sexta-feira, 22 de abril de 2011

Paris black e islâmica

Os fiéis fazendo a oração de sexta-feira, em frente à Mesquita Al Fateh: tapetes cobrem as ruas da região de Barbès e o pessoal tira os sapatos e se ajoelha para orar

Meu amigo Idriss Diabaté me levou hoje para um parcours commenté pela Paris black, como o pessoal daqui se refere ao bairro em torno das estações de metrô de Barbès e Chateau Rouge, próximo à Montmartre. Por sincronicidade, hoje fez um sol daqueles e a temperatura oscilou acima dos 25 graus. Me lembrei do camelódromo atrás da Central do Brasil, antes do incêndio, só que a presença africana e muçulmana é quase total. Rodamos pelas ruas do bairro, tomamos café num boteco de esquina, de onde observamos o movimento. Idriss estava retribuindo o passeio que fiz com ele no Rio de Janeiro, no ano passado, quando participou do festival de cinema negro, promovido por Zózimo Bubul.

No pequeno bar, enquanto falávamos sobre cinema, antropologia e jornalismo, um sujeito (acho que estava meio bêbado), começou a fazer um discurso sobre os colonizadores que pilharam a África e que, agora, querem se mostrar amigos dos negros. Era obviamente dirigido a mim e ao Idriss, mas continuamos nossa conversa à la egyptienne. Num jantar, outro dia, Idriss contou que, ao ligar para uma irmã para ter notícias, após a confusão toda em Costa do Marfim, ouviu a pessoa que passava o telefone identificá-lo como Idriss, le blanc. Apesar de ser preto retinto, o fato de morar na França e ter hábitos europeus, levou a seus parentes mais próximos a identificá-lo como branco.

Idriss (de chapeu) e Brice, que é do Benin, mas vive há muitos anos na região de Barbès, e foi assistente de Jean Rouch

Depois, retomamos nossa caminhada e acabamos almoçando em um pequeno restaurante senegalês, o Le Nioumre, situado em frente à Mesquita Al Fateh. Foi emocionante. Ao entrar um sujeito tocava a kora, uma linda harpa africana de poderosa sonoridade e 27 cordas (Idriss me disse que há uma lenda que determina que não se pode tocar a vigésima sétima corda, do contrário a pessoa morre). O músico também inventava a letra saudando as pessoas que entravam no restaurante e, ao ser informado que eu era brasileiro, fez toda uma prosa me dando as boas-vindas.

Em seguida, saudou Idriss, por seu sobrenome, Diabaté, que especifica uma linhagem de porta-vozes do povo griot. Aprendi ainda que Keita foi o rei e fundador da etnia, que está presente em Senegal, Mali, Costa do Marfim, Guiné, entre outros países. E, como sua função é narrar histórias, muitos griots são músicos, escritores, cineastas e tal. Idriss pediu um Yassa (frango com arroz branco num molho amarronzado, bastante picante). Eu fui de Maffé (peixe com umas sementes no lugar do arroz, e um molho picante de fazer baiano suar). Bebi uma espécie de suco de gengibre, igualmente picante, e litros e litros de água. Mas a comida é simplesmente maravilhosa e suculenta, além de generosamente servida.

Detalhe dos sapatos e tênis largados à beira da calçada, enquanto o pessoal se prepara para orar

Saímos do bar com a barriga cheia e bem na hora que começavam as orações da sexta-feira, em frente à mesquita. Os fiéis levam tapetes para a rua, que é fechada ao tráfego de carros e bicicletas, e fazem suas orações ao ritmo de um mantra cantado dentro da mesquita lotada e transmitido por alto-falantes ao lado de fora. Fiz algumas fotos, e um sujeito reclamou, afirmando que não era permitido fotografar, mas haviam dois sujeitos filmando, num esquema profissional. De modo que ignorei o sujeito e fiz mais algumas fotos, incentivado ainda pelo Idriss.

Depois fomos encontrar um antropólogo, amigo de Idriss, que trabalha com cinema etnográfico, tendo sido um dos principais assistentes de Jean Rouch. Trata-se de Brice, um sujeito bem simpático e morador do bairro. Fizemos com ele um novo parcours commenté. Ele nos levou numa loja de alta costura, que pertence ao movimento SAPE (sigla de societé des ambienceurs et des personnes elegantes), iniciado no antigo Zaire e que é se espalhou pela África. Os membros dessa sociedade são uma espécie de dandys e têm que se vestir muito bem, com roupas dos grandes costureiros, e dançar e cantar em festas e boates. O Papa Wemba é um sapeur.

Uma das instalações do Institu des Cultures d'Islam

Fomos ainda a um centro cultural chamado Institut des Cultures d’Islam, onde vimos uma exposição de um fotógrafo britânico, que fez várias imagens da mesquita que acabáramos de ver. Havia ainda umas instalações e outras obras dentro do título geral Tous Islamaniaques!, um trocadilho para lá de espirituoso. E foi isso. A bientôt!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Le Comptoir Générale

O bar lounge do Comptoir Générale, sofas, poltronas e cadeiras num ambiente com decoração meio africana

É impressionante como os franceses têm na alma uma vocação republicana. Em cada centro de bairro há organizações, associações, ONGs e sede de partidos políticos ou outros pontos de encontro, onde tramam manifestações, reivindicações, encontros de integração e coisa e tal. É mais impressionante ainda a participação de jovens e, mesmo, de um tipo de jovem, que se veste meio alternativamente, cabelos rastafári, com dreadlocks, piercings, tatuagens, defensores de uma vida alternativa em relação à globalização, ao consumo compulsivo, por uma alimentação mais saudável etc.

Detalhe da decoração kitsch e que dá um clima de brechó

Ou seja, me lembra um pouco os movimentos estudantis dos anos 60 e 70, quando se juntava à agenda de transformação política revolucionária, pleitos como amor livre, ecologia e coisa e tal. Talvez seja mesmo uma continuação, em que essas questões existenciais, antes relegadas a segundo plano em nome da revolução socialista, ganham um papel protagonista. E as lutas são focadas em questões locais e localizadas, em vez de grandes transformações globais.

Marta e Ruben me apresentaram ontem a um lugar muito interessante, no 10ème quartier, Trata-se do Comptoir Générale, uma espécie de centro cultural, sala de reuniões e exposições, com bar lounge. É um lugar caindo aos pedaços, mas com muito charme e com produtos de origem natural. Ontem, por exemplo, estava rolando uma reunião do Partido Verde, ou coisa que o valha. Havia ainda uma exposição sobre bruxaria e, no salão do bar, que parecia um brechó, várias poltronas, cadeiras velhas sobre um chão de ladrilhos desgastados, onde as pessoas se instalavam confortavelmente com seus drinques e petiscos.

No mesmo lugar, mas em outra sala, uma exposição sobre bruxaria

Antes, havia passado em outro quartier, que passa por uma revitalização acelerada, com renovação de prédios e gentrification. Era um lugar meio barra pesada, com tráfico de drogas e uma certa marginalidade para os padrões parisienses. Hoje, está mais bobotizado, com pessoas andando de bicicleta e participando de eventos comunitários. Ontem, por exemplo, foi uma série de shows com bandas locais (muitos rastas), enquanto na pracinha (Saint-Marthe) havia troca de CDs e comida caseira.

Retrato deste pesquisador entre os nativos feito por Marta. No fundo, mais da exposição sobre bruxaria

Acho que, para o parisiense, é uma forma de pertencer ao bairro, à cidade, enfim, mas, ao mesmo tempo, de se posicionar globalmente contra a globalização. Há uma energia interessante nessa integração, como seria de se esperar. As pessoas flertam, se conhecem, namoram, fazem soirées, jantares, bares. A boemia se mescla a um tipo especial e original de mobilização. Enquanto isso, os partidos tradicionais, como o PS, continuam panfletando nas bocas das estações de metrô e fazendo manifestações com o caixão do FMI.

O bairro do 10ème num sábado de sol: as pessoas se sentam à beira do canal Saint-Mathe, et voilà!

Bem, para encerrar, hoje, domingão de sol, o mercado d’Aligre bombou. Tomei meu café da manhã no Penty, depois de ter feito novas fotografias do mercado. Essa semana vou pretendo dividir meu tempo de pesquisa com o Le Penty e a Commune Libre d’Aligre. Vamos ver. À bientôt!

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Somos todos canibais

Azulejaria branca em carme viva, de Adriana Varejão, 2002

O antropólogo Claude Lévi-Strauss escreveu em 1993, num artigo publicado no jornal La Repubblica, que “somos todos canibais”, e acrescentou: “A maneira mais simples de nos conhecermos através do outro é devorando-o”. Tabu em nossa sociedade, o canibalismo, como o incesto, é tema que assombra e simultaneamente fascina o imaginário ocidental, justamente por sua relação íntima com as noções de identidade e alteridade, pois o canibal é o outro absoluto. Não é à toa que é objeto de estudo precioso em disciplinas como antropologia, etnologia, história, psicologia, medicina, sociologia e filosofia. Mas é no campo das artes que esse fenômeno humano extremo é expresso com vigor selvagem.

Exemplo disso é a exposição que a Maison Rouge, da Fondation Antoine de Galbet, em Paris, apresenta até 15 de maio. A frase de Lévi-Strauss, reproduzida em um painel logo à entrada, é como uma enorme epígrafe, preparando o espírito do visitante para o que virá. Mas é a aquarela surrealista de Oda Jaune que abre a exposição de maneira eloquente. No quadro, uma mulher devora outra, ao mesmo tempo em que é devorada, e a imagem da mulher devorada se torna espelho da mulher que come, sugerindo, nessa ambiguidade, a questão: quem é, enfim, o canibal?

Fat Man: The Matrix of Amnesia, de John Isaacs, 1998

Afeito a abalar as noções etnocêntricas do Ocidente, Lévi-Strauss exorciza a noção de canibalismo, indagando qual seria a diferença real entre o ato de devorar outro ser humano e certas práticas de nossa sociedade, como a introdução voluntária de partes alheias no próprio corpo por injeção, enxerto ou transplante, ou seja, a incorporação biológica como uma maneira diversa de se apropriar do outro. É com esse espírito que Jeanette Zwingenberger, curadora da exposição, selecionou os trabalhos, numa idéia de canibalismo que contrasta, e se pretende mais radical, do que a noção positiva da antropofagia de Oswald de Andrade, expressa em seu manifesto de 1928.

— (Lévi-Strauss) se pergunta como é a unidade do corpo atualmente em nossas sociedades e a ligação de parentesco entre nós — afirma Jeanette no vídeo da Maison Rouge que apresenta a exposição.

Vanitas: robe de chair pour albinos anorexique, 1987. Viande de boeuf crue sur mannequin: vestido de carne de Jana Sterbak

E, nesse sentido, a curadora indiretamente reforça a distinção entre canibalismo e antropofagia. O primeiro está associado à noção de comer carne humana para saciar a fome, num ato aleatório e individual; ao passo que o segundo se refere à ideia de ritual coletivo, em que a deglutição evoca simbolismos importantes para os ritos do grupo social. Enquanto Oswald recupera esta última forma para falar de uma cultura nativa brasileira que se abre para o mundo pelo rito antropofágico, a exposição trabalha mais com a primeira noção.

Somos todos canibais se desdobra em várias seções. Entre elas, a figura do estrangeiro e a idéia do não-humano; a relação com o outro e a noção de identidade coletiva e individual, num jogo em que a metamorfose através da deglutição tem um alto poder simbólico; o erotismo e o amor; a violência e a crueldade, sobretudo através do sacrifício; e as noções de canibalismo que perpassam as narrativas infantis, mediantes lendas e contos, evocando inclusive uma preocupação cara à psicanálise: o sadismo das crianças. Nesse sentido, merece destaque a obra de Jerôme Zonder, que nos faz mergulhar no mundo da infância e sua ambiguidade entre inocência e crueldade. No imenso painel, duas meninas, armadas de faca, brincam com um adulto amarrado a uma cadeira, com o rosto coberto por um saco.

Da série Inri, de Bettina Rheims

A brasileira Adriana Varejão trabalha com ladrilhos e azulejos, uma referência à presença colonial portuguesa no Brasil, em sua Azulejaria Branca em Carne Viva, de 2002. A parede límpida, no entanto, se rompe em certo ponto, deformada por entranhas sangrentas, que mancham a alvura dos azulejos, ao ganharem volume e densidade, simbolizando a carne dos nativos dizimados pelo colonizador. Eis novamente a ambiguidade: quem foi o canibal? O português ou o tupinambá? Ao mesmo tempo, as entranhas que mancham os azulejos de Adriana são uma metáfora do nosso próprio interior, “esse tabu, essa face escondida de nós mesmo”, nas palavras de Jeanette.

A fotógrafa Bettina Rheims, celebrizada por seus modelos incomuns, apresenta uma inquietante fotografia que representa a virgem, tirada de sua série chamada Inri. Do seio desnudo, em vez de leite, uma gota de sangue, simbolizando o sacrifício de Cristo. Cindy Sherman também apresenta uma mulher, que segura o seio, como se o oferecesse como fonte de alimento. A foto sugere que o primeiro “canibal” é a criança ainda no ventre. Seu primeiro anseio por alimento tem como foco o leite da mãe.

Um dos salões da Maison, com o quadro de Vik Muniz no centro, abrindo a seção Saturno devora seus filhos

Ainda no campo da fotografia, porém documental, a exposição também apresenta tiragens antigas, feitas entre 1893 e 1895, durante expedição científica da Royal Academy of London. Nelas, aparecem guerreiros das Ilhas Fiji, retornando da caça, com seres humanos. Na mesma seção, portraits de canibais. As fotos são perturbadoras.

A exposição tem ainda uma seção que homenageia o pintor e gravador Francisco de Goya (1746-1828), com gravuras de sua série Caprichos e a pintura que representa Saturno devorando os filhos, baseada na mitologia grega, em que Saturno devora os filhos para evitar que se cumpra a profecia, segundo a qual um de seus herdeiros o destronará. Não por coincidência a seção foi batizada de Goya e seus herdeiros. Entre eles, o brasileiro Vik Muniz, presente com uma imensa fotografia também representando Saturno no ato de devorar um dos filhos, feita a partir de lixo e entulho recolhido por catadores do Lixão de Gramacho, o maior aterro sanitário do mundo.

Cindy Sherman, sem título, 1990

Somos todos canibais é um ensaio extraordinariamente variado. O visitante mais sensível não sairá da exposição da mesma forma que entrou. O forte simbolismo das obras selecionadas em torno da ideia de canibalismo se desdobra em inúmeras possibilidades, todas elas demasiadamente humanas.

Serviço:
Exposição Tous cannibales (Todos canibais)
De 12 de fevereiro a 15 de maio, de quarta-feira a domingo, das 11h às 19h
(na quinta-feira, até 21h)
Ingresso: 7 euros (inteira) 5 euros (tarifa reduzida, para jovens de 13 a 17 anos e maiores de 65 anos)
La Maison Rouge
Fondation Antoine de Galbert
10 bd de la bastille – 75012 Paris
Paris www.lamaisonrouge.org
info@lamaisonrouge.org
t : +33 (0)1 40 01 08 81
f : +33 (0)1 40 01 08 83

Lista dos artistas que participam da exposição (em ordem alfabética pelo sobrenome):

Makoto Aida, Pilar Albarracin, Gilles Barbier, Michaël Borremans, Norbert Bisky, Patty Chang, Jake & Dinos Chapman, Will Cotton, Lucas Cranach, Wim Delvoye, Erik Dietman, Marcel Dzama, James Ensor, Renato Garza Cervera, Camil lede Galbert, Francisco de Goya, J. J. Grandville, Sandra Vasquez de la Horra, Pieter Hugo, Melissa Ichiuji, John Isaacs, Oda Jaune, Michel Journiac, Fernand Khnopff, Frédérique Loutz, Saverio Lucariello, Alberto Martini, Suehiro Maruo, Philippe Mayaux, Patrizio Di Massimo, Théo Mercier, Yasumasa Morimura, Vik Muniz, Wangechi Mutu, Álvaro Oyarzún, Chantalpetit, Giov. Battista Podesta, Odilon Redon, Félicien Rops, Bettina Rheims, Toshio Saeki, Cindy Sherman, Dana Schutz, Jana Sterbak, Adriana Varejâo, Joel-Peter Witkin, Ralf Ziervogel, Jérôme Zonder.

quinta-feira, 24 de março de 2011

A narrativa das ruas


Quando se olha os bairros e as ruas com olhos de estrangeiro, salta aos olhos a sua narrativa. Não me refiro à retórica de arquitetos e urbanistas; do Poder público, das agências turísticas e outras instituições da cidade; mas aos sonhos das pessoas, que emergem no uso e compartilhamento cotidiano dos espaços; na intimidade que se desenrola no lar e na vizinhança. A rua nos conta um dedo prosa ao dobrarmos a esquina, ao repararmos na forma como se distribuem, por exemplo, os equipamentos públicos, dos hidrantes às praças.

O comércio de rua é sempre um sinal eloqüente de vitalidade. Quanto maior for a sua presença, mais visível será a vida ali: A forma e o display das mercadorias, os gritos dos comerciantes, fazendo o pregão de suas mercadorias, o entre e sai de fregueses e clientes, o olhar compartilhado e informal sobre a rua, vigiando sua normalidade trivial. As cores, os aromas, os desenhos dos prédios: haverá harmonia ou será um discurso caótico e confuso?

Caminhando por Paris nesta temporada, me dou conta de que estou lendo um novo livro. Um livro em outro idioma, que vou aprendendo à medida que viro suas páginas. Aos poucos, o enredo vai fazendo sentido. Percebo sua vitalidade, mas também as pressões por mudanças que se impõem sobre ela e que são comuns a todas as grandes metrópoles do mundo, que competem entre si pelo prestígio, pelos turistas e por altos negócios.

Há um discurso urbanístico comum, uma retórica da modernização das cidades, da racionalização dos espaços. Um discurso imobiliário que se adéqua muito bem à globalização (já ouvi a expressão urbanismo neoliberal). Desde Barcelona, por exemplo, todas as grandes metrópoles, inclusive o Rio, querem renovar seus portos, transformando os velhos galpões em museus de escritórios de arquitetura renomados e áreas de lazer e de condomínios de luxo.



Enquanto Paris protege seu patrimônio cultural e urbanístico, cidades como o Rio botam tudo abaixo em nome da modernidade. É compreensível, pois as pressões são vigorosas. Mesmo na capital francesa são perceptíveis mudanças que tornaram bairros irreconhecíveis. E há quem sustente esses movimentos com fervor quase religioso, sobretudo arquitetos. Ontem li um artigo no New York Times em que o autor, um arquiteto, recuperava a figura de Robert Moses, como um grande empreendedor e visionário de Manhattan. Segundo ele, Moses tem sido injustiçado ao ser lembrado como o homem que destruiu boa parte de Nova York. Segundo o autor, esses que o atacam são pseudos defensores do patrimônio histórico e da memória urbanística da cidade. Ora, vá perguntar aos moradores que foram removidos, expulsos o que eles pensam de Moses.



Enfim, o problema é exatamente esse. A população diretamente afetada nunca tem voz nas decisões dessa natureza. Muitos arquitetos são extremamente arrogantes quando o assunto é a cidade, como se só eles tivessem autoridade para falar sobre o quê construir e como. Na maioria das vezes, infelizmente, eles mal lêem a narrativa das esquinas, os enredos da intimidade à qual se tem acesso pelas escadas dos prédios antigo, pelos halls e pátios internos. Aos labirintos que as ruas de certos bairros formam, lembrando as cidades medievais e por aí vai.

terça-feira, 15 de março de 2011

Mobilização pela moradia


O problema da gentrification dos bairros tem, obviamente, uma estreita ligação com a questão da moradia. Na França, com a crise financeira, o governo está cortando uma série de benefícios sociais concernentes o apoio à habitação popular e proteção dos inquilinos de baixa renda. Uma lei aqui, por exemplo, proíbe que as pessoas sejam despejadas no inverno. Mas tudo isso começa a mudar, ao mesmo tempo, em que o mercado imobiliário, mediante um processo agudo de especulação, está com os preços, tanto para aluguel como compra e venda, na estrastosfera. Um estúdio micro, de dez metros quadrados (menor que um quitinete) pode custat até mil euro por mês em Paris.

Essa situação disparatada está gerando uma série de protestos e mobilizações por parte dos movimentos sociais. Alguns grupos, como o Jeudi Noir, por exemplo, estão inovando nos protestos, atuando com ações espetaculares, como o Greenpeace, que chamam a atenção da mídia. Mas, ao mesmo tempo, seus militantes estudam profundamente a situação, sob vários pontos de vista, para argumentar com base nos debates publicos, que as ações geram. No sábado passado acompanhei um desses protestos e escrevi uma matéria para o Globo, que entrou editada para englobar um contexto mais amplo de protestos sociais na Europa por causa da crise. Aba



Não toque no meu vizinho
Paulo Thiago de Mello

Centenas de manifestantes ocuparam ontem a praça da République, em Paris, para protestar contra o fim do período de proteção ao inquilino inadimplente. Uma lei impede qualquer despejo, inclusive de áreas invadidas — os chamados squatts —, durante o inverno. Essa proteção acaba na próxima terça-feira, quando oficialmente começa a primavera na França. Os manifestantes, que saíram em marcha com bandeiras, banda, batuques e palavras de ordem, também celebraram a decisão da Justiça de retirar de uma lei proposta pelo deputado de Rhône Dominique Perben o artigo que permitia o despejo em 24 horas de inquilinos inadimplentes.

Perben defende seu projeto, argumentando que a lei moderniza o setor e representa um estímulo à negociação entre locatários e proprietários, na sua visão, a melhor solução para o problema da moradia. A instância mais alta da Justiça francesa, no entanto, considerou que o despejo sumário de inquilinos viola os direitos civis dos locatários, que têm direito a um processo legal, antes de serem sumariamente despejado por inadimplência.



Os manifestantes protestavam ainda contra o aumento dos preços da moradia na França e o fim de vários benefícios que foram eliminados na esteira da crise financeira e diante da necessidade de o governo reduzir o déficit fiscal. Em palavras de ordem e panfletos, os manifestantes acusavam o governo de privilegiar a especulação imobiliária, em vez de garantir habitação barata para todos. Eles também pediam o fim dos despejos — Touche pas à mon voisin! (Não toque no meu vizinho!) — e a regulação dos preços dos alugueis, que sobem vertiginosamente, especialmente em Paris. A ideia defendida pelos grupos, que abarcam várias linhas políticas de esquerda, é que a habitação é um direito a ser garantido pelo Estado.

Segundo a Federação do Direito à Moradia, entre 2000 e 2010, os preços dos aluguéis na França aumentaram em média 90% e o dos imóveis, para compra e venda, 107%. O Instituto Nacional de Estatísticas e de Estudos Econômicos (Insee) confirma que os preços da habitação no país subiram vertiginosamente nos últimos dez anos. O secretário de Habitação do governo Sarkozy, Benoist Apparou, que havia dado um prazo de seis meses para que os locadores apresentassem uma proposta de teto de alugueis por área de Paris, anunciou que apresentará uma lei que cria uma taxação sobre alugueis de mais de 40 euros por metro quadrado em apartamentos com até 13 metros quadrados.

A medida foi rechaçada pelas organizações de locatários e movimentos sociais. Segundo o site do grupo Jeudi Noir, uma espécie de Greenpeace da habitação, que ocupa agências imobiliárias em atos espetaculares de protesto, a medida atinge apenas um porção ínfima de apartamentos e libera os alugueis para os imóveis com mais de 13 metros quadrados. O grupo defende a regulamentação do mercado, com o Estado estabelecendo tetos para alugueis, segundo região. Proposta que tem a oposição da União Nacional de Proprietários de Imóveis, que pressiona pela total desregulamentação do mercado. Enquanto isso, um minúsculo studio de dez metros quadrados, dependendo da região de Paris, pode ter um aluguel de mil euros por mês.

sábado, 5 de março de 2011

Carnaval em Paris


Um bom exemplo de organização comunitária nos bairros de Paris. O governo Sarkozy conseguiu aprovar no Conselho de Paris, um projeto de instação de mil câmeras de vigilância na cidade. Há muitos cidadãos que são contra esse tipo de vigilancia, pois o consideram uma invasão indevida à privacidade das pessoas. Então várias comunidades organizadas estão organizando um carnaval para protestar. Será amanhã, dia 6, e no próximo domingo, dia 13. Cada associação e ONGs de bairros marcam seus pontos de encontro nos bairros e vão encorpando a procissão de foliões, que estarão fantasiados com máscaras. Vou aproveitar para fotografar a preparação do pessoal e a marcha propriamente dita. Era esse grau de mobilização que eu gostaria de ver entre os moradores de Botafogo, pois sinto que todos sofrem e têm opiniões bem formadas sobre as interferências no bairro e nossa Associaçõe é bastante atuante, mas ainda podemos melhorar a participação das pessoas. Coloco uma foto do Marché d'Aligre, o bairro que estou estudando para comparar com Botafogo.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Marché D'Aligre, meu campo em Paris

O mercado coberto, de 1779. Há todo tipo de produto alimentício aí dentro, de loja especializada em azeites de oliva a cortes especiais de carne. Do lado de fora, uma feira comum e outra de antiguidades

O Marché D’Aligre foi criado no século XVIII, localizado entre o fanbourg Saint Antoine e a rue Chariton. Era um mercado criado para alimentar a população da área, composta basicamente de artesãos e comerciantes. Bastante popular e marcado pela presença de trabalhadores e operários, o fanbourg Saint Antoine foi um dos pontos de revolta contra os regimes antigos, que vieram culminar na Revolução Francesa, a derrubada da Bastilha e a criação da República. A parte coberta do mercado foi construída em 1779 e o nome Aligre é uma homenagem a uma viúva que ajudava o orfanato das crianças abandonadas (naquela época, cerca de mil crianças eram abandonadas pelos pais nas ruas de Paris) que eram recolhidas — o Hospice des Enfants Trouvés. Mais tarde, o orfanato foi derrubado para dar lugar à praça Trousseau, mas o mercado coberto permaneceu.

Os vestígios do passado estão por todas as partes no mercado, que abre todos os dias, exceto às segundas-feiras. No domingo, por volta do meio-dia, é o momento de maior movimento e uma boa ocasião para ver a mistura dos antigos (magrebinos, operários, comerciantes e artesãos) e novos moradores do bairro, os bobos (contração da expressão bourgeois-bohème), são jovens de classe média alta, profissionais liberais com dinheiro que estão se mudando para o bairro que, até então, permaneceu popular. Minha amiga, que me hospeda nesse início de temporada, me disse que comprou seu apartamento aqui relativamente barato, mas hoje não conseguiria financiá-lo e, se decidisse vendê-lo, valeria pelo menos quatro vezes mais. Isso porque o bairro está todo sendo reformado, ou revitalizado, como preferem adjetivar as autoridades.

Há um movimento (não sei ainda de quem, se das autoridades ou de parte dos moradores) para não deixar o mercado funcionar todos os dias, com exceção da segunda. Mas já há igualmente resistência. Ontem, havia um abaixo-assinado pedindo para que o Marché D'Aligre continue funcionando como sempre, iniciativa dos comerciantes do mercado.

Ao contrário de Botafogo, onde tudo — vilas, prédios antigos, praças etc. — é derrubado para dar lugar a novos empreendimentos imobiliários, em Paris não se pode tocar nas fachadas. Portanto, as reformas são internas. Do lado de fora, tudo permanece igual. Mas, ao entrar, por exemplo, nas novas lojas que abriram na esteira dos bobos (pronuncia-se bobôs), leva-se um susto : tudo moderno e novinho, com decorações suntuosas. Na esteira dos novos moradores, surgiram no bairro cafés sofisticados, livrarias especializadas (em arquitetura, por exemplo), galerias de arte, entre outros tipos de comércio que vão substituindo os velhos alfaiates, reparadores de bonecos, relojoeiros, entre outros.

Ao mesmo tempo, há resistência às mudanças. Associações de moradores e outros gruos organizados do bairro (centros culturais, ateliês comunitários etc.) promovem discussões e tentam integrar os vizinhos, com a ideia de reforçar uma identidade de bairro. Há ainda uns hotéis que alojam sem-tetos e pessoas pobres com subsídios do governo, mas em vez de cobrar por mês, cobram diárias comuns (70 euros). Esses hotéis acabaram virando favelões, onde vivem sobretudo imigrantes magrebinos. Mas agora, na era Sarkozy, isso está sendo desmontado e as pessoas, realocadas para outras áreas. Ou seja, há claramente um movimento de aburguesamento do bairro, que permite traçar um paralelo com Botafogo.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

De malas prontas

Festa na rua: os tambores uruguaios do Candombe na rua Fernandes Guimarães, em Botafogo

A partir da semana que vem, salvo algum imprevisto burocrático, este escriba colocará a mochila nas costas, uma rede de mosquitos, e irá se aventurar pelo mar bravio, na tarefa antropológica de estudar os nativos gauleses d’além mar. Eles que, como qualquer cultura humana, se julgam o centro do universo e o modelo de civilização, a ponto de duvidar se o resto do mundo é mesmo humano, sobretudo quando pensam em nós, da banlieue do Ocidente, certamente terão um choque ao ver este ser que vos escreve, oriundo dos trópicos, ainda esbaforido do calor de 40 graus, perambulando de bermuda alegremente pelas ruas de Paris, durante os próximos meses.

O que me leva a essa viagem é uma bolsa de pós-doutorado, obtida graças ao apoio do convênio entre a Capes e o Cofecub, do qual o (Laboratório de Etnografia Metropolitana (LeMetro/IFCS/UFRJ), ao qual pertenço, é um dos participantes. Como bolsista da Capes, preparei um plano de estudo que tem a ver com a etnografia que venho fazendo deste pequeno enclave de Botafogo, conformado pelas ruas da Passagem, General Polidoro e Álvaro Ramos e cujas reflexões, venho narrando aqui neste Pendura. Minha idéia é comparar dois bairros de Paris — Belleville e Marché D’Aligre —, que estão vivendo um processo de aburguesamento, com as transformações que estão ocorrendo na morfologia social de Botafogo, pelas razões explicitadas nos posts abaixo. Em Paris, como não poderia deixar de ser, os motivos são distintos, tendo outros fenômenos, como a imigração, por exemplo, como fatores das transformações dos bairros.

Lá, minha pesquisa estará sendo coordenada pelo professor Laurent Thévenot, na École des Hautes Études em Science Sociales (EHESS), ao passo que, no Rio, continuarei com a orientação e o apoio do meu querido prof. Marco Antonio da Silva Mello (coordenador do LeMetro), que me aturou no mestrado e no doutorado. São dois feras das ciências sociais, o que coloca um grande desafio sobre meus ombros. Será um séjour curto, de uns quatro a cinco meses, mas tempo o suficiente para levantar um bom material bibliográfico, participar dos seminários da EHESS e outras instituições acadêmicas e fazer um mapeamento inicial de um trabalho de campo nos dois bairros.

A pracinha Mauro Duarte: de dia balanço, à tarde, festa na rua

Se Botafogo (e o Rio de Janeiro como um todo) tem peculiaridades, como o boom econômico, a realização das Olimpíadas em 2012 e a Copa em 2014, entre outros, como fatores de estímulo a uma bolha imobiliária com impacto na morfologia social do bairro, em Paris, esses dois bairros enfrentam a chegada de forte leva de imigrantes asiáticos e uma classe média, em busca de uma noção de vizinhança “autêntica”. São jovens profissionais liberais, executivos e empreendedores que se mudam para Belleville e Marché D’Aligre em busca de um status distinto daqueles dos chamados beaux cartiers (bairros burgueses), de onde vêm. Um pouco como a onda de morar em Santa Teresa, que atraiu um tipo de classe média carioca. Mas os novos moradores, com hábitos e poder aquisitivo distintos, acabam mudando o perfil do bairro e a noção de autenticidade que os atraíra em primeiro lugar, é a primeira a se transformar em outra coisa.

Também pretendo buscar um contato com as organizações civis que defendem os interesses dos moradores dos bairros, como associações de moradores, centro culturais, órgãos públicos municipais etc. A impressão que tenho, por histórias que ouvi e vendo daqui de longe, pelos sites, é que os parisienses são bastante mobilizados nas questões de bairro e as mudanças lá enfrentam ferrenha resistência. Dificilmente aconteceria lá o boom imobiliário que vem deformando Botafogo, sem uma resistência mais forte. Mas a mudança da identidade de um bairro não se dá apenas pelas transfigurações imobiliárias. As substituições de população, os grupos sociais que vão invadindo e fagocitando trechos, são suficientes para mudar a morfologia da rua, sem que se tenha derrubado um sobrado.

No caso de Botafogo, acho que é importante fortalecer as entidades civis e as iniciativas culturais que reforçam a noção de bairro, de proximidade das pessoas. Hoje, por exemplo, haverá mais um evento na pracinha Mauro Duarte: o bloco do Barbas fará uma espécie de esquenta carnaval. Na semana passada foi o Bola Preta, que transformou a praça num festival de marchinhas. Outro dia, teve uma procissão religiosa pela padroeira do bairro. Também acho que temos que valorizar o comércio de rua, sobretudo os botequins e casas de pasto, mas também, os barbeiros, manicures, sapatarias, padarias, farmácias etc. Locais semipúblicos, onde se troca informações sobre o bairro, áreas de sociabilidade comum. São essas pequenas instituições que fortalecem a noção de bairro a ponto de mobilizar as pessoas contra as mudanças desordenadas, sem critérios comuns, exceto o lucro dos empreendedores.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A cidade dos arquitetos

A pracinha Mauro Duarte e a rua Fernandes Guimarães ao fundo. Mais um condomínio será erquido no local

O assunto está no ar. O Segundo Caderno do Globo publicou uma reportagem interessante da Catharina Wrede no último sábado sobre a arquitetura da cidade. É verdade que teria sido mais abrangente e interessante se a reportagem não tivesse se restringido à visão dos arquitetos, englobando a voz de urbanistas, sociólogos, historiadores, antropólogos, geógrafos e outros pensadores da cidade, assim como, talvez, moradores que vivem nos bairros em constante transformação. Tenho sempre a impressão de que os arquitetos querem o monopólio da discussão sobre a cidade, como se tudo fosse uma questão de linhas arquitetônicas e de fachadas com estilo. E, assim, caímos no velho debate entre a visão racionalista dos modernistas, como Le Corbusier, Niemeyer e Lúcio Costa, ante uma visão mais, digamos, orgânica da cidade.

Mas o fato é que a grande arquitetura que domina hoje na cidade é a arquitetura comercial, dos condomínios fechados, da lógica defensiva, impregnada de uma ideologia elitista e segregacionista dos espaços urbanos. A estética cafona desses empreendimentos é menos importante do que a promessa de exclusividade e auto-suficiência que eles oferecem. A reportagem, que ouviu vários arquitetos, aponta mesmo para o fato de que os estilos arquitetônicos reconhecíveis do Rio de Janeiro pararam na década de 60. Trata-se do que sobrou do período colonial ou das reformas de Pereira Passos, da art déco dos anos 30-40, até os exemplos modernistas da década de 60. A partir daí é um mundo diluído, sem um "rosto" reconhecível, comercial.

Todas essas observações são reconhecidas pelos arquitetos entrevistados pela Catharina. Alguns apontam que o Rio perdeu o papel protagonista na construção de uma identidade arquitetônica brasileira e que os profissionais do setor não se preocupam com o que vai sendo erguido na cidade, de prédios a viadutos, que sobem sem critérios ou discussão. Ou seja, se não há uma discussão arquitetônica, de estilo, muito menos há uma sobre os impactos e os efeitos dessas intervenções na morfologia social dos bairros. Não se trata só de debater linhas estéticas do casario, das avenidas, viadutos, praças etc. mas refletir também sobre como essas construções interferem na vida cotidiana do bairro, das pessoas que moram nele. Por isso, esse debate é sério demais para se restringir a arquitetos.

Enquanto isso, já está anunciada a construção de mais um espigão na saturada rua Fernandes Guimarães, em Botafogo, Solar não sei das quantas. O cartaz indica o sucesso de vendas e que é bom quem estiver interessado correr, pois estão negociando os últimos apartamentos. Mas, nas conversas da esquina, só ouço lamentações. Mais um prédio para fazer sombra nas vilas e casas que restam, mais carros na saturada rua, mais um condomínio exclusivo, fechado e de costas para o bairro, ajudando a esvaziar as calçadas, as praças e a vida da esquina.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Relativizando o bullying


Há uma briga no campo científico e filosófico que opõe nos extremos, de um lado, os defensores das chamadas ciências duras (êpa!), em que os fenômenos naturais são interpretados e analisados, estabelecendo-se leis e conceitos; e, de outro, pensadores e cientistas sociais que vêem os fenômenos, seja qual forem, como o resultado de um constructo, isto é, de uma invenção social. Numa ponta e outra há radicalismo: alguns cientistas e filósofos acham que todos os fenômenos têm uma base natural e portanto menosprezam seu aspecto interpretativo, isto é, a forma como as diversas sociedades humanas se apropriam deles em sua cultura, em seu imaginário, por assim dizer, e mesclam o evento social à realidade natural, confundindo simbioticamente a interpretação do fenômeno com o próprio fenômeno. De outro lado, há aqueles que acham que tudo, absolutamente tudo na vida, é uma construção social e, portanto, não existe fenômeno natural propriamente dito, sem uma base simbólica que o sustente.

Eu penso que os fenômenos naturais estão aí, por si só, mas são interpretados e traduzidos socialmente. Além disso, há também aqueles que são absolutamente construídos, isto é, não existem enquanto força natural per se. Então, por exemplo, se uma maçã cai de uma árvore na cabeça de um cidadão de uma sociedade como a nossa, trata-se, para muitos, da lei da natureza exercendo sua força: a gravidade. Porém, se este homem sobre cuja cabeça cai a maçã for, por exemplo, um nativo zande, a queda da maçã será interpretada como fruto de bruxaria ou uma feitiçaria contra ele, pois não há na sua sociedade a idéia de “mera coincidência” para explicar a queda da maçã no exato momento em que ele passava (mas há, por outro lado, uma especialização complexa do pensamento mágico, distinguindo feitiçaria de bruxaria, por exemplo). Evidentemente, é possível argumentar que, no primeiro caso, trata-se de uma lei natural, inquestionável e incontornável, ao passo que, no segundo, é uma “superstição” que não anula a existência da primeira lei.

A briga está exatamente aí: para alguns cientistas sociais, a lei da natureza, no caso, a queda da maçã sobre a cabeça de alguém, independentemente de sua verdade científica, é igualmente uma construção social da realidade, uma interpretação que vai colada ao fenômeno natural, e, portanto, também está no mesmo nível da explicação que os azande dão para o ocorrido. Quando a coisa é colocada nesse nível, cria-se um problema epistemológico sério, pois há aí aparentemente uma relativização de leis naturais, independentemente da natureza absoluta de suas regras. A gravidade existe para além de qualquer interpretação, mas ela só pode se tornar inteligível dentro do mundo simbólico das sociedades e, assim, terá também um viés interpretativo que adere ao fato natural.

Afirmar isso é perigoso, pois pode passar a impressão de que se está querendo relativizar leis naturais que, por si só, não se prestam a esse jogo. Além disso, há o risco de mergulhar numa relativização interminável, em que tudo é diluído ante a constatação que tudo é, afinal, uma interpretação. Embora as leis da física, dos fenômenos naturais, enfim, estejam aí por si só, independentemente de serem interpretados como gravidade ou feitiçaria. Outros eventos, de cunho mais explicitamente social, podem revelar o quanto as sociedades vivem de constructos simbólicos (me lembro, por exemplo, de um lindo texto de antropóloga Soraya Silveira Simões sobre o sentido de rito de passagem do réveillon, que dá à passagem da meia-noite um significado tão extraordinário e mágico quanto arbitrário).

Ultimamente, por exemplo, fala-se muito em bullying, para descrever um fenômeno relativamente antigo, como nos mostra a literatura e os filmes, nos colégios, na vizinhança, na rua. Passei minha adolescência em colégio público aprendendo a evitar a violência física e psicológica dos chamados valentões (me lembro, nos anos 70, em Ipanema, a figura do Brau, um valentão que saía à rua em busca de briga). Sair incólume exigia estratégias e disciplina e, sobretudo, forçava a busca de uma sociabilidade, em que o grupo acabava por formar um corpo protetor, onde também se aprendiam os limites e a impotência da lei. Percebendo a coisa por este ângulo, o fenômeno da violência entre adolescentes tem, igualmente, um sentido social. Evidentemente, sempre houve exageros, dramas e até mesmo tragédias, como resultado disso e de seu aspecto verdadeiramente patológico (afinal, incendiar mendigos e índios e agredir prostitutas é um outro nível de delinqüência juvenil, decorrente sobretudo da falta de empatia com o outro e, ao meu ver, resultado do isolamento defensivo dos grupos sociais fechados em si mesmos).

Mas voltando ao bullying, cria-se uma palavra para interpretar e descrever o antigo fenômeno. E, com isso, cria-se também uma nova patologia social, cujos sintomas são descritos como se fossem uma novidade, coisa que nos chegou agora, importada da TV. E lá vão pais, autoridades, psicólogos e outros especialistas tratar do velho fenômeno, agora, renomeado e sintetizado numa nova palavra, não à toa, estrangeira, apresentando-o como um problema novo de nosso tempo. Aumenta-se o controle nas escolas, constroem-se mais e mais condomínios fechados e exclusivos, e isolam-se as crianças e adolescentes da rua, o espaço necessário para o desenvolvimento de uma socialização urbana, de um aprendizado fundamental que é o de convivência com o outro simultaneamente desconhecido e próximo.

Algumas sociedades sequer têm a noção de adolescência. Nelas, a criança, após ritos de passagem relativamente complexos, muitas vezes violentos e profundos de significados, torna-se adulto no meio social. Em algumas sociedades indígenas, por exemplo, meninos e meninas ficam reclusos por um período de iniciação, quando aprendem respectivamente as coisas de homens e de mulheres, para depois, num grande rito, serem reconhecidos pelo grupo, e por si próprios, como tais. Na nossa sociedade, há a adolescência, esse longo e tortuoso caminho de aprendizado, em que paulatinamente aprende-se a viver como adulto na sociedade.

Assim, ao contrário da lei da gravidade e outros fenômenos físicos da natureza, adolescência e bullying são construções estritamente sociais. O que não diminui sua força como verdade que se impõe. Pelo contrário, são termos apropriados e introjetados tão absolutamente que podemos jurar de pés juntos que fazem parte da “natureza”, e por isso dizemos: “É natural que assim seja.

O grande barato disso tudo é poder ver como cada grupo humano cria e recria sentidos para as coisas que o cerca, revelando uma possibilidade infinita de invenção e criatividade. Ao mesmo tempo, ao colocar as coisas nesses termos, tiramos dela o seu caráter indiscutível, irreversível e absoluto — esvaziamos, por assim dizer, sua “natureza” —, o que também amplia o campo de possibilidades humanas de transformação e aprendizado. Mas isso só é possível no contato com o outro, na diversidade, na compreensão de que não somos o centro do universo.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A sabedoria ecológica

Devastação em Teresópolis na imagem do colega do Globo Gabriel de Paiva

O volume de chuvas que atingiu a Região Serrana não foi o maior já registrado, revelaram hoje os jornais. Mas mesmo assim, foi um volume anormalmente maior do que o convencional para o mês e se deu após vários dias de chuvas contínuas, que já haviam encharcado o solo, potencializando os deslizamentos. Além disso, as nascentes de rio, no alto das montanhas, sobrecarregadas com o volume d’água, desceram como tsunamis, em direção aos vales, onde está boa parte das residências. Em menos de 15 minutos, a água subiu de cinco a dez metros, quando muita gente ainda dormia. Não deu tempo para nada.

As moradias nas áreas de risco foram devastadas, como era de se esperar num caso como esse. Mas a chuva atingiu muito mais do que as regiões condenadas pela Defesa Civil. O Centro de Nova Friburgo, por exemplo, teve prédios desabando e as ruas transformadas em um mar de água barrenta e, mais tarde, lama. A quantidade de gente desaparecida e o impacto de doenças como leptospirose, hepatite e tifo certamente vão elevar o número de mortes, que já é recorde. O processo de reconstrução será lento e doloroso e certamente deixará cicratizes emocionais.

Vemos uma ocupação desordenada. O fluxo de migrantes das grandes cidades para as cidades de porte médio do estado (e do país) cresce a cada ano, com as pessoas buscando uma qualidade de vida melhor, justamente porque há uma noção muito precisa de que as cidades estão saturadas a ponto de não poder mais oferecer formas de vida de proximidade, que cidades menores ainda oferecem. Bairros como Botafogo, que ainda têm uma vida provinciana, no sentido da proximidade e da convivência, estão rapidamente se fechando em condomínios defensivos e exclusivos. As pessoas que precisam da presença do outro então se mudam para o interior. O problema é que essas cidades menores não têm estrutura para receber tanta gente.

Ironicamente, tenho um amigo que se mudou para Petrópolis em busca da tal qualidade de vida melhor que uma cidade como o Rio, segundo ele, não pode mais oferecer. Além disso, ele acredita no calendário maia, que prevê uma grande inundação das regiões costeiras dos continentes em 2012. “Vou para o alto da montanha”, me disse. “Isso aqui tudo vai alagar!”. Bem, felizmente sua casa nova não sofreu com as chuvas. Mas não resisti em dizer a ele que os desequilíbrios que o homem está provocando na natureza terão conseqüência em qualquer lugar. Na Serra ou no litoral.

Estamos passando por mudanças climáticas agudas e não dá mais para tapar o sol com a peneira: esses fenômenos verificados em todo o planeta são o efeito do aquecimento global. Lá no jornal, conversando com especialistas, eles chamam a atenção para a coordenação desses eventos. As inundações na Austrália e no Brasil, na mesma faixa hemisférica, associadas a um verão com temperaturas bem quentes e muita umidade, se completam com invernos rigorosíssimos no Norte, com nevascas intensas. Tudo parte do mesmo ciclo ecológico.

A ecologia ampla, abrangendo a sua vertente que estuda o comportamento humano nas cidades, deve ser uma forma de sabedoria cada vez mais incorporada. Não dá para deixar apenas a idéia de desenvolvimento econômico nortear o rumo das coisas. O planeta é finito. Os recursos naturais escasseiam, é preciso desde já proteger mananciais de água doce e habitats naturais e garantir formas sustentáveis de exploração desses recursos. Está na hora de unir a noção de desenvolvimento econômico à idéia de crescimento sustentável.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Mais uma vez a cidade

Rua da Passagem, em Botafogo: o velho e o novo lado a lado: Reparem como os novos empreendimentos são afastados da calçada e da vida na rua


Esse blog está se transformando numa espécie de arqueologia da vida urbana. Li hoje que a livraria Letras & Expressões do Leblon fechou as portas definitivamente. A última livraria de rua da Ataulfo de Paiva. Também me lembro que há alguns anos a farmácia Piauí, do outro lado da rua, quase fechou e acabou mobilizando certa reação dos vizinhos, acostumados a comprar seus medicamentos ali. A Modern Sound, que fechou no último dia de 2010, era a última de dez lojas de discos de rua em Copacabana. Nos Estados Unidos, li outro dia, o sistema de alugar filmes pela internet matou as locadoras de vídeo no país.

Tudo isso faz parte, evidentemente, do ciclo incontrolável da vida urbana. As cidades se transformam continuamente. Novas gerações vão ocupando os espaços e consumindo a cidade a seu jeito. Novos empreendimentos financeiros e comerciais se sucedem a partir de demandas, mas também moldando os gostos do consumidor. Os condomínios auto-suficientes, que se multiplicam em Botafogo, não vendem apenas imóveis, mas igualmente estilos de vida, noções de mundo, valores morais, muitos deles forjados em campanhas de marketing.

Meu colega de jornal Rogério Daflon citou o Pendura Essa no blog Rio, régua e compasso, hospedado no site do Globo (aqui), num post intitulado Território da especulação selvagem, mencionando os posts abaixo sobre a ocupação desenfreada de Botafogo. Foi legal mais uma vez constatar que o assunto dá Ibope e mobiliza as pessoas. Algumas criticam o tom crítico das observações, afirmando que o bairro está melhorando com as novas construções. A maioria, no entanto, vê com preocupação a transformação, sobretudo no que se refere ao impacto ambiental e urbano que o aumento da população (e de carros) provocará.

É impossível deter o movimento de transformação das cidades. A cidade, como dizia Robert Ezra Park, um dos pais da Escola Sociológica de Chicago, não é composta apenas pelo aglomerado de ruas, avenidas, praças e prédios, mas sobretudo pelos sonhos e desejos das pessoas que as habitam. Novos usos dos espaços públicos, novos tipos de comércio, novas maneiras de morar, conviver e compartilhar os espaços comuns etc. são coisas que estão em constante movimento à medida que as gerações se sucedem. Mas isso não significa que devemos permanecer acríticos e despreocupados quanto às formas como forças econômicas poderosas loteiam os bairros em nome do lucro.

O mercado imobiliário está extremamente aquecido. A expansão econômica dos últimos anos, os projetos esportivos previsto para a cidade nos próximos anos (Copa e Olimpíadas), os mecanismos de financiamento imobiliário e a nova lei do inquilinato estão fazendo os preços saltarem para além dos fundamentos econômicos do mercado, gerando o que os economistas chamam de bolhas que, em algum momento, podem estourar. Isso tudo pressiona incorporadoras, construtoras e imobiliárias e maximizar a construção de seus empreendimentos e cabe às populações, através de suas associações, e ao Poder Público o controle desse processo, para que se estude e previna os efeitos do impacto ambiental dessas iniciativas na vida dos bairros.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Modern Sound, o fim de uma era

A Modern Sound fecha as portas definitivamente no dia 31 de dezembro

Amigos, reproduzo abaixo um post recente em que antecipava o fim inevitável da Modern Sound, conforme noticiado nos jornais esta semana, afetada pelas transformações no mercado do disco. Com o fim da loja, acaba um dos melhores espaços de música ao vivo da cidade, e dos mais baratos. O clima musical da loja, criado não só pelos produtos à venda, mas sobretudo pela presença constante de músicos, DJs, produtores musicais, estudantes e amantes da música, é insubstituível. Havia um intercâmbio constante de idéias e informações sobre o mundo do disco, dos shows etc. Quem viveu, viveu.

Mergulhamos agora na era do superindividualismo. Cada um no seu canto, com seu iPod ou coisa que o valha, sem ouvidos para o mundo que o cerca. O compartilhamento de sons e idéias, só por e-mail e afins. Para ouvir um bom show, só pagando os preços exorbitantes que se cobram por aí. Para comprar CDs, só baixando na internet ou indo ao supermercado. Como lembra o Pedro Tibau, um dos sócios, há dez anos havia 40 lojas de discos em Copacabana, hoje, só resta a Modern.

Mas a loja vai fechar as portas no dia 31 de dezembro e, até lá, venderá seu acervo de CDs e tais com 30% de desconto. Também vale a pena conferir a programação musicial até o último dia do ano.

O silêncio ronda a Modern Sound

Uma sessão de jazz na Modern Sound, no sábado pela manhã

O tempo escorre pelos dedos, incessante, para sempre... O mundo digital vai se insinuando em nossas vidas de forma tão avassaladora quanto silenciosa. Quando nos damos conta, nossos hábitos já mudaram. Há alguns anos, estava almoçando com minha amiga Denise Lopes no bistrô da Modern Sound, o Allegro Bistrô. Era uma feijoada despretensiosa para abrir o sábado de folga. Por coincidência acabamos numa mesa a menos de um metro do palco, onde rolava a tradicional sessão de jazz e bossa nova da programação da manhã da casa. Naquele sábado era o quarteto do saxofonista Idriss Broudrioua, com Sergio Barroso, no baixo; Boto na batera; e Dario Galante, no piano. A poucos metros de nossa mesa, meio escondida por uma pilastra, almoçava a mesma feijoada nada menos que Leny Andrade, com amigos.

Leny Andrade dando uma canja na apresentação de Idriss Broudrioua: feijoada e jazz

Ao percebê-la, chamei a atenção de Denise, afirmando que apostava que ela ia acabar dando uma canja. Ficamos ali na expectativa e, dito e feito. Lá pelas tantas, Idriss convida a diva para cantar com o grupo. Ela reluta, diz que está almoçando, mas as palmas do público e a insistência do saxofonista francês acabam falando mais alto. Leny então sobe ao palco, Pedrinho Tibau rapidamente providencia um microfone e abre um canal na mesa de som. E lá fomos nós embalados por uns cinco ou seis temas, com direito a improvisação vocal e o escambau.

Leny dando canja para deleite do público da Modern

Me lembrei então de uma frase do Ruy Castro: a Modern Sound é o único lugar do mundo onde se ouve jazz e boa música pelo preço de uma coca-cola. E é verdade. Se em vez de feijoada eu estivesse apenas bebendo um refrigerante, era isso que a conta traria no final. O Lula Vieira me disse certa vez, emocionado, que em todas suas viagens pelo mundo nunca havia encontrado um lugar como a Modern. Nem mesmo em Nova York, cidade dos night clubs, como Blue Note, Village Vanguard, entre tantos, você encontra um ambiente tão musical como a Modern. Meu orientador na tese, prof. Marco Antonio da Silva Mello, é outro fã incondicional. Ele, que é compositor nas horas vagas de temas sofisticadíssimos, encontra ali um espaço de puro prazer. Todos os gringos que levei lá piraram. E olha que levei muito gringo lá.

O Arthur Dapieve certa vez escreveu uma belíssima crônico sobre a inutilidade de resistir à tentação que os CDs exercem a um desavisado que garimpe nos móveis da Modern. Quantas vezes me vi nessa situação. Me lembro que deixei boa parte de uma indenização recebida na loja, e saí satisfeito com umas cinco sacolas de CDs. Minha amiga Bia Caiado lembra das dicas do Pedrinho: mais do que dicas, seduções de um vendedor de discos.

É um ambiente freqüentado por músicos e periféricos. Gente com instrumentos ou CDs, perambulando palas baias onde se garimpam preciosidades difíceis de encontrar. O papo é sobre arranjos, partituras, concertos e shows, instrumentos musicais, jam sessions, timbres e petit histoires e anedotas que viram lendas e mitos. Vi ali figuras no início de carreira a músicos consagrados, como Paulo Moura, Claudio Roditi, Carlos Malta, Mauro Senise, Nivaldo Ornellas, entre tantos. E amigos queridos, como Andrea Dutra. Vi shows antológicos de samba e MPB, com Moisés Marques, Edu Krieger, Orquestra Lunar, Bárbara Mendes, Maria Rita e Monica Salmaso. Vi dois shows do meu pai, Gaudencio Thiago de Mello. Enfim, a Modern é um lugar de músicos e amantes de música.

Show do meu pai na Modern Sound

E é também um botequim, não na sua infra-estrutura, mas na sua atmofesra calorosa. Quer dizer, por trás de toda aquela sofisticação tem um ambiente absolutamente relex, informal e barato. A loja tem mais de 40 anos e começou com a venda de discos importados pelo patriarca da casa, Pedro Passos, que, diga-se de passagem, foi dono do botequim Rosa de Ouro, no Baixo Voluntários, antes de abrir uma portinha para vender seus discos, na galeria do antigo cinema Bruni Copacabana. A casa sobreviveu à crise que devastou suas rivais (como a Bill Board) graças a um estoque variadíssimo. Na Modern se encontra desde Reginaldo Rossi a gravações raras de Von Karajan. Uma puta seção de clássicos e outra de jazz. Mas também, música do mundo, rock'n'roll, pop, trilhas, MPB, importados, independentes, caseiros e por aí vai. Me lembro que comprei discos vinis de Marlui Miranda, Bola de Nieve e Dom Salvador. Depois, CDs de Ani DiFranco, Serge Gainsburg, Papa Wemba, Miossec, uma versão japonesa dourada do Kind of Blue, com Miles Davis, John Coltrane, Bill Evans e Cannonball Arddeley.

Mas aí chegou a era digital. E como disse lá no início, o tempo escorre e o mundo muda. E esse lugar único, está com os dias contados. Conversando outro dia com Pedrinho Tibau, ele desabafou:

— A internet matou os direitos autorais. Das fotos à música, todos baixam tudo pela internet, de graça. Não tem como concorrer com isso. E logo, logo o setor literário também vai entrar nessa onda, com os leitores digitais. Vamos ver as livrarias desaparecer, como estamos vendo as lojas de disco.

Há uma proposta de transformar o lugar num miniCanecão, uma casa de shows de médio porte e um palco menor para concertos mais comedidos, reduzindo o espaço da loja de CDs. Neste momento, enquanto escrevo estas mal traçadas, alguns possíveis investidores analisam a proposta. O Rio de Janeiro está mesmo precisando de um lugar como a Modern. Um lugar que não seja nos confins da Barra da Tijuca e que não cobre um olho ou uma orelha por um show. Já perdemos o Mistura Fina, o Tio Patinhas, o Ponto de Encontro, o Beco das Garrafas, o Hipódromo Up, o Cinemathèque, e tantos outros. Se ficarmos sem a Modern, o Rio ficará mais silencioso. Todo mundo ouvindo seus iPods turbinados, individualmente, mas sem um lugar para os músicos e os amantes da música transitarem, se encontrarem, sem jam sessions, sem improvisações. Terei que pagar R$ 200 só de ingresso para ouvir Leny Andrade numa casa de shows da Barra da Tijuca.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Visite Botafogo antes que acabe

A velha guarda no Vol au Vent, domingo à tarde.

Mal tinha baixado o post anterior sobre este enclave de Botafogo, delimitado pelas ruas da Passagem, General Polidoro e Álvaro Ramos (clique aqui) e, ao sair do prédio onde moro, na Passagem, esbarro com jovens tremulando bandeiras coloridas e vendedores distribuindo panfletos do condomínio que será erguido à rua Arnaldo Quintela, onde funcionava o prédio da Oi, quase em frente ao bar Vol au Vent. O marketing do panfleto não deixa dúvida sobre o tipo de sonho imobiliário que o empreendimento, chamado Opera de Milano Residenza, está vendendo: “chegou o 3 e 4 quartos que vai deixar Botafogo muito mais elegante e sofisticado”.

É um projeto da João Fortes Engenharia que está sendo comercializado pela Patrimóvel, com imóveis entre 89m2 e 119m2, cujo valor inicial do metro quadrado é de R$ 7.400, ou seja, estamos falando de mais de R$ 650 mil por um apartamento de três quartos, preço impensável há um ano. Mas, segundo a vendedora com quem falei à porta da obra, trata-se de uma pechincha, pois um empreendimento rival na esquina (Solar alguma coisa) está pedindo mais de R$ 8 mil pelo metro quadrado. Nessa realidade de preço, chego à conclusão que o valor de R$ 1,5 milhão proposto ao dono do Vol au Vent não é nada. Como as novas construções do bairro, o condomínio oferece salão de jogos, churrasqueira com forno de pizza, área de repouso com SPA, sala de brinquedos para crianças, sauna a vapor e uma imensa piscina. Elementos que, segundo a ideologia que movimenta tudo isso, vai melhorar e sofisticar o bairro.

O panfleto do Opera di Milano: exclusividade e sofisticação

O que temos aí, portanto, é o choque de mentalidades diferentes que se digladiam em torno do território, esbarrando-se nas esquinas. E o que tenho visto em Botafogo, simplificando perigosamente o raciocínio, são visões de mundo que valorizam, de um lado, uma idéia de “autenticidade”, presente nos moradores mais antigos, e, de outro, uma noção de “exclusividade” e “sofisticação”, presente no marketing de imobiliárias e construtoras direcionado a um consumidor de renda mais generosa.

Evidentemente, estou simplificando as coisas ao colocá-las nesses pólos. Na verdade, é tudo muito mais complexo, inclusive se formos considerar aspectos de preconceito e discriminação social, políticas de reforma urbana, forças políticas de variadas tendências que disputam o espaço público e os territórios da cidade, o problema das ocupações, favelização, remoções etc e tal. Mas ao conversar com esses moradores, novos e antigos, do bairro, percebe-se o encontro e o desencontro de noções do mundo distintas no que se refere a habitar e a conviver: enquanto uns valorizam uma idéia de “autenticidade”, outros pensam em “exclusividade”.

Sem querer ser exageradamente esquemático e fetichista, vejo que nessas conversas está, de um lado, o habitante que busca conforto, status e segurança num condomínio exclusivo (e, se é exclusivo, é diferente do convencional e, portanto, isolado, distante e distinto); e de outro, o morador antigo, que se vê como representante “legítimo” e “autêntico” dos valores culturais do bairro, que participa de sua vida, instituições, festividades e boemia (e, portanto, se sente integrado).

Pode ser a roda de samba espontânea no Bar da Adelina, puxada por Seu Vavá, ou a procissão de Santa Cecília, padroeira de Botafogo, ou ainda o Bloco do Barbas no carnaval, ou simplesmente o comércio de rua. São valores que o morador mais antigo vê, de modo geral, ameaçados ou pelo menos não compartilhados por esse novo vizinho, mais rico e distante, física e socialmente, dele.

O casario da praça Mauro Duarte, com ruas São Manuel e Fernandes Guimarães: na esquina (com toldo verde) funciona o Sabor da Morena

Alguns conflitos evidenciam esse distanciamento. Um condomínio erguido há dois ou três anos na rua Fernandes Guimarães, por exemplo, trouxe moradores que destoam dos vizinhos das vilas e velhos prédios da rua. O samba que ocorria no bar Sabor da Morena foi um dos pontos iniciais de conflito. Algumas reclamações no disque-ruído e o bar acabou autuado pela prefeitura. Por outro lado, no playground do novo prédio, quase que todos os sábados ocorrem festas de aniversário de crianças, com palhaços e música da Xuxa em alto volume, o que, por sua vez, incomoda os moradores da vila ao lado. A diferença é que estes não usam ou não conhecem o recurso de reclamar com o disque-ruído.

Lembro-me sempre da pesquisa de um amigo antropólogo da UFF sobre o ruído. Ele pesquisou as reclamações do disque-ruído, chegando à conclusão que o problema não era o ruído físico em si, o volume de decibéis propriamente dito, mas sim “quem” produzia o barulho. As reclamações eram todas adjetivadas: “uma macumba infernal”, “um samba de malandros”, “um funk de bandidos”, “um culto pentecostal” e assim por diante. Dependendo de quem fazia o barulho, o delito era mais ou menos tolerável. Talvez, se na Morena, em vez samba, rolasse um jazz...

De qualquer modo, esses conflitos entre vizinhos têm um lado bom Significa que ainda há diversidade no bairro. Isto é, que diferentes tipos de noções de cidadania, de usos dos espaços públicos e de civilidades convivem e às vezes se chocam. A convivência de diferenças é que torna um lugar vivo. Basta ver o exemplo do Greenwich Village, em Nova York, tão bem retratado por Jane Jacobs, no livro Morte e vida de grandes cidades. O Village foi um bairro interessante, dinâmico, abrigando gente rica e operários, músicos, artistas e escritores e comerciantes, negros e latinos, entre outros grupos sociais. Foram os conflitos dessa convivência rica que marcaram a dinâmica do bairro. Com tantas diferenças, o espaço público acabou preservado como o espaço de todos (aqui, se tem, por exemplo, o carro que estaciona ocupando toda a calçada, ou o condomínio que privatiza a rua com cancelas e segurança)

Quando o aburguesamento — ou gentrification, como preferem os britânicos e americanos — tomou conta do Village, os moradores antigos, sem condições de arcar com o novo custo de vida estratosférico, se deslocaram para outras áreas de Nova York, como o Brooklyn, e o Village virou um lugar caro e sem a vida interessante que tinha antes. Mais um arremedo estiloso e marqueteiro do que fora dos anos 20 aos 80. Um pouco como o Leblon dos anos 60-70.

Botafogo tem uma vocação para ser um bairro dinâmico. Cinemas, bares, comércio de rua (e shoppings também) em uma região que faz a ligação entre o Centro e a Zona Sul do Rio. E, ao mesmo tempo, é um bairro de tradição, na boemia, no samba, na vida comunitária (veja a luta dos moradores para criar a Praça Mauro Duarte, que teria virado outro espigão, não fosse a mobilização de vizinhos). Botafogo ainda mantém boa parte do casario antigo, das vilas, dos prédios baixos e uma dinâmica quase interiorana em alguns trechos, como no enclave Passagem-Polidoro-Álvaro Ramos. Mas a velocidade com que novos empreendimentos vêm tomando conta do lugar ameaça esse equilíbrio dinâmico, sustentável e saudável.

Como diz meu amigo Jason Vogel: "Visitem Botafogo antes que acabe."