domingo, 30 de agosto de 2009

Marimbondos de fogo

Amigos, ando enrolado com um trabalho extra, mas abro esse parêntesis rápido para especular sobre a atual crise moral e ética. A partir da semana que vem, o blog volta à normalidade dos posts. Abraços.



Outro dia recebi um e-mail me convidando a endossar um abaixo-assinado para tirar José Sarney da Academia Brasileira de Letras. Recusei. Ora, sem negar que por lá passaram e estão grandes figuras de nossa literatura e nossas artes, a ABL — ao contrário do que pretendeu Machado ao fundá-la —, sempre se prestou, como instituição, a esse tipo de homenagem sem sentido e sem valor. Portanto, na minha humilde opinião, Ribamar tem o seu lugar por lá. É um meio em que ele se move bem e com desenvoltura, sobretudo no chá das cinco. Não quero aqui desmerecer aqueles todos que estão na Academia por merecimento de suas artes, como o próprio Machado, Zé Lins, Guimarães Rosa e, mais recentemente, Nelson Pereira dos Santos, pois estas considerações são de ordem filosófica e não estética e, ademais, nem mesmo li Os marimbondos de fogo ou outra obra qualquer de Ribamar, para poder tecer qualquer avaliação de ordem estética.

Acho mesmo inclusive que toda essa onda contra o Sarney, estimulada pela mídia, merece uma reflexão um tanto mais profunda. Não quero defender a cultura do coronelismo, o nepotismo e todas as falcatruas do nosso nobre senador e seus descendentes. Mas, venhamos e convenhamos, é para no mínimo desconfiar, quando as pedras são atiradas, com todo o rancor, por figuras nobres, como o neto de ACM, o filho de Cesar Maia, entre outros lábaros que tremulam no Congresso Nacional. De repente, esses aí se tornam defensores da ética. Arthur Vigílio, uma vez revelado o telhado de vidro, sumiu da mídia. E ademais muito se conta sobre ele no Amazonas, coisas muito além de dar emprego a parentes.

Quero assinar um manifesto contra esse estado de coisas, mas não quero mais ser usado como massa de manobra numa luta que, para mim, é obviamente eleitoral e não ética, como se apreoga.

Acho que, pela primeira vez, algumas instâncias da República começam a funcionar. O Ministério Público, a Receita, setores da Polícia Federal, juízes de primeira instância, advogados comprometicos com o amadurecimento da democracia, entre outros. Daí as discussões riquíssimas na academia, nos cursos de história, ciência política, sociologia, antropologia, direito etc. Daí também a profusão de denúncias e escândalos. Só que uns são mais incensados do que outros pelos jornais, segundo interesses. A comoção contra a prisão da dona da Daslu, por ter aparecido algemada, e outros freqüentadores do Country Club, é um exemplo. Imediatamente, o Supremo manda soltar e brada contra o excesso da Polícia Federal e o uso de algemas, quando estas são uma determinação da lei.

Ou seja, quando o sistema democrático começa a estimular, no seu processo de amadurecimento, o surgimento, nas instâncias primárias das instituições da República, de ações antes impensáveis contra poderosos e a repugnante elite desse país, os caras lá de cima reagem. No Executivo, no Congresso e no Judiciário. Mas também na mídia, que dá eco a essas indignações e voz a determinados pontos de vista. Por isso, se for pra assinar um manifesto, este deve ser, a meu ver, em defesa desses profissionais republicanos que estão fazendo o seu trabalho de investigar, denunciar e processar essa cambada que aí está.

A questão não é mais tirar o Sarney, como tiramos o Collor, Renan, ACM e outros, e deixar a estrutura apodrecida dessas instituições intacta. É preciso uma profunda reforma política, abrangendo os três poderes, aumentando a representatividade dos diversos segmentos sociais, dos estados e municípios, impedir que qualquer governante fique refém de acordos e conchavos para poder implantar as políticas pelas quais foi eleito. Só que isso é mais complexo. Dá mais trabalho. É mais fácil e transbordante do ponto de vista emocional jogar pedra no bandido da vez. Nos sentimos muito bem quando ele vai pra casa, aparentemente, com o rabo entre as pernas. Mas o sistema permanece mais fortalecido na sua perversidade.

domingo, 9 de agosto de 2009

Pegadinha na Praça da Bandeira


Katia, do Aconchego, ainda ajeitando a casa recém-aberta do outro lado da rua

Outro dia folheava uma matéira no Rio Show, do Globo, sobre os bares da Praça da Bandeira e, quando a li a legenda de uma das fotos, pensei: "putz, erraram o bar". É que a foto era do Aconchego Carioca, boteco nunca suficientemente louvado nas páginas virtuais deste Pendura Essa, mas o box da matéria trazia no título: "Bar da Frente"... Porém ao continuar a ler a matéria vi que o engano era meu, ou melhor, que as meninas do Aconchego, Katia e Rosa, resolveram dar um nó na minha cabeça e mudaram o bar de lado na calçada e entregaram as chaves do ex-Aconchego à Valéria e à Mariana, mãe e filha, que abriram o Bar da Frente no lugar, mantendo a mesma parede grafitada e o clima de aconchego. Parecia coisa de twilight zone ou pegadinha de bêbado, sacumé?


O garçom Maurício, abraçado por Rosa: aconchego

Ontem, queridos amigos, fui tirar isso tudo a limpo. E, de fato, Katia e Rosa, cansadas de fila na porta, pegaram o sobrado em frente e ampliaram o espaço do Aconchego e repassaram a velha casa à dupla Valéria-Mariana, que já trabalhava com elas tocando a cozinha do Aconchego no Cinemathèque, em Botafogo, um esquema inteligente que as meninas costuraram com o Leo Feijó. Mas o pequenino Do outro lado, orgulhoso, está oferecendo cardápio próprio, com destaque para os sanduíches especiais e os pasteizinhos com recheios diversos e bastante temperados. Em comum, os dois botecos dividem os divinos bolinhos de feijoada de Katia e Rosa e eventuais contrabandos de quitutes levados de um lado para o outro da rua, já que são todos da mesma família espiritual. A oferta de cerveja continua diversificada, nas duas casas, uma virtude considerável, diante do monopólio que a AmBev impõe aos pequenos comerciantes da cidade (e que está agora lhe custando uma multa astronômica por concorrência desleal).


A turma da cozinha do Aconchego: fábrica de maravilhas

Também tive a oportunidade de voltar a experimentar o croquelete do Petit Paullette, petisco fruto da criativa mente de meu amigo Paulo Barbosa, o Paulette. Um verdadeiro empreendedor institivo, que conhece tudo do ramo. Nenhum MBA é capaz de ensinar o que ele sabe, fruto da observação empírica. Não posso ainda revelar os detalhes, mas ele e o Fernando, do Enchendo Lingüiça, que acabou de receber o prêmio de melhor botequim da cidade, no festival organizado pelo jornal O Dia, estão armando uma parceria. Vem coisa boa por aí.


O salão do Aconchego, com clima de cidade do interior

Aliás, ontem também visitei o Enchendo Lingüiça pela primeira vez desde que o Fernando abriu a fábrica de lingüiça, em outro bairro bucólico da cidade, o Grajaú. Não pude deixar de provar o joelho de porco, que gira na televisão de cachorro, convidando seres caninos e humanos ao banquete. Também experimentei a lingüiça (êpa!) de cordeiro com hortelã. Servida com pãezinhos passados na chapa com manteiga, excelente acompanhamento para a cerveja gelada, que, no Enchendo, sai na tulipa de chope ou na ampola mofada da penungem de gelo.


A sala de fumantes do Aconchego, com meus amigos Paulo Mussoi e Cesinha Bayma (à esquerda) numa mesa de jornalistas: aqui não é São Paulo

Foi muito bom rever os amigos queridos depois de alguns meses de secca. Como sempre fui obrigado a pôr o pé na jaca. Os dois.


O Bar da Frente lotado, diante do Aconchego, do outro lado da rua

Mas, voltando à matéria sobre a Praça da Bandeira, sempre me dá um certo calafrio quando vejo alardeado por aí, em titulares de jornal, o anúnco de novos pólos gastronômicos e coisa e tal. Certamente a propraganda é boa para os negócios dos meus amigos e não serei egoísta a querer preservar as coisas só para mim e os meus. Mas, às vezes, a pressa da notícia afeta o processo "orgânico" de crescimento de uma área, acelerando sua degradação, atraindo para ela especuladores interessados em abrir uma casa para logo depois fechar e embolsar o lucro, sem pensar no bairro, na qualidade de vida e, sobretudo, nos moradores do lugar. Construtoras, imobiliárias, redes e cadeias de restaurantes, shoppings etc.


Fernando, do Enchendo Lingüiça, com a televisão de cachorro ao fundo: joelho de porco no Grajaú

De repente, o bairro se "valoriza", isto é, sofre um processo agudo de aburguesamento, e muitos desavisados ficam felizes e orgulhosos. Mas aí os aluguéis saltam para níveis estratosféricos e os antigos moradores são expulsos pelos altos preços de tudo e, no fim, forma-se um outro bairro, que foi fagocitando o antigo, cheio de espigões e sem personalidade, que os novos moradores, atraídos pela propaganda, ostentam como sinal de modernidade. Um efeito Barra da tijuca, um bairro que não tem esquina e onde não se anda a pé. Vejam bem, meus amigos, não estou aqui defendendo a manutenção dessas áreas da cidade como museus de um modo de vida que foi desaparecendo em meio à especulação imobiliária, sucumbindo ao desenvolvimento desordenado, aos planejadores urbanos que, prepotentes, não ouvem os moradores ao criar seus projetos etc. Apenas gostaria de ver as coisas tomarem seu rumo próprio, sem a necessidade de um acelerador de partículas, que é a mídia.


A boemia sempre foi uma vocação da Praça da Bandeira

Além do mais, a noção que a burguesia tem de boemia é outra. São as boates e bares sofisticados, inacessíveis ao cidadão comum, como o tal do Londre, louvado numa matéria assombrosa do último número da Revista Programa, no Jornal do Brasil. A reportagem destaca, como uma das virtudes do bar, o preço da coca-cola light: R$ 8,50. Sim, meus amigos, repito aqui para que vejam que não foi erro de digitação: R$ 8,50. O bar é freqüentado ainda por socialites e celebridades que não pagam nada porque, segundo o dono, agregam valor à casa. São os freqüentadores desses lugares que clamam por choque de ordem, cujos excesso já fizeram fechar uns dois ou três bares e botecos aqui em Botafogo. Sem falar que as multas por mesinhas nas calçadas, que chegam a R$ 20 mil em alguns casos, estão enchendo o bolso de muito fiscal da prefeitura. Tenho a impressão que o ideal de cidade para esses administradores são as ruas vazias e os shoppings lotados (fico pensando que atrocidades não trará o Plano Diretor da cidade que está para ser votado na Câmara).

E, ademais, estamos falando da Praça da Bandeira, um dos bairros mais interessantes do Rio de Janeiro, ainda razoavelmente preservado em seu casario do início do século passado e pouco conhecido de muita gente, que pensa que a Praça da Bandeira se resume àquele trecho apertado, cortado ao meio pela Radial Oeste, quando passam apressados rumo ao Maracanã. É fato que as ruas do bairro, que me lembram tanto as do meu pedaço bucólico de Botafogo, vivem uma efervescência, que a reportagem do Rio Show percebeu. Só que a Praça da Bandeira, como de resto a Tijuca, o Maracanã e São Cristóvão, sempre foi assim. Para quem gosta de boemia e de Rio de Janeiro, a matéria não traz novidade, exceto a pegadinha que o Aconchego pregou neste pobre e desvalido escriba, ao mudar de lado da calçada.

sábado, 1 de agosto de 2009

Lembrança de um sonho de antes de nascer



Querida amiga, outro dia pensei no sonho que atravessou sua alma uma noite dessas em que nos estiramos fatigados no jardim, depois de brincarmos eternamente de amor. Foi naquele verão pré-histórico, lembra? Me lembro que percebi sua inquietação ainda enquanto estava submersa em sono profundo, o corpo aninhado, arrepiado por leves tremores ocasionais. De repente, num zás, despertou já outra pessoa. Deixara o casulo. Tudo em sua vida havia se transformado para sempre. Era como se o sonho tivesse se estendido à vigília, invadido à revelia, insolente, revelando a letargia em que vivera até então. Vi que descobria, ao abrir os olhos, as asas enormes e ainda viscosas do orvalho onírico. Elas sempre estiveram lá, mas escondidas no dia-a-dia das coisinhas triviais ou inalcançáveis nos desejos grandiosos e heróicos. Sim, querida amiga, fui testemunha de seu despertar de assombro do sonho da vida e de seu esforço para esconder a perplexidade, ao ver-se ali, no universo dos adultos, ao lado do homem nu que chamava seu. Era a infância vivida desde antes de nascer que morria ali, naquele acordar. E embora me chamasse de capitão Ulisses e estendesse a mão, enquanto arrumava as coisas para a grande jornada, seus olhos já diziam adeus. Era sua a odisséia. E eu, querida amiga, da terceira margem do rio, ainda hoje aceno o meu chapéu ao teu navio.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Fina estampa



Querida amiga, gosto mesmo é daquele teu vestido amarelo que cai, preguiçoso, cheio de florzinhas, primaveril, que te veste com ares de Rosinha, quintal e verde. Gosto sobretudo porque te põe onde não andas jamais. Tu, que de Rosinha não tens nada, que acendes labaredas de dragões adormecidos, e perambulas nas esquinas mais cinzas da cidade, às vezes vestes o pano que empresta singeleza à tua figura. E me encho de graça ao perceber o contraste, por conhecer a força que o tecido esconde... num zás de encantamento te transformas. Florzinha, Rosinha... até que um canto de sorriso perverso aflora, quase imperceptível no início, e ages, transformando tudo e aqueles, como eu, que te acercam. Para sempre. Por isso, não esqueço que um dia veio um vento justo quando caminhavas para encontrar-me. Ver-te emergir do vestido inflado no sopro indecente, inflou-me igualmente para além do céu profundo.

sábado, 18 de julho de 2009

Cantiga de um quase atropelo



Querida amiga, a grande avenida se estendia muito além dos meus passos, a luz baixa do sol incendiava os olhos e a cabeça seguia longe, um tanto letárgica pelo mormaço. O calor afetava o cerebelo e me doíam os ossos ao pisar o chão. Por onde andaria você? Me perguntava entre as muitas coisas que me queimavam o peito. Nunca mais tivera notícias desde aquele adeus chuvoso, muitos invernos atrás, numa esquina de idioma estrangeiro, para lá dos trópicos. De repente, num cruzamento, o sinal fechando, respondo instintivamente à buzina. O chamado era para mim e nosso era o carro. O velho guerreiro de estradas esquecidas, que compartilhamos naquele tempo transformado em mais-que-perfeito pelo sortilégio da memória. Sincronicidade, pensei sem pensar, já atravessando a rua em sua direção, sorriso de ponta a ponta. Mas estanquei com o assovio da freada brusca do outro carro que vinha apressado, animal japonês de todas as tecnologias, para ocupar o espaço vazio entre a calçada e o nosso velho jipe, parado na faixa do meio, preguiçoso. Foi por pouco, amiga. E, no fim, só o triz de um susto e a constatação de que não era, afinal, você ao volante. E, enquanto o japonês me xingava a desatenção, percebia: tampouco era o nosso velho carro. Nem sequer sincronicidade; apenas desejo e fantasia. O alguém que agora estava atrás do volante eu conhecera outro dia. Me dizia, assustada, cuidado! E eu concordava, constrangido. Certamente não valeria a pena ser atropelado pela saudade.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Do fundo do baú (2)



Pois é, amigos. Continuo na minha incursão pelo tempo e a memória através de negativos e cromos (slides) dos meus tempos de repórter-fotográfico no início de carreira. Me deparei com essas do mano Caetano, tiradas em sua casa em 1988. Era um trabalho freelancer para um jornal de Petrópolis. Na época, Caetano não estava falando com a imprensa fluminense depois de uma polêmica que já nem me lembro qual era. Ele vivia no Leblon, na esquina da General Urquiza, e nós chegamos em sua casa lá pelas 5 da tarde, a hora que ele costumava acordar e as fotos foram feitas assim, com ele mal saído da sesta.



Batemos um papo muito interessante sobre música. Naquele então, Caetano não era essa unânimidade de hoje e nem tinha a mídia a seu serviço. Hoje, tudo o que ele faz é registrado como um acontecimento, os mais comezinhos jabás são transformados em grandes reportagens para um público ávido por notícias sobre celebridades e faits divers sensacionalistas. Mesmo assim, considero sua trajetória importante para se entender um certo processo cultural brasileiro que dialoga com certas tradições, inclusive tradições antagônicas entre si, como o Cinema Novo e o Cinema Marginal, por exemplo. O tropicalismo do Caetano é politicamente populista nesse sentido específico: de uma força que dialoga com tudo o que se considera interessante e relevante.

O tropicalismo de Caetano vai aos modernistas, à geração de 45, com João Cabral do Melo Neto, ao concretismo dos irmãos Campos e Pignatari; vai a Glauber, a Sganzerla; dialoga com Zé Celso e tudo de novo que aparece. Com isso, ele reforça o princípio cultural da antropofagia, de deglutir tudo o que há de interessante para recriar, a seu próprio modo, essas coisas todas. Uma certa e eterna liberdade criadora que se alimenta dos outros.



Alguns anos mais tarde, por volta de 1996, fotografei também para uma entrevista a Vera Zimmerman, a Vera Gata da canção de Caetano. Como ele, ela também estava acabando de despertar em sua casa iluminada pela manhã de um dia de semana, no alto de Santa Teresa. Na época, gostava de buscar esses caminhos alternativos ao fazer portraits: sem maquiagem e sem iluminação artificial. Acreditava que me daria uma linguagem e um estilo próprios nos retratos, deixando as sombras duras e o contraste forte.

sábado, 4 de julho de 2009

Mexendo no fundo do baú


Eu e Clarissa, foto retirada do fundo do baú

Amigos, depois de duas décadas fotografando com negativo e slides, acabei formando sem querer um acervo que registra não apenas minha história pessoal, mas um período — entre meados dos anos 80 e fim dos 90 — em que muita coisa aconteceu. A luta pela democratização (Diretas Já, eleição do Tancredo, por exemplo), minhas viagens pela Amazônia, Cuba, Nicarágua, França... e sobretudo as pessoas que passaram por minha vida.

Em dezembro, comprei um scanner de negativo e comecei, lenta e preguiçosamente — ou como diria o Umberto Eco na sua erudição, delectatio morosa, a arte de demorar-se nas coisas (sobretudo no amor) para melhor degustá-las —, a digitalizar essas imagens, que estavam guardadas, organizadamente em arquivos etiquetados, dentro de caixas de papelão. A cada envelope de negativo que abro, uma história se descortina e a memória é assaltada com a "nitidez perversa da saudade", como diria García Marquez. Sobretudo por pessoas que foram embora para sempre ou que passaram fugidiamente pela minha vida, como Clarissa Alcântara, uma gaúcha, escritora sensível, com quem vivi intensos dez dias em novembro de 1988, no Rio. Depois, duas ou três cartas, um livro de presente e nunca mais notícias.


Maureen com um menina nicaraguense no colo

A mesma história, meses antes, no mesmo ano, na Nicarágua, com Maureen Moore, uma atriz americana que quis conhecer a revolução sandinista naquele então. Nos encontramos em Manágua e, de lá, viajamos de carona por mais oito cidades do país, entre as quais, Granada, Matagalpa, Juigalpa, Masaya, Pochomil... visitamos lagos, vulcões e sobretudo feiras e mercados, onde, em qualquer lugar do mundo, se conhece a alma de uma cidade (aliás, abro um parêntesis para mencionar os relatos e as fotos de meu amigo Bruno Ribeiro, que esteve na gelada Filândia, e registrou entre outras coisas o mercado de peixe, vejam aqui). Depois disso, eu e Maureen trocamos meia dúzia de cartas (naquele então não existia e-mail) e, enfim, perdemos contato para sempre. Fica a saudade, agora reacendida pelas fotos tiradas do fundo do baú.

Bem, pelo menos fica a saudade.

sábado, 27 de junho de 2009

Duas cantoras e uma escritora


Auto-retrato da Camaleoa, literatura e arte na preça

Amigos, enquanto escrevo estas mal traçadas linhas alterno no aparelho de CD duas vozes femininas de singularíssmo apuro sonoro. Refiro-me, em primeiro lugar, à minha amiga querida Andrea Dutra, jornalista e cantora, não necessariamente nessa ordem. Já há algum tempo ela lançou um CD com o violonista Marcus Nabuco, meu ex-vizinho de prédio. Trata-se de um trabalho que me lembrou o antologico disco de Nana Caymmi e Cesar Camargo Mariano ou ainda o igualmente antológico duo de Monica Salmaso e Paulo Bellinatti, regravando os Afrosambas do Baden Powell.


Andrea na Modern Sound, no show do Quarteto Moderno (Pauleira Malagutti no piano, ao fundo)

A onda de Andrea, que além de seus trabalhos solo, faz parte do grupo Arranco de Varsóvia, é o repertório bossa nova, samba e soul brasileiro (Tim Maia, Jorge Ben, Cassiano e por aí). Aliás, foi ela a primeira a cantora a trazer em seus shows toda uma rapaziada do soul que andava esquecida. Eu a conheço desde o século XIV e venho seguindo seus passos desde então. Sou cativo de seu talento, de sua inteligência e afeto. Seu blog, Avant-denière pensées, está assinalido na lista abaixo e pode ser acessado clicando aqui.


Concha Buika, em foto de divulgação: coração na voz

Outro dia, conversávamos sobre faits divers e banalidades, quando entramos no assunto das estranhas circunstâncias da morte do ator David Carradine, um caso de sexo & violência narcísico, e ela me disse, depois de refletir brevemente sobre o assunto:

— É... nossos heróis morreram de overdose.

Sincronicidade. Conversando com meu querido Paulo Pires num evento no Villarino (veja o post imediatamente anterior) sobre a morte, igualmente prematura, do nosso Juca, do Bar do Serafim, ele me disse frase quase igual:

— É... nossos heróis morreram de cirrose...


A capa do CD de Andrea com Nabuco: uma sonoridade singular

Outra cantora que tem feito contraponto com Andrea no meu aparelho de CD é Concha Buika. Seu repertório é uma mistura de flamenco, jazz e blues, mas tudo muito sofisticado em termos harmônicos. Porém, o que me pega mesmo é o cantar. Ela se derrama pela voz, desnudando-se completamente. Ela me lembra o cubano Bola de Nieve, Martírio, Chet, Elis e Piaf. Ou seja, a tradição dos cantores que colocavam o coração na voz e interpretavam sem medo. Hoje, para os ouvidos modernos, isso talvez soe um tanto exagerado, mas, na minha modestíssima opinião, é música na essência, na veia. O disco em questão, presente de um casal da França de passagem por minha casa, chama-se Niña de Fuego.

Abri o sábado com um bom incenso e essas duas musas soando pela casa, limpando a atmosfera, na esperança de um recomeço. E quando falo em recomeço imediatamente me assalta o espírito a escritora Camaleoa, já amiga de anos, desde os tempos em que produzia literatura abusada em Mato Grosso e, hoje, radicada em Sampa, toca os jornais Café Literário e Na Praça, projeto de Eduardo Barroux — que nos deixou precocemente — para uma revolução no país do carnaval. Revolução que agora está nas mãos de Camaleoa em sua incansável iniciativa de produzir jornais com poetas, pintores, fotógrafos e artistas em geral. Enfim, tudo o que acontece em torno e nas praças é interessante.


Capa da última edição do Café Literário (nº 41): pelo correio até minha casa, inaugurando o sábado

Um dos meus desejos mais perversos de 2009 é dar um porre nessa menina com cervejas bem encorpadas. Ela que não bebe. Mais do que qualquer coisa, trata-se de um projeto febril-sideral.

Minha amiga está reconstruindo sua vida após a saída prematura de Barroux numa ventania de fevereiro. E seu blog, Na estrada de novo, também está na lista e aqui. Na penúltima edição do Na Praça, ela escreveu um belo texto que começa dizendo que "depois do vento forte, sobram os livros empoeirados, os cadernos de colagem, os arquivos fotográficos"... para falar sobre as heranças que os encontros deixam nas nossas vidas. Dos mais fugidios aos mais longos.


A capa do Na Praça com retrato de Barroux

Eu colaborei com essa edição, com o poema Fama em homenagem a esses artitas fantásticos que volta e meia passeiam pelo Pendura Essa: Manduka, Espinhara, Luna e o próprio Barroux, idealizador do dois jornais, fotógrafo... enfim, aquele tipo de artista neorenascentista, que faz de escultura a murais na cidade e ainda constrói engenhocas e parafernálias. Enfim, sujeitos criadores que, como essas cantoras, não têm medo de pôr o coração no que fazem.

Me permitam reproduzir os versos aqui:

A morte prematura
Endeusa o tipo.
E como saíste cedo
Esquecido, maldito
Tens tudo para
Dar luz ao mito.

Mas uma fama,
Que assim se deita
Desarruma a cama
Atrasa a colheita.
Morte e saudade
Arrebatam o homem
Santificam o nome.

Porém, és mais
Que páginas, jornais
Luz que acende
Sol que arde,
Nunca dependerás
De alarde.

A razão disso tudo, meus amigos, é esse sábado musical e a fortuna de abrir a caixa de correio (real, não virtual) e encontrar as duas últimas edições do Na Praça e do Café Literário num envelope pardo com selo e tudo. Uma sincronicidade para começar bem o sábado.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Dois eventos etílico-gastronômicos


O segundo andar do Mercado São Pedro, onde os botecos preparam peixes e frutos do mar comprado embaixo (no primeiro plano: os irmãos André e Renata)

Amigos, neste último sábado, organizei a pedidos com um grupo de amigos uma ida à Niterói, para um passeio etílico-gastronômico na cidade que é berço de excelentes botequins e restaurantes. A idéia, singela, era comerçarmos no Mercado de Peixe São Pedro, sair dali e, por dica de meu querido amigo Guilherme Sturdart, conhecer a empadinha do Pára Pedro, um boteco na esquina do mercado. Seguir para o Caneco Gelado do Mário e ver o dia morrer da calçada do Decolores. Quando a idéia foi lançada, vários amigos se animaram, mas daí veio a chuva torrencial de sexta-feira, a falta de grana de alguns e outros obstáculos e grupo minguou, restando apenas dez felizes e obstinados comensais.


Os boxes com peixes e frutos do mar do Mercado São Pedro

O problema foi que ao chegarmos no Mercado, exageramos na compra dos peixes e dos camarões, de modo que quando levamos para o segundo andar, ao boteco do seu Sileyr, foram preparados inúmeros pratos: camaraões fritos, moqueca de peixe, peixe frito empanado, pastéis de camarão temperados com leite de côco, entre outras iguarias. Silvio, pai de JPaulo, freguês contumaz há mais de 15 anos do Mercado, organizou tudo. Sabia em quais boxes comprar o camarão, em quais comprar os peixes e qual o melhor boteco para prepará-los, no segundo andar. Tudo perfeito.


Ju e JPaulo: mesa animada pelos obstinados comensais

Vou poupá-los dos detalhes, para evitar a produção de saliva excessiva, meus amigos. Basta dizer que comemos como nababos, e nos demos conta, não sem uma certa pena, de que teríamos que alterar nossos planos originais. Depois de dois engradados de cerveja, distribuídos por dez pessoas, e toda essa comilança, abortamos o Pára Pedro e o Caneco. Fomos direto para o Decolores, antes de atravessar a Baía de volta ao Rio, onde, parte da turma, terminou a noite, na mureta do Bar Urca, para contemplar, ao revés, o cenário do fim da tarde que presenciáramos de Nikiti. Um detalhe: no Decolores, encontramos o garçom Joel bem-humorado, de modo que ouvimos alguns boleros inspirados.


Seu Sileyr (no centro) é o tipo de dono de bar, que se senta com os fregueses

No meu caso, foi preciso tirar o domingo para uma recuperação, sobretudo da alma. Passei o dia convalescendo, mergulhado em livros e jogos de futebol, entremeados por sonecas e bastante água. A sorte é que peixe é algo que o organismo metaboliza com rapidez, sobretudo se for fresco.


Ensopado de peixe, ao estilo moqueca, uma das iguarias preparadas

Queria estar bem para a segunda-feira, onde teria outro evento etilico-gastronômico: o aniversário de 56 anos do Villarino, que foi celebrado ontem, com um coquetel para convidados, amigos da casa e de seu Antonio Vásquez, o espanhol que foi garçom do bar mitológico e depois virou dono. É graças à sua obstinação que a casa continua existindo, apesar da crise, da concorrência desleal com fast-foods, do descaso das autoridades com esses patrimônios, como diz o Guilherme, imateriais do Rio de Janeiro.


O garçom Ramos, do Villarino, também conhecido pelo apelido de Marlon Brandon

Bem, todos conhecem mais ou menos a história do bar. A famosa parede, com desenhos, assinaturas e poemas de fregueses como Di Cavalcanti, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Lygia Clark entre outros, e que foi apagado num gesto infeliz do sócio português da casa (ontem, conheci uma nova versão da história, em que a medida teria sido uma punição ao Di, cujo pendura se avolumava além do tolerável).


Paulo Pires (à esquerda), Dapieve e Manya (do outro lado da mesa) e Guilherme (ao fundo), amigos no Villarino

Foi lá também que Vinícius de Moraes foi apresentado ao Tom Jobim e lá teria tido início a parceria entre os dois. Ou seja, amigos, o Villarino é um clássico, o bar-uisqueria, uma tradição de boemia que está rapidamente desaparecendo na cidade. E só não desapareceu graças à obstinada determinação de seu Antonio, que recusou inúmeras ofertas de compra do lugar, inclusive do Bradesco e da Drogaria Pacheco.


Detalhe da geladeira espelhada do Villarino

Para mim foi uma honra participar dessa comemoração, ao lado de amigos, como o Guilherme Sturdart, Paulo Pires, Manya Millen e Arthur Dapieve, com a família de seu Antonio, que ontem cantou canções populares da Galícia, num momento de alegria. Parabéns, e que outros 56 anos sejam celebrados pela casa.


Seu Antonio Vásquez (sentado), cercado por familiares e amigos

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Toda aberta ao vento



Amigos, como ando enrolado com umas tarefas interessantes, reproduzo, ampliado e com modificações, um post mais antigo, do Pindorama 2, de 23 de maio de 2007. Uma elocubração sobre a mulher, a partir de uma conversa com uma amiga especial num velho botequim de Copacabana num dia de encontro casual. A amiga em questão é essa aí em cima, cuja foto manipulei, pois ela não gosta muito de aparecer assim, digamos, publicada. As fotos de baixo, igualmente manipuladas no Photoshop, são de um francês chamado Pascal Renoux.

Toute ouverte au vent



Toute ouverte au vent. É assim que um mito ancestral define a mulher, me disse uma amiga outro dia, numa mesa de bar. Ela mesma um ser mariposado, toda aberta ao vento, atravessada por sopros e furacões, cuja história de vida é marcada pela tragédia e a morte. Por haver me desencontrado de mim mesmo em seu jardim labiríntico, completamente apaixonado, ouço com atenção tudo o que ela me diz. Procuro memorizar não só as palavras, mas o tom de sua voz, na esperança de tentar desvendar, nas ênfases de seu sotaque afrancesado, o mistério do amor fugidio.

O mito, porque é mito, está sempre certo, seja qual for a alegoria, o delírio, a metáfora. A mulher infla na gravidez, seca na tristeza, reluz na paixão, e é quase sempre aérea, varada por ares os mais distintos, flutuando pela vida, numa intensidade brumosa, leve, por pouco incorpórea, e repleta de aberturas no corpo. Navegar pelos caminhos macios de sua pele, escalar os montes de seus músculos, percorrer suas curvas e perder-se para sempre em seus recantos mais obscuros é o exercício existencial ao qual me dedico desde a minha pré-história. Como diz o poeta Geraldo Carneiro: “Amar é o mar em que me precipito.”

Encontrei minha amiga do outro lado da rua, em pé na calçada, à espera de que meus olhos distraídos, enfim, cruzassem com os seus. Naquele momento, vagava sem rumo, em busca de um canto para amarrar as palavras que vêm dançando em volta de minha cabeça nesses dias de reencontros com velhas paixões, e eis que ela emerge na terceira margem do rio, como uma aparição. Sincronicidade. Andava no seu jeito de sempre, como quem pisa descalço no chão, e me tomou pela mão, dizendo que queria ver o mar. Porém, de longe! Pois as ondas ainda a assustam com as lembranças de abismo e a maresia que traz de volta a história trágica de sua vida. Porém, uma chuva começou a cair intensamente e nos lavou o passado. Éramos inteiros naquele momento e, assim, pude vislumbrar seus ventos. Ela finalmente enterrava seus mortos.



Mais tarde, no velho botequim de bandeira lusitana, conversamos sobre a alma. Ela me disse, então, que a vida só se mantém após a morte na memória dos que estão vivos. Discordei por instinto, sem saber argumentar numa retórica patafisica. Como não sei nada desses assuntos, deixo o desejo decidir. Além disso, sei que em todas as sociedades e culturas humanas há a idéia de continuidade existencial.

Depois de nosso vôo sideral, nos despedimos de uma vez por todas num abraço. Éramos agora completamente outros em nós mesmos. Zerados em um novo começo.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Cartas d'além mar (23)



Querida amiga, agora que você mergulha cada vez mais em terra estranha; agora que você se põe cada vez mais além da distância dos meus dedos, a vejo com mais freqüência nas esquinas da cidade. Agora que seu sotaque ganha novos sons, e o idioma traz velhas expressões do tempo em que foi embora, ouço sua voz todas as noites, mal os olhos se fecham ao adentrar o azulado campo onírico. E, no entanto, concretamente, a distância se faz presente, quando fico sabendo de coisas de sua vida por mensageiros ocasionais, quando percebo que não mais ajudo a escrever o roteiro em que éramos protagonistas, as histórias de amores felizes e viagens sem fim pela estratosfera de nossas conversas. Nossa vã filosofia: em que pedaço do infinito nos encontramos? Será que tudo tem mesmo um fim? Agora que nos tornamos uma abstração, um presságio de outro dia, um arrepio na memória, ponho os pés no chão e me descubro incerto das direções.

sábado, 30 de maio de 2009

Reflexões sobre o bairro


Rua de Botafogo, na minha vizinhança. A última casa à direita deu lugar a um espigão há um ano e meio

Amigos, volta e meia discorro aqui no Pendura sobre a importância do comércio de rua. Insisto no papel integrador que essas casas comerciais — de botequins a salões de beleza, de açougues a jornaleiros, do aviário à casa de artigos de candomblé, do barbeiro da esquina ao secos & molhados do seu Antonio — desempenham em seus bairros, servido de ponto de encontro, de troca de informações, de sociabilidade e de socialização da vizinhança na cultura específica da rua, do bairro. É essa cultura que dá a cada bairro da cidade a sua singularidade e ao morador as chaves para ser e estar ali.

Os botecos inclusive têm ainda uma função de clube social, onde os vizinhos se encontram para jogar conversa fora e debater filosoficamente questões da maior importância, em contendas que só têm comparação no simpósio descrito por Platão, no seu banquete. Debates sobre o amor, a honra, o respeito, a política, o futebol, a mulher e por aí vai. Sempre calorosos, às vezes exaltados.

Para mim esse fenômeno urbano é tão óbvio, que me exaspera ver que as autoridades, encasteladas em seus distantes núcleos de poder, não se dão conta ou simplesmente não querem ver esse aspecto de extrema riqueza e importância para a vida social dos bairros. Executam seus planos de urbanização sem conversar com os moradores que serão afetados, partindo simplesmente de visões preconceituosas e estereotipadas, mas sobretudo autoritárias, normalmente a partir do ponto de vista de uma classe média assustada com a cidade, ponto de vista esse que ganha incrível ressonância na mídia.


O bloco do Barbas, que brinda os foliões encalorados com um banho de carro-pipa: um verdadeiro êxtase

A isso se soma uma indústria imobiliária feroz, que em seu afâ de vender o máximo possível de unidades residenciais (sim, porque não dá para chamar de apartamento ou casa os espaços que oferecem) inventam condomínios supostamente autosuficientes, que oferecem tudo: bar, piscina, sauna, videolocadora etc. e ajudam a esvaziar as calçadas da vizinhança onde se instalam. Os moradores desses lugares, igualmente convencidos de seu status de "modernos", evitam o comércio de rua, preferindo os shoppings, os hipermercados, os centro comerciais. A Barra da Tijuca é um exemplo dessa lógica e é, por isso, que em boa extensão do bairro não se vê viv'alma nas calçadas. É talvez o único bairro do Rio que exige que seus moradores possuam carro.

Como já disse aqui, vivo num pedaço de Botafogo que muito se assemelha aos melhores bairros da subúrbio carioca. Com suas casas, sobrados e prédios de, no máximo, três ou quatro andares, essa área é cercada do mais vasto e variado comércio de rua. De bicicletário a reparador de fogões, das velhas padarias a chaveiro. Ali estão velhos ofícios, como sapateiro, alfaite, jornaleiro, apontador de jogo do bicho, mecânicos etc. À tarde, os cachorros das casas latem e a criançada grita, correndo atrás de bola, andando de bicicleta ou soltando pipa na praça. A velha guarda fica nos botequins, observando a rua. São os olhos informais da rua, observando as gerações crescerem, o movimento diário da vida no bairro. Foi por isso que o Chico, da Adega da Velha, percebeu logo que havia algo estranho e anormal na conversa de Marianinha com o estranho, como relatei aqui, alguns posts abaixo.


O Belmiro, boteco de esquina de Botafogo

Sucede, que a vida na cidade é incontrolável e todas esses elementos — o tradicional e o novo — estão em contante confronto e mutação. Em algumas áreas da cidade eles se impõem de forma tão acachapante, que a região muda completamente, num processo de gentrificação, ou aburguesamento, como aconteceu com o Leblon nos anos 60, que, de bairro classe média baixa, se tornou uma das referências da elite carioca. Ou, para trazer a coisa mais para perto, como parece estar acontecendo com Santa Teresa hoje em dia.

O jovem de classe média fica inebriado com o aspecto bucólico e proletário do bairro e se muda para lá. Sua convivência ali, no entanto, não é de fácil assimilação, pois ele é visto como alguém de fora. No entanto, ele vai convencendo outros de seu grupo social a se mudaram para lá e acaba formando uma comunidade dentro da comunidade. Aí começa uma demanda por serviços e produtos que antes não existia, determinado shampoo para a namorada, tipo de comida mais macrobiótica etc. Daqui a pouco, surge um restaurante de comida natural e uma botique de produtos para a pele. Aí um incorporador imobiliário vê a chance de subir um espigão voltado para o perfil desse novo consumidor e coisa e tal. Aos poucos o bairro bucólico e proletário vira um arremedo do que era. e, quando se vê, a morfologia social do bairro mudou para sempre.


A rua Arnaldo Quintela, vista da minha janela

As gerações vão se sucedendo e novos valores vão surgindo. As coisas mudam inevitavelvemente. Mas também é concreta a resistência a essas transformações que ocorre aqui e ali. De minha parte, eu, que desisti de ter carro desde quando tive idade para tê-lo, prefiro uma calçada cheia de gente e movimentada, onde possa caminhar, do que um lugar vazio, espremido entre condomínios estratosféricos e autopistas de grande velocidade.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Naná Vasconcelos


Naná Vasconcelos, na foto copiada do blog do Bruno

Amigos, o Bruno Ribeiro, amigo de blog, jornalismo e botequim, fez uma belíssima entrevista com o percussionista Naná Vasconcelos, certamente um dos maiores percussionistas do mundo. Abaixo a introdução feita pelo Bruno e o resto da entrevista segue aqui, em seu blog. Conheci Naná em 1978, quando morava em Nova York. Ele tocou com meu pai, Gaudencio Thiago de Mello, que é compositor e percussionista e vive lá desde meados dos anos 60, e com meu primo Manduka, com quem gravou um disco antológico em Paris, quando Manduka estava exilado. No disco, meu primo vai de violâo, congas e charango e Naná com seus variadíssimos instrumentos.

Tinha 18 anos nessa época e conheci umas figuras geniais com o falecido percussionista Dom Um Romão, o trompetista Claudio Roditi, entre outros. Na casa do velho, um apartamento pequeno em Manhattan, rolava jam sessions quase todas as noites. Naná e meu pai fizeram vários shows pequenos por Nova York, mas o mais legal mesmo foi uma apresentação que os dois fizeram, numa época de grana curta, numa escola de segundo grau (high school) no Harlen. A molecada ficou louca com aqueles ritmos todos.

Nas jams na casa do velho, tudo era gravado em fita rolo. Tem gravações históricas, como Gilberto Gil tocando, com o velho e Dom Um, o hoje clássico Oriente, em 1972. Tem também gravações com Hermeto, Flora Purim e Airton Moreira, o maestro Moacir Santos, entre outros. Dessas fitas, algumas coisas nós passamos para digital e hoje tenho em CD quase uma hora de Naná tocando berimbau.

Entrevista # 8 — Naná Vasconcelos
Por Bruno Ribeiro

Percussionista, compositor e produtor, Naná Vasconcelos é um dos artistas mais interessantes da música brasileira. Nascido em Recife, no dia 2 de agosto de 1944, Naná veio ao mundo respirando maracatus e cirandas. Começou a tocar bongô em cabaré. Na adolescência, envolveu-se com as músicas de Heitor Villa-Lobos e Jimi Hendrix. Dotado de uma curiosidade imensa, aprendeu a tocar praticamente todos os instrumentos de percussão. Mas foi mesmo o berimbau que o notabilizou como grande artista. Desde 1970, quando passou a atuar nos Estados Unidos e na França, tem desenvolvido um singular trabalho de vanguarda. Dentre seus discos mais conhecidos estão Áfricadeus e Amazonas. Na entrevista abaixo, Naná Vasconcelos fala sobre sua relação com o berimbau, a identidade da música brasileira e a sua infância em Recife.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Entrevista delirante


A foto com a qual Rogério Duarte criou a capa do disco Tropicália (o Torquato é o último à direita, sentado com as pernas cruzadas). Foto garimpada na internet

Amigos, o blog da editora Azougue, de São Paulo, comandada pelo escritor, editor e ensaísta Sergio Cohn, figura muito simpática e arguta, lançou em março a coleção Encontros sobre a Tropicália, que é boa maneira de entrar na cabeça das pessoas que faziam a cabeça de uma certa geração. O Sergio vem fazendo uma espécie de arquelogia das artes em geral: literatura, cinema, artes plásticas e música dos anos 60, 70 e 80, assim como de figuras importantes do pensamento original brasileiro como o geográfo Milton Santos e o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Abaixo, como uma palinha do conteúdo da coleção, uma entrevista delirante de Rogério Duarte, autor das capas dos discos e cartazes da Tropicália e do Cinema Novo — como a do filme de Glauber Rocha Deus e o diabo na terra do sol —, com o poeta e escritor Torquato Neto. Para quem quiser saber mais sobre a editora Azougue, há um link na lista de notáveis abaixo.


Torquato em foto recuperada da internet

Entrevista delirante

[Rogério] Torquato, você acha que está cumprindo seu dever de brasileiro?

[Torquato] Yes.

[Rogério] Porque você respondeu em inglês?

[Torquato] Devido a minha formação (Joaquim Nabuco) de comunista.

[Rogério] Presentemente está atuando em alguma emissora?

[Torquato] Não.

[Rogério] Em inglês ou português?

[Torquato] Em português. Nós temos Bananas. Fale.

[Rogério] Assim não, isso é plágio de João de Barro e Alberto Ribeiro. Que tem a declarar?

[Torquato] Vinícius jamais escreveria isso. Vinícius é a minha miss Banana Real. Geraldo Vandré é um gênio.

[Rogério] Você diz um gênio sexual ou matemático?

[Torquato] Nunca dormi com ele.

[Rogério] Por que, você sofre de insônia?

[Torquato] Eu era viciado em psicotrópicos. Hoje em dia eu dou mais valor ao salcalóides...

[Rogério] Eu por minha parte dou mais valor aos aqualoucos.

[Torquato] O Golias é ótimo.

[Rogério]Ele já foi aqualouco?

[Torquato] Yes.

[Rogério]Você não acha que nós devemos tratar melhor os negros?

[Torquato] Yes.

[Rogério] Por exemplo, lá em casa estamos há 2 meses sem empregada. Nesse sentido Malcolm X ou Bertrand Russel foram muito compreensivos. Veja o caso de Sérgio Pôrto com aquela estória do crioulo doido, puro racismo, e racismo paulista, o que é mais grave sendo ele cocarioca, isto é, carioca, não acha nego?

[Torquato] Yes. Acho sim. Agora: o Bertrand Russel é mais branco do que Malcolm X. O que estarei querendo dizer com isso?

[Rogério] Talvez que a noite deste século seja escura e de uma escuridão tão impotente que mesmo no seu âmago mais profundo não são pardos todos os gatos.

[Torquato] Non sense. Auriverde pendão das minhas pernas que a brisa do funil beija e balança. Onde está funil leia-se mesmo Brasil. Nelson Rodrigues inventou a subliteratura e eu endosso..

[Rogério] Mas você não acha que depois de C. Veloso já devemos começar a cuidar mais seriamente da superliteratura?

[Torquato] Yes. Freud explica, não é mesmo?

[Rogério] Seria se fosse. Mas tanto Freud como Sartre como Lévi-Strauss não passam de romancistas da Burguesia. E Lukacs?

[Torquato] Foi o caso mais grave de Geraldo Vandré que já conheci. E com a desvantagem de ser tão polido como Leandro Konder. Só que de Romance ele não manjava bulufas. Mas, não exageremos porque Lukacs é um moço de muito futuro.

[Rogério] Além do mais Torquato todas as nossas tragédias ou melodramas individuais fazem parte de um projeto coletivo nosso. Nós fumamos maconha para ter um sucedâneo da fome dos operários e damos a bunda porque não entendemos bem a razão pela qual temos tantas bananas e os camponeses continuam tão desenxavidos.

domingo, 24 de maio de 2009

Personagens silenciosos


Garçom do Bar Loga, famosos pelo mau-humor: mito ou verdade?

Na minha perambulação por botecos, casas de pastos e restaurantes da cidade sempre me chamam a atenção os funcionários da casa, sobretudo garçons, balconistas e cozinheiros. Em muitos lugares, faço questão de ir à cozinha, quando a casa permite, trocar dois dedos de prosa com os responsáveis pelos sabores que saem das panelas fumegantes. Gosto de ouvir suas histórias. No geral, percebo, esses personagens maravilhosos, misteriosos, passam anônimos pela clientela, como se não existissem.

Como a cozinheira dona Antonia, do Restaurante 28, cuja morte recente foi citada alguns posts abaixo. Em seu funeral não havia parentes, apenas o pessoal do bar onde passou quase sua vida inteira. Uma existência em silêncio que já deve estar se apagando da memória dos assíduos do 28, que, com voracidade, devoravam suas receitas de panela, das quais destaco o cozido de tempero centenário.


Chiquinho, de garçom do Bracarense a dono de bar no Leblon

Diferentemente do pessoal da cozinha, os garçons têm mais contato com os fregueses — como bem lembra o Jaguar, alguns assíduos passam mais tempo com o garçom do que com a mulher. E quando há empatia, forma-se uma camaradagem, uma espécie singular de amizade, que é entremeada pelo negócio, mas o afeto também está presente. Me lembro, por exemplo, do Paiva negociando a meu favor um pendura no Jobi, com o Narciso. Tarefa hercúlea, diga-se de passagem. Ou ainda o saudoso Lima, do Aurora, que me alertava:

— Não peça o peixe hoje, não. Vá de carne. É melhor... — e piscava.

Senão, apenas o bom papo, a jocosidade e os assuntos do dia. O Vieira, do Lamas; o Cícero, do Capela; o Bengala, do Vermelhinho; e por aí vai... Uma vez, papo de boteco, cheguei a elaborar uma teoria de que todo bom garçom ou era chamado pelo apelido, como Chiquinho e coisa e tal, ou pelo sobrenome, como Soares, Gouveia e por aí vai.


O Cícero, do Capela, venceu o concurdo de melhor garçom do Rio, do Correio da Lapa

Tem ainda aqueles garçons que formam uma espécie de simbiose com o dono do bar, não sei bem por que processo psicológico, e acabam se tornando mais donos do que o dono. Jamas se aliam ao cliente. Tem garçom que rouba nas bolachas ou na dose de uísque e trazem contas indecifráveis. Como em qualquer profissão, tem os bons e os maus profissionais. E muitos deles se reúnem na madrugada, após o trabalho, no Aterro para a famosa pelada dos garçons.

O Bar Lagoa é famoso pelo mau-humor dos garçons. Eu sei que muita gente vai discordar, mas nunca vivi ali um atendimento que possa classificar como decididamente mais mau-humorado, ou grosseiro, do que em qualquer outro boteco. Aliás, seu Alfredo Gouveia, que foi confeiteiro em Portugal — e é o responsável pelas sobremesas do Lagoa, inclusive o delicioso apfelstrudel e os pastéis de nata —, é um dos garçons mais atenciosos que já conhecei.

Há ainda o caso dos garçons que herdam o bar ou se tornam, por esforço e mérito próprio, donos do bar. É o caso do Chico Rufino, da Adega da Velha, e do Cícero, que saiu do Bracarense para abrir com a ex-cozinheira da casa o Chico & Alaíde.


Paiva pendurou as chuteiras no Jobi, mas ainda joga a pelada da madrugada que reúne os garçons no Aterro

Os profissionais mais atigos dos bares do Rio estão começando a desaparecer também. Alguns se apsontam vão para o sítio curtir os últimos anos de vida, como o Lima, que a essa hora está fumando seu charutinho na varanda da casa, vendo os netos brincar no quintal. Outros, como dona Antonia, simplesmente passando para o outro lado, após uma vida inteira dedicada ao ofício, cuja ética e segredos de profissão vão se transformando à medida que as novas gerações assumem os postos.