

A partir da mudança de endereço, os atores da zona se esforçam em mudar também as representações sociais sobre o ofício — hoje reconhecido pelo Ministério do Trabalho — como um negócio que tem no domínio do corpo seu principal ativo. A antropóloga mostra como, tendo um pé no Mangue como evocação da resistência do grupo — ou da teimosia percebida por Bandeira —, as pessoas envolvidas no negócio da prostituição na VM II deram novos sentidos à identidade social do ofício.



Nesse processo, é criada a Associação dos Moradores do Condomínio e Amigos da Vila Mimosa (AMOCVIM), para atuar não apenas como representante dos interesses de donos de casas, prostitutas, moradores e comerciantes da Vila Mimosa, mas também como agente propagador e controlador da nova imagem da prostituta. Através da Associação, as profissionais da VM II obtêm acesso a academia, cabeleireiro, manicure, clínica médica. Ela também promove uma série de atividades, como o concurso de beleza Gatinha Mimosa, churrascos e projeções de filmes, para sedimentar o novo conceito de zona.

A instalação da clínica evidenciou ainda uma forma de controle moral. Fazer exames tornou-se não só uma obrigação, mas um temor. Quem evitava o médico tornava-se suspeito de estar doente, aos olhos dos donos de casa e das próprias prostitutas, que condenam comportamentos de risco, como sexo sem camisinha ou sexo anal, classificando-os como "sem-vergonhice" ou "baixa auta-estima". Soraya menciona o caso de uma profissional que, ao ser diagnosticada como portadora do vírus HIV, teve as portas da Vila Mimosa fechadas para ela.

Pesquisa revela tensões do dia-a-dia da zona

O trabalho de campo também registra a tensa relação entre donos de casa e as prostitutas, os conflitos de interesse na disputa pelos clientes, o processo de sedução e de procura no espaço da Vila, a presença de curiosos, entre outros aspectos do dia-a-dia da zona.

No plano da luta política das prostitutas da Vila Mimosa, a etnografia detalha ainda a briga, ao lado do então deputado Fernando Gabeira, para retirar do Código Civil a criminalização de lenocínio, vadiagem e atentado ao pudor. São esses aspectos de criminalização que abrem espaço para a ação e domínio de agentes públicos corruptos nas áreas de prostituição. O livro também trata, numa de suas passagens mais interessantes, da formação da prostituta, a partir de sua chegada e acolhimento na Vila Mimosa. Estão ali ainda os enredos tristes como justificativa moral para a prostituição e o sonho de "largar essa vida" enunciado até por aquelas que assumem o ofício como vocação.



A inquietação que levou Soraya ao campo surgiu ao fazer um ensaio fotográfico sobre prostituição. Ao enquadrar aquelas mulheres em suas lentes, surpreendeu-se ao percceber que, onde achava só haver o outro exótico, ali estava também alguma possibilidade de "nós". Um reconhecimento do gênero através do sexo, não apenas em seu aspecto biológico, no elo que o corpo feminino estabelece, mas igualmente na sua forma social, com todos os papéis que a sociedade reserva à mulher. Tratou-se, portanto, de um encontro que se deu simultaneamente pelo contraste e pela complementaridade.

Associada ao Laboratório de Etnografia Metropolitana (LeMetro/IFCS/UFRJ), coordenado pelo antropólogo Marco Antonio da Silva Mello, Soraya faz parte de um grupo de pesquisadores que se debruçam sobre as questões da cidade, daí o uso de métodos de pesquisa tributários da etnografia urbana contemporânea. Hoje, ela é pesquisadora convidada do Clersé — Centre Lillois d'Études et Recherches Sociologiques et Économiques, da Universidade de Lille 1, na França. Seu livro, com lançamento previsto para janeiro, certamente ajudará o leitor a ver além dos estereótipos e do estigma que marcam amais antiga profissão do mundo.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Uma ideologia para o país do futebol

(imagem emprestada da internet — sem crédito)

Tinha 10 anos quando o Brasil foi tricampeão em 1970. Vi e torci, como um moleque de 10 anos, cada jogo daquela Copa, vibrando com as jogadas geniais daquele time de sonho, com o futebol arte brasileiro no seu esplendor; e temendo os adversários que tínhamos pela frente (a retranca da Inglaterra, por exemplo, no jogo duríssimo, com o goleiro Banks agarrando tudo, exceto o chute de Jairzinho, no segundo tempo, após uma trama do ataque brasileiro). Pois bem, tendo sido marcado por esse futebol, de passes precisos, dribles genais e gols de placa, cresci mal acostumado no que se refere ao futebol... e à vida.

Me lembro do período em que morei em Nova York. Naquele século XII, batia uma pelada num jardim da Universidade de Columbia. Éramos todos estrangeiros: latino-americanos de todas as partes, italianos, africanos e um ou outro americano de origem latina. Entre as partidas, batíamos boca apaixonadamente sobre futebol, cada qual puxando a brasa para sua sardinha. E me lembro que, mesmo com a Seleção vindo do desastre de 1974 (estávamos às vésperas da Copa de 1978), defendia o futebol brasileiro com um ar aristocrático que deixava meus interlocutores indignados.

Por isso, para mim — e sei que muitos discordarão —, uma Seleção como a de 1982 é capaz de me encantar mais, apesar da derrota para a Itáilia e a eliminação de uma Copa até então garantida, do que o time tetracampeão em 1994. Naquela Copa, cada jogo foi um sonho (daí a decepção com a derrota ter sido tão grande: acordamos, de repente, sem nada). Na de 1994, vencemos com partidas apertadas, burocráticas, mal jogadas, uma retranca sem fim, que dependia do talento e da malandragem de Romário e Bebeto para sair do zero a zero. Ganhamos sem sonhos, suspiros e explosões de felicidade. E inoculamos em nossas almas a lógica americana da vitória, a qualquer preço. Ser o número 1, sempre. Me lembrei das discussões que tinha em Nova York com meus colegas de pelada e senti uma ponta de vergonha ao ver a Seleção brasileira vencer uma Copa do Mundo na disputa por pênaltis. No erro do craque adversário. Ou seja, a Seleção de 1994 calou meu discurso aristrocático.

As opções entre futebol arte e a lógica Dunga são mais do que meras tácticas de jogo. Elas representam uma visão de mundo e são, portanto, opções ideológicas. E me dou conta de que, no plano pessoal, sou sonhador e busco, no futebol e na vida, o sortilégio das jogadas geniais, da arte descompromissada com qualquer coisa que não seja o encantamento. O preço é alto, como bem sei, ao chorar a derrota de 1982, ao me iludir nas desilusões amorosas com aquela musa sonhada, ao ver o bolso vazio, apesar do trabalho árduo e talentoso etc. Mas cada momento é vivido como um sonho, intensamente e sem limites.

Hoje, me esforço para pôr os pés no chão, mas é difícil mudar depois de uma vida inteira mergulhado nessa busca pelo encantamento. Por isso, não gostei da Seleção do Dunga anunciada ontem. E vejam que acho que ela tem chances de erguer a taça. Toda a imprensa especializada foi unânime em afirmar que Dunga foi, pelo menos, coerente com sua lóigica. Bem, não poderíamos esperar nada distinto disso, não é mesmo? Como esperar que ele convocasse dois moleques do Santos, brincalhões e geniais em suas jogadas desconcertantes, assim de sopetão? Como apostar, tendo Dunga à frente da Seleção, na arte, na folie en tête? E, sendo indulgente com ele, acho até que buscou um meio-termo em relação ao esquema de 1994: uma defesa burocrática e um ataque mais criativo.

Mas o que está em jogo é a própria representação do Brasil como nação. Pois certamente um dos momentos genuinamente cívicos que temos é o da convocação da Selação. É sempre uma ocasião em que nos assumimos como nação, mesmo que inconscientemente. E a escolha que Dunga faz se reflete no que somos no mundo, no que nos distingue de outros povos. Nossa singularidade, qual é? Será o esquema burocrático com seu potencial de vitória ou o encantamento capaz de inventar algo novo e deslumbrante?

quarta-feira, 28 de abril de 2010

50 anos favela

O professor José Arthur Rios, durante um seminário no Programa de Pós-Graduação da UFF

Há 50 anos, um grupo multidisciplinar de pesquisadores, liderados pelo sociólogo José Arthur Rios, iniciou a mais extensa e profunda pesquisa sobre os habitantes das áreas do Rio denominadas de favela. Cinco décadas depois, o resultado da pesquisa Sagmacs, como veio a ser batizado o projeto, ainda se mostra extremamente pertinente e atual, com as mesmas questões centrais, sobretudo aquelas que se referem às políticas públicas para os moradores. O velho dilema entre urbanizar ou remover, por exemplo, continua na pauta do dia; assim como o desconhecimento dos aspectos mais gerais da vida nas chamadas comunidades.

Recentemente, após a tragédia que se abateu sobre o Rio, provocada pela combinação de chuvas intensas, ocupação desordenada dos morros do estado fluminense e falta de política de Estado para as populações carentes, o assunto da remoção voltou a ganhar força, sendo defendido em editoriais dos jornais e a velha turma que pretende resolver o problema da miséria, e a violência associada a ela, empurrando as pessoas para o fim do mundo.

Foi interessante, nesse aspecto, ler a coluna do Elio Gaspari, domingo, no Globo. Na nota principal da coluna, chamada Cidade de Deus, nunca mais, ele elogia o prefeito Eduardo Paes pelo anúncio da construção de 170 prédios, com 3.400 apartamentos de 42,6 metros quadrados no bairro de Triagem, onde serão instaladas cerca de 13.500 pessoas que hoje vivem em favelas. Segundo Gaspari, a idéia é interessante porque o bairro é central, próximo à linha de trem e a 15 minutos do Centro. Além disso, Paes promete fazer um projeto urbanístico para a área de modo a integrar os prédios ao bairro, evitando "a maldição dos conjuntos habitacionais".

A partir daí, Gaspari discorre sobre a polêmica questão das remoções de população e lembra uma curiosa e reveladora declaração do economista Sérgio Besserman, "presidente do IBGE durante o tucanato". Ao defender a remoção de favelas, Besserman deu um exemplo eloquente da virtude desse tipo de política pública: "A lagoa Rodrigo de Freitas, cartão postal da Zona Sul carioca, é um caso emblemático dos aspectos positivos que podem se seguir a uma remoção. Quando a favela foi retirada dali, em 1970, os imóveis da região, cujos valores vinham sendo depreciados, inverteram a curva e passaram a se valorizar."

E conclui Gaspari: "Certo, mas faltou dizer onde terminou a curva dos moradores da favela Praia do Pinto. Eles foram mandados para Cidade de Deus, símbolo internacional da depreciação do Rio de Janeiro, produto emblemático do urbanismo demófobo. A favela não foi removida de acordo com uma política pública. Numa noite a comunidade foi incendiada, provavelmente por Nero, o imperador que limpou Roma."

Gaspari se refere ao incêndio que, em 1969, destruiu a favela Praia do Pinto. Eu tinha 9 anos e morava no Leblon, então um bairro classe média baixa, e me lembro do incêndio e do desespero das pessoas. Até hoje não se sabe oficialmente como o fogo começou, mas na época dizia-se que os próprios bombeiros teriam colocado fogo nos barracos.

A favela da Praia do Pinto em 1965, onde hoje é o conjunto Selva de Pedra, no Leblon

Eu estava examinando um dos projetos de renovação urbana da zona portuária do Rio, com vistas às Olimpíadas e à Copa do Mundo. Duas coisas me chamaram a atenção: entre os autores do estudo da região para elaborar o projeto estão as mesmas empreiteiras que vão comandar as construções e as obras de renovação. Além disso, em uma das versões do projeto que vi, a área é considerada um "vazio geográfico" ou coisa que o valha. Ou seja, as pessoas que vivem ali nos prédios públicos desativados, que foram invadidos há mais de 40 anos, simplesmente não existem. Essa é a questão central: em termos de política pública e empreendimentos para a cidade, os pobres e miseráveis raramente são considerados como cidadãos.

Não se trata, como alguns idiotas pensam, de defender a favela como um lugar exótico e interessante. Fetichizar a miséria. Trata-se, isso sim, de considerar as pessoas que vivem nelas nas políticas públicas, isto é, como cidadãos da república, em vez de tratá-los como um problema a ser removido.

Bem, mas voltando ao Sagmacs, para comemorar os 50 anos desse estudo monumental, o Laboratório de Etnografia Metropolitana (LeMetro), do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), da UFRJ, preparou um colóquio de três dias, intitulado Aspecto humanos da favela carioca. A programação pode ser acessada no blog do LeMetro, clicando aqui. Entre algumas feras que vão participar do evento, estão: o próprio José Arthur Rio; o antropólogo Marco Antonio da Silva Mello, coordenador do LeMetro; o reitor da UFRJ, Aloísio Teixeira; e terá ainda como convidada internacional Colette Pétonnet (LAU-CNRS), que fará a conferência de encerramento com tradução simultânea.

De minha parte, vou moderar a mesa 5: Favelas e políticas de segurança pública, que terá os seguintes participantes: Roberto Kant de Lima (InEAC-UFF; PPGA-UFF): Processos de administração institucional de conflitos: polícia e justiça nas favelas; Antônio Werneck (O Globo): Favelas: a cobertura jornalística depois da morte de Tim Lopes; Cel. Jorge da Silva (UERJ): Favelas e violência urbana. Uma pugna discursiva; Paulo Storani (SEMSEP-SG): A evolução das políticas de segurança pública para as favelas do Rio de Janeiro.

Reunião com os pesquisadores do LeMetro, no IFCS

domingo, 25 de abril de 2010

Uma caixinha de clitóris


Foi então que Ludmila a colocou sobre a mesa. Uma caixinha de sonhos esculpida com maestria em formato arredondado. A tampa, em alto relevo, reproduzia figuras abstratas, sinuosamente desenhadas. As cores evoluíam de variados tons de pele à sutileza rarefeita do azul claro. Na base do curioso objeto, a gradação era mais terrosa, com variações de raiz de árvore e musgos esverdeados. Terra e céu extremavam aqueles misteriosos feixes nervosos.

— Eis os clitóris! — disse ela orgulhosa, o sorriso, mais puxado para a esquerda, se unia ao olhar brilhante numa expressão sem-ver­go­nha.

— Obrigado, meu amor — respondi sinceramente comovido.

Ergui com cuidado a caixinha e a agitei levemente, colocando-a próxima ao ouvido, atendo ao som de miudezas soltas. Em seguida, me permiti passar os dedos por suas ondulações. A sensação era de pele exposta, arrepiada.

— Lindo trabalho! Foi você quem fez a caixinha?

— Isso.

Só então, solene e vagarosamente, abri a tampa. Ludmila sequer piscava. Um mormaço com prenúncio de chuva imediatamente preencheu a atmosfera enquanto examinava o conteúdo da caixa. Meus olhos, emocionados, orvalharam. Pequenas pérolas carnosas em minúsculo formato. Não conseguia dizer nada. Então, com toda a delicadeza do mundo, peguei uma das pérolas. Ludmila acompanhava tudo, sem ar. Olhei para ela e, em meio a uma tempestade de felicidade, pus na ponta da língua o diminuto trovão, absorvendo para sempre todo o seu mistério.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

De noite, na cama


Cria fama e deita-te na cama, diz o verso. Bem, embora longe de qualquer fama, boa ou má, já posso me deitar, fisicamente, sobre a cama. E, atendendo ao clamor dos leitores, publico aqui fotos do referido ninho. Se Dorival Caymmi colocou o ventilador em frente à poltrona, numa jogada de mestre zen, eu, remoto discípulo, coloquei o futom — aquele cheio de histórias, encontros e desencontros, na densidade de algodão prensado — sobre a cama nova. Uni, assim, o melhor do antes com o melhor do agora... e o futuro se abriu, brilhante.

A primeira noite trouxe sonhos cheios de ventania e lacunas. A memória veio escassa no dia seguinte. Mais um conjunto de sensações do que imagens e enrendos. E a sensação foi boa. Percebi que, com a cama, sinto mais a corrente de ar que atravessa o quarto, refrescando o calor. Acordei revigorado e me levantei sem esforço, o que já tornou o dia leve e ligeiro. Acendi um incenso raro, comprado com Soraya no século XII, numa loja balinesa, num shopping de Niterói. Tomei café, pão francês com gergilim, manteiga e queijo Minas pensando nela. Pus um CD do meu velho pai, que me deu a cama de presente.

E toda a semana tem sido boa desde então. A casa vai virando casa. Minhas coisas antes sempre ficavam amontoadas, quase nenhum móvel, como se eu estivesse pronto para sair e me mudar a qualquer momento. Agora, sinto que construo um ninho. Já tenho máquina de lavar, e ganhei um ferro da minha mãe. Bem, as estantes ainda não dão conta dos livros, mas isso é bom, pois a leitura exige uma certa desordem. Armário, fogão, geladeira, mesa... coisas banais. A cama completou o cenário e o apartamento virou um lugar.

Vou preparar o meu frango indiano, com curry, madras e garam massala, e arroz com açafrão, que Claudinha está trazendo de Istambul. Separar umas garrafas de tinto de boa safra e chamar os amigos para festejar a cama.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Associação de ex-jornalistas infelizes

Beaubourg em Paris, reportagem feita em 1995

Meu querido amigo Bruno Ribeiro postou em seu blog, vejam aqui, uma curiosa notícia sobre a criação na Espanha de uma associação de ex-jornalistas, convocando os profissionais de imprensa do país a uma vida digna fora das redações de jornais e demais campos do ofício. No post há vários depoimentos em vídeo e, nos comentário, também vários jornalistas e estudantes de jornalismo se manifestam. Pessoas que, ao abandonar a profissão, tiraram o peso da perda do prestígio profissional, da imposição de novas tarefas, como gravar, filmar e fotografar, além de escrever, ao mesmo tempo que o salário se achata cada vez mais.

Pensei na minha tese de doutorado sobre os ritos de interação social dos jornalistas na redação do Globo e na constatação das profundas diferenças entre as percepções do ofício entre as várias gerações de jornalistas. A minha, que via a profissão como um exercício cívico, a serviço da democracia, e que também se dá na boemia, isto é, em que o bar é cenário dos encontros com os coleguinhas, fontes e histórias, tornando-se uma extensão da redação. Por outro lado, a geração atual, muito mais voltada para a profissão como carreira: são jovens que dominam muito bem as novas tecnologias que estão transformando a maneira de difundir notícias. Ao conversar com eles, percebi que todos têm projetos de crescimento nas empresas, sonhando não só com bons salários, mas também com cargos importantes na hierarquia das redações.

É verdade que os tempos mudaram radicalmente. Minha geração vem do fim da ditadura, quando o jornalismo teve um papel importante e um prestígio como ofício como nunca se viu. Ser jornalista naquele início dos anos 80 era exercer uma escolha nobre. De lá prá cá, muita coisa mudou. No campo político, disseminou-se a ideologia neoliberal e uma lógica voltada para o mercado foi substituindo aquela outra, mais cívica, agora vista como retrógrada e atrasada. E o jornalismo vive como nunca a dicotomia entre ser uma insituição importante da democracia e um negócio voltado para o lucro dos acionistas das empresas jornalísticas, num balanço nem sempre equilibrado.

No campo tecnológico houve uma verdadeira revolução, com o fim de ofícios paralelos e subsidiários ao fazer jornalístico, como monstadores de paste-up, compositores de tipologias, entre outros. Primeiro o computador entrou na redação, reduzindo a necessidade de diagramadores, redatores, revisores, entre outros. Em seguida, chegou a internet e a revolução se completou. Ninguém sabe aonde isso vai parar e o próprio modelo do jornalismo como negócio está em questão, com as empresas sem saber como lucrar com as novas tecnologias, redes sociais e novas mídias.

Nesse processo, ocorrido em pouco mais de 30 anos, o prestígio do jornalista foi se esfarelando e hoje a profissão não tem nem sombra da força que já teve. Em parte, culpa do próprio jornalista, que é essencialmente uma categoria profissional extremamente desunida e pouco mobilizada para suas próprias questões profissionais. Em parte, culpa de um mercado de trabalho desfavorável, com a extinção de jornais importantes, como, por exemplo, o Jornal do Brasil, hoje apenas um arremedo do que já foi. O resultado foi um achatamento salarial profundo e a perda de benefícios importantes. Várias empresas jornalísticas sequer contratam pela carteira profissional, obrigando o jornalista a se tornar pessoa jurídica.

Família ribeirinha atravessa o rio Araguaia pelos bancos de areia, reportagem publicada na revista Manchete, em 1987

O tiro de misericórdia veio do Supremo Tribunal Federal, que acabou com a obrigatoriedade do diploma universitário de Comunicação Social para o exercício da profissão. Outro dia, a prefeitura de um município do interior do Rio anunciou um concurso público, oferecendo duas vagas para jornalista. Dizia o anúncio: "não é necessário diploma de jornalista. Remuneração: salário mínimo." Obrigado, Gilmar Mendes!

Mas também a qualidade e o tipo de informação disseminada pelas empresas jornalísticas mudaram radicalmente, esvaziando a qualidade de bom jornalismo investigativo, reportagens profundas e analiticas, séries extensas sobre determinado tema. O jornalismo impresso burocratizou-se na sofreguidão para acompanhar as notícias em quase tempo real, que a internet, o rádio e a TV oferecem, em vez de buscar um caminho próprio. Com isso, os temas giram basicamente em torno de faites divers e celebridades. As reportagens mais densas ficaram restritas às edições de domingo e a um ou outro caderno, como os de literatura, que, por suas especificidades, não podem escapar a um nível mais profundo de matéria jornalística. E são esses cadernos que correm o maior risco de extinção, pois são "fracos" como fontes de anunciantes.

Como já disse aqui algumas vezes, o que me atraiu ao jornalismo foi a possibilidade de entrar em contato com o outro. Conhecer o mundo desconhecido, viajar, me relacionar com pessoas de etnias, classes sociais, visões de mundo e cultura completamente distintas da minha própria. E, no começo, ainda consegui fazer bastante esse tipo jornalismo. Fiz reportagens na Amazônia, índios, ribeirinhos, numa época em que o tema ecológico era raro na imprensa, acompanhei a revolução sandinista, entre outras histórias que me colocavam frente ao outro, inclusive na minha própria cidade.

Talvez tenha sido essa disposição que tenha me levado a fazer mestrado e doutorado em antropologia. O jornalista e o antropólogo têm em comum o trabalho de campo, que, para o primeiro, é a reportagem e, para o último, a etnografia. A diferença, a grande diferença, é que, enquanto o jornalista busca o extraordinário, o fora do normal, o antropólogo quer estudar a regra, o que é convencional e se repete. No meu caso, desconfio que, ao atuar hoje em dois ofícios tão similares e tão díspares ao mesmo tempo, no fundo, sem me dar conta, busquei um amparo emocional para suportar ver um ofício se esfarelar no dia-a-dia da sua desimportância crescente.

Vendores de jornal em Matagalpa, Nicarágua, em 1988

sábado, 17 de abril de 2010

Voltando ao ar


Amigos, depois de três semanas, o Velox foi, enfim, consertado hoje. O problema: eles passaram o sinal para 8MB e a linha só suporta 1MB. Uma coisa simples de resolver, mas, entre a manifestação do problema e a visita do técnico, acumularam-se horas e horas, dias e dias, de mensagens eletrônicas, atendentes despreparados e frustração. Mas foi bom porque agora estou flertando com a Net (que me dizerm ser a mesma bosta) e talvez migre e economize uns trocados.

Como tudo na vida são sincronicidades, volto ao ar no mesmo momento em que ganhei de presente uma cama. Podem parecer eventos desconexos, mas a chegada da cama e a volta à rede têm lá suas complementaridades, pois colocam o meu espírito numa certa atmosfera de sonho, uma coisa onírica e cheia de possibilidades. Há mais de duas décadas dormia no chão, num futom feito por um mestre japonês. Todas as namoradas, todos os sonhos (e pesadelos) e horas e horas de sono se deram sobre esse amontoado de algodão prensado, que se adapta ao corpo de seu mestre. Uma coisa zen mesmo.

Mas de uns tempos pra cá, essa coisa riponga e alternativa do chão começou a exigir um esforço desconfortável e o teto da casa ficou muito distante. De passagem pelo Brasil, meu pai sacou tudo e me deu de presente uma cama. Dessas que são um caixote de madeira com um colchão meio duro em cima. King size. Coloquei o futom em cima dessa armação e minha vida mudou completamente. Não sei nem bem explicar. Mas o fato de estar novamente no ar me permite compartilhar o meu encantamento.

Por fim, aproveito para ilustrar este post com as fotos das meninas: Laura, Loli, Mila, Patrícia e Rafa dando saltos de Nijinski no aniversário de Luís, sábado passado. Fotos feitas com celular, pois minha máquina deu pau.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Tem boi na linha

Amigos, estou sem acesso à internet em minha casa. Há uma semana tento conseguir ajuda da empresa Oi, responsável pelo meu acesso à rede, e necas. Já reclamei com a Anatel, já reclamei com o Ombudsman da Oi, necas. Espero normalizar a situação ou encontrar uma alternativa a esta empresa desprezível em breve. Até lá, os posts estarão um tanto irregulares.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Adeus, Armando

Thiago e Armando, bons companheiros

O jornalista Armando Nogueira nos deixou hoje, aos 83 anos. Ele vinha lutando contra um câncer no cérebro que, aos poucos, foi abocanhando seus movimentos. Mas a lucidez brilhante permaneceu aprisionada no corpo doente. Responsável pela implantação do telejornalismo na TV Globo, sua paixão mesmo era a crônica esportiva, que exercia com uma verve só comparável a dos grandes mestres. Apesar de sua intimidade com a linguagem televisiva, Armando era um sujeito de formação literária, seu raciocínio primário e primitivo era pelo texto escrito e pela leitura. Por isso, sua crônica tinha um estilo denso na percepção e leve no amarrar das frases. Uma raridade no hoje em dia, quando os textos são louvados por seu fôlego telegráfico. Não se aceitam mais os recursos que o idioma oferce ao ato da escrita.

Mas Armando também era músico. Tocava sua harmônica com talento e desenvoltura. Me lembro de algumas tardes de sábado na casa de Ana Helena, os saraus com Thiaguinho e seus companheiros de Escambo. Foi em sua casa que vi Armando pela última vez, há alguns meses. Um almoço com o poeta Thiago de Mello (quando tirei a foto acima). Armando já não tocava mais seu instrumento e conversava com dificuldade, mas suas frases eram certeiras. Desde o início do ano, sua saúde foi piorando. Mês passado, Thiago veio vê-lo de Manaus, ao saber da piora e nos trouxe notícias inquietantes. A doença havia avançado.

terça-feira, 23 de março de 2010

Ode ao Rebouças


O Rebouças é um pé-sujo simples, louvado por vários apreciadores de botequins, que reúne uma freguesia diversa e interessante. À noite, depois que o comércio ao redor fecha, seu Alberto, auxiliado pelo simpático garçom Jorginho, espalha mesinhas e cadeiras para uma clientela que às vezes chega aos três dígitos. No sábado passado, deppois de passar pela Modern Sound, Pavão Azul e Real Chope, tomei a saideira no Rebouças, acompanhado de minha amiga Bia Caiado. Saí de lá por volta das 2h30 e a coisa não parecia nem perto do fim.

Mila Chaseliov, que co-orientei na monografia de graduação com o Paulinho Pires, está preparando seu projeto de mestrado, focando na presença feminina em certos botequins de classe média. Como o Rebouças fica no aristocrático bairro do Jardim Botânico, ela escolheu o bar como um de seus campos de pesquisa etnográfica. E eu acompanhei já algumas incursões dela, digamos, ao campo, para discutir com ela, ajudar colocando questões etc. O seu diário de campo está repleto de anotações, desenhos e coisa e tal. Outro dia mesmo já participou de um churrasco da turma dos fregueses assíduos, que inclui um português de conversa solta, um astrofísico colombiano, um jovem advogado, algumas mulheres de personaidade forte e algumas celebridades que passam quase anônimas por ali. Vendo Mila trabalhar, me lembrei muito da minha pesquisa na Adeguinha, a Adega da Velha, do meu amigo Chico Rufino. De certo modo, estou revivendo isso tudo, ao acompanhar Mila.

O caso do Rebouças é daquele que é melhor calar. O bar está no ponto certo. Não precisa mais de público. Se encher mais vai estragar. Por enquanto, é sustentável. Os rissoles de camarão com catupiry, sequinhos e baratos, os pastéis, a cerveja gelada (me lembrou as cervas estupidamente geladas do Bar do Costa) são as especialidades. Lá inclusive passaram a vender Heinenken, a pedido de Mila. Agora, a cerveja holandesa, na ampola de 600ml, já domina o balcão. A Mila fez bem em escolher esse lugar, pois a presença feminina é constante. Segundo uma delas, as mulheres escolhem o bar pela assepsia do banheiro, tese discutível como lei geral, mas interessante. Até porque o Rebouças tem, no máximo, uns 20 metros quadradados e um único banheiro para homens e mulhres.

Depois da morte do Juca dei um tempo do Serafim. Passei lá uma noite, em que até fiz o bar brindar a ele, e sumi. Voltei lá no carnaval e fiquei decepcionado. Fui almoçar e não consegui terminar. Um prato sem gosto e sem tempero. Nem mesmo o chope estava no ponto. Houve uma época que o meu bar preferido foi o Serafim, como já foram o Bar do seu Manoel (ou Bode Cheiroso), Braca e a Adeguinha. Também freqüentei assiduamente o Jobi nos anos 80-90. Depois que Soraya Silveira Simões me apresentou ao Chalé, em Niterói, dividi com ela tardes e noites de chopes gelados e conversas estratosféricas ali. Hoje, confesso que estou gostando muito do Rebouças, mas sem alarde, por favor.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Um morcego na porta principal

Jaguar e Macalé no Bar Botequim no lançamento de livro do Moacyr Luz

Recomendo a quem ainda não viu, que corra para não perder o documentário de João Pimentel e Marco Abujamra, Jards Macalé, um morcego na porta principal. É excelente. Acho que os dois conseguiram retratar bem o perfil de Macalé, pôr em evidência o momento em que ele aparece no cenário das artes, em meio a tropicalistas, MPBistas, bossa-novistas, além de suas incursões no cinema como ator (o ceguinho de Amuleto de Ogum, por exemplo), e no meio artístico em geral. Também traz à luz alguns de seus parceiros, como Abel Silva, os tropicalistas, Zé Celso, Tom Zé, Chacal. O Gil fala da incapacidade de Macalé seguir linearmente em sua carreira, e o Arnaldo Bloch deu uma elegante puxada de orelha no baiano. O próprio Macalé rejeita certos rótulos ("Maldito é a mãe!", brada logo no início do documentário). E o bom humor permeia todo o filme e não sei se o documentário é curto ou se é tão leve que não se sente o tempo passar.

O rótulo de maldito é de fato problemático e todos os malditos que conheço sempre o rejeitaram. Penso aqui em malditos mais malditos que o próprio Macalé, como Manduka e Sergio Sampaio. Em 1994, vi um show no saudoso Rio Jazz Club de Macao, Itamar Assumpção e Luiz Melodia, cujo apelo era justamente a reunião de três malditos. De certo modo, a internet abriu um espaço para resgatar essas pessoas, com sites, fóruns e gravações. De qualquer modo, o filme de Janjão e Abujamra é imperdível.

Para mim a passagem mais marcante é a decisão de Macao se matar, exatos dez anos depois de Torquato Neto. A narrativa desse drama, hilariante, explica muito sobre o momento. Especialmente o fato de ter acabado e se resolvido num porre homérico com Abel num pé-sujo. Tem os depoimentos de Nelson Pereira dos Santos e Zé Celso (este parecendo um profeta) uma entrevista a Jaguar.

Show de Macalé no Seis e Meia, em 2008

quarta-feira, 17 de março de 2010

O sol de Tininha


Conheci Tininha no século XII. Ela anda hoje em algum lugar entre a Itália e a Suíça. Ela foi a primeira de uma série de taurinas a atormentar o meu sono. Um dia, resolvemos brincar, dois amadores, com fotografia e ela se despiu pra mim. Eu estava começando no ofício e recebi uma tarefa de fotografar algo dentro do tema "sexo & erotismo". Fizemos uma série na praia, em que Tininha comia um sanduíche natural de ricota, com sofreguidão que toda aquela suculência exigia. Esse material acabou selecionado para uma exposição na Estação Carioca do Metrô. Ficamos orgulhoso e presuçosos. Até que um dos membros do júri (um finado fotógrafo do Globo) disse que o nível da exposição era baixíssimo e os cinco trabalhos selecionados eram os menos sofríveis. Mas então já estávamos contaminados. Fizemos, depois dessa estréia, centenas de fotos que foram parar na pequña caja de sueños de abrir y cerrar, onde se perdem negativos, cartas e outros resquícios de saudade. Nesse processo de digitar esse material, descobri imagens que não tinha visto direito das outras vezes. Agora, passados 25 anos dessa brincadeira, é legal olhar. Aqui duas imagens de uma série feita com filme Kodak VR 1000, ou seja, com muito grão. Hoje teria feito com o grão mais fino possível. Mas tudo, naquele então, era um teste, um ensaio.

sábado, 13 de março de 2010

Um post triste


Érica Ornellas é uma mulher impactante. É impossível não percebê-la quando, por exemplo, ela entra num recinto qualquer. Não só por sua beleza espontânea (com espontâneo, quero dizer sem tinta nos cabelos e outros artifício tão em moda hoje em dia), mas igualmente por uma espécie de luz que ela carrega. E se, além disso, você conseguir conversar com ela alguns minutos, pronto. Ficará arrebatado para sempre por sua inteligência sensível.

Nos conhecemos em Búzios, onde ela morava e mora até hoje. Era locutora da Búzios FM e depois apresentadora de alguns programas da TV Búzios. Os shows antológicos que a TV promoveu na península e cidades vizinhas, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Alceu Valença entre outros, foram apresentados ao vivo por ela. Foi casada com meu compadre Tito Rosemberg e, nessa época, o mundo era pequeno para nós todos.

Érica vem de uma família de sete filhas. No coração de São Paulo, uma casa abençoada pela presença feminina e de gatos. Estive lá uma vez e escrevi um conto que pareceu irreal, mas era a pura descrição dessas personagens.

Minha energia vai para ela, agora, nesse momento difícil. Érica foi casada com Glauco, o cartunista do Geraldão, com quem teve um filho lindo, figura tranquila, inteligente e com uma vida pela frente, de nome indígena: Raoni. Me lembro dele moleque dos seus 14 anos, com skate debaixo do braço. Os dois, Glauco e Raoni, foram assassinados ontem num crime incompreensível e absurdo. Raoni tinha 25 anos.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Mãe e filha na luz amarela

Achei essas fotos cavucando os arquivos. Mãe e filha sob uma luz alaranjada. Simone e Olívia num tempo que já vai de alguns anos.


sábado, 27 de fevereiro de 2010

14, rue de Turenne

Continuo o processo de scanear os negativos antigos. Reportagens, viagens, histórias que foram registradas em antigas câmeras de filme película, laboratório e coisa e tal. Ontem me deparei com essas fotos esquecidas no fundo de uma caixa, em meio a cartas e objetos de uma história amorosa. Lá estava o velho apartamento dividido com ela intensamente num inverno que congelou mais do que os ossos.

Nesse apartamento em Paris vivi a solidão mais dura. Mesmo com ela ao meu lado e as noites de amor intenso, apesar dos tintos mais rascantes, da lareira acesa e o afeto que nos restava, foi ali que nos separamos de uma vez por todas. Paris estava linda em pleno inverno e inspirava qualquer idéia de amor, o que tornava nossa situação ainda mais perversa. Aquele último andar à rue de Turenne, no Marais; o exíguo studio, salvo da sensação de aperto pelas janelas generosas, por onde se via os tetos de Paris e até mesmo o anjo da Bastille.

Reformamos nós mesmos o apartamento, que havia ficado fechado por um longo período, após um trágico incêndio no prédio. Nossa amiga, dona do apartamento, por um triz não morreu. Foi salva pelos bombeiros já inconsciente pela intoxicação da fumaça. Traumatizada, precisou de um ano e meio para voltar lá, exatamente para nos mostrar o imóvel. O prédio havia sido reformado, mas o apartamento permaneceu abandonado, cinzas misturando-se à poeira e cheio de entulhos. Na pequena geladeira ainda havia os restos de uma maçã. Mas, reunimos os amigos em mutirão e lixamos, pintamos, limpamos e o apartamento renasceu literalmente das cinzas, aconchegante, nosso. A porta, de madeira maciça, permaneceu um pouco emperrada, mas nós a pintamos de verde, com os frisos amarelos, como as casas que havíamos visto em nossas viagens pelo interior do Brasil. No teto, que era sustentado por vigas de madeira, colocamos ganchos e penduramos redes, um sucesso entre os europeus.

Nosso canapé se transformava numa cama imensa e macia. Ali brincamos muito, em plena felicidade de apaixonados. Foi um período generoso nesse aspecto. Felicidade oriunda das sensações. Nunca estive tão consciente das coisas que me faziam sentir, física e emocionalmente, a vida. Não era apenas o sexo que, apaixonado, se dava ora nas explosões intensas, o leão saltando sobre a gazela, ora na delicadeza das minúcias, nos detalhes, na pele examinada, farejada, degustada. Também levávamos essa sensibilidade à flor da pele para a mesa, inventando sabores, para as leituras, os filmes, os discos. Descobrimos recantos inusitados em Paris, longe dos olhos dos turistas.
Mas como dizem os poetas Abel Silva e Manduka: “de repente vem o acaso, um vento, um zás... e já não somos mais nós dois.” Justamente no auge, quando a história se coloca no vai-ou-racha da definição da situação, filhos, projetos, futuro... bateu o medo e ela disse: “Ça marche pas!” Ficamos ainda elaborando isso por um tempo, tentando voltar ao estágio anterior, mas algo havia se quebrado. Foi no fim de nossa história que tive as lições mais duras da solidão e ver as imagens daquele apartamento, hoje, me traz essa lembrança ambígua, antagônica e complementar, da qual é feita a vida das pessoas.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A criação do mundo


Amigos, reparto com vocês a leitura do poema do Thiago de Mello A criação do mundo, num áudio em casteliano. Estive com ele no sábado e na segunda passados. Jantamos e almoçamos entre histórias literárias, encantados pela evocação do grande Manduka. Thiago esteve no Rio para um consulta, pois teve uma crise de angina na floresta. Mas está tudo bem. Ele sendo bem tratado por sua companheira Poliana, também poeta.

A Amazônia está muito presente nesse momento. Não só pelo contato com o poeta, mas também porque tenho escaneado fotos de minha última visita à floresta, em 1992. Este ano o plano é voltar lá. Em agosto, quando o rio está esvaziando, pretendo ir à Belém, para um congresso de antropologia, e depois subir o Amazonas até Santarém, para conhecer as praias do Tapajós, um dos rios mais bonitos da região. Um rio de águas verdes, mornas e cheio de histórias.

Abaixo o link para o áudio do poema na voz do poeta:

Poema en audio: La creación del mundo de Thiago de Mello por Thiago de Mello

La creación del mundo

No desfloré a nadie.
La primera mujer que vi desnuda
(era adulta de alma y de cabellos)
fue la primera que me mostró los astros,
pero no fui el primero a quien se los mostró.

Vi el resplandor de sus nalgas
de espaldas a mí: era morena,
mas al darse vuelta quedó dorada.

Sonrió porque sus pechos me asombraron,
por mi mirada de adolescente no acostumbrado
a la gloria de la belleza corporal.
Era de mañana en la selva, pero nacían
estrellas de sus brazos y resbalaban
por el cuello, lo recuerdo, era el cuello
lo que me enseñaba a deletrear secretos
guardados en la clavícula. Pedía,
ya echada de bruces y llamándome,
que posara mis labios por los pétalos
con rocío de la nuca, eran lilas;
que alisara, levemente, con las yemas
las espaldas de espumas y esmeraldas;
quería que mi mano recorriera,
yendo y viniendo, el valle de la columna,
trés doucement, porque me cuidaba.
ella inauguró en mí la alegría
inefable de dar felicidad.
Tanto conocimiento no podía
ser sino innato, pienso ahora.
Pero no.
Era un saber hecho de experiencia,
más que ingenio para transmitirlo.
Ella era de otras aguas, una fuente
de treinta años, que vino desde el Sena
con el destino de darme de beber
—en la aurora de sus ojos, en sus pechos,
en la boca musical, en el mar del vientre,
en la risa de azucena, en la voz densa,
en las cejas y en el vértice de las piernas—
la miel antigua de la sabiduría,
de saber que el deseo crece cuando entiende
que la chispa se enciende en la ternura,
que las antesalas se prolongan
hasta que uno esté listo para entrar en el cielo.

THIAGO DE MELLO

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Um escandaloso caso de plágio

Desde a invenção da imprensa, casos de plágio são, infelizmente, um mal relativamente freqüente nos veículos. Sucede que, com o avanço das tecnologias de mídia nos últimos anos, a facilidade de se obter informações deixou de exigir esforço. Basta "dar um google" e se tem volumosa produção sobre qualquer que seja o tema que se queira investigar.

Do jornalista Jason Blair, ex-New York Times, até os casos mais recentes, há uma profusão de malandragem e má-fé na grande rede. No que se refere a roubar idéias, a internet se tornou um campo fértil para plagiadores de todos os graus. O site Comunique-se.com, por exemplo, está citando em sua edição online o caso da crítica de cinema feita pelo jornalista Pablo Villaça e reproduzida sem autorização pelo jornal de Goiás Jornal da Imprensa. Segundo afirma Villaça ao Comunique-se, isso já havia ocorrido antes em Maceió. Já o editor do Jornal da Imprensa disse ao Comunique-se que estava viajando e não pôde controlar a republicação da crítica, uma desculpa, convenhamos, esfarrapada. O site especializado em jornalismo e imprensa ouviu ainda um especialista que diz que mesmo citando o nome do autor, a reprodução sem autorização pode constituir crime à propriedade intelectual do autor se este se sentir de algum modo prejudicado, cabendo "ações por danos morais e patrimoniais".

O que dizer então do mais escandaloso caso de plágio na internet de que tenho conhecimento? Trata-se do jornalista Roberto Chalita, que durante 11 meses reproduziu na íntegra em dois blogues e um jornal impresso do interior de São Paulo textos, fotos, legendas e até mesmo o desenho de página de vários blogueiros, como meus amigos Edu Goldenberg, Bruno Ribeiro, Luis Antonio Simas, Felipe Quintans, entre outros e inclusive — descobri hoje graças aos alertas de Edu e Felipinho — este velho escriba do Pendura Essa. A coisa tem contornos de uma assustadora compulsão incontrolável ao furto intelectual e precisa ser desmascarada com urgência.

Na lista abaixo de sites e blogues recomendades pelo Pendura estão os sites dos amigos citados acima, respectivamente: Buteco do Edu, Botequim do Bruno, Histórias Brasileiras e Boemia e Nostalgia. Neles é possível acompanhar um histórico do plágio com detalhes e exemplos eloqüentes, assim como as ações que serão tomadas contra o plagiador.

No caso do Pendura, Chalita se aproveita de um texto aqui publicado sob o título de Chope centenário, sobre o Bar Brasil, vejam aqui o original, para copiar no blog Boteco Pensante, vejam aqui, mudando o nome do bar e inventando um encontro afetivo entre pai e filho. No texto falsificado, as fotos do Bar Brasil viram fotos do Bar do Bosque (que nem sei se existe de fato), em Barra Funda. Assustador.

Agradeço ao Edu e ao Felipinho pelos alertas. E quero dizer que estou me integrando a eles nas ações contra o plagiador.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Comentários sobre a folia

Ao contrário da maioria dos meus amigos, não faço questão do carnaval na Sapucaí. Fui uma vez e achei cansativo e entediante, ficar ali, passivamente, olhando a folia passar. Isso sem querer entrar no mérito do "verdadeiro" e "autêntico" carnaval, do quanto as escolas se transformaram em outra coisa etc e tal. Pra mim, o carnaval acontece na rua. E este ano não foi diferente. Fui a blocos, ranchos e, entre uns e outros, vários botequins. Pra mim, assim está bem.

Alguns momentos emocionantes: Alfredinho sendo aplaudido em massa ao entrar no Alcazar, depois da maravilhosa apresentação do racho Flor do Sereno, na Avenida Atlântica. O dia morrendo, com a orla de Copacabana e o Pão de Açúcar ao fundo. Outro momento, foi a caminhada com o Moa do Real Chope ao Bip, a caminho do Flor do Sereno. Muitos foliões vieram demonstrar seu carinho pelo compositor, mas o emocionante mesmo foi encontrar a filha de Walter Alfaiate, na torcida pela recuperação do pai. A lágrima clara sobre a pele escura.

Definitivamente, choque de ordem não funciona numa cidade como o Rio, sobretudo nos dias de folia do carnaval. Não sou a favor de bangunça, bandalha e coisa e tal, mas colocar a guarda para prender as pessoas que urinam na rua e não colocar banheiro suficiente para servir os foliões é burrice ou má-fé. E esse fraldão? Há mais dignidade em urinar atrás da árvore.

Na saideira no Jobi, com Beatriz, Mila e Perfeito Fortuna, ouço a frase do "folião do circo", filosófica: "Estamos aqui de brincadeira!" Um bom lema pra se adotar no resto do ano também.

O banho do Barbas, neste ano de recorde de calor, foi além do êxtase. Aliás, esse pedacinho tradicional de Botafogo, em torno da praça Mauro Duarte, foi o epicentro de várias outras manifestações carnavalescas interessantes. Os moradores das comunidades, das vilas, dos sobradinhos e dos prédios modernos, que estão subindo a toda pressa, se encontraram nas ruas desse pedaço bucólico do bairro. Foi interessante ver as distintas formas como cada quem ocupa e usa as ruas.

Bem, coloco aqui o vídeo feito com o celular de alguns momentos das marchinhas do Flor do Sereno. Também fiz de outros blocos e eventualmente colocarei aqui. Esse do rancho, gostei do final, com o meu querido Paulo Pires, lembrando que a marcha Bandeira Branca foi feita para os nosso fígados.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Brevidades

Amigos, a distância e o afastamento deste Pendura Essa se dá por causa de uma série de projetos que me envolvi no laboratório de antropologia urbana ao qual sou associado (o LeMetro do IFCS/UFRJ). Estamos trabalhando em várias pesquisas sobre a cidade, inclusive um projeto internacional que vai comparar os projetos de renovação urbana de Rio, Casablanca e Istambul. Além disso, no Globo, estamos preparando uma edição especial para o Prosa & Verso sobre migração e, como fiz pesquisa sobre a presença chinesa no mercado do Saara, fui integrado ao time do suplemento literário para essa empreitada. Isso tudo exige leituras e escritas sem fim.

Mas não é só isso. Também está chegando aí o carnaval e, no pouco tempo livre que me sobra, escapo quando posso para a folia, pois também sou filho de Dionísio. Deixo, aliás, uma palinha breve da bateria do bloco dos jornalistas, o Imprensa que eu gamo, que este ano roubou a idéia do bloco do Barbas e contratou o mesmo carro-pipa para afogar os foliões em êxtase, considerando-se o calor de 50 graus no meio da multidão.