segunda-feira, 29 de março de 2010

Adeus, Armando

Thiago e Armando, bons companheiros

O jornalista Armando Nogueira nos deixou hoje, aos 83 anos. Ele vinha lutando contra um câncer no cérebro que, aos poucos, foi abocanhando seus movimentos. Mas a lucidez brilhante permaneceu aprisionada no corpo doente. Responsável pela implantação do telejornalismo na TV Globo, sua paixão mesmo era a crônica esportiva, que exercia com uma verve só comparável a dos grandes mestres. Apesar de sua intimidade com a linguagem televisiva, Armando era um sujeito de formação literária, seu raciocínio primário e primitivo era pelo texto escrito e pela leitura. Por isso, sua crônica tinha um estilo denso na percepção e leve no amarrar das frases. Uma raridade no hoje em dia, quando os textos são louvados por seu fôlego telegráfico. Não se aceitam mais os recursos que o idioma oferce ao ato da escrita.

Mas Armando também era músico. Tocava sua harmônica com talento e desenvoltura. Me lembro de algumas tardes de sábado na casa de Ana Helena, os saraus com Thiaguinho e seus companheiros de Escambo. Foi em sua casa que vi Armando pela última vez, há alguns meses. Um almoço com o poeta Thiago de Mello (quando tirei a foto acima). Armando já não tocava mais seu instrumento e conversava com dificuldade, mas suas frases eram certeiras. Desde o início do ano, sua saúde foi piorando. Mês passado, Thiago veio vê-lo de Manaus, ao saber da piora e nos trouxe notícias inquietantes. A doença havia avançado.

terça-feira, 23 de março de 2010

Ode ao Rebouças


O Rebouças é um pé-sujo simples, louvado por vários apreciadores de botequins, que reúne uma freguesia diversa e interessante. À noite, depois que o comércio ao redor fecha, seu Alberto, auxiliado pelo simpático garçom Jorginho, espalha mesinhas e cadeiras para uma clientela que às vezes chega aos três dígitos. No sábado passado, deppois de passar pela Modern Sound, Pavão Azul e Real Chope, tomei a saideira no Rebouças, acompanhado de minha amiga Bia Caiado. Saí de lá por volta das 2h30 e a coisa não parecia nem perto do fim.

Mila Chaseliov, que co-orientei na monografia de graduação com o Paulinho Pires, está preparando seu projeto de mestrado, focando na presença feminina em certos botequins de classe média. Como o Rebouças fica no aristocrático bairro do Jardim Botânico, ela escolheu o bar como um de seus campos de pesquisa etnográfica. E eu acompanhei já algumas incursões dela, digamos, ao campo, para discutir com ela, ajudar colocando questões etc. O seu diário de campo está repleto de anotações, desenhos e coisa e tal. Outro dia mesmo já participou de um churrasco da turma dos fregueses assíduos, que inclui um português de conversa solta, um astrofísico colombiano, um jovem advogado, algumas mulheres de personaidade forte e algumas celebridades que passam quase anônimas por ali. Vendo Mila trabalhar, me lembrei muito da minha pesquisa na Adeguinha, a Adega da Velha, do meu amigo Chico Rufino. De certo modo, estou revivendo isso tudo, ao acompanhar Mila.

O caso do Rebouças é daquele que é melhor calar. O bar está no ponto certo. Não precisa mais de público. Se encher mais vai estragar. Por enquanto, é sustentável. Os rissoles de camarão com catupiry, sequinhos e baratos, os pastéis, a cerveja gelada (me lembrou as cervas estupidamente geladas do Bar do Costa) são as especialidades. Lá inclusive passaram a vender Heinenken, a pedido de Mila. Agora, a cerveja holandesa, na ampola de 600ml, já domina o balcão. A Mila fez bem em escolher esse lugar, pois a presença feminina é constante. Segundo uma delas, as mulheres escolhem o bar pela assepsia do banheiro, tese discutível como lei geral, mas interessante. Até porque o Rebouças tem, no máximo, uns 20 metros quadradados e um único banheiro para homens e mulhres.

Depois da morte do Juca dei um tempo do Serafim. Passei lá uma noite, em que até fiz o bar brindar a ele, e sumi. Voltei lá no carnaval e fiquei decepcionado. Fui almoçar e não consegui terminar. Um prato sem gosto e sem tempero. Nem mesmo o chope estava no ponto. Houve uma época que o meu bar preferido foi o Serafim, como já foram o Bar do seu Manoel (ou Bode Cheiroso), Braca e a Adeguinha. Também freqüentei assiduamente o Jobi nos anos 80-90. Depois que Soraya Silveira Simões me apresentou ao Chalé, em Niterói, dividi com ela tardes e noites de chopes gelados e conversas estratosféricas ali. Hoje, confesso que estou gostando muito do Rebouças, mas sem alarde, por favor.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Um morcego na porta principal

Jaguar e Macalé no Bar Botequim no lançamento de livro do Moacyr Luz

Recomendo a quem ainda não viu, que corra para não perder o documentário de João Pimentel e Marco Abujamra, Jards Macalé, um morcego na porta principal. É excelente. Acho que os dois conseguiram retratar bem o perfil de Macalé, pôr em evidência o momento em que ele aparece no cenário das artes, em meio a tropicalistas, MPBistas, bossa-novistas, além de suas incursões no cinema como ator (o ceguinho de Amuleto de Ogum, por exemplo), e no meio artístico em geral. Também traz à luz alguns de seus parceiros, como Abel Silva, os tropicalistas, Zé Celso, Tom Zé, Chacal. O Gil fala da incapacidade de Macalé seguir linearmente em sua carreira, e o Arnaldo Bloch deu uma elegante puxada de orelha no baiano. O próprio Macalé rejeita certos rótulos ("Maldito é a mãe!", brada logo no início do documentário). E o bom humor permeia todo o filme e não sei se o documentário é curto ou se é tão leve que não se sente o tempo passar.

O rótulo de maldito é de fato problemático e todos os malditos que conheço sempre o rejeitaram. Penso aqui em malditos mais malditos que o próprio Macalé, como Manduka e Sergio Sampaio. Em 1994, vi um show no saudoso Rio Jazz Club de Macao, Itamar Assumpção e Luiz Melodia, cujo apelo era justamente a reunião de três malditos. De certo modo, a internet abriu um espaço para resgatar essas pessoas, com sites, fóruns e gravações. De qualquer modo, o filme de Janjão e Abujamra é imperdível.

Para mim a passagem mais marcante é a decisão de Macao se matar, exatos dez anos depois de Torquato Neto. A narrativa desse drama, hilariante, explica muito sobre o momento. Especialmente o fato de ter acabado e se resolvido num porre homérico com Abel num pé-sujo. Tem os depoimentos de Nelson Pereira dos Santos e Zé Celso (este parecendo um profeta) uma entrevista a Jaguar.

Show de Macalé no Seis e Meia, em 2008

quarta-feira, 17 de março de 2010

O sol de Tininha


Conheci Tininha no século XII. Ela anda hoje em algum lugar entre a Itália e a Suíça. Ela foi a primeira de uma série de taurinas a atormentar o meu sono. Um dia, resolvemos brincar, dois amadores, com fotografia e ela se despiu pra mim. Eu estava começando no ofício e recebi uma tarefa de fotografar algo dentro do tema "sexo & erotismo". Fizemos uma série na praia, em que Tininha comia um sanduíche natural de ricota, com sofreguidão que toda aquela suculência exigia. Esse material acabou selecionado para uma exposição na Estação Carioca do Metrô. Ficamos orgulhoso e presuçosos. Até que um dos membros do júri (um finado fotógrafo do Globo) disse que o nível da exposição era baixíssimo e os cinco trabalhos selecionados eram os menos sofríveis. Mas então já estávamos contaminados. Fizemos, depois dessa estréia, centenas de fotos que foram parar na pequña caja de sueños de abrir y cerrar, onde se perdem negativos, cartas e outros resquícios de saudade. Nesse processo de digitar esse material, descobri imagens que não tinha visto direito das outras vezes. Agora, passados 25 anos dessa brincadeira, é legal olhar. Aqui duas imagens de uma série feita com filme Kodak VR 1000, ou seja, com muito grão. Hoje teria feito com o grão mais fino possível. Mas tudo, naquele então, era um teste, um ensaio.

sábado, 13 de março de 2010

Um post triste


Érica Ornellas é uma mulher impactante. É impossível não percebê-la quando, por exemplo, ela entra num recinto qualquer. Não só por sua beleza espontânea (com espontâneo, quero dizer sem tinta nos cabelos e outros artifício tão em moda hoje em dia), mas igualmente por uma espécie de luz que ela carrega. E se, além disso, você conseguir conversar com ela alguns minutos, pronto. Ficará arrebatado para sempre por sua inteligência sensível.

Nos conhecemos em Búzios, onde ela morava e mora até hoje. Era locutora da Búzios FM e depois apresentadora de alguns programas da TV Búzios. Os shows antológicos que a TV promoveu na península e cidades vizinhas, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Alceu Valença entre outros, foram apresentados ao vivo por ela. Foi casada com meu compadre Tito Rosemberg e, nessa época, o mundo era pequeno para nós todos.

Érica vem de uma família de sete filhas. No coração de São Paulo, uma casa abençoada pela presença feminina e de gatos. Estive lá uma vez e escrevi um conto que pareceu irreal, mas era a pura descrição dessas personagens.

Minha energia vai para ela, agora, nesse momento difícil. Érica foi casada com Glauco, o cartunista do Geraldão, com quem teve um filho lindo, figura tranquila, inteligente e com uma vida pela frente, de nome indígena: Raoni. Me lembro dele moleque dos seus 14 anos, com skate debaixo do braço. Os dois, Glauco e Raoni, foram assassinados ontem num crime incompreensível e absurdo. Raoni tinha 25 anos.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Mãe e filha na luz amarela

Achei essas fotos cavucando os arquivos. Mãe e filha sob uma luz alaranjada. Simone e Olívia num tempo que já vai de alguns anos.


sábado, 27 de fevereiro de 2010

14, rue de Turenne

Continuo o processo de scanear os negativos antigos. Reportagens, viagens, histórias que foram registradas em antigas câmeras de filme película, laboratório e coisa e tal. Ontem me deparei com essas fotos esquecidas no fundo de uma caixa, em meio a cartas e objetos de uma história amorosa. Lá estava o velho apartamento dividido com ela intensamente num inverno que congelou mais do que os ossos.

Nesse apartamento em Paris vivi a solidão mais dura. Mesmo com ela ao meu lado e as noites de amor intenso, apesar dos tintos mais rascantes, da lareira acesa e o afeto que nos restava, foi ali que nos separamos de uma vez por todas. Paris estava linda em pleno inverno e inspirava qualquer idéia de amor, o que tornava nossa situação ainda mais perversa. Aquele último andar à rue de Turenne, no Marais; o exíguo studio, salvo da sensação de aperto pelas janelas generosas, por onde se via os tetos de Paris e até mesmo o anjo da Bastille.

Reformamos nós mesmos o apartamento, que havia ficado fechado por um longo período, após um trágico incêndio no prédio. Nossa amiga, dona do apartamento, por um triz não morreu. Foi salva pelos bombeiros já inconsciente pela intoxicação da fumaça. Traumatizada, precisou de um ano e meio para voltar lá, exatamente para nos mostrar o imóvel. O prédio havia sido reformado, mas o apartamento permaneceu abandonado, cinzas misturando-se à poeira e cheio de entulhos. Na pequena geladeira ainda havia os restos de uma maçã. Mas, reunimos os amigos em mutirão e lixamos, pintamos, limpamos e o apartamento renasceu literalmente das cinzas, aconchegante, nosso. A porta, de madeira maciça, permaneceu um pouco emperrada, mas nós a pintamos de verde, com os frisos amarelos, como as casas que havíamos visto em nossas viagens pelo interior do Brasil. No teto, que era sustentado por vigas de madeira, colocamos ganchos e penduramos redes, um sucesso entre os europeus.

Nosso canapé se transformava numa cama imensa e macia. Ali brincamos muito, em plena felicidade de apaixonados. Foi um período generoso nesse aspecto. Felicidade oriunda das sensações. Nunca estive tão consciente das coisas que me faziam sentir, física e emocionalmente, a vida. Não era apenas o sexo que, apaixonado, se dava ora nas explosões intensas, o leão saltando sobre a gazela, ora na delicadeza das minúcias, nos detalhes, na pele examinada, farejada, degustada. Também levávamos essa sensibilidade à flor da pele para a mesa, inventando sabores, para as leituras, os filmes, os discos. Descobrimos recantos inusitados em Paris, longe dos olhos dos turistas.
Mas como dizem os poetas Abel Silva e Manduka: “de repente vem o acaso, um vento, um zás... e já não somos mais nós dois.” Justamente no auge, quando a história se coloca no vai-ou-racha da definição da situação, filhos, projetos, futuro... bateu o medo e ela disse: “Ça marche pas!” Ficamos ainda elaborando isso por um tempo, tentando voltar ao estágio anterior, mas algo havia se quebrado. Foi no fim de nossa história que tive as lições mais duras da solidão e ver as imagens daquele apartamento, hoje, me traz essa lembrança ambígua, antagônica e complementar, da qual é feita a vida das pessoas.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A criação do mundo


Amigos, reparto com vocês a leitura do poema do Thiago de Mello A criação do mundo, num áudio em casteliano. Estive com ele no sábado e na segunda passados. Jantamos e almoçamos entre histórias literárias, encantados pela evocação do grande Manduka. Thiago esteve no Rio para um consulta, pois teve uma crise de angina na floresta. Mas está tudo bem. Ele sendo bem tratado por sua companheira Poliana, também poeta.

A Amazônia está muito presente nesse momento. Não só pelo contato com o poeta, mas também porque tenho escaneado fotos de minha última visita à floresta, em 1992. Este ano o plano é voltar lá. Em agosto, quando o rio está esvaziando, pretendo ir à Belém, para um congresso de antropologia, e depois subir o Amazonas até Santarém, para conhecer as praias do Tapajós, um dos rios mais bonitos da região. Um rio de águas verdes, mornas e cheio de histórias.

Abaixo o link para o áudio do poema na voz do poeta:

Poema en audio: La creación del mundo de Thiago de Mello por Thiago de Mello

La creación del mundo

No desfloré a nadie.
La primera mujer que vi desnuda
(era adulta de alma y de cabellos)
fue la primera que me mostró los astros,
pero no fui el primero a quien se los mostró.

Vi el resplandor de sus nalgas
de espaldas a mí: era morena,
mas al darse vuelta quedó dorada.

Sonrió porque sus pechos me asombraron,
por mi mirada de adolescente no acostumbrado
a la gloria de la belleza corporal.
Era de mañana en la selva, pero nacían
estrellas de sus brazos y resbalaban
por el cuello, lo recuerdo, era el cuello
lo que me enseñaba a deletrear secretos
guardados en la clavícula. Pedía,
ya echada de bruces y llamándome,
que posara mis labios por los pétalos
con rocío de la nuca, eran lilas;
que alisara, levemente, con las yemas
las espaldas de espumas y esmeraldas;
quería que mi mano recorriera,
yendo y viniendo, el valle de la columna,
trés doucement, porque me cuidaba.
ella inauguró en mí la alegría
inefable de dar felicidad.
Tanto conocimiento no podía
ser sino innato, pienso ahora.
Pero no.
Era un saber hecho de experiencia,
más que ingenio para transmitirlo.
Ella era de otras aguas, una fuente
de treinta años, que vino desde el Sena
con el destino de darme de beber
—en la aurora de sus ojos, en sus pechos,
en la boca musical, en el mar del vientre,
en la risa de azucena, en la voz densa,
en las cejas y en el vértice de las piernas—
la miel antigua de la sabiduría,
de saber que el deseo crece cuando entiende
que la chispa se enciende en la ternura,
que las antesalas se prolongan
hasta que uno esté listo para entrar en el cielo.

THIAGO DE MELLO

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Um escandaloso caso de plágio

Desde a invenção da imprensa, casos de plágio são, infelizmente, um mal relativamente freqüente nos veículos. Sucede que, com o avanço das tecnologias de mídia nos últimos anos, a facilidade de se obter informações deixou de exigir esforço. Basta "dar um google" e se tem volumosa produção sobre qualquer que seja o tema que se queira investigar.

Do jornalista Jason Blair, ex-New York Times, até os casos mais recentes, há uma profusão de malandragem e má-fé na grande rede. No que se refere a roubar idéias, a internet se tornou um campo fértil para plagiadores de todos os graus. O site Comunique-se.com, por exemplo, está citando em sua edição online o caso da crítica de cinema feita pelo jornalista Pablo Villaça e reproduzida sem autorização pelo jornal de Goiás Jornal da Imprensa. Segundo afirma Villaça ao Comunique-se, isso já havia ocorrido antes em Maceió. Já o editor do Jornal da Imprensa disse ao Comunique-se que estava viajando e não pôde controlar a republicação da crítica, uma desculpa, convenhamos, esfarrapada. O site especializado em jornalismo e imprensa ouviu ainda um especialista que diz que mesmo citando o nome do autor, a reprodução sem autorização pode constituir crime à propriedade intelectual do autor se este se sentir de algum modo prejudicado, cabendo "ações por danos morais e patrimoniais".

O que dizer então do mais escandaloso caso de plágio na internet de que tenho conhecimento? Trata-se do jornalista Roberto Chalita, que durante 11 meses reproduziu na íntegra em dois blogues e um jornal impresso do interior de São Paulo textos, fotos, legendas e até mesmo o desenho de página de vários blogueiros, como meus amigos Edu Goldenberg, Bruno Ribeiro, Luis Antonio Simas, Felipe Quintans, entre outros e inclusive — descobri hoje graças aos alertas de Edu e Felipinho — este velho escriba do Pendura Essa. A coisa tem contornos de uma assustadora compulsão incontrolável ao furto intelectual e precisa ser desmascarada com urgência.

Na lista abaixo de sites e blogues recomendades pelo Pendura estão os sites dos amigos citados acima, respectivamente: Buteco do Edu, Botequim do Bruno, Histórias Brasileiras e Boemia e Nostalgia. Neles é possível acompanhar um histórico do plágio com detalhes e exemplos eloqüentes, assim como as ações que serão tomadas contra o plagiador.

No caso do Pendura, Chalita se aproveita de um texto aqui publicado sob o título de Chope centenário, sobre o Bar Brasil, vejam aqui o original, para copiar no blog Boteco Pensante, vejam aqui, mudando o nome do bar e inventando um encontro afetivo entre pai e filho. No texto falsificado, as fotos do Bar Brasil viram fotos do Bar do Bosque (que nem sei se existe de fato), em Barra Funda. Assustador.

Agradeço ao Edu e ao Felipinho pelos alertas. E quero dizer que estou me integrando a eles nas ações contra o plagiador.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Comentários sobre a folia

Ao contrário da maioria dos meus amigos, não faço questão do carnaval na Sapucaí. Fui uma vez e achei cansativo e entediante, ficar ali, passivamente, olhando a folia passar. Isso sem querer entrar no mérito do "verdadeiro" e "autêntico" carnaval, do quanto as escolas se transformaram em outra coisa etc e tal. Pra mim, o carnaval acontece na rua. E este ano não foi diferente. Fui a blocos, ranchos e, entre uns e outros, vários botequins. Pra mim, assim está bem.

Alguns momentos emocionantes: Alfredinho sendo aplaudido em massa ao entrar no Alcazar, depois da maravilhosa apresentação do racho Flor do Sereno, na Avenida Atlântica. O dia morrendo, com a orla de Copacabana e o Pão de Açúcar ao fundo. Outro momento, foi a caminhada com o Moa do Real Chope ao Bip, a caminho do Flor do Sereno. Muitos foliões vieram demonstrar seu carinho pelo compositor, mas o emocionante mesmo foi encontrar a filha de Walter Alfaiate, na torcida pela recuperação do pai. A lágrima clara sobre a pele escura.

Definitivamente, choque de ordem não funciona numa cidade como o Rio, sobretudo nos dias de folia do carnaval. Não sou a favor de bangunça, bandalha e coisa e tal, mas colocar a guarda para prender as pessoas que urinam na rua e não colocar banheiro suficiente para servir os foliões é burrice ou má-fé. E esse fraldão? Há mais dignidade em urinar atrás da árvore.

Na saideira no Jobi, com Beatriz, Mila e Perfeito Fortuna, ouço a frase do "folião do circo", filosófica: "Estamos aqui de brincadeira!" Um bom lema pra se adotar no resto do ano também.

O banho do Barbas, neste ano de recorde de calor, foi além do êxtase. Aliás, esse pedacinho tradicional de Botafogo, em torno da praça Mauro Duarte, foi o epicentro de várias outras manifestações carnavalescas interessantes. Os moradores das comunidades, das vilas, dos sobradinhos e dos prédios modernos, que estão subindo a toda pressa, se encontraram nas ruas desse pedaço bucólico do bairro. Foi interessante ver as distintas formas como cada quem ocupa e usa as ruas.

Bem, coloco aqui o vídeo feito com o celular de alguns momentos das marchinhas do Flor do Sereno. Também fiz de outros blocos e eventualmente colocarei aqui. Esse do rancho, gostei do final, com o meu querido Paulo Pires, lembrando que a marcha Bandeira Branca foi feita para os nosso fígados.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Brevidades

Amigos, a distância e o afastamento deste Pendura Essa se dá por causa de uma série de projetos que me envolvi no laboratório de antropologia urbana ao qual sou associado (o LeMetro do IFCS/UFRJ). Estamos trabalhando em várias pesquisas sobre a cidade, inclusive um projeto internacional que vai comparar os projetos de renovação urbana de Rio, Casablanca e Istambul. Além disso, no Globo, estamos preparando uma edição especial para o Prosa & Verso sobre migração e, como fiz pesquisa sobre a presença chinesa no mercado do Saara, fui integrado ao time do suplemento literário para essa empreitada. Isso tudo exige leituras e escritas sem fim.

Mas não é só isso. Também está chegando aí o carnaval e, no pouco tempo livre que me sobra, escapo quando posso para a folia, pois também sou filho de Dionísio. Deixo, aliás, uma palinha breve da bateria do bloco dos jornalistas, o Imprensa que eu gamo, que este ano roubou a idéia do bloco do Barbas e contratou o mesmo carro-pipa para afogar os foliões em êxtase, considerando-se o calor de 50 graus no meio da multidão.


sábado, 16 de janeiro de 2010

Sábado voador



Hoje o dia foi marcado pela letargia do sábado de calor e verão. Vontade de ficar imóvel, sem mexer um músculo, nem mesmo pensar... dois banhos gelados para refrescar, mas a moleza acumulada em semanas de trabalho pesado, com desmoronamentos e enchentes na Ilha Grande, Angra e tal, seguido do terremoto do Haiti. Essas coisas na redação são ampliadas para além da resistência dos simples mortais. Imagens, depoimentos, vídeos etc... vão chegando e a gente escolhendo a melhor foto, escrevendo a legenda, fazendo títulos... quem lê tanta notícia? O fim de semana, portanto, foi meu momento de redenção, hora de apagar o peso das preocupações, estresse e tal. Daí a exaustão.


Mas lá pelas tantas, eis que pela janela invade o som de uma banda, daquelas de pracinha do interior, só que com um repertório eclético e interessante, de Bob Marley a Afrosambas, passando por marchinhas de carnaval, Tim Maia, Mutantes e por aí vai... Era o impulso que precisava. Pus a bermuda, o tênis e desci à pracinha do interior que existe aqui em Botafogo (só que em lugar do coreto, uma barraquinha vendendo cerveja e salsichão enfarofado; e em lugar da igreja, um botequim de esquina). Circulei entre a multidão de todas as idades (tinha até um pula-pula para as crianças) dançando, se divertindo, comemorando o verão, a proximidade do carnaval.


No intervalo pediram doações para as vítimas da tragédia no Haiti, o que me fez pensar no contraste das situações. A vida é assim engraçada, incompreensível... e bela, apesar de tudo.


Bem, faço o registro e deixo umas imagens da banda, que se chama Orquestra Voadora. A rapaziada mandou muito bem. Já as fotos, feitas com a câmara do celular, deram nisso aí... A última é de minha janela, olhando a praça das nuvens.

sábado, 9 de janeiro de 2010

O mundo das mulheres

Parte das meninas na redação: insuportavelmente maravilhosas...

Na editoria em que trabalho no Globo, a de assuntos econômicos, há cinco homens e 22 mulheres. Isso quer dizer que tenho diariamente uma overdose de universo feminino que é ao mesmo curioso e instigante; assustador e assombroso. Não me entendam mal. Acho que a atenção aos detalhes e uma sensibilidade à flor da pele dão às meninas instrumentos para fazer um jornal mais palatável sobre um assunto árido e, normalmente, sem graça. Mas o convívio no dia-a-dia é temperado por mudanças súbitas de humores, um universo de informações sobre roupas, sapatos, bebês, creches, unhas, depilação, pele... só sobre cores, elas têm denominações que nunca poderia imaginar, bege terroso e coisa e tal... Milhões de detalhes sutilíssimos, que me fazem querer falar de futebol, só para me reconhecer como gente e me certificar de que a vida também pode ser simples.

Com o tempo, as afinidades e o convívio, as meninas começam a ter tpm no mesmo período e, nesses dias, é um deus-nos-acuda. A maldade em tom de doçura. Provocador, desato temporais quando reafirmo minha tese de que a tpm é uma invenção dos laboratórios multinacionais a partir do puritanismo americano. Pronto, sou deliciosamente execrado em praça pública. Mas quando estão serenas, é o melhor lugar do mundo para se trabalhar. Ouço com atenção tudo o que elas falam dos homens em geral, e especialmente dos maridos, namorados, ficantes e coisa e tal, para ver se aprendo algum atalho ao coração dessas ninfas. Mas minha cognição, com tão poucos hormônios, não foi feita para entendê-las. Então, rendo-me ao encantamento.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Sinais verdes


Querida amiga, mais um ano começa e, até aqui, tudo bem. Sem você por perto, passei o réveillon em casa, sozinho, e... foi bom! Não foi uma passagem deprimente ou coisa que o valha. Na verdade, me deu uma sensação de liberdade, fugir ao roteiro convencional desse período que, para dizer a verdade, sempre me fez sentir desconfortável, tendo que caber em tanta alegria, tanta esperança. Simplesmente não estava com âninmo e bastante indeciso entre as dezenas de festas e eventos. Acho que gastei boa parte dessa energia festeira no período pré-natalino, com tantos chopes de despedidas. Foram dias seguidos de encontros com amigos daqui e dali e muitos litros de cerveja. Também de muitos flertes e jogos amorosos. Depois de ter trabalhado no dia 31 até as 6h30 da tarde, saí do jornal com a cabeça zonza de tantas notícias. No percurso pra casa, observei as levas de pessoas vestidas de branco convergindo para Copacabana. Fiquei em Botafogo. Até pensei na festa do Zé Octávio & Neto, no Arpoador, mas venceu a necessidade de arregimentar forças, dar um tempo no exagero e restituir uma certa energia vital. Então, fiquei, bem, em casa. Vi os fogos de minhas janelas, correndo da cozinha pra sala e fotografei a lua cheia, que apareceu entre as núvens, lindamente. No dia 1º, acordei cedo, o fígado leve, caminhei até Copa, acompanhando os sinais verdes para mim. Gostaria que o ano fosse assim, de sinais verdes. Te beijo.

PS: O site onde hospedo minhas fotos anda meio maluco e elas desapareceram deste Pendura... não sei como resolver o problema dos posts anteriores, mas, neste, estou mudando o hospedeiro...

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Evocação da floresta


Lavadeiras na Frequesia do Andirá

Vendo a tarde cair agora, o sol baixando por trás do Corcovado, raios saindo das mãos do Redentor em silhueta, evocou, talvez mais pelo calor do que pela luz, o entardecer em Barreirinha, no estado do Amazonas, no coração da floresta. Estive lá a última vez em 1992. A cidade tinha duas ruas principais: uma margeava o barrento Paraná do Ramos, extenso tributário do Amazonas, marcando a entrada da cidade. A outra cortava Barreirinha inteira, ligando a frente ao fundo, onde um porto improvisado dava caminho ao sinuoso igarapé do Pucu, que liga a cidade ao rio Andirá, rio de muita fundura e volume d'água. Não se enxergam as margens quando se está no meio do Andirá (que significa morcego na língua dos maués). Nas tempestades, que os ribeirinhos chamam de banzeiro, o melhor é encostar o barco até passar.


Curumim maué na aldeia Mocorongo, na cabeceira do Andirá, um dia e meio de barco desde Barreirinha

Foi ao atravessar pela primeira vez o Pucu e depois o Andirá que vivi uma das muitas experiências de medo e susto nessa viagem. Ao atravessar o rio de voadeira (uma canoa comum com motor na popa) vi muitos jacarés mergulhando dos barrancos, onde tomavam banho de sol, assustados com o barulho do motor. Jacaré com medo, tudo bem, mas as sucuris e sucurijus, de até 16 metros, perseguem pequenas embarcações e canoas, segundo relatos. Isso dá uma dimensão da pequenez humana diante da natureza. Ver o caboclo que guia a canoa preocupado, não é um bom sinal. E os cinco passageiros restantes ficaram em silêncio, acompanhando atentamente cada manobra, os olhos na água negra transparente. Mas atravessamos bem até a Freguesia do Andirá e ainda fizemos tambaqui na brasa na Ponta da Safadeza, uma praia escondida, onde os casais gostam de visitar...


Crianças da Freguesia do Andirá

Soube outro dia que, com a cheia histórica deste ano (agora o rio está na máxima da seca e o igarapé do Pucu virou uma estrada), 40% da população perdeu as casas e tiveram que deixar Barreirinha. Houve um êxodo da cidade, fruto do aquecimento global, que está derretendo as geleiras dos Andes, que alimentam a bacia do Amazonas. O volume de água é cada vez mais caudaloso e cada período de chuvas torrenciais, que os ribeirinhos chamam de inverno (embora continue fazendo o mesmo calor de sempre), tem trazido recordes de cheia.


Peixeiro mostra os tambaquis no mercado de Manaus

Naqueles idos de 92, havia em Barreirinha um certo sortilégio no momento de transição entre o dia e a noite. Às seis da tarde, com as rádios sintonizadas na Ave Maria, como um ritual diário de devoção e proteção cósmica, a rua era tomada por levas de pessoas ido e vindo. Adolescentes e crianças com uniformes escolares, gritando, rindo, fazendo algazarras típicas da infância. Um bando de curumins e cunhatãs, olhando os "estrangeiros", como eu, e rindo, rindo de se acabar, com as mãozinhas tapando as bocas para tentat em vão conter as gargalhadas. Os adultos, apenas sorrindo, como se soubessem a piada, mas por etiqueta seguravam a onda. A piada éramos nós, com nossas roupas diferentes, máquinas fotográficas, o ar sofrido com o calor: "lá vão os italianos", diziam. "De que riem os índios?", não foi o que indagou Pierre Clastres em um ensaio antropológico muito profundo sobre os índios brasileiros? Recomendo a leitura.


Motor de linha Comandante Jardeson desembarca em Barreirinha

Na procissão de gente, pescadores com seus cestos cheios, o bafo da cachaça se antecipa aos bêbados, que cruzam a única rua em ziguezague. Os homens bebem quantidades industriais de cachaça e cerveja. O pé-sujo do mercado de peixe vive apinhado, ao lado do cais principal de Barreirinha. Mas o que me chamou mesmo a atenção foram as janelas das casinhas de madeira, sempre lotadas de pessoas acompanhando o movimento. Cada pessoa ali tem nome e todos se conhecem. Os afetos e os desafetos são públicos, como em qualquer povoado, em qualquer interior do mundo. Barreirinha é a típica gemeinschaft, do Tönnies.


Meninas no banho de igarap: hormônios em alta, flertes e um desespero para casar

É tudo isso que me vem de ver, agora, no Rio de Janeiro metrópole, o sol se esconder aos poucos. A saudade é um encantamento poderoso, que me transporta imediatamente para aquele universo distante no tempo e no espaço. Desfaz a barreira entre a metrópole e a comunidade, e eu me vejo caminhando ao lado do poeta Thiago de Mello na rua principal de Barreirinha, o povoado mais perdido do planeta, onde ele nasceu e decidiu viver ao voltar do exílio. Ele é uma presença, todo de branco, o ar severo e terno ao mesmo tempo, o passo firme. "Salve, poeta!", diziam alguns, naquele 92, se me lembro bem. Outros pediam conselhos, quase sempre sobre problemas de saúde: "Óleo de copaíba e muita ternura", receitava o poeta, que gostava muito da caminhada da tarde, de sua, hoje, ex-casa, o Porantim do Bom Socorro, até o cais para ver o pôr-do-sol no Paraná do Ramos. Na volta, comprávamos os arremates finais para o jantar, uma ceia repleta de poesia e histórias. Saudade.


Thiago ao violão, no Rio este ano

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Tirando o atraso


Morro da Conceição, a caminho da rua do Jogo da Bola

Amigos, nesses dias que passaram desde meados de novembro, mergulhei numa série de tarefas que exigiram minha atenção apaixonada, como a resenha sobre o trabalho de Soraya sobre a Vila Mimosa e algumas traduções que estou realmente desfrutando fazer, apesar do trabalho hercúleo. Com isso, a freqüência aqui andou meio frouxa e agora trago algumas notas de coisas que rolaram recentemente.


Imediações da Gamboa com a Ponte ao fundo, vistas do Morro da Conceição

Como vocês sabem, em meados de novembro, chegaram ao Rio vários cineastas africanos e latino-americanos para participar do III Encontro de Cinema Negro, produzido pelo Zózimo Bulbul. Entre os vários diretores presentes, Idriss Diabaté é um amigo de uma amiga que habite à Paris e que deu meu telefone. Ele participou do festival com o filme La femme que porte l'Afrique. Trata-se de um griot de 60 e poucos anos e uma alma curiosa da humanidade. Fiz um tour com ele e outros dois diretores, Cheik Camara (Guiné) e Missa Hebié (Burkina Faso), pelo Centro do Rio, mostrando nossa cidade, o Morro da Conceição, o cemitério dos pretos novos, a Pedra do Sal, a Praça Mauá, a Candelária, a marca das criança assassinadas, o CCBB, a livraria Folha Seca, de meu amigo Rodrigo Ferrari, o Digão, o Arco Telles, o Paço, o Buraco do Lume, a Carioca, Cinelândia e coisa e tal. Acho que Andrea Canto ia gostar do passeio. Trocamos muitas idéias sobre essa coisa da mistura brasileira. E no fim, o Idriss me presentiou com dois filmes dele: Stinka: Revolte du coeur e Le do que danse.


Da esquerda para a direita: Cheik Camara, Idriss Diabaté e Missa Hebié

Na seqüência, tive uns bons momentos com Mila Chaseliov no Bar Rebouças, onde estamos discutindo seu projeto de pós-graduação. A idéia é um mergulho na antropologia urbana, comparando as boemias (e formas de sociabilidade) entre Tel'aviv e Rio de Janeiro. A primeira uma cidade que recebe imigrantes de todo o mundo, unidos pela identidade judia, mas que no espaço urbano da noite não se misturam. Já aqui, todos sabemos bem como é. Esse encontros com Mila acabaram num almoço-jantar na casa de Nelson Pereira dos Santos, que nos preparou um nhoque da fortuna e nos regalamos com histórias sensacionais. O Nelson é uma cabeça lúcida no meio dessa desconstrução toda...


Mila Chaseliov no Rebouças: modéstia a parte, sou bom de portrait. Essa foto foi feita com a merda da câmara do celular, só dois megapixels

Vale mencionar que o Rebouças anda sensacional. Com suas mesinhas na calçada, a singeleza do pé-sujo autêntico, a simpatia do dono, seu Alberto e o garçom Jorginho. Morei naquela esquina uns meses da minha adolescência. Período difícil, ditadura, dureza e coisa e tal. Agora, quando me sento na calçada do Rebouças, vendo novas gerações por ali, me sinto feliz por ter sobrevivido. Ainda mais que ampola vem sempre mofada e a Mila convenceu a casa a comprar a Heineken, uma excelente cerveja na garrafa de 600ml.


O Bar Rebouças, com seu Alberto no fundo...

Já o aniversário de meu mano Zé Octávio foi comemorado no Bar do Serafim, onde fizemos uma homenagem ao Juca Ribeiro. Na hora do brinde, a rapaziada atrás do balcão ficou com os olhos marejados. Foi bonito.


Zé Octávio e Noelli, e o Serafim já com as portas já arriadas

Daí teve o lançamento do Rio Botequim. Não vou tecer comentários sobre o livro, mas quero registrar o choro emocionado da Stela, do Villarino, ao receber seu diploma e o desabafo: "Poucos sabem o duro que é atrás do balcão. Por isso fico feliz com a homenagem." Eu gosto muito de Stela, do Vilarino, seu Antonio e da história que aquele lugar carrega. No evento, Kátia, do Aconchego Carioca, me apresentou ao Claude Troisgros, que foi extremamente simples e simpático. Tivemos uma interessante conversa sobre botequim e cafés parisienses.

E, no último fim de semana, com a final do hexacampeonato do Mengão, fui ao Aconchego, ao Petit Paulette e segui para o Salvação, já pra lá de Marrakesh... Encontrei meus queridos Fraguinha e Digão no primeiro bar e a cerveja desceu direto em estômago vazio. Valeu a pena.


Alfredinho, Marcelo Moutinho e outros amigos no Bip, na madrugada de ontem para hoje

E, por fim, ontem, fui ao Lamas para o lançamento do livro do Alexei Bueno. Aproveitei para comer um picadinho do Chico, receita do Rufino, da Adega da Velha, que não está no cardápio. Lá encontrei o poeta e ator Emanuel Cavalcanti, que quer organizar um evento para o Manduka ano que vem. Também estava lá Marcelo Moutinho, com quem parti para outro lançamento de livro. Dessa vez no Bip-Bip. Trata-se do livro organizado pelo Luís Pimentel, Contos e causos de futebol, com Armando Nogueira, Aldir Blanc, Nani, e outros cobras.

Mas bom mesmo foi reencontrar a figura maravilhosa do Alfredinho. Enchemos a lata até as duas e tantas da madrugada. Para uma segunda-feira, até que não está mal.

sábado, 28 de novembro de 2009

A cidade cenográfica da prostituição



Amigos, reproduzo abaixo (acrescentando um parágrafo que cortei por falta de espaço) a resenha publicada hoje no caderno Prosa & Verso, do Globo, sobre a etnografia da antropóloga Soraya Silveira Simões sobre a Vila Mimosa. Todas as fotos deste post são da fotógrafa francesa Olivia Gay e fazem parte do livro. Na mesma edição, uma reportagem de Guilherme Freitas sobre o jornalista Francisco Ferreira da Rosa, que fez uma série de crônicas sobre as polacas para o jornal O Paiz, no fim do século XIX. Ele faz um retrato sobre a comunidade de prostitutas imigrantes e seus escritos foram recuperados agora por duas pesquisadoras. Também na mesma edição do Prosa meu querido amigo Marcelo Moutinho escreveu uma bela resenha, intitulada O operário das letras, sobre o editor Paula Brito, o primeiro a publicar Machado de Assis. No caderno Idéias, do Jornal do Brasil, Paula é resenhado por Rodrigo Ferrari.



A cidade cenográfica da prostituição

Antropóloga analisa a construção da nova identidade social da zona de meretrício em etnografia sobre a Vila Mimosa

Paulo Thiago de Mello

Manuel Bandeira escreveu, referindo-se às pessoas que trabalhavam numa antiga zona de prostituição do Rio de Janeiro, que "gente como a do Mangue vive porque é teimosa". E foi com pertinência que a antropóloga Soraya Silveira Simões recorreu à frase de Bandeira para abrir o capítulo inicial de seu livro, Vila Mimosa: Etnografia da cidade cenográfica da prostituição carioca (EdUFF, no prelo), uma adaptação de sua dissertação de mestrado, defendida na Universidade Federal Fluminense. Noções como teimosia e resistência estão no coração de sua narrativa, que, numa prosa bem costurada, leva o leitor a se aventurar pelos mais de 70 bordéis de uma rua sem saída da Praça da Bandeira.

Soraya parte da dramática relação de prostitutas e cafetinas do Mangue com o poder público, as corporações interessadas em ocupar a região, os planejadores urbanos com seus projetos de renovação, políticos e a polícia. É no bojo desse embate, que remonta aos anos 1980, que se consolida a organização política das prostitutas e surgem líderes como Gabriela Silva Leite, fundadora da ONG DaVida. Em 1996, porém, as meninas da Vila Mimosa, último resquício do Mangue, são removidas para dar lugar ao Teleporto e ao complexo da prefeitura, sugestivamente apelidado pela população de "Piranhão".



Com os recursos da indenização, as mulheres compram um galpão à rua Sotero dos Reis, formando o núcleo do que hoje passou a ser chamado de Vila Mimosa II — ou VM II —, um espaço, ou melhor, um lugar marcado por uma cenografia propícia ao jogo de sedução que caracteriza a ambiência da zona.

A mudança não se dá sem conflitos. Os moradores da área protestam, queimam pneus e apelam às autoridades contra a presença indesejada das prostitutas em seu bairro, temendo o contágio do estigma que marca a profissão. O movimento da Vila Mimosa, no entanto, acaba trazendo prosperidade ao local. Bares e hotéis, antes às moscas, passam a ganhar dinheiro com a crescente movimentação. E os moradores, antes desconfiados, descobrem que podem lucrar, alugando quartos, fazendo baby sitter, vendendo roupas etc.



Situada no espaço reservado pela sociedade ao desvio, à flexibilização de normas e etiquetas, a zona de prostituição cenograficamente construída na Vila Mimosa II acabou por constituir o que na sociologia urbana se chama "região moral", definida e demarcada por seu métier, reconhecido por todos em suas múltiplas representações. Soraya lembra que os lugares do desvio na cidade são circunscritos, geográfica e simbolicamente. É assim que se pode falar "de meninos de rua, travestis da Lapa e das putas da Vila Mimosa".

"Na Vila Mimosa não se chega, se entra"

E a VM II cumpre essa prescrição sem ambigüidade, ao contrário de outras áreas de prostituição do Rio, como a Praça Mauá, também reduto da boemia e zona portuária; ou a Avenida Atlântica, área turística e residencial. Por isso, lembra a autora, na Vila Mimosa "não se chega, se entra". O toldo amarelo de uma loja na metade da rua demarca o início da zona, separando simbolicamente aquele território moral do resto do bairro. Atravessar esse limite é entrar em outro universo, simultaneamente previsível e imponderável, onde o jogo de encenações dá aos atores papéis que só ali podem ser desempenhados.

A partir da mudança de endereço, os atores da zona se esforçam em mudar também as representações sociais sobre o ofício — hoje reconhecido pelo Ministério do Trabalho — como um negócio que tem no domínio do corpo seu principal ativo. A antropóloga mostra como, tendo um pé no Mangue como evocação da resistência do grupo — ou da teimosia percebida por Bandeira —, as pessoas envolvidas no negócio da prostituição na VM II deram novos sentidos à identidade social do ofício.



Nesse processo, é criada a Associação dos Moradores do Condomínio e Amigos da Vila Mimosa (AMOCVIM), para atuar não apenas como representante dos interesses de donos de casas, prostitutas, moradores e comerciantes da Vila Mimosa, mas também como agente propagador e controlador da nova imagem da prostituta. Através da Associação, as profissionais da VM II obtêm acesso a academia, cabeleireiro, manicure, clínica médica. Ela também promove uma série de atividades, como o concurso de beleza Gatinha Mimosa, churrascos e projeções de filmes, para sedimentar o novo conceito de zona.

A instalação da clínica evidenciou ainda uma forma de controle moral. Fazer exames tornou-se não só uma obrigação, mas um temor. Quem evitava o médico tornava-se suspeito de estar doente, aos olhos dos donos de casa e das próprias prostitutas, que condenam comportamentos de risco, como sexo sem camisinha ou sexo anal, classificando-os como "sem-vergonhice" ou "baixa auta-estima". Soraya menciona o caso de uma profissional que, ao ser diagnosticada como portadora do vírus HIV, teve as portas da Vila Mimosa fechadas para ela.

Pesquisa revela tensões do dia-a-dia da zona

O trabalho de campo também registra a tensa relação entre donos de casa e as prostitutas, os conflitos de interesse na disputa pelos clientes, o processo de sedução e de procura no espaço da Vila, a presença de curiosos, entre outros aspectos do dia-a-dia da zona.

No plano da luta política das prostitutas da Vila Mimosa, a etnografia detalha ainda a briga, ao lado do então deputado Fernando Gabeira, para retirar do Código Civil a criminalização de lenocínio, vadiagem e atentado ao pudor. São esses aspectos de criminalização que abrem espaço para a ação e domínio de agentes públicos corruptos nas áreas de prostituição. O livro também trata, numa de suas passagens mais interessantes, da formação da prostituta, a partir de sua chegada e acolhimento na Vila Mimosa. Estão ali ainda os enredos tristes como justificativa moral para a prostituição e o sonho de "largar essa vida" enunciado até por aquelas que assumem o ofício como vocação.



A inquietação que levou Soraya ao campo surgiu ao fazer um ensaio fotográfico sobre prostituição. Ao enquadrar aquelas mulheres em suas lentes, surpreendeu-se ao percceber que, onde achava só haver o outro exótico, ali estava também alguma possibilidade de "nós". Um reconhecimento do gênero através do sexo, não apenas em seu aspecto biológico, no elo que o corpo feminino estabelece, mas igualmente na sua forma social, com todos os papéis que a sociedade reserva à mulher. Tratou-se, portanto, de um encontro que se deu simultaneamente pelo contraste e pela complementaridade.

Associada ao Laboratório de Etnografia Metropolitana (LeMetro/IFCS/UFRJ), coordenado pelo antropólogo Marco Antonio da Silva Mello, Soraya faz parte de um grupo de pesquisadores que se debruçam sobre as questões da cidade, daí o uso de métodos de pesquisa tributários da etnografia urbana contemporânea. Hoje, ela é pesquisadora convidada do Clersé — Centre Lillois d'Études et Recherches Sociologiques et Économiques, da Universidade de Lille 1, na França. Seu livro, com lançamento previsto para janeiro, certamente ajudará o leitor a ver além dos estereótipos e do estigma que marcam amais antiga profissão do mundo.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Vila Mimosa e outras coisinhas



Amigos, perdoem o sumiço. Estou preparando uma resenha para o Prosa & Verso sobre um livro que ainda está no prelo sobre a Vila Mimosa. Trata-se da etnografia feita pela antropóloga Soraya Silveira Simões, que mergulhou naquele universo durante alguns anos e agora nos brinda com um trabalho sério sobre a zona. A resenha sairá no próximo dia 28 (salvo alguma mudança de última hora) e o livro, que se chama Vila Mimosa: Etnografia da cidade cenográfica da prostituição carioca, e chegará às boas casas do ramo em janeiro. Trata-se de pesquisa séria, feita com aguda sensibilidade.



Assim, que terminar esse trabalho, volto aqui com as novidades que foram se acumulando nas últimas semanas, como o promenade et parcours comenté que fiz com cineastas africanos pelas ruas do Centro e do Morro da Conceição, entre outras histórias.



Deixo-os com imagens da Vila Minosa, retiradas do blog do Gasparzinho, não sei quem é o autor.

sábado, 31 de outubro de 2009

A alma imponderável das coisas



Vivo no equivalente ao vigésimo andar. Do alto da torre vejo o mundo abaixo com olhos de monarca. Mas a casa é absolutamente devassada pela cidade. Primeiro há o vento, que a atravessa impetuosamente, sem pedir licença. Às vezes, chega no susto, no de-repente, com raios, trovões e presságios. Às vezes, abre o campo do céu num azul profundo. Até pus uns sinos estrategicamente nos cantos norte e leste, por onde sua corrente passa, para me alertar da chegada súbita do Sudoeste que, sem aviso e em segundos revira toda minha vida de cabeça pra baixo. Mistura papéis, esconde fotografias e perde o parco dinheiro que esqueci sobre a mesa.



Antes do vento, chega a luz, nos primeiros raios da manhã e tudo se esclarece num deslumbramento matinal com gosto e cheiro de café fresco. Se a noite foi boa, se prolonga pelo dia. Do contrário, esvanece. A cidade então começa a chegar pela janela, com seu pregão diário. Nos dias de calma, fins de semanas, são pagodes, churrasquinhos na calçada, cachorros latindo e gritos de futebol. Nos dias de trabalho são sirenes, buzinas, carros e motocicletas passando e as crianças do ginásio ao lado gritando em coro no esplendor histriônico da pré-adolescência:

— Viado! Viado!

— Piranha! Piranha!



Mas a casa é protegida por todos os deuses, sincronismos, patuás e salamaleques. Gosto de pensar nas festas e amigos que chegaram e se acomodaram ao longo dos anos, mas sobretudo nas namoradas, amores que ficaram. Do aparelho de som extraio os sentimentos para a atmosfera que se apresente. Sem falar nos sortilégios para boas companhias. Bola de Nieve, por exemplo, nos jantares com rum ou um tinto rascante se torna irresistível. Principalmente, se na seqüência vier Chet Baker ou Cartola. A alma das ninfas se esparrama pelo futom e todo um universo se abre, enchendo o quarto de mariposas. Quantas histórias começaram naqueles boleros cubanos, tristes histórias de amores fadados ao infortúnio — “no puedo ser feliz, no te puedo olvidar...” —, quantos corações roubados para sempre... Me lembro de Bebel, arrebatada pelo Bola e por mim, que imitava o monsieur Julian para ela. Carla só gostava de rock’n’roll, uma linda mulher, careca e forte.



Em outros momentos, são os livros, os milhares de livros que se apossaram da casa, empilhados, embaralhados... Certas almas embarcam nas narrativas e tecem elas próprias enredos de Sherazade: tudo entra num loop de mil e uma noites. Deborita me encantou quando soltou os cabelos e espalhou seus cronópios pela sala e o quarto. Uma alma de funduras e vôos no infinito. Atravessamos o Planalto em chamas, encontramos Pedro Páramo, Fermina Daza, José Arcadio Buendía, o cigano Melquíades e a menina má, insuportavelmente maravilhosa. Mas nada se compara ao enredo real de sua vida e dos incêndios que atravessou.



Sô, por sua vez, era um fulgor andando pela casa; gostava de se balançar na rede, quase nua, exceto pelo livro que estivesse vestindo. Gostava dos Versos do Capitão, de Neruda, e o Drummond pornográfico. Antonia tinha a alma trágica. Abraçava-se a Vallejo, recitando Os arautos negros com uma dor comovente. Érica gostava mesmo era de inventar coisas na cozinha. Dada a bruxarias e sortilégios, ali era seu domínio. Divergíamos em discussões filosóficas sobre o momento certo de pôr os tomates no picadinho — se na hora do refogado ou mais no fim, quando a carne começava a cozinhar. Dê era a tempestade em copo d’água encarnada em ossos e sangue de tigresa. Um perigo delicioso e felino. Escapei por um triz.



Gosto de sentir a casa assim. Pelos objetos, os livros, os discos, os quadros, as peças recolhidas das viagens pelo mundo ou ganhas de visitantes que passaram por aqui. Essas coisas mágicas têm o poder de abrir universos paralelos e trazer para perto, através da memória das instâncias em que se deram, gente que já vai longe. E assim objetos viram pessoas que me abraçam pela casa.