segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Marché D'Aligre, meu campo em Paris

O mercado coberto, de 1779. Há todo tipo de produto alimentício aí dentro, de loja especializada em azeites de oliva a cortes especiais de carne. Do lado de fora, uma feira comum e outra de antiguidades

O Marché D’Aligre foi criado no século XVIII, localizado entre o fanbourg Saint Antoine e a rue Chariton. Era um mercado criado para alimentar a população da área, composta basicamente de artesãos e comerciantes. Bastante popular e marcado pela presença de trabalhadores e operários, o fanbourg Saint Antoine foi um dos pontos de revolta contra os regimes antigos, que vieram culminar na Revolução Francesa, a derrubada da Bastilha e a criação da República. A parte coberta do mercado foi construída em 1779 e o nome Aligre é uma homenagem a uma viúva que ajudava o orfanato das crianças abandonadas (naquela época, cerca de mil crianças eram abandonadas pelos pais nas ruas de Paris) que eram recolhidas — o Hospice des Enfants Trouvés. Mais tarde, o orfanato foi derrubado para dar lugar à praça Trousseau, mas o mercado coberto permaneceu.

Os vestígios do passado estão por todas as partes no mercado, que abre todos os dias, exceto às segundas-feiras. No domingo, por volta do meio-dia, é o momento de maior movimento e uma boa ocasião para ver a mistura dos antigos (magrebinos, operários, comerciantes e artesãos) e novos moradores do bairro, os bobos (contração da expressão bourgeois-bohème), são jovens de classe média alta, profissionais liberais com dinheiro que estão se mudando para o bairro que, até então, permaneceu popular. Minha amiga, que me hospeda nesse início de temporada, me disse que comprou seu apartamento aqui relativamente barato, mas hoje não conseguiria financiá-lo e, se decidisse vendê-lo, valeria pelo menos quatro vezes mais. Isso porque o bairro está todo sendo reformado, ou revitalizado, como preferem adjetivar as autoridades.

Há um movimento (não sei ainda de quem, se das autoridades ou de parte dos moradores) para não deixar o mercado funcionar todos os dias, com exceção da segunda. Mas já há igualmente resistência. Ontem, havia um abaixo-assinado pedindo para que o Marché D'Aligre continue funcionando como sempre, iniciativa dos comerciantes do mercado.

Ao contrário de Botafogo, onde tudo — vilas, prédios antigos, praças etc. — é derrubado para dar lugar a novos empreendimentos imobiliários, em Paris não se pode tocar nas fachadas. Portanto, as reformas são internas. Do lado de fora, tudo permanece igual. Mas, ao entrar, por exemplo, nas novas lojas que abriram na esteira dos bobos (pronuncia-se bobôs), leva-se um susto : tudo moderno e novinho, com decorações suntuosas. Na esteira dos novos moradores, surgiram no bairro cafés sofisticados, livrarias especializadas (em arquitetura, por exemplo), galerias de arte, entre outros tipos de comércio que vão substituindo os velhos alfaiates, reparadores de bonecos, relojoeiros, entre outros.

Ao mesmo tempo, há resistência às mudanças. Associações de moradores e outros gruos organizados do bairro (centros culturais, ateliês comunitários etc.) promovem discussões e tentam integrar os vizinhos, com a ideia de reforçar uma identidade de bairro. Há ainda uns hotéis que alojam sem-tetos e pessoas pobres com subsídios do governo, mas em vez de cobrar por mês, cobram diárias comuns (70 euros). Esses hotéis acabaram virando favelões, onde vivem sobretudo imigrantes magrebinos. Mas agora, na era Sarkozy, isso está sendo desmontado e as pessoas, realocadas para outras áreas. Ou seja, há claramente um movimento de aburguesamento do bairro, que permite traçar um paralelo com Botafogo.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

De malas prontas

Festa na rua: os tambores uruguaios do Candombe na rua Fernandes Guimarães, em Botafogo

A partir da semana que vem, salvo algum imprevisto burocrático, este escriba colocará a mochila nas costas, uma rede de mosquitos, e irá se aventurar pelo mar bravio, na tarefa antropológica de estudar os nativos gauleses d’além mar. Eles que, como qualquer cultura humana, se julgam o centro do universo e o modelo de civilização, a ponto de duvidar se o resto do mundo é mesmo humano, sobretudo quando pensam em nós, da banlieue do Ocidente, certamente terão um choque ao ver este ser que vos escreve, oriundo dos trópicos, ainda esbaforido do calor de 40 graus, perambulando de bermuda alegremente pelas ruas de Paris, durante os próximos meses.

O que me leva a essa viagem é uma bolsa de pós-doutorado, obtida graças ao apoio do convênio entre a Capes e o Cofecub, do qual o (Laboratório de Etnografia Metropolitana (LeMetro/IFCS/UFRJ), ao qual pertenço, é um dos participantes. Como bolsista da Capes, preparei um plano de estudo que tem a ver com a etnografia que venho fazendo deste pequeno enclave de Botafogo, conformado pelas ruas da Passagem, General Polidoro e Álvaro Ramos e cujas reflexões, venho narrando aqui neste Pendura. Minha idéia é comparar dois bairros de Paris — Belleville e Marché D’Aligre —, que estão vivendo um processo de aburguesamento, com as transformações que estão ocorrendo na morfologia social de Botafogo, pelas razões explicitadas nos posts abaixo. Em Paris, como não poderia deixar de ser, os motivos são distintos, tendo outros fenômenos, como a imigração, por exemplo, como fatores das transformações dos bairros.

Lá, minha pesquisa estará sendo coordenada pelo professor Laurent Thévenot, na École des Hautes Études em Science Sociales (EHESS), ao passo que, no Rio, continuarei com a orientação e o apoio do meu querido prof. Marco Antonio da Silva Mello (coordenador do LeMetro), que me aturou no mestrado e no doutorado. São dois feras das ciências sociais, o que coloca um grande desafio sobre meus ombros. Será um séjour curto, de uns quatro a cinco meses, mas tempo o suficiente para levantar um bom material bibliográfico, participar dos seminários da EHESS e outras instituições acadêmicas e fazer um mapeamento inicial de um trabalho de campo nos dois bairros.

A pracinha Mauro Duarte: de dia balanço, à tarde, festa na rua

Se Botafogo (e o Rio de Janeiro como um todo) tem peculiaridades, como o boom econômico, a realização das Olimpíadas em 2012 e a Copa em 2014, entre outros, como fatores de estímulo a uma bolha imobiliária com impacto na morfologia social do bairro, em Paris, esses dois bairros enfrentam a chegada de forte leva de imigrantes asiáticos e uma classe média, em busca de uma noção de vizinhança “autêntica”. São jovens profissionais liberais, executivos e empreendedores que se mudam para Belleville e Marché D’Aligre em busca de um status distinto daqueles dos chamados beaux cartiers (bairros burgueses), de onde vêm. Um pouco como a onda de morar em Santa Teresa, que atraiu um tipo de classe média carioca. Mas os novos moradores, com hábitos e poder aquisitivo distintos, acabam mudando o perfil do bairro e a noção de autenticidade que os atraíra em primeiro lugar, é a primeira a se transformar em outra coisa.

Também pretendo buscar um contato com as organizações civis que defendem os interesses dos moradores dos bairros, como associações de moradores, centro culturais, órgãos públicos municipais etc. A impressão que tenho, por histórias que ouvi e vendo daqui de longe, pelos sites, é que os parisienses são bastante mobilizados nas questões de bairro e as mudanças lá enfrentam ferrenha resistência. Dificilmente aconteceria lá o boom imobiliário que vem deformando Botafogo, sem uma resistência mais forte. Mas a mudança da identidade de um bairro não se dá apenas pelas transfigurações imobiliárias. As substituições de população, os grupos sociais que vão invadindo e fagocitando trechos, são suficientes para mudar a morfologia da rua, sem que se tenha derrubado um sobrado.

No caso de Botafogo, acho que é importante fortalecer as entidades civis e as iniciativas culturais que reforçam a noção de bairro, de proximidade das pessoas. Hoje, por exemplo, haverá mais um evento na pracinha Mauro Duarte: o bloco do Barbas fará uma espécie de esquenta carnaval. Na semana passada foi o Bola Preta, que transformou a praça num festival de marchinhas. Outro dia, teve uma procissão religiosa pela padroeira do bairro. Também acho que temos que valorizar o comércio de rua, sobretudo os botequins e casas de pasto, mas também, os barbeiros, manicures, sapatarias, padarias, farmácias etc. Locais semipúblicos, onde se troca informações sobre o bairro, áreas de sociabilidade comum. São essas pequenas instituições que fortalecem a noção de bairro a ponto de mobilizar as pessoas contra as mudanças desordenadas, sem critérios comuns, exceto o lucro dos empreendedores.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A cidade dos arquitetos

A pracinha Mauro Duarte e a rua Fernandes Guimarães ao fundo. Mais um condomínio será erquido no local

O assunto está no ar. O Segundo Caderno do Globo publicou uma reportagem interessante da Catharina Wrede no último sábado sobre a arquitetura da cidade. É verdade que teria sido mais abrangente e interessante se a reportagem não tivesse se restringido à visão dos arquitetos, englobando a voz de urbanistas, sociólogos, historiadores, antropólogos, geógrafos e outros pensadores da cidade, assim como, talvez, moradores que vivem nos bairros em constante transformação. Tenho sempre a impressão de que os arquitetos querem o monopólio da discussão sobre a cidade, como se tudo fosse uma questão de linhas arquitetônicas e de fachadas com estilo. E, assim, caímos no velho debate entre a visão racionalista dos modernistas, como Le Corbusier, Niemeyer e Lúcio Costa, ante uma visão mais, digamos, orgânica da cidade.

Mas o fato é que a grande arquitetura que domina hoje na cidade é a arquitetura comercial, dos condomínios fechados, da lógica defensiva, impregnada de uma ideologia elitista e segregacionista dos espaços urbanos. A estética cafona desses empreendimentos é menos importante do que a promessa de exclusividade e auto-suficiência que eles oferecem. A reportagem, que ouviu vários arquitetos, aponta mesmo para o fato de que os estilos arquitetônicos reconhecíveis do Rio de Janeiro pararam na década de 60. Trata-se do que sobrou do período colonial ou das reformas de Pereira Passos, da art déco dos anos 30-40, até os exemplos modernistas da década de 60. A partir daí é um mundo diluído, sem um "rosto" reconhecível, comercial.

Todas essas observações são reconhecidas pelos arquitetos entrevistados pela Catharina. Alguns apontam que o Rio perdeu o papel protagonista na construção de uma identidade arquitetônica brasileira e que os profissionais do setor não se preocupam com o que vai sendo erguido na cidade, de prédios a viadutos, que sobem sem critérios ou discussão. Ou seja, se não há uma discussão arquitetônica, de estilo, muito menos há uma sobre os impactos e os efeitos dessas intervenções na morfologia social dos bairros. Não se trata só de debater linhas estéticas do casario, das avenidas, viadutos, praças etc. mas refletir também sobre como essas construções interferem na vida cotidiana do bairro, das pessoas que moram nele. Por isso, esse debate é sério demais para se restringir a arquitetos.

Enquanto isso, já está anunciada a construção de mais um espigão na saturada rua Fernandes Guimarães, em Botafogo, Solar não sei das quantas. O cartaz indica o sucesso de vendas e que é bom quem estiver interessado correr, pois estão negociando os últimos apartamentos. Mas, nas conversas da esquina, só ouço lamentações. Mais um prédio para fazer sombra nas vilas e casas que restam, mais carros na saturada rua, mais um condomínio exclusivo, fechado e de costas para o bairro, ajudando a esvaziar as calçadas, as praças e a vida da esquina.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Relativizando o bullying


Há uma briga no campo científico e filosófico que opõe nos extremos, de um lado, os defensores das chamadas ciências duras (êpa!), em que os fenômenos naturais são interpretados e analisados, estabelecendo-se leis e conceitos; e, de outro, pensadores e cientistas sociais que vêem os fenômenos, seja qual forem, como o resultado de um constructo, isto é, de uma invenção social. Numa ponta e outra há radicalismo: alguns cientistas e filósofos acham que todos os fenômenos têm uma base natural e portanto menosprezam seu aspecto interpretativo, isto é, a forma como as diversas sociedades humanas se apropriam deles em sua cultura, em seu imaginário, por assim dizer, e mesclam o evento social à realidade natural, confundindo simbioticamente a interpretação do fenômeno com o próprio fenômeno. De outro lado, há aqueles que acham que tudo, absolutamente tudo na vida, é uma construção social e, portanto, não existe fenômeno natural propriamente dito, sem uma base simbólica que o sustente.

Eu penso que os fenômenos naturais estão aí, por si só, mas são interpretados e traduzidos socialmente. Além disso, há também aqueles que são absolutamente construídos, isto é, não existem enquanto força natural per se. Então, por exemplo, se uma maçã cai de uma árvore na cabeça de um cidadão de uma sociedade como a nossa, trata-se, para muitos, da lei da natureza exercendo sua força: a gravidade. Porém, se este homem sobre cuja cabeça cai a maçã for, por exemplo, um nativo zande, a queda da maçã será interpretada como fruto de bruxaria ou uma feitiçaria contra ele, pois não há na sua sociedade a idéia de “mera coincidência” para explicar a queda da maçã no exato momento em que ele passava (mas há, por outro lado, uma especialização complexa do pensamento mágico, distinguindo feitiçaria de bruxaria, por exemplo). Evidentemente, é possível argumentar que, no primeiro caso, trata-se de uma lei natural, inquestionável e incontornável, ao passo que, no segundo, é uma “superstição” que não anula a existência da primeira lei.

A briga está exatamente aí: para alguns cientistas sociais, a lei da natureza, no caso, a queda da maçã sobre a cabeça de alguém, independentemente de sua verdade científica, é igualmente uma construção social da realidade, uma interpretação que vai colada ao fenômeno natural, e, portanto, também está no mesmo nível da explicação que os azande dão para o ocorrido. Quando a coisa é colocada nesse nível, cria-se um problema epistemológico sério, pois há aí aparentemente uma relativização de leis naturais, independentemente da natureza absoluta de suas regras. A gravidade existe para além de qualquer interpretação, mas ela só pode se tornar inteligível dentro do mundo simbólico das sociedades e, assim, terá também um viés interpretativo que adere ao fato natural.

Afirmar isso é perigoso, pois pode passar a impressão de que se está querendo relativizar leis naturais que, por si só, não se prestam a esse jogo. Além disso, há o risco de mergulhar numa relativização interminável, em que tudo é diluído ante a constatação que tudo é, afinal, uma interpretação. Embora as leis da física, dos fenômenos naturais, enfim, estejam aí por si só, independentemente de serem interpretados como gravidade ou feitiçaria. Outros eventos, de cunho mais explicitamente social, podem revelar o quanto as sociedades vivem de constructos simbólicos (me lembro, por exemplo, de um lindo texto de antropóloga Soraya Silveira Simões sobre o sentido de rito de passagem do réveillon, que dá à passagem da meia-noite um significado tão extraordinário e mágico quanto arbitrário).

Ultimamente, por exemplo, fala-se muito em bullying, para descrever um fenômeno relativamente antigo, como nos mostra a literatura e os filmes, nos colégios, na vizinhança, na rua. Passei minha adolescência em colégio público aprendendo a evitar a violência física e psicológica dos chamados valentões (me lembro, nos anos 70, em Ipanema, a figura do Brau, um valentão que saía à rua em busca de briga). Sair incólume exigia estratégias e disciplina e, sobretudo, forçava a busca de uma sociabilidade, em que o grupo acabava por formar um corpo protetor, onde também se aprendiam os limites e a impotência da lei. Percebendo a coisa por este ângulo, o fenômeno da violência entre adolescentes tem, igualmente, um sentido social. Evidentemente, sempre houve exageros, dramas e até mesmo tragédias, como resultado disso e de seu aspecto verdadeiramente patológico (afinal, incendiar mendigos e índios e agredir prostitutas é um outro nível de delinqüência juvenil, decorrente sobretudo da falta de empatia com o outro e, ao meu ver, resultado do isolamento defensivo dos grupos sociais fechados em si mesmos).

Mas voltando ao bullying, cria-se uma palavra para interpretar e descrever o antigo fenômeno. E, com isso, cria-se também uma nova patologia social, cujos sintomas são descritos como se fossem uma novidade, coisa que nos chegou agora, importada da TV. E lá vão pais, autoridades, psicólogos e outros especialistas tratar do velho fenômeno, agora, renomeado e sintetizado numa nova palavra, não à toa, estrangeira, apresentando-o como um problema novo de nosso tempo. Aumenta-se o controle nas escolas, constroem-se mais e mais condomínios fechados e exclusivos, e isolam-se as crianças e adolescentes da rua, o espaço necessário para o desenvolvimento de uma socialização urbana, de um aprendizado fundamental que é o de convivência com o outro simultaneamente desconhecido e próximo.

Algumas sociedades sequer têm a noção de adolescência. Nelas, a criança, após ritos de passagem relativamente complexos, muitas vezes violentos e profundos de significados, torna-se adulto no meio social. Em algumas sociedades indígenas, por exemplo, meninos e meninas ficam reclusos por um período de iniciação, quando aprendem respectivamente as coisas de homens e de mulheres, para depois, num grande rito, serem reconhecidos pelo grupo, e por si próprios, como tais. Na nossa sociedade, há a adolescência, esse longo e tortuoso caminho de aprendizado, em que paulatinamente aprende-se a viver como adulto na sociedade.

Assim, ao contrário da lei da gravidade e outros fenômenos físicos da natureza, adolescência e bullying são construções estritamente sociais. O que não diminui sua força como verdade que se impõe. Pelo contrário, são termos apropriados e introjetados tão absolutamente que podemos jurar de pés juntos que fazem parte da “natureza”, e por isso dizemos: “É natural que assim seja.

O grande barato disso tudo é poder ver como cada grupo humano cria e recria sentidos para as coisas que o cerca, revelando uma possibilidade infinita de invenção e criatividade. Ao mesmo tempo, ao colocar as coisas nesses termos, tiramos dela o seu caráter indiscutível, irreversível e absoluto — esvaziamos, por assim dizer, sua “natureza” —, o que também amplia o campo de possibilidades humanas de transformação e aprendizado. Mas isso só é possível no contato com o outro, na diversidade, na compreensão de que não somos o centro do universo.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A sabedoria ecológica

Devastação em Teresópolis na imagem do colega do Globo Gabriel de Paiva

O volume de chuvas que atingiu a Região Serrana não foi o maior já registrado, revelaram hoje os jornais. Mas mesmo assim, foi um volume anormalmente maior do que o convencional para o mês e se deu após vários dias de chuvas contínuas, que já haviam encharcado o solo, potencializando os deslizamentos. Além disso, as nascentes de rio, no alto das montanhas, sobrecarregadas com o volume d’água, desceram como tsunamis, em direção aos vales, onde está boa parte das residências. Em menos de 15 minutos, a água subiu de cinco a dez metros, quando muita gente ainda dormia. Não deu tempo para nada.

As moradias nas áreas de risco foram devastadas, como era de se esperar num caso como esse. Mas a chuva atingiu muito mais do que as regiões condenadas pela Defesa Civil. O Centro de Nova Friburgo, por exemplo, teve prédios desabando e as ruas transformadas em um mar de água barrenta e, mais tarde, lama. A quantidade de gente desaparecida e o impacto de doenças como leptospirose, hepatite e tifo certamente vão elevar o número de mortes, que já é recorde. O processo de reconstrução será lento e doloroso e certamente deixará cicratizes emocionais.

Vemos uma ocupação desordenada. O fluxo de migrantes das grandes cidades para as cidades de porte médio do estado (e do país) cresce a cada ano, com as pessoas buscando uma qualidade de vida melhor, justamente porque há uma noção muito precisa de que as cidades estão saturadas a ponto de não poder mais oferecer formas de vida de proximidade, que cidades menores ainda oferecem. Bairros como Botafogo, que ainda têm uma vida provinciana, no sentido da proximidade e da convivência, estão rapidamente se fechando em condomínios defensivos e exclusivos. As pessoas que precisam da presença do outro então se mudam para o interior. O problema é que essas cidades menores não têm estrutura para receber tanta gente.

Ironicamente, tenho um amigo que se mudou para Petrópolis em busca da tal qualidade de vida melhor que uma cidade como o Rio, segundo ele, não pode mais oferecer. Além disso, ele acredita no calendário maia, que prevê uma grande inundação das regiões costeiras dos continentes em 2012. “Vou para o alto da montanha”, me disse. “Isso aqui tudo vai alagar!”. Bem, felizmente sua casa nova não sofreu com as chuvas. Mas não resisti em dizer a ele que os desequilíbrios que o homem está provocando na natureza terão conseqüência em qualquer lugar. Na Serra ou no litoral.

Estamos passando por mudanças climáticas agudas e não dá mais para tapar o sol com a peneira: esses fenômenos verificados em todo o planeta são o efeito do aquecimento global. Lá no jornal, conversando com especialistas, eles chamam a atenção para a coordenação desses eventos. As inundações na Austrália e no Brasil, na mesma faixa hemisférica, associadas a um verão com temperaturas bem quentes e muita umidade, se completam com invernos rigorosíssimos no Norte, com nevascas intensas. Tudo parte do mesmo ciclo ecológico.

A ecologia ampla, abrangendo a sua vertente que estuda o comportamento humano nas cidades, deve ser uma forma de sabedoria cada vez mais incorporada. Não dá para deixar apenas a idéia de desenvolvimento econômico nortear o rumo das coisas. O planeta é finito. Os recursos naturais escasseiam, é preciso desde já proteger mananciais de água doce e habitats naturais e garantir formas sustentáveis de exploração desses recursos. Está na hora de unir a noção de desenvolvimento econômico à idéia de crescimento sustentável.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Mais uma vez a cidade

Rua da Passagem, em Botafogo: o velho e o novo lado a lado: Reparem como os novos empreendimentos são afastados da calçada e da vida na rua


Esse blog está se transformando numa espécie de arqueologia da vida urbana. Li hoje que a livraria Letras & Expressões do Leblon fechou as portas definitivamente. A última livraria de rua da Ataulfo de Paiva. Também me lembro que há alguns anos a farmácia Piauí, do outro lado da rua, quase fechou e acabou mobilizando certa reação dos vizinhos, acostumados a comprar seus medicamentos ali. A Modern Sound, que fechou no último dia de 2010, era a última de dez lojas de discos de rua em Copacabana. Nos Estados Unidos, li outro dia, o sistema de alugar filmes pela internet matou as locadoras de vídeo no país.

Tudo isso faz parte, evidentemente, do ciclo incontrolável da vida urbana. As cidades se transformam continuamente. Novas gerações vão ocupando os espaços e consumindo a cidade a seu jeito. Novos empreendimentos financeiros e comerciais se sucedem a partir de demandas, mas também moldando os gostos do consumidor. Os condomínios auto-suficientes, que se multiplicam em Botafogo, não vendem apenas imóveis, mas igualmente estilos de vida, noções de mundo, valores morais, muitos deles forjados em campanhas de marketing.

Meu colega de jornal Rogério Daflon citou o Pendura Essa no blog Rio, régua e compasso, hospedado no site do Globo (aqui), num post intitulado Território da especulação selvagem, mencionando os posts abaixo sobre a ocupação desenfreada de Botafogo. Foi legal mais uma vez constatar que o assunto dá Ibope e mobiliza as pessoas. Algumas criticam o tom crítico das observações, afirmando que o bairro está melhorando com as novas construções. A maioria, no entanto, vê com preocupação a transformação, sobretudo no que se refere ao impacto ambiental e urbano que o aumento da população (e de carros) provocará.

É impossível deter o movimento de transformação das cidades. A cidade, como dizia Robert Ezra Park, um dos pais da Escola Sociológica de Chicago, não é composta apenas pelo aglomerado de ruas, avenidas, praças e prédios, mas sobretudo pelos sonhos e desejos das pessoas que as habitam. Novos usos dos espaços públicos, novos tipos de comércio, novas maneiras de morar, conviver e compartilhar os espaços comuns etc. são coisas que estão em constante movimento à medida que as gerações se sucedem. Mas isso não significa que devemos permanecer acríticos e despreocupados quanto às formas como forças econômicas poderosas loteiam os bairros em nome do lucro.

O mercado imobiliário está extremamente aquecido. A expansão econômica dos últimos anos, os projetos esportivos previsto para a cidade nos próximos anos (Copa e Olimpíadas), os mecanismos de financiamento imobiliário e a nova lei do inquilinato estão fazendo os preços saltarem para além dos fundamentos econômicos do mercado, gerando o que os economistas chamam de bolhas que, em algum momento, podem estourar. Isso tudo pressiona incorporadoras, construtoras e imobiliárias e maximizar a construção de seus empreendimentos e cabe às populações, através de suas associações, e ao Poder Público o controle desse processo, para que se estude e previna os efeitos do impacto ambiental dessas iniciativas na vida dos bairros.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Modern Sound, o fim de uma era

A Modern Sound fecha as portas definitivamente no dia 31 de dezembro

Amigos, reproduzo abaixo um post recente em que antecipava o fim inevitável da Modern Sound, conforme noticiado nos jornais esta semana, afetada pelas transformações no mercado do disco. Com o fim da loja, acaba um dos melhores espaços de música ao vivo da cidade, e dos mais baratos. O clima musical da loja, criado não só pelos produtos à venda, mas sobretudo pela presença constante de músicos, DJs, produtores musicais, estudantes e amantes da música, é insubstituível. Havia um intercâmbio constante de idéias e informações sobre o mundo do disco, dos shows etc. Quem viveu, viveu.

Mergulhamos agora na era do superindividualismo. Cada um no seu canto, com seu iPod ou coisa que o valha, sem ouvidos para o mundo que o cerca. O compartilhamento de sons e idéias, só por e-mail e afins. Para ouvir um bom show, só pagando os preços exorbitantes que se cobram por aí. Para comprar CDs, só baixando na internet ou indo ao supermercado. Como lembra o Pedro Tibau, um dos sócios, há dez anos havia 40 lojas de discos em Copacabana, hoje, só resta a Modern.

Mas a loja vai fechar as portas no dia 31 de dezembro e, até lá, venderá seu acervo de CDs e tais com 30% de desconto. Também vale a pena conferir a programação musicial até o último dia do ano.

O silêncio ronda a Modern Sound

Uma sessão de jazz na Modern Sound, no sábado pela manhã

O tempo escorre pelos dedos, incessante, para sempre... O mundo digital vai se insinuando em nossas vidas de forma tão avassaladora quanto silenciosa. Quando nos damos conta, nossos hábitos já mudaram. Há alguns anos, estava almoçando com minha amiga Denise Lopes no bistrô da Modern Sound, o Allegro Bistrô. Era uma feijoada despretensiosa para abrir o sábado de folga. Por coincidência acabamos numa mesa a menos de um metro do palco, onde rolava a tradicional sessão de jazz e bossa nova da programação da manhã da casa. Naquele sábado era o quarteto do saxofonista Idriss Broudrioua, com Sergio Barroso, no baixo; Boto na batera; e Dario Galante, no piano. A poucos metros de nossa mesa, meio escondida por uma pilastra, almoçava a mesma feijoada nada menos que Leny Andrade, com amigos.

Leny Andrade dando uma canja na apresentação de Idriss Broudrioua: feijoada e jazz

Ao percebê-la, chamei a atenção de Denise, afirmando que apostava que ela ia acabar dando uma canja. Ficamos ali na expectativa e, dito e feito. Lá pelas tantas, Idriss convida a diva para cantar com o grupo. Ela reluta, diz que está almoçando, mas as palmas do público e a insistência do saxofonista francês acabam falando mais alto. Leny então sobe ao palco, Pedrinho Tibau rapidamente providencia um microfone e abre um canal na mesa de som. E lá fomos nós embalados por uns cinco ou seis temas, com direito a improvisação vocal e o escambau.

Leny dando canja para deleite do público da Modern

Me lembrei então de uma frase do Ruy Castro: a Modern Sound é o único lugar do mundo onde se ouve jazz e boa música pelo preço de uma coca-cola. E é verdade. Se em vez de feijoada eu estivesse apenas bebendo um refrigerante, era isso que a conta traria no final. O Lula Vieira me disse certa vez, emocionado, que em todas suas viagens pelo mundo nunca havia encontrado um lugar como a Modern. Nem mesmo em Nova York, cidade dos night clubs, como Blue Note, Village Vanguard, entre tantos, você encontra um ambiente tão musical como a Modern. Meu orientador na tese, prof. Marco Antonio da Silva Mello, é outro fã incondicional. Ele, que é compositor nas horas vagas de temas sofisticadíssimos, encontra ali um espaço de puro prazer. Todos os gringos que levei lá piraram. E olha que levei muito gringo lá.

O Arthur Dapieve certa vez escreveu uma belíssima crônico sobre a inutilidade de resistir à tentação que os CDs exercem a um desavisado que garimpe nos móveis da Modern. Quantas vezes me vi nessa situação. Me lembro que deixei boa parte de uma indenização recebida na loja, e saí satisfeito com umas cinco sacolas de CDs. Minha amiga Bia Caiado lembra das dicas do Pedrinho: mais do que dicas, seduções de um vendedor de discos.

É um ambiente freqüentado por músicos e periféricos. Gente com instrumentos ou CDs, perambulando palas baias onde se garimpam preciosidades difíceis de encontrar. O papo é sobre arranjos, partituras, concertos e shows, instrumentos musicais, jam sessions, timbres e petit histoires e anedotas que viram lendas e mitos. Vi ali figuras no início de carreira a músicos consagrados, como Paulo Moura, Claudio Roditi, Carlos Malta, Mauro Senise, Nivaldo Ornellas, entre tantos. E amigos queridos, como Andrea Dutra. Vi shows antológicos de samba e MPB, com Moisés Marques, Edu Krieger, Orquestra Lunar, Bárbara Mendes, Maria Rita e Monica Salmaso. Vi dois shows do meu pai, Gaudencio Thiago de Mello. Enfim, a Modern é um lugar de músicos e amantes de música.

Show do meu pai na Modern Sound

E é também um botequim, não na sua infra-estrutura, mas na sua atmofesra calorosa. Quer dizer, por trás de toda aquela sofisticação tem um ambiente absolutamente relex, informal e barato. A loja tem mais de 40 anos e começou com a venda de discos importados pelo patriarca da casa, Pedro Passos, que, diga-se de passagem, foi dono do botequim Rosa de Ouro, no Baixo Voluntários, antes de abrir uma portinha para vender seus discos, na galeria do antigo cinema Bruni Copacabana. A casa sobreviveu à crise que devastou suas rivais (como a Bill Board) graças a um estoque variadíssimo. Na Modern se encontra desde Reginaldo Rossi a gravações raras de Von Karajan. Uma puta seção de clássicos e outra de jazz. Mas também, música do mundo, rock'n'roll, pop, trilhas, MPB, importados, independentes, caseiros e por aí vai. Me lembro que comprei discos vinis de Marlui Miranda, Bola de Nieve e Dom Salvador. Depois, CDs de Ani DiFranco, Serge Gainsburg, Papa Wemba, Miossec, uma versão japonesa dourada do Kind of Blue, com Miles Davis, John Coltrane, Bill Evans e Cannonball Arddeley.

Mas aí chegou a era digital. E como disse lá no início, o tempo escorre e o mundo muda. E esse lugar único, está com os dias contados. Conversando outro dia com Pedrinho Tibau, ele desabafou:

— A internet matou os direitos autorais. Das fotos à música, todos baixam tudo pela internet, de graça. Não tem como concorrer com isso. E logo, logo o setor literário também vai entrar nessa onda, com os leitores digitais. Vamos ver as livrarias desaparecer, como estamos vendo as lojas de disco.

Há uma proposta de transformar o lugar num miniCanecão, uma casa de shows de médio porte e um palco menor para concertos mais comedidos, reduzindo o espaço da loja de CDs. Neste momento, enquanto escrevo estas mal traçadas, alguns possíveis investidores analisam a proposta. O Rio de Janeiro está mesmo precisando de um lugar como a Modern. Um lugar que não seja nos confins da Barra da Tijuca e que não cobre um olho ou uma orelha por um show. Já perdemos o Mistura Fina, o Tio Patinhas, o Ponto de Encontro, o Beco das Garrafas, o Hipódromo Up, o Cinemathèque, e tantos outros. Se ficarmos sem a Modern, o Rio ficará mais silencioso. Todo mundo ouvindo seus iPods turbinados, individualmente, mas sem um lugar para os músicos e os amantes da música transitarem, se encontrarem, sem jam sessions, sem improvisações. Terei que pagar R$ 200 só de ingresso para ouvir Leny Andrade numa casa de shows da Barra da Tijuca.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Visite Botafogo antes que acabe

A velha guarda no Vol au Vent, domingo à tarde.

Mal tinha baixado o post anterior sobre este enclave de Botafogo, delimitado pelas ruas da Passagem, General Polidoro e Álvaro Ramos (clique aqui) e, ao sair do prédio onde moro, na Passagem, esbarro com jovens tremulando bandeiras coloridas e vendedores distribuindo panfletos do condomínio que será erguido à rua Arnaldo Quintela, onde funcionava o prédio da Oi, quase em frente ao bar Vol au Vent. O marketing do panfleto não deixa dúvida sobre o tipo de sonho imobiliário que o empreendimento, chamado Opera de Milano Residenza, está vendendo: “chegou o 3 e 4 quartos que vai deixar Botafogo muito mais elegante e sofisticado”.

É um projeto da João Fortes Engenharia que está sendo comercializado pela Patrimóvel, com imóveis entre 89m2 e 119m2, cujo valor inicial do metro quadrado é de R$ 7.400, ou seja, estamos falando de mais de R$ 650 mil por um apartamento de três quartos, preço impensável há um ano. Mas, segundo a vendedora com quem falei à porta da obra, trata-se de uma pechincha, pois um empreendimento rival na esquina (Solar alguma coisa) está pedindo mais de R$ 8 mil pelo metro quadrado. Nessa realidade de preço, chego à conclusão que o valor de R$ 1,5 milhão proposto ao dono do Vol au Vent não é nada. Como as novas construções do bairro, o condomínio oferece salão de jogos, churrasqueira com forno de pizza, área de repouso com SPA, sala de brinquedos para crianças, sauna a vapor e uma imensa piscina. Elementos que, segundo a ideologia que movimenta tudo isso, vai melhorar e sofisticar o bairro.

O panfleto do Opera di Milano: exclusividade e sofisticação

O que temos aí, portanto, é o choque de mentalidades diferentes que se digladiam em torno do território, esbarrando-se nas esquinas. E o que tenho visto em Botafogo, simplificando perigosamente o raciocínio, são visões de mundo que valorizam, de um lado, uma idéia de “autenticidade”, presente nos moradores mais antigos, e, de outro, uma noção de “exclusividade” e “sofisticação”, presente no marketing de imobiliárias e construtoras direcionado a um consumidor de renda mais generosa.

Evidentemente, estou simplificando as coisas ao colocá-las nesses pólos. Na verdade, é tudo muito mais complexo, inclusive se formos considerar aspectos de preconceito e discriminação social, políticas de reforma urbana, forças políticas de variadas tendências que disputam o espaço público e os territórios da cidade, o problema das ocupações, favelização, remoções etc e tal. Mas ao conversar com esses moradores, novos e antigos, do bairro, percebe-se o encontro e o desencontro de noções do mundo distintas no que se refere a habitar e a conviver: enquanto uns valorizam uma idéia de “autenticidade”, outros pensam em “exclusividade”.

Sem querer ser exageradamente esquemático e fetichista, vejo que nessas conversas está, de um lado, o habitante que busca conforto, status e segurança num condomínio exclusivo (e, se é exclusivo, é diferente do convencional e, portanto, isolado, distante e distinto); e de outro, o morador antigo, que se vê como representante “legítimo” e “autêntico” dos valores culturais do bairro, que participa de sua vida, instituições, festividades e boemia (e, portanto, se sente integrado).

Pode ser a roda de samba espontânea no Bar da Adelina, puxada por Seu Vavá, ou a procissão de Santa Cecília, padroeira de Botafogo, ou ainda o Bloco do Barbas no carnaval, ou simplesmente o comércio de rua. São valores que o morador mais antigo vê, de modo geral, ameaçados ou pelo menos não compartilhados por esse novo vizinho, mais rico e distante, física e socialmente, dele.

O casario da praça Mauro Duarte, com ruas São Manuel e Fernandes Guimarães: na esquina (com toldo verde) funciona o Sabor da Morena

Alguns conflitos evidenciam esse distanciamento. Um condomínio erguido há dois ou três anos na rua Fernandes Guimarães, por exemplo, trouxe moradores que destoam dos vizinhos das vilas e velhos prédios da rua. O samba que ocorria no bar Sabor da Morena foi um dos pontos iniciais de conflito. Algumas reclamações no disque-ruído e o bar acabou autuado pela prefeitura. Por outro lado, no playground do novo prédio, quase que todos os sábados ocorrem festas de aniversário de crianças, com palhaços e música da Xuxa em alto volume, o que, por sua vez, incomoda os moradores da vila ao lado. A diferença é que estes não usam ou não conhecem o recurso de reclamar com o disque-ruído.

Lembro-me sempre da pesquisa de um amigo antropólogo da UFF sobre o ruído. Ele pesquisou as reclamações do disque-ruído, chegando à conclusão que o problema não era o ruído físico em si, o volume de decibéis propriamente dito, mas sim “quem” produzia o barulho. As reclamações eram todas adjetivadas: “uma macumba infernal”, “um samba de malandros”, “um funk de bandidos”, “um culto pentecostal” e assim por diante. Dependendo de quem fazia o barulho, o delito era mais ou menos tolerável. Talvez, se na Morena, em vez samba, rolasse um jazz...

De qualquer modo, esses conflitos entre vizinhos têm um lado bom Significa que ainda há diversidade no bairro. Isto é, que diferentes tipos de noções de cidadania, de usos dos espaços públicos e de civilidades convivem e às vezes se chocam. A convivência de diferenças é que torna um lugar vivo. Basta ver o exemplo do Greenwich Village, em Nova York, tão bem retratado por Jane Jacobs, no livro Morte e vida de grandes cidades. O Village foi um bairro interessante, dinâmico, abrigando gente rica e operários, músicos, artistas e escritores e comerciantes, negros e latinos, entre outros grupos sociais. Foram os conflitos dessa convivência rica que marcaram a dinâmica do bairro. Com tantas diferenças, o espaço público acabou preservado como o espaço de todos (aqui, se tem, por exemplo, o carro que estaciona ocupando toda a calçada, ou o condomínio que privatiza a rua com cancelas e segurança)

Quando o aburguesamento — ou gentrification, como preferem os britânicos e americanos — tomou conta do Village, os moradores antigos, sem condições de arcar com o novo custo de vida estratosférico, se deslocaram para outras áreas de Nova York, como o Brooklyn, e o Village virou um lugar caro e sem a vida interessante que tinha antes. Mais um arremedo estiloso e marqueteiro do que fora dos anos 20 aos 80. Um pouco como o Leblon dos anos 60-70.

Botafogo tem uma vocação para ser um bairro dinâmico. Cinemas, bares, comércio de rua (e shoppings também) em uma região que faz a ligação entre o Centro e a Zona Sul do Rio. E, ao mesmo tempo, é um bairro de tradição, na boemia, no samba, na vida comunitária (veja a luta dos moradores para criar a Praça Mauro Duarte, que teria virado outro espigão, não fosse a mobilização de vizinhos). Botafogo ainda mantém boa parte do casario antigo, das vilas, dos prédios baixos e uma dinâmica quase interiorana em alguns trechos, como no enclave Passagem-Polidoro-Álvaro Ramos. Mas a velocidade com que novos empreendimentos vêm tomando conta do lugar ameaça esse equilíbrio dinâmico, sustentável e saudável.

Como diz meu amigo Jason Vogel: "Visitem Botafogo antes que acabe."

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Crônica de uma morte anunciada

O Vol au Vent, na Arnaldo Quintela, à frente da vila. Ao lado, o terreno de uma nova obra, após a derrubada do velho casario, e ao fundo um condomínio novo ainda em obras: um retrato do bairro

Como muitos pés-sujos da cidade, o Vol au Vent, apesar do nome chic, é um botequim simples, montado numa casa de rua, à entrada de uma vila na rua Arnaldo Quintela em Botafogo. Trata-se de um balcão simples, de um lado, e duas ou três mesinhas, do outro. Na calçada em frente ao bar, vasos de planta delimitam o território e impedem que um desavisado qualquer estacione seu carro ali. Aos domingos, a velha guarda do bairro freqüenta a casa, em frente à qual é armada uma churrasqueira. É a turma do Bar da Adelina, que, como Deus, descansa no sétimo dia da semana e não abre seu boteco na rua vizinha Rodrigo de Brito.

Essa festa dominical, porém, está com os dias contados. A informação já corre solta entre os convivas: uma construtora ofereceu R$ 1,5 milhão ao dono do singelo botequim, para transformá-lo em pó. O resto da vila já foi vendida, asseguram os fregueses. Em seu lugar subirá mais um condomínio, dos muitos que vem transformando as feições de um dos bairros mais charmosos do Rio. Charme, diga-se de passagem, que atrai as pessoas, enobrece a área, mas que, na sofreguidão com que as construções se sucedem, vai acabar por matar essa sua característica de lugar especial.

Meu amigo, colega de Globo e vizinho no bairro, Jason Vogel, foi quem me apresentou os dois botequins. E sobretudo seus personagens, moradores antigos de Botafogo, como Adelina, Lea, Vera e Seu Vavá, entre outros. Personagens que contam a história do bairro e acompanham com preocupação as grandes modificações que vêm alterando o modo de vida desse enclave de Botafogo, delimitado pelas ruas da Passagem, General Polidoro e Álvaro Ramos. É um trecho antigo, com muitas vilas, prédios baixos sem elevador, praças, esquinas, comércio tradicional de rua e gente que se considera filhos “autênticos” do bairro, participando de suas instituições e manifestações públicas, como o bloco de carnaval, associação, entre outros.

Mas o bairro também vem sendo ocupado por outro tipo de habitante, trazido sobretudo pelas recentes construções de condomínios modernos, gradeados, com as janelas distantes da rua, e moradores com poder aquisitivo maior e hábitos de consumo distintos. Sua presença crescente modifica a chamada morfologia social do bairro. Não apenas porque cada nova edificação significa a destruição de vilas e prédios antigos, mas também porque os novos habitantes não partilham dos mesmos valores comuns. Com eles, começam a chegar também novos tipos de comércio, coiffeurs no lugar de barbeiros, cafés no lugar de botequins, bancos no lugar de oficinas mecânicas, e assim por diante.

Do mesmo modo, os preços dos produtos começam a subir à medida que os comerciantes percebem que estão lidando com um consumidor com maior poder aquisitivo. Os preços dos imóveis, valorizados numa bolha financeira que se alimenta da expansão econômica e de eventos como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, saltam. E com eles, os dos aluguéis também, estimulados ainda pela nova lei do inquilinato. Os condomínios modernos, auto-suficientes, cobram taxas exorbitantes, mas oferecem estrutura de clube, desestimulando a presença do morador na rua. Nessa nova realidade de preços, os moradores de renda mais baixa se vêem pressionados a deixar o bairro.

Em resumo, Botafogo passa por um processo de aburguesamento, como ocorreu com o Leblon nos anos 70, com o impulso de Sergio Dourado, que transformou o bairro de área de classe média baixa em um dos metros quadrados mais caros da cidade. Eu, que vivi no bairro nos anos 60, me lembro de aviários em plena rua Dias Ferreira, um tipo de comércio impensável hoje em dia. Apesar disso, o Leblon manteve a vida na calçada, graças a sua robusta boemia, consolidada desde os tempos da Bossa Nova, nos anos 50. Do contrário, seria um bairro de ruas vazias.

Não é o caso de Botafogo, onde a lógica dos novos condomínios (a cada semana empresas como a CHL erguem um novo espigão no bairro) é o de moradia defensiva. Isto é, o condomínio fornece o máximo possível de serviços e segurança (dos equipamentos aos profissionais) e estimulam o morador amedrontado a evitar o máximo possível a vida nas calçadas. Em algumas calçadas, transformadas por esse tipo de construção e sem comércio de rua, já é possível constatar o vazio, que, isto sim, torna o local ermo e perigoso.

Quando esse assunto aflora, todos parecem concordar que o processo de ocupação do bairro deveria ser feito com cuidado e não sofregamente, como ocorre hoje, estimulado por todos os motivos citados acima. Mas também há um ar de desalento e desestímulo entre os moradores que se consideram “autênticos” representantes do bairro. O poder público tampouco se manifesta, refém de grandes incorporadoras e imobiliárias que estão financiando parte da reforma urbana da cidade, através de parcerias público-privadas. E ninguém discute o tipo de bairro e cidade que se quer construir. Mais uma vez, a vida de um bairro carioca será determinada pela avalanche de novas construções, sem que se tenha um estudo de impacto, de crescimento sustentável e que preserve o patrimônio físico e simbólico de Botafogo, e que, sobretudo, considere as variadas noções de vida dos moradores.

Enquanto isso, a velha guarda aproveita aos domingos as últimas cervejas geladas do Vol au Vent, antes da chegada dos tratores.

sábado, 13 de novembro de 2010

O samba chegou na primeira hora


Outro dia, chegava em casa vindo do jornal, exausto, a meia-noite já se anunciando, quando no boteco da esquina esbarro com meu querido mano véio Gabriel da Muda, numa mesa repleta de músicos e poetas. Com sua voz de trovão, ele manda:

— Você será o primeiro a ganhar meu CD, que acaba de sair do forno — disse, enquanto me passava o primeiro exemplar de O que vai ficar pelo salão, ainda com cheiro de fábrica, retirado da caixa de papelão onde outras 24 unidades compunham a primeira leva da impressão.

Ele estava ali com os músicos e seu parceiro na poesia das composições, Roberto Didio, celebrando o trabalho. Apresentações feitas, agradeci o presente e o privilégio como pude, oferecendo o CD Disk-Tum-Derrei, do meu pai, Gaudencio Thiago de Mello, que, por coincidência, levava lacrado na mochila. Reciprocidade.

A vida tem dessas sincronicidades bacanas.

Mas o gesto generoso de meu amigo se completou mesmo no dia seguinte, quando, ao tomar café da manhã, botei o CD pra tocar. Que beleza! A música preencheu a casa, numa gravação de altíssima qualidade, os instrumentos presentes na mesma intensidade da poderosa voz de Gabriel, que no CD assina como Gabriel Cavalcante. O disco todo é bom. Tem convidados especiais, como Áurea Martins, Cristina Buarque e Moacyr Luz, que foi quem, aliás, me apresentou ao Gabriel num tarde memorável no Armazém Senado, com Paulinho Lemos, compositor brasileiro radicado na Espanha.

No CD, que mostra o maduro lado compositor de Gabriel, tem ainda uma pérola de Moa e Didio, o Cio e a paz, que, na voz de Gabriel, evocou a mesma emoção que senti ao ouvir pela primeira vez Sinal fechado, de Paulinho da Viola. Ou seja, a nova geração do samba mostra que está aí sem dever nada à velha guarda. Belíssimo trabalho.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Les Demoiselles D'Avignon


Les Demoiselles D’Avignon, de 1906, é considerado um marco do modernismo e o evento que deu início ao cubismo como movimento, mesmo não sendo ele um quadro cubista no sentido estrito. É uma dessas obras que ficam no limbo das conceituações, dando margem a uma miríade de interpretações e alumbramentos. Escapa inclusive à própria intenção do autor, por algum mecanismo que se insinua, vindo do fundo do inconsciente, com uma força que se sobrepõe ao projeto autoral. Porém, mesmo tendo esse percurso incontrolável e selvagem — na verdade, justamente por ser assim — produz um resultado íntegro. Por isso é tão perturbador. O próprio Picasso ficou incomodado com aquela tela de dimensões desproporcionais que tantas reações causou às mentes racionalistas daquele então.

Dizem os especialistas que, iniciada em 1905, sua pintura foi encerrada abruptamente no ano seguinte, deixando o quadro incompleto. Parece que Picasso queria acrescentar dois homens vestidos entre as mulheres nuas, mas desistiu. A tela estava pronta independentemente da vontade do pintor. A obra se impôs na força das mulheres nuas, nos seus rostos distorcidos, no movimento da imagem, em sua luz e cores e na fúria das pinceladas... e se tornou arrebatadora. Imagine uma mente cartesiana e puritana, tão comum naqueles tempos (como hoje, talvez) olhando aquele delírio erótico. Justamente no auge do mundo das certezas, naquele começo de século XX, o raciocínio lógico e moralista seria tão confrontado pela arte moderna, pela psicanálise, pela antropologia, pelo urbanismo, pela arquitetura, pelas revoluções utópicas...

As Demoiselles inauguram um tipo de arte que se presta mais firmemente a esse tipo de ilusionismo da alma. Um traço a mais, uma pincelada um pouco mais forte e lá vem uma imagem que estava escondida no inconsciente do pintor, além ou aquém de sua intenção racional e muito mais do que uma tradução de sua intuição emocional. Talvez, uma questão de soltar a mão e deixar o fluxo do movimento seguir o curso numa semi-consciência. E Picasso foi sábio o suficiente para saber que naquela tela havia algo que surgira para além de sua intenção, algo que mudaria para sempre o fluxo das coisas, como só uma obra de arte pode fazer.

Por isso me incomoda muito a idéia da arte como mero entretenimento. Como algo que existe para nos alegrar e divertir. Uma noção perigosa que anda disseminada hoje em dia em mentes brilhantes, com medo de fugir de padrões de sucesso. Abraham Moles descreve esse gozo do entretenimento como o kitsch, que seria o oposto da arte. O kitsch, ensina ele, não é só a obra cafona, é sobretudo a obra que entretém, que diverte, que esvazia do seu objeto a potência da arte, tornando-a confortável e conformada. Já a obra de arte nem sempre é agradável e bonitinha. Muitas vezes é repulsiva e dolorosa, angustiante e, quase sempre, transformadora. Quem passa por uma obra de arte, seja um romance, um filme ou uma exposição, não sai mais o mesmo que entrou. Alguma coisa interna muda e seu olhar para o mundo também se transforma. Sem que se dê conta. Já o kitsch deixa tudo como está, conforma, confirma.

Quando se fala em vanguarda, e é interessante ler os inúmeros manifestos que surgiram desde o século XX, para mim o que está em jogo é a ruptura com o que havia antes. Uma ruptura é um movimento necessariamente brusco e violento, no mínimo, agressivo. Só possível se ocorrer numa obra de arte ou num ato concreto de violência, como uma revolução. Mas o sistema também aprende a se defender dessas, digamos, convulsões, sobretudo incorporando e esvaziando sua linguagem revolucionária, sua capacidade de mobilização artística e da consciência, através do sentimento, da emoção. E hoje, me parece, vivemos o paroxismo desse processo de absorção e esvaziamento das coisas essenciais, nessa pós-modernidade em que os sentidos se esfacelam, as modas se sucedem velozmente, o kitsch domina, o niilismo impera e a alma se esfarela.

Outro dia assistia ao programa Altas horas, do Serginho Groissman, uma espécie de Chacrinha modernizado para adolescentes, bastante agitado e de múltiplos estímulos. Mas, ao contrário do Chacrinha original, Serginho é bastante educativo e moralista. Havia tanta gente interessante: atrizes, escritores, bandas de rock e pop, convidados curiosos, público participante e tal. Me pareceu um caldeirão (curiosamente o nome de outro programa de TV) em que se jogam todos esses artistas, misturados com depoimentos de especialistas sobre temas morais, como sexo, e outras atrações curiosas. Tudo dissolvido há aí uma poção pop. Se isso tem um lado genial de colocar esses indivíduos num ambiente que se impõe sobre eles, também tem um inegável elemento que dilui e diminui aquelas singularidades artísticas, exceto nos casos de pessoas realmente genais, como um Hermeto Pascoal, por exemplo, que é capaz de subverter o script. Bem, isso é a TV, certo?

Mas as Demoiselles, essas mulheres insinuantes, putas num bordel, estão aí como um lembrete sensual, hoje tão necessário, de que a obra de arte, além de revolucionar a alma das pessoas que entram em contato com ela (a começar pelo artista), também tem o potencial de transformar o mundo. Por isso, a arte, como expressão do inconsciente humano, é potencialmente subversiva frente a qualquer sistema político, a qualquer dogma moral, a qualquer racionalização.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Folias metafísicas de Geraldo E. Carneiro


Foi pelas letras para as canções da Barca do Sol, grupo emblemático em que seu irmão era um dos compositores, e as sofisticadas composições de Egberto Gismonti, em cujos LPs vinham encartados um jornalzinho literário, que cheguei ao texto de Geraldo Carneiro. Na ocasião, no que me pareceu ser uma fina gozação com os poetas britânicos, assinava seus versos como Geraldo E. Carneiro. Desde a primeira leitura foi um impacto. Me recordo de expressões como “terroso”, entre outros termos viscosos e densos, assim como sua forma de narrar a sensualidade feminina. Era tão próximo, tão perto de mim, que me dava a sensação de que o poeta roubava, através de um mecanismo patafísico qualquer, minha verve. Geraldinho dizia coisas que eu diria e, assim, me deixava sem palavras.

Nem mesmo com Thiago de Mello, mestre querido e orientador de tudo em mim — prosa ou verso — que se transforma em palavra escrita, tive essa sensação de simbiose literária. Ou ainda Manduka, que, inalcançável, apenas me cabe admirar. Mas sendo poeta apenas nas horas vagas e sem competência para criar versos, deixo que Geraldinho Carneiro atue como um parâmetro de qualidade literária para mim. E quando afirmo que me identifico com ele na poesia, quero dizer o tudo que ela carrega: o seu humor peculiaríssimo, muitas vezes autosacaneável, a erudição literária e filosófica, a elegância métrica e, sobretudo, a forma de olhar e ver o mundo.

É engraçado, Geraldo é da mesma geração de Chacal, Ana Cristina César, Waly Salomão, Cacaso, Tavinho Paes, da turma da poesia marginal, geração 70, retratada por Heloisa Buarque de Holanda em 26 poetas hoje. Portanto, uma geração anterior à minha. Eu comecei a rabiscar os primeiros versos na entrada dos anos 80, com a gang da poesia pornô e a feira de poetas independentes da Cinelândia: Mano Mello, Tanussi Cardoso, Kairo Assis Trindade, Eduardo Kac, Claufe Rodrigues, Flavio Nascimento, Lapí, entre outros. No entanto, tenho essa forte impressão, lendo os versos e a prosa de Geraldo, que compartilhamos o mesmo olhar sobre a vida, ou quase. Me indentifico mais com ele do que com os meus contemporâneos.

Comprovo isso mais uma vez ao folhear a edição de seus Poemas reunidos. Ali está uma seleção de sua produção poética desde 1972, ano em que eu entrava definitivamente na adolescência, ao cruzar, no início do verão, com uma morena esguia, (des)vestindo a inédita tanga, nas “dunas do barato”, no Pier de Ipanema. O corpo molhado e quase nu, saindo da água, parecia a imagem de uma deusa que vinha anunciar que o mundo começava naquele instante. Tempo, como escreveu Tavinho Paes numa síntese precisa: “em que as paixões entravam em combustão espontânea, incendiavam a libido das pessoas e a AIDS ainda não era uma ameaça.” Ou seja, quando não havia pecado do lado de baixo do Equador ou, como preferiria o próprio Geraldo: “no subúrbio do Ocidente”.


Os poemas reunidos são uma delícia em vários níveis e me contenho para degustá-lo aos poucos, como convém, exceto nos versos apaixonados, que pedem uma deglutição mais voraz. Vejam, a guisa de exemplo, os versos desse poema chamado Os fogos da fala:

a fala aflora à flor da boca
às vezes como fogos de artifício
fulguração contra os terrores do silêncio
só espada espavento espelho
ou pedra ficção arremessada
ou canção pra cantar as graças
as virilhas as maravilhas da amada
a deusa idolatrada do amor:
essa outra voz quase jazz
que subjaz ventríloqua de si mesma

Ou ainda este À flor da língua:

uma palavra não é uma flor
uma flor é seu perfume e seu emblema
o signo convertido em coisa-imã
imanência em flor: inflorescência
uma flor é uma flor é uma flor
(de onde talvez decorra
o prestígio poético das flores
com seus latins latifoliados
na boca do botânico amador)
a palavra, não: é só florilégio
ficção pura, crime contra a natura
por exemplo, a palavra amor.


Os dois poemas são do livro Folias metafísicas, escritos entre 1993 e 1995, e estão presentes na antologia. Aliás, o livro traz um pertinente prefácio de Nelson Archer, que situa Geraldinho em meio aos poetas de sua geração e posterior, afirmando que, embora dialogue com as linhagens e tradições literárias brasileiras, que fizeram escola nas atuais gerações, Geraldo Carneiro não se filia cegamente a nenhuma delas. Suas influências mais marcantes seriam a de poetas de várias escolas: Bilac, Bandeira e Vinícius. Muito boa companhia.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Três poetas da geração 70


Por uma estranha coincidência, li em seqüência nos últimos dois anos a biografia de Torquato Neto, feita por Toninho Vaz, e a reedição d’Os últimos dias de Paupéria, reorganizado por Vaz em dois volumes, que separam a produção do Nosferatu tropicalista e marginal na coluna Geléia Geral, de seus textos mais íntimos (poemas inéditos, cartas e anotações do período em que ficou internado no sanatório, material que não tinha nas edições anteriores, organizadas por Waly Salomão e Ana Maria Duarte, mulher de Torquato). Em seguida me caiu em mãos, numa edição amorosa do Instituto Moreira Salles, um grande livro ilustrado com textos inéditos e fac-símile dos cadernos de poemas de Ana Cristina César, chamado de Antigos e soltos. Muito generosa, a edição permite vislumbrar um pouco do processo criativo de Ana, bem como sua intensidade emocional. Em alguns momentos é possível vislumbrar como o poema surgiu e como foi sendo trabalhado por Ana até sua forma final.

Vindo dessa leitura incrivelmente densa e ao mesmo tempo pesada, já que os dois poetas se suicidaram ainda jovens (ele com 28, em 1972, e ela, aos 31, em 1983), caí, por puro acaso, na leitura da autobiografia, ou coisa que o valha, de Chacal. Não o terrorista, mas o poeta marginal da geração de Ana, e pródigo agitador cultural, figura maior do “coletivo” (como se dizia nos anos 70) de poetas: Nuvem Cigana, e maestro das estripulias — ou artimanhas como prefere o poeta —, do CEP 20.000, passando por experiências lisérgicas e herbanárias, conforme ditavam os tempos naqueles anos de chumbo, com Asdrúbal trouxe o trombone, Circo Voador, Parque Lage e outras explosões performáticas daqueles dias, pra lá de psicodélicas (não nos esqueçamos da famosa urinada de Tavinho Paes no palco de um teatro de São Paulo, mas isso é assunto para outro post). E sobretudo as produções mambembes de livros de poesia em mimeógrafos, vendidos na noite da boemia, e independentes de editores.

Não posso precisar se meu sentimento foi influenciado pela seqüência de leitura — Torquato, Ana C e Chacal —, uma espécie de relativismo injusto a priori, mas fiquei com a sensação de que Chacal descreve em vez de narrar sua vida. E faço aqui uma referência à oposição que Georg Lukács estabeleceu em seu ensaio Narrar ou descrever?, no clássico livro Ensaios sobre literatura. Segundo ele, descrever nivela todas as coisas no texto, ao passo que narrar hierarquiza, dando densidade psicológica à narrativa. E mostra exemplos concretos apresentando a descrição uma corrida de cavalos em dois romances, Naná, de Émile Zola, e Ana Karenina, de Tolstói. Ao ler as duas passagens, fica bastante claro o que ele quis dizer com essa oposição.

Pois bem, não sou especialista, mas me pareceu que Chacal descreve mais do que narra sua vida no livro. Tanto é assim que a leitura flui como água, com pouca densidade, mesmo em momentos mais dramáticos e cruciais, como seu atropelamento quase fatal em São Paulo, e na descrição de sua queda no Jóquei, após uma noitada intensa com Cazuza no Baixo Gávea. Momentos que, se narrados, nos colocariam quem sabe no coração do poeta, na sua cabeça, do lado de dentro, como ocorre com o livro de Torquato. Talvez esse seja o preço da autobiografia: a dificuldade de um mergulho total no fundo da alma. Provavelmente coisas de superego vigilante.

Fico com a impressão, talvez injusta, admito, que o texto de Chacal tem essa forma descritiva para além das intenções conscientes do autor. Mas pensando bem, é um pouco como sua poesia, e não poderia deixar de ser. Seus versos nunca me pegaram (como também não me pegaram os de Waly Salomão, mas por minha culpa: não soube lê-los), o que não quer dizer muito. Aliás, dessa geração, gosto imensamente de Geraldo Carneiro e, entre os tropicalistas, Capinam, embora goste muito de Torquato também. Mas Capinam é um mestre. Também gosto de muita coisa de Ana C. No caso de Chacal, a leitura da biografia me permitiu descobrir versos dignos. Mas, para saciar meu gosto, tenho que garimpar em sua vasta produção. Aliás, o próprio Chacal escreve: “Para o mundo acadêmico sou um poeta descartável, de poucos recursos e baixo repertório. Para o mundo pop, um poeta, um intelectual, um crânio. E todos têm razão. Menos eu. Menos eu."

Honestidade é a principal virtude do livro, que tem também muitos defeitos, na minha amadora opinião (não estou nem no mundo acadêmico nem no mundo pop, olho Chacal do limbo). O principal defeito é sinalizar com um jantar e oferecer um sanduíche. Há trechos que parecem ter saído no primeiro vômito, sem qualquer lapidação, com repetições e construções pobres. Há muita informação mas pouca densidade narrativa, me pareceu, sobretudo, um texto preguiçoso, em que as situações são descritas friamente, sem circunstâncias. É um texto bem mais informativo do que emocional. Quase um registro enciclopédico da literatura marginal da zona Sul carioca desde os anos 70.

Mas, como informativo, o livro é um mergulho no tempo recente. Eu que sou da geração imediatamente posterior à do poeta, curti ler sobre momentos especiais da vida na cidade. Chacal fala das “dunas do barato”, como Waly Salomão apelidou as dunas do Pier, na praia de Ipanema. E isso me trouxe a minha adolescência, início dos anos 70, quando surgiu a tanga e o amor era livre, mas difícil. Em 1975, o Asdrúbal, com a peça Trate-me leão. “Nós somos jovens...”

Volto a dizer: é um livro honesto. Honesto sobretudo com o que Chacal me parece ser, como poeta e como pessoa. Apesar de minhas opiniões rabugentas e pedantes, o livro me levou a desfrutar melhor a sua letra e mais ainda seu dom de maestro de movimentos cósmicos em torno da poesia, sobretudo a poesia recitada em público. De extrema importância soltar o verbo (lembro-me do poeta Erickson Luna esbravejando seus versos perfeitos no mercado de Recife para um público diverso...), embora não tenha nada contra livros de poesia.

O título do livro, Uma história à margem, com direta referência ao movimento do qual fez parte e ajudou a criar, me lembrou a abertura que Paulinho Pires fez do livro sobre Torquato, a quem situa como um artista “à margem da margem da margem”. Colocado nesta perspectiva, as coisas se encaixam melhor na seqüência de leitura que fiz, pois estabelece um nível de hierarquia entre radicalismos distintos dos três poetas.

E saio convencido de que devo ser mais generoso em minha leitura. Abaixo versos de Chacal:

O outro

só quero
o que não
o qee nunca
o inviável
o impossível

não quero
o que já
o que foi
o vencido
o plausível

só quero
o que ainda
o que atiça
o impraticável
o inaudito

não quero
o que sim
o que sempre
o sabido
o cabível

eu quero
o outro.

sábado, 2 de outubro de 2010

A invenção das marés


Não deixam nunca de me surpreender as marolas que a mídia cultural faz, criando ciclos virtuosos de marés, contra as quais nem é bom pensar em remar. Há coisa de uns dez anos, havia toda uma euforia em torno da poesia de João Cabral de Melo Neto, à revelia do próprio autor, que era tido meio que como um elo racional entre a poesia, digamos, literária propriamente dita e as rebeldias e inovações das vanguardas, notadamente o concretismo. O poeta, nessas narrativas jornalísticas, dava sentido racional a uma identidade literária brasileira, que começava no modernismo e chegava ao presente, no tropicalismo. Cabral foi, nesse período, o poeta aplaudido pela crítica dos cadernos culturais e de literatura, que olhava — e olha — com certo desdém para as linhagens e as tradições que não se vinculavam mais diretamente ao eixo: modernismo, antropofagia, Cabral, concretismo e tropicalismo. Mesmo essa linha do tempo sendo questionável, ela estava na lógica dos argumentos que figuravam no jornalismo cultural.

Passado algum tempo, e os holofotes agora lançam luz sobre a figura de Ferreira Gullar, que acaba de lançar sua antologia completa, participou de gravações de sua poesia, recitando o maravilhoso Poema sujo, entre outras efemérides, que permitiram resgatar o poeta do limbo, também, como em Cabral, à revelia do próprio Gullar. Quando Cabral dominava nas páginas da Ilustrada ou nas citações de Caetano Veloso, entre uma canção e outra, alguns viam Gullar com olhos muito menos generosos naquele então, chegando mesmo a classificá-lo como uma espécie de Judas do concretismo, por ter rejeitado o movimento que ajudara a criar.

Não importa o mérito dessas considerações, isto é, se Gullar ou Cabral são ou não de fato “o cara”, exceto para ressaltar as ondas cíclicas de admiração e ódio de especialistas e críticos (sejam estes jornalistas, acadêmicos ou mesmo escritores) de nossa imprensa “especializada”. O que me faz lamentar mesmo é a falta de generosidade com as manifestações que não estão no fluxo na maré. E considerando-se o momento pós-moderno, ou seja lá como se chama isso que vivemos, e que Tavinho Paes define muito bem quando diz que se trata de uma reafirmação incontrolável de “mais, mais, mais, mais, mais... do mesmo”, isso se torna de fato algo grave.

Em primeiro lugar, há muito pouca informação sobre determinados processos, certas correntes e manifestações individuais ou coletivas. A chamada geração de 45, por exemplo, saco de pancada dos moderninhos de plantão, é desenhada como um movimento amplo a ponto de incluir Gullar como uma de suas referências na poesia. No entanto, também é vista como um movimento que dá passo retrógado em relação ao modernismo, principalmente com respeito à sua segunda geração, pois propõe a volta à técnica literária e uma atenção às regras de linguagem, mesmo que seja para quebrá-las. Dominar as redondilhas e os sonetos, para poder abandoná-los em seguida.

Na prosa, como sempre, tudo é muito mais fácil. Nesse campo, definem a geração de 45 como o texto que abandona os enfoques culturalistas e ideológicos do período precedente, para instaurar um regionalismo, de um lado, ou urbanismo, de outro; mas com aprofundamentos psicológicos e inovações na linguagem. Um movimento para cima, que surfa na onda da redemocratização, do fim da segunda guerra, do desenvolvimento econômico e social de JK. Vêm daí nomes como Guimarães Rosa e Clarice Lispector, inventando linguagens — regional e urbana —, narrando aspectos psicológicos profundos e intimistas: narrativas em fluxo de consciência, entre outros experimentalismos, colocando o leitor na mente dos protagonistas, entre outras bossas.

Nenhum escritor de prosa da geração de 45, e vamos incluir na lista, marcada pela diversidade, Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Lygia Fagundes Telles, Ariano Suassuna, entre muitos outros, enfrenta tanta crítica, quanto os poetas considerados pertencendo ao mesmo movimento. Mesmo levando-se em conta que o “formalismo” dessa geração é, talvez, o que tenha pavimentado a ligação entre o modernismo e as chamadas vanguardas literárias que surgiriam na geração seguinte, nos anos 50, a começar pelo concretismo, mas não apenas ele (não esqueçamos, por exemplo, do Poema Processo).

Mas isso tudo são banalidades quando se olha com o filtro do tempo. Fico feliz que tenham resgatado Gullar do exílio em que se achava, tachado de “poeta engajado” por seu histórico político ou de mais um “parnasiano enrustido”, querendo pôr regras no verso livre. E me pergunto: quantos poetas e escritores não estarão ainda perdidos no limbo, fora do alcance de nossos intelectuais de plantão nas páginas culturais dos jornais. Tenho encontrado algum conforto em páginas de blogs, como o de Antonio Cícero (no link ao lado), Tavinho Paes, entre outros, assim como em revistas literárias digitais. Pode ser que esses espaços, ainda um tanto espalhados e perdidos na imensidão da internet, abram caminhos alternativos à miopia dos que hoje inventam o fluxo da maré.