sábado, 27 de outubro de 2012

A verdadeira ameaça ao botequim


A turma da cozinha no saudoso Penafiel do Saara

Para mim, um dos sinais mais contundentes de decadência social é o sujeito beber sozinho no botequim, esse clube social informal, cuja única entrada que se cobra é que se participe das conversas, de preferência bebendo. Quando o ser humano chega ao ponto em sua vida em que, estando num pé-sujo, não consegue mais interagir com ninguém, é porque algum tipo de perturbação mental ou da alma o aflige. Nesses casos, ir do botequim para o sanatório é um pulo. E não é a toa que o pé-sujo é também o reduto de todo o desajustado social. Como diz minha amiga Soraya Simões, com o coração genuinamente aflito, o que seria dos loucos se não houvesse o botequim?

O botequim do Rio de Janeiro teve em seu nascimento como instituição urbana o mérito de servir de refúgio para a classe operária e a população pobre em geral. Daí a fama de lugar de loucos, bêbados, ociosos, vagabundos, malandros, bandidos e que tais. Creio que a circunstância histórica de servir de cenário e espaço para esse tipo de encontro, essa ocorrência urbana, espécie de sobrevivência do simpósio de Platão na modernidade, tornou o botequim relativamente imune às mais conspícuas ou, ao contrário, sutis ameaças à sua existência. A cidade precisa do botequim. E não por seu cardápio popular e criativo, menos ainda por seu cenário típico ou sua arquitetura histórica. Mas exatamente por funcionar como um clube social, onde quase qualquer um pode chegar e participar da conversa.

Meu mano véio Jason no Bar da Adelina, um clube de vizinhança em Botafogo

Digo quase qualquer um porque o botequim ainda é um lugar essencialmente masculino, independentemente da presença cada vez mais frequente da mulher. Não se trata de uma questão de frequência, mas sim de ambiência. O ethos, para dar um pouco de formalismo acadêmico a essa conversa fiada, é essencialmente masculino. Ou seja, a conversa é de homens, e isso aparece nos temas, no linguajar e, sobretudo, na adoração ou na crítica à mulher. O que os homens falam da mulher no botequim daria uma enciclopédia ilustrada da perplexidade que resume o nosso vasto e contraditório sentimento em relação a essas sherazades, ninfas, afrodites, harpias, bruxas, deusas, enfim, citando Geraldinho Carneiro, essas alucinações do espírito.

É verdade que nos botequins familiares, como o Bar da dona Adelina, ali em Botafogo, é perfeitamente normal uma mulher do grupo chegar sozinha para beber sua cervejinha sem qualquer problema. Mas ali ela está em casa e certamente não ficará sozinha por muito tempo. Todos a conhecem, inclusive aqueles que por ventura entrarem ao acaso no estabelecimento. Pois estará óbvio, por meio de vários sinais, que ela pertence ao grupo e, portanto, não está sozinha, mesmo que esteja.

Minha querida Mila Chaseliov, que hoje bebe em outra freguesia, prepara uma tese sobre a presença feminina no bar

Em geral, as mulheres frequentam o botequim em grupo ou com seus homens. Ou então trabalham na casa, como garçonetes, filha ou mulher do dono, ou mesmo sendo a proprietária, como dona Adelina. Algumas são protegidas pelos garçons ou mesmo o dono, que não deixam a rapaziada falar palavrão em voz alta ou assediá-las. Nos pés-sujos mais populares, as que insistem em ir sozinhas beber sua dose no balcão, sofrem discriminação, cantadas grosseiras, são vistas como piranhas, e acabam ou sendo expulsas ou, incrivelmente, enfim, acolhidas de uma vez por todas, como doidas maravilhosas, que conquistaram, numa postura masculinamente destemida, seu lugar naquele mundo dos homens. Essas últimas são sensacionais, e também a exceção que confirma a regra.

Dizem que Antonio Ribeiro provocou uma revolução ao comprar o Belmonte quando colocou espelho no banheiro feminino. A casa atraiu o mulherio. E atrás, evidentemente, vieram os homens. Sucesso total. Mas, por outro lado, muitos sequer consideram o Belmonte pós-reforma um botequim. Qualquer mulher que frequenta botequim sabe o verdadeiro rali que é fazer xixi. E isso é o sinal físico da ambiência masculina. Em alguns bares, o dono tranca e controla como um velho patriarca a chave do banheiro feminino. Esta normalmente presa a um pau de tamanho avantajado, como um aviso de que é ele quem regula certas funções biológicas de suas clientes. E só isso já daria ótimos ensaios psicanalíticos e antropológicos sobre os significados simbólicos desse tipo objeto, uma espécie de totem e tabu do patriarcado boêmio. Com as chaves do banheiro, a dama pode também receber alguns nacos de papel higiênico, um privilégio.

Mas, voltando às ameaças ao botequim, percebo que o fato de ser um espaço menos desigual do que a sociedade que o contém, o pé-sujo se preserva. Por menos desigual quero dizer que as pessoas que na rua, no trabalho, na praia etc. são discriminadas pela aparência, pela posição social, pela cor etc. têm no botequim uma existência como pessoa reconhecida. Ali elas existem de fato. Embora o pé-sujo também tenha suas hierarquias, etiquetas e moralidades próprias e que são bastante complexas.

Pernil e ovo colorido, receitas de botequim

E falo dessa qualidade de clube social informal independentemente do merecido sucesso de botecos, como o Aconchego Carioca, o Bar da Frente, o Enchendo Linguiça, o Bracarense, entre outros, que souberam apostar na qualidade do serviço, mas sem descaracterizar a ambiência e o espírito de botequim. Com todo o sucesso, mais do que merecido, a Katita, por exemplo, continua a mesma dona de botequim que sempre foi e a maior virtude de seu bar não são os bolinhos de feijoada ou o camarão na moranga, mas o clube social que ela criou ali (um dos meus orgulhos é estar numa fotografia na parede do bar). Valéria e Mariana, as meninas do Bar da Frente, o Fernando do Enchendo Linguiça, e o Kadu Thomé, do Braca, também.

Acredito que o botequim sobreviverá enquanto for um espaço para a conversa fiada. E, nesse sentido, para mim a maior ameaça não está nos bares da moda que se travestem de botequim para vender uma falsa ideia de boemia, mas sim na revolução tecnológica que colocou, por exemplo, a TV de plasma, como bem salientou outro dia o Edu Goldenberg, não mais exclusivamente para que os convivas assistissem aos jogos de futebol, mas como uma onipresença em que já há casos em que se manda falar baixo para não atrapalhar a novela. Mas mais ainda, penso nos gadgets eletrônicos, como smartphones e iPads, que interferem na conversa e podem alimentar aquela figura solitária, que bebe sozinha e prefere dialogar com o mundo virtual.

Paiva, Ed e eu, no Jobi. História de botequim (foto de Nelson Vasconcelos)


PS: Na semana passada participei de dois eventos em que o botequim foi o tema central. O primeiro foi um debate com Edu Goldenberg e Carlos Lessa, no FIM do Livro no Porto, em que teoricamente iriamos discutir sobre o decreto de tombamento dos bares, mas acabamos falande de outras coisas também, mais o Lessa do que qualquer outro. E o segundo foi na Academia Brasileira de Letras, um pouco mais formal e sem debate, apenas palestra, com Sergio Cabral (pai), Hermínio Belo de Carvalho e, novamente, Carlos Lessa. O tema foi bar, boemia e intelectuais. Mas, para mim, a semana foi fechada com chave de ouro, com a homenagem que a turma do Villarino fez a este pobre e desvalido escriba, criando um prato com meu nome: bolo de carne à Paulo Thiago, que é o bolo recheado com paio ou linguiça calabresa, acompanhado de arroz, lentilhas e salada de tomate. Isso sim é imortalidade. Ainda mais num bar como o Villarino com toda a história que tem. Obrigado!

domingo, 21 de outubro de 2012

Adeus à Soneca

Soneca não era muito afeita a posar para fotografia. Buscando em meus arquivos vi que, em tantos anos de convivência tinha pouquíssimas fotos dela. Mas achei esta, mal feita por mim, mas que é tão a cara dela, acomodada confortavelmente no sofá, intensa, linda.


Ontem, foi um sábado de intensidades. Depois de 12 dias direto de trabalho sem folga, estava programado para falar sobre botequim no FIM (Fim de Semana do Livro no Porto), numa mesa com meu querido Edu Goldenberg e Carlos Lessa. O encontro tinha sua importância pessoal, pois seria a primeira vez em que eu e Edu conversaríamos pessoalmente, e logo numa espécie de mesa diante de uma plateia, sobre esse tema que nos é muito caro. Edu é um defensor dos botequins, muito mais radical do que eu, que me limito a analisar os fenômenos que consigo perceber. Ele não. Ele faz de seu blog (Buteco do Edu) uma trincheira em defesa de uma boemia e uma identidade carioca que se vê ameaçada por mudanças, esquecimentos, desrespeitos e que tais.


Ocorre que, ao levantar, fui pego pela notícia triste da morte de uma amiga querida. Mais uma vítima do câncer (é impressionante a quantidade de pessoas com câncer e mais ainda a quantidade de pessoas que estão morrendo da doença, é uma verdadeira epidemia). Sonia Prestes, minha amada Soneca, de quem andava afastado nos últimos anos e, por isso, sequer soube que ela estava doente. Foi um susto triste, um sopro de melancolia a notícia. Ela foi cremada ontem, mais ou menos na hora em que eu estava falando no Morro da Conceição.

Conheci a Soneca quando tinha uns 8 ou 9 anos. Mãe de um colega de turma, o Beto Ninô, na escola pública Manoel Cícero, ali, uma daquelas construções gêmeas (a outra escola, se não me engano, é a Julio de Castilho), em frente à Praça Santos Dumont. Depois a vida seguiu, morei no exterior, voltei, e o Beto se casou com uma prima minha, o que acabou me reaproximando de Soneca. Ela fizera uma revolução em sua vida, tornando-se uma psicanalista de percepção arguta e sensível, principalmente nas relações entre pais e crianças. Ela era acima de tudo uma entusiasmada defensora do poder da análise na transformação da vida das pessoas para melhor, no sentido de deixar desabrochar potencialidades e disponibilidades para a vida.

Me lembro que eu devia ter uns 20 e poucos anos, nós costumávamos andar pelo calçadão da praia, quilômetros e quilômetros de conversas estratosféricas. Um dia perguntei sobre a importância da análise em sua vida e ela me disse que seu único arrependimento era ter começado muito tarde, pois ela queria ter podido sentir mais cedo a libertação que sentia naquele momento da vida dela (ela se aproximava dos 50 anos). Impressionado com suas palavras, eu logo tratei de fazer análise. E. de fato, fiz algumas revoluções internas que hoje me permitem ser quem eu sou. Soneca, generosamente, me deu isso de presente.

Apaixonada por dança de salão, Soneca era amiga de todos os bambas, como Carlinhos de Jesus, Jaiminho e outros. Bem antes disso se tornar moda. Frequentava os salões e gafieiras e fazia, às vezes, suas próprias festas no velho apartamento de Ipanema. Aparentada ao velho Prestes, tinha uma mente de esquerda, mas muito avançada para a pequenez das picuinhas partidárias e de diretórios. Ela era sobretudo uma libertária. Denunciava na hora as velhas tentativas de domínio e manipulação que certas personalidades apresentam. Foi de uma dissidência de um grupo de psicanalistas e depois seguiu um caminho próprio na terapia, incorporando à coisa freudiana elementos que seus pacientes traziam.

Sua atenção principal eram as crianças, pelo que me lembro. A forma como se criam os pequenos, com o dia a dia se sobrepondo a certas violências silenciosas, maus tratos imperceptíveis a olhos comuns, que depois se desenvolvem em carências, neuroses e tais.

Bem, não sou psicanalista para fazer uma avaliação séria, mas o que vejo na Soneca que me parecia raro era a atenção e a torcida que ela tinha não só por seus clientes e amigos, mas por qualquer pessoa que cruzasse com ela. Ela realmente torcia pelas pessoas. Quando ela percebia algo que a animava em relação a alguém, falava disso com entusiasmo contagiante. E raro. Só fui ver um entusiasmo igual na Flavinha Bali, que fala das pessoas próximas, pacientes ou não, com emoção genuína, igualmente contagiante.

Era impressionante, às vezes bastava uma conversa casual, à praia, à rua. E ela vinha cheia de alegria por aquela pessoa, dizendo algo como: “que caráter admirável”.  Soneca era assim: entusiasmada com o ser humano e sua capacidade infinita de superar traumas, se desvencilhar de amarras emocionais, de se reinventar, desde que estimuladas pela coisa certa, no momento certo. Podia ser a análise, a religião, um cachorro de estimação. Tudo para Soneca tinha o poder de ser terapêutico. Talvez seja por isso que, mesmo distante dela nesses últimos anos, eu sentisse sua presença pairando sobre mim, e, ontem, ao saber de sua morte, não tenha conseguido reprimir uma sensação de desamparo.

sábado, 13 de outubro de 2012

Samba minimalista


Caiu em minhas mãos um CD excelente. Minimalista bem de acordo com os tempos atuais, reúne a cantora paulista Juliana Amaral a poucos e bons músicos. Batizado de SM, XLS (samba mínimo, extra luxo super), o disco tem como proposta a música no esplendor do básico. A voz, excelente, de Juliana, acompanhada por um instrumento básico (a maioria das vezes um violão de sete cordas, bem executado por Gian Corrêa) e uma percussão sutil para realçar alguma ideia musical da poesia das letras, ou como acompanhamento rítmico (também muito bem executado por Samba Sam). Ouvindo o pandeiro, me lembrei do que me disse certa vez minha amiga Joana Saraiva: o pandeiro pode muito bem substituir uma bateria em algumas circunstâncias. E isso se comprova no disco de Juliana.

Quando Manduka estava gravando seu primeiro disco no Brasil, em 1979, tive o privilégio de acompanhar todo o processo. Vi algumas das canções nascendo, depois o Joca, guitarrista fenomenal, arranjando as bases e, em cima de seus arranjos, Celinha Vaz, colocando orquestrações. Tudo excelente, tudo sensacional. Mas intimamente preferia, por meu gosto, ouvir apenas o violão majestosamente tocado por Manduka e sua voz singular. Mas os tempos eram ainda aqueles em que a simplicidade era considerada um defeito. Naquele início dos anos 1980, fazia-se música para ouvidos profissionais, achando que os pobres mortais se encantariam mesmo sem entender as operações matemáticas das sofisticadas harmonias, com suas inversões e malabarismos timbrísticos. E sobre a base colocavam-se camadas de arranjos, de certa forma, apagando a essência da canção. E eu, que conhecia as músicas de Manduka tocadas pelo próprio em seu excelente violão, me sentia um tanto frustrado de perder essa essência.


O que Juliana faz neste CD é valorizar extremamente, como nenhuma orquestra poderia fazê-lo, a interpretação da cantora e o acompanhamento como suporte à voz, mas com suas próprias sutilezas e maestria. O estúdio gravou inclusive uns soluços, que transbordaram pela garganta da cantora, reforçando essa sensação visceral. E, voilà, o que era minimalista se torna grandioso.

Destacaria ainda a regravação de Acabou Chorare, do grande Moraes Moreira. Juliana coloca sua alma ali e, ao mesmo tempo, evoca o tom igualmente intimista da gravação original dos Novos Baianos. O disco traz ainda um recado paulista e, nesse sentido, é regionalista e um tanto mesmo provinciano, mas num bom sentido, com a competência e a qualidade que os paulistas normalmente empregam em suas produções. Incorpora composições de músicos de São Paulo ou que ali se abrigraram, como Itamar Assumpção e Tom Zé, além de vários compositores paulistas contemporâneos. Ela inclusive grava O mistério do samba, de Fred Zero Quatro e Marcelo Pianinho, que afirmam que o samba não é carioca nem baiano, mas sim pura invenção. Bem, isso é outro assunto e dá pano pra manga.

Mas fica a sugestão do belíssimo CD de Juliana, mais um disco bom para abrir o fim de semana. Voz e violão ou voz e clarinete ou voz e cavaquinho ou voz ou vibrafone... com uma percussão sutil e presente.

sábado, 6 de outubro de 2012

Gritos e sussurros

No post abaixo, sobre pelos pubianos, mencionei que da minha geração para cá até a forma de gemer mudou. Aqui e no Facebook várias amigas revelaram uma curiosidade sobre o que, afinal, eu quis dizer com essa afirmação tão improvável. Bem, tento aqui tratar disso, retomando do post anterior a ideia de “coletividade” que se impõe, quase que "durkheinianamente", sobre nossos costumes tupiniquins. As modas e as ondas não se restringem a roupas, circuitos boêmios e comportamento público. Elas intervêm também na intimidade, pois esta é cada vez mais compartilhada em redes sociais, sejam elas virtuais ou reais.

Como sempre, corro um grande risco ao generalizar as coisas, mas como estamos num blog cujo subtítulo aponta para “escritos sem compromisso”, olho a coisa como se estivesse à mesa de um botequim, refletindo sobre mitos fulgurantes da nossa cultura contemporãnea. Assim, comparativamente, retorno à minha geração, que, com toda a repressão política e sexual que se abatia sobre nós, ensaiou uma fracassada revolução sexual. Estou falando dos anos 1960-1970, quando a pornografia era perseguida e o rigor moralista católico se manifestava por meio dos olhos vigilantes de pais, professoras, padres, inspetores etc. Sexo era um tabu, inclusive e sobretudo enquanto discurso — e o anjo pornográfico Nelson Rodrigues captou muito bem essa energia que subjazia sussurrada sob o manto de normalidade.


Ao contrário de hoje, não se falava do assunto abertamente, exceto na intimidade do quarto, nas alcovas barrocas da literatura erótica, ou na pornografia descuidada, como os catecismos de Zéfiro, que se adquiriam em certas bancas de jornal, e serviam como catálogos de perversões mal ilustradas. À rua, a juventude chamada de “transviada” — que, com seus cabelos longos e aderência ao rock’n’roll, se extraviara do bom caminho —, era agredida verbalmente e, às vezes, fisicamente. Os meninos com cabelos compridos eram tachados de “viados”. As meninas, putas. Todos vistos como viciados, almas perdidas: “aonde o mundo vai parar, dona Rosinha?, indagavam, aflitas, as mães às suas comadres de igreja”.

Mas, a partir da revolução comportamental de 1968 (uma espécie de Primavera Árabe mundial da época; só que em vez de hijab, batas indianas; em vez de moderação e abstinência, sexo, drogas e rock’n’roll), a nova geração, não sem conflitos, ensaiou uma afirmação existencial própria, negando o moralismo hipócrita dos caretas. Começavam, embora mais no plano do desejo do que no da realização concreta, tentativas de enterrar aquele moralismo religioso, quase rural. Isso se refletia em todos os campos, na academia, nas artes e na filosofia, e no comportamento cultural (é nesse momento, por exemplo, que a Tropicália emerge como movimento de vanguarda).

É claro que o buraco é mais embaixo. O psiquismo das pessoas não muda da noite para o dia, convertido pela “revolução”. Mas ali começava um movimento dialético, alternando enfrentamento e aderência ao sistema, que acabou por, de fato, transformar o comportamento da sociedade, ainda que a caretice e o moralismo tenham sobrevivido relativamente bem e se apresentem hoje com roupagens mais adequadas aos novos tempos. Não é à toa que vejo gente da minha geração reclamar que os filhos são mais caretas que seus pais haviam sido. O conservadorismo continuou latente, e as contradições entre discurso libertário e ação repressiva explodiram nos limites, culturais e psicológicos, de cada um.


No plano do discurso, começou realmente um movimento importante, que ao longo do tempo acabou mudando a sociedade. Hoje, somos muito diferentes do que éramos então. Porém, a caretice e o moralismo conservador permanecem renascidos e revigorados por novas expressões e atitudes. Os jovens nas igrejas, por exemplo, têm cabelos compridos e tocam corinhos em ritmo de rock'n'roll. Como se vê, dos anos 1960 para cá, muita coisa se perdeu nesse processo, além dos pentelhos.

O tabu que remetia o sexo para a alcova se desfez à proporção que o assunto veio para a sala de jantar; à medida que saiu do fundo das bancas de jornal em esquinas obscuras para as livrarias mais nobres da cidade. O assunto virou talkshow em programas como Papo Calcinha, Saia Justa, entre outros; foi desinfetado por sexólogos pops (como a menina do Altas Horas) e médicos como Dr. Drauzio Varella; virou bestseller, numa literatura rápida, em que a narrativa dramática — como se via, por exemplo, em um Henry Miller ou numa Anaïs Nin — perdeu espaço para a descrição detalhada, ginecológica e, voltando à noção de pureza e impureza, asséptica.

Há alguns anos, médicos alertaram, preocupados, que havia uma procura muito grande de adolescentes saudáveis por cirurgias plásticas, para aumentar os peitos. Alguém conjecturou que elas estavam seguindo um modelo estético das atrizes pornôs americanas, que entopem os peitos com silicone a ponto de quase explodirem. E, quando trepam, eles balançam como melões soltos sob a pele, como se não fizessem parte do corpo. Os filmes pornôs, que nos anos 1970 fizeram experiências estéticas (clássicos como Garganta profunda e Atrás da porta verde, e o surpreendente musical Alice no país das maravilhas, por exemplo), tornaram-se uniformes e educativos. Mostram tudo explicitamnte, mas encaretaram. E estão acessíveis a qualquer um pela internet. Daí, talvez, venha essa estética pornô clean, que não se restringe ao corpo, mas às formas de trepar e... de gemer.

A sonoridade que escapa pela garganta durante um ato prazeroso e proibido — e que, portanto, nos aproxima o máximo possível da condição humana — é mais gutural, chorada, suspirada... ecoa num volume explosivo, por mais sussurrada que seja. Está sempre por um fio, entre os dentes, precária. Não pode ressoar da mesma forma que os gemidos industriais, assépticos, e, num certo sentido, banais, que emergem de grandes produções pornôs, mesmo que o cenário destas seja a nossa cama.

domingo, 30 de setembro de 2012

Mulheres naturais e mulheres anti-idade

Outro dia, sem querer causei reboliço numa roda de amigos, a maioria mulheres de gerações distintas, ao expressar meu apreço por uma mulher que não se depila. O ar chegou a ficar tenso, após o silêncio que se seguiu à afirmação, aparentemente, tão descabida. Aquela situação me fez lembrar outra cena, em que o reboliço foi meu. Uma amiga paulistana me contou, numa divertida discussão em Paris, que havia feito um tratamento a laser para que nunca mais crescessem pelos no púbis. Estávamos num café em frente ao mercado d’Aligre. Eu, ela e outra amiga, esta carioquíssima, que apoiou a companheira contra meus argumentos e espanto. Ignorante do mundo cosmético que vivemos, eu nem sabia que havia uma possibilidade tão radical de eliminar, de uma vez por todas, os pelos da xoxota.

Na conversa, argumentei que a mulher careca era algo como uma espécie de perversão ou brincadeira que fazíamos na minha geração para apimentar a transa (ainda se fala transa?). Era algo como a lingerie preta ou velas ou qualquer outra coisa fora do ordinário na hora do sexo. De repente, aquela sua mulher, ao tirar a roupa, descortinava uma vulva careca e era uma alegra inesperada. Mas, depois de um tempo, a fantasia perdia o sortilégio e parecia que se estava trepando com uma menina em vez de uma mulher. Ou talvez nossas índias, com suas “vergonhas saradinhas”, que tanto assombraram o padre Antonio Vieira.

Bem, mas a conversa seguiu no café, regada por um chope Leffe (fazia calor e o sábado era de sol), e a veemência de nossa discussão cresceu à mesma proporção de nosso entusiasmo pelo assunto, ainda bem que em bom português. Embora desconfie que as pessoas ao redor soubessem do que falávamos. De qualquer modo, cheguei a ficar indignado quando ambas associaram os pelos à falta de higiene. Que elas optem por raspar suas partes íntimas vá lá; mas que condenem quem não o faz ao papel de irresponsáveis e insalubres, é demais. Imediatamente baixou o antropólogo. Me lembrei do livro de Mary Douglas chamado Pureza e perigo, em que ela trata comparativamente dessas noções de pureza e impureza em várias culturas e sociedades. Nada como um bom relativismo para refrescar o calor das afirmações.

Como se trata de uma noção fortemente associada à identidade pessoal e social de cada um, pureza e impureza têm uma força extraordinária, mas são, como diria Mia Couto, noções ou representações transitórias e precárias. Estão aí os pelos pubianos que não me deixam mentir: tão abundantes no fim do século passado, eles hoje se transformaram em desvio e sujeira. Na verdade, até a forma de gemer de prazer mudou, mas isso é outro longo assunto.

Coincidentemente, a revista dominical do Globo — que na edição anterior chocou seus leitores ao expor na capa uma bela imagem do “ruivo, raro isóscele perfeito” (c.f. Manuel Bandeira), devidamente guarnecido de uma frondosa floresta — traz hoje uma matéria, de minha colega Joana Dale, sobre quatro mulheres de gerações distintas que têm em comum o fato de não aparentarem a idade que de fato têm. A reportagem inventa uma nova categoria social: a mulher anti-idade. Em resumo, trata-se de mulheres que buscam um equilíbrio, desfazendo os excessos de certos grupos de mulheres, que fizeram a alegria de cirurgiões plásticos, levantando aqui, reduzindo ou ampliando ali, inclusive adolescentes botando peitos e coisa e tal.


Não que elas não mais recorram a eles hoje em dia, mas o fazem, segundo a reportagem, de forma mais comedida e, o que é mais importante, sem ir contra a natureza do próprio corpo. Ou seja, nada de botox em excesso para “parecer uma Barbie” ou arrebitar o nariz adunco. Gastando até R$ 2 mil por mês (e, portanto, também estamos falando exclusivamente de mulheres de classe média ou alta) com sua aparência/identidade, elas entram em dietas inteligentes, tomam sucos energéticos, aderem à medicina cosmética associada a terapias alternativas e coisa e tal, com a filosofia de que é possível atenuar o envelhecimento sem maltratar muito o corpo.

Mas o interessante é que Joana abre a reportagem falando da conversa entre as quatro personagens, quando foram reunidas para fazer a foto que ilustra a história. O assunto flui de cinema a livro, passando por novela e outros temas, que funcionam como um indicador de pertencimento social. “As quatro falam a mesma língua”, diz Joana na reportagem, para concluir: “mostrando que não há mais fronteiras entre as gerações.”

Aqui, correndo o risco de generalizar, eu vejo um elemento que distingue nossa cultura da europeia ou norte-americana. Nós somos muito mais coletivos do que individualistas no sentido do consumo e do comportamento público, da praia, da rua, do verão etc. Lemos os mesmo livros, vemos os mesmos filmes e compartilhamos os mesmos dramas, como envelhecimento e coisa e tal. Isso, obviamente, tem aspectos positivos e negativos. Mas me permite entender porque os pentelhos, antes parte integrante da anatomia cultural, uma vez banidos, ou seja, incorporados à categoria do impuro, se tornaram um “problema” a ser eliminado. Mesmo quem hoje resiste à pressão social para raspá-los, o admite apenas em voz baixa, quase com vergonha.

No Brasil, somos uma aldeia, onde compartilhamos uma cultura que se impõe mais pelo coletivo do que pelo individualismo. Uma cultura que, entre outras exigências, vem demandando que as mulheres tenham as “vergonhas saradinhas”, para voltar ao padre Vieira. E essas exigências e demandas são incorporadas inconscientemente e rapidamente naturalizadas, isto é, passam a valer como uma verdade absoluta, como se fossem uma coisa “natural”, da natureza humana. É como se raspar os pelos que nascem no corpo a partir da puberdade marcasse uma passagem simbólica, do lado animal para o humano, do impuro para o puro, do sujo para o limpo.

Mesmo que se trate de uma decisão individual, é inegável que há uma pressão coletiva. Embora, ainda bem, haja inúmeras exceções por aí, que confrontam essa, digamos, ordem social. Mas tolerando alguns exageros generalizantes e reducionistas, tenho a impressão que se você quer pertencer ou simplesmente não sofrer as sanções explícitas ou simbólicas no Brasil, é melhor se integrar às coisas todas que compõem essa ordem coletiva. Saber, por exemplo, quem são os personagens da novela, ou ter lido o último livro ou visto o último filme sobre o qual todos estão falando. E, é claro, ter o corpo adequado àquilo que a ordem determina como certo. É uma postura coletiva que tem a ver com uma imagem projetada de mulher, sem idade, pura (moral e higienicamente), sensual, maternal etc. e tal; e de homem, forte, inteligente, agora com um pouco mais de sensibilidade, e sei lá mais o quê.

Na Europa e nos Estados Unidos, apesar de toda a futilidade e as modas imperiais, vi mais mulheres do que no Brasil que são abertamente contra essas “imposições” (da indústria cultural, da publicidade, do jornalismo, dos vizinhos etc.) de uma beleza eternamente jovem e saudável, que deve compor a mulher ideal. Elas odeiam papos como “relógio biológico”, “TPM” e que tais.

Há, por exemplo, uma modelo, rejeitada por agências como Ford, que é hoje extremamente requisitada por fotógrafos de renome. Ela tem uma beleza absolutamente rústica, tipo nariz grosso, e embora seja magra, não é cadavérica. As curvas estão todas lá. Os pelos também, inclusive debaixo do braço, para horror de minha amigas. No entanto, é uma mulher de uma sensualidade irresistível. Seu nome é Nettie Harris e ela tem um blog, no qual posta suas fotos (e de onde tirei as fotos que ilustram este post). Vale a pena conferir, pois me parece uma reação à onda de beleza e sensualidade convencionais.

Há também um movimento que defende a "mulher natural", que é igualmente fetichista, pois não existimos de forma absoluta na natureza, mas sempre mediados pela cultura. Assim, falar de mulher natual é falar de uma ideia fetichista, construída por parâmetros morais e culturais. Mas, de qualquer modo, me soa como uma reação saudável a esta outra suposição de pureza, tão bem refletida nas mulheres anti-idaade. É cono se a "mulher natural" dissesse à "mulher anti-idade": meninas, não tenham vergonha de seus pentelhos.

sábado, 22 de setembro de 2012

Bestiário

Leoa. Tem os filhores ao alcance da intuição e exibe o dom materno na naturalidade com que lhes lambe as feridas. Puxa-os, amassa-os, e morre de saudade de seus "bebês", mas sem lamentos melodramáticos. Orgulhosa, quer que ganhem o mundo, imperiais. Quando está solta na selva, é toda instinto. O faro se insinua alma adentro, levando o cheiro da caça. É a rainha da floresta, dona do mundo e, com seu rugido furioso, amedronta os mortais. Evito irritá-la. Próximo a ela, calo em silenciosa reverência. Sua musculatura perfeita, seus ossos alongados e a elasticidade quase invertebrada a tonram tão sedutora, que não me resta outro destino, exceto me entregar, feliz, às suas garras. Morro mil vezes de amor, enquanto ela se diverte. Esquece seus trovões ao menor gesto de carícia e rola na relva sob o toque de meus dedos, até devorar-me, para sempre esquecida em sua paixão.

sábado, 15 de setembro de 2012

Egberto na voz e piano de Delia Fischer

Não foi sem emoção que iniciei o sábado retornando ao universo musical de Egberto Gismonti. Dessa vez, pelas mãos ou, mais precisamente, pelo piano e pela voz de minha querida amiga Delia Fischer. No repertório, clássicos do mago de Carmo, especialmente as parcerias com o poeta Geraldo Carneiro, para mim, uma das melhores vozes da poesia brasileira dos anos 70. Foi mais ou menos assim: ontem, trouxe da redação uma boa dúzia de lançamentos, a maioria novidade para mim. Mas entre eles, veio esse CD da Delia, chamado Saudações, título de uma das canções de Gismoti.

Por sincronicidade, hoje tem no Segundo Caderno do Globo uma resenha do Calbuque sobre um outro achado fortuito: a gravação de um concerto de Gismonti, com o saxofonista Jan Garbarek e o baixista Charlie Haden, realizado na Alemanha em 1981. A fita do show estava em excelente estado, perdida nos arquivos da ECM, a gravadora de Gismonti.



Já Delia sempre foi uma espécie de alucinação do espírito. Conheci essa menina linda nos anos 80, quando ela gravara, se não me engano, seu primeiro disco. E me tornei seu fã para sempre. Na época, fiz fotos que foram usadas na produção do projeto. Depois, fui companhando sua carreira de longe e de perto. Sua temporada na Modern Sound me tinha lá aos sábados religiosamente. Ela também participou de um CD do meu pai, Gaudencio Thiago de Mello, chamado Amor mais que perfeito, em que ele trabalha com cantoras: Fátima Guedes, Cris Delano, Itamara Koorax e Andrea Dutra. 

Mas não me lembro de ouvi-la cantar. E hoje foi essa surpresa deliciosa, deixar sua voz se espalhar pela casa, se insinuando por entre a harmonia sofisticada do piano, as peças elaboradíssimas de Gismonti e o lirismo profundo de Geraldinho Carneiro. Além disso, o disco traz a companhia de excelentes músicos instrumentistas, acrescentando baixo, guitarra, cavaquinho, violino, entre outros. Fica a dica: Delia Fischer. Saudações.


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Além-mar


Minha Sarah ensolarada,
Vou me mudar pra Irlanda
Onde beberei strong ales
E brigarei com hooligans,
Fascistas e baderneiros.
Depois, estropiado, herói
De guerras memoráveis,
Deitarei em teu peito
E mergulharei no "ruivo,
Raro isoscéle perfeito".

Minha Sarah guerrilheira,
Vou me mudar pra França
Me acharás à esquina,
No café dos exilados,
Onde beberemos um tinto,
Rascante, comme il fault.
Ouvirei com o olho afogado
Histórias da Cordilheira
E buscarei em teu colo
O calor do trópico abafado.

Minha Sarah incendiária,
Vou me mudar pra Holanda
Lá não sou amigo do rei
Me perderei em campos
De girassóis impressionistas
E aprenderei teus segredos
Quando, distraída, expuseres
A relva rubra, empapada,
E dormirei em teus braços
Raiz firme para tua flor.

(para Manuel Bandeira)

sábado, 25 de agosto de 2012

Entre folhas

As espessuras da memória variam com os dias que escorrem por mim. Mormaço. Por todos os cantos se espalha a sensação daquele momento preciso, que o tempo desfez na poeira parada, suspensa. Terra ensolarada repartida em raios diagonais, entre folhas. Cidade fantasma, Minas afora, Goiás adentro. Terrosa. Cruzamento de caminhos. Sertão. Mas de algum modo, por uma luz, um cheiro, uma intuição, reencontro você nos interstícios dos instantes. Arrepio. Um fluxo fora da normalidade, um presságio. Assombro. Sempre um zás. Inapreensível exceto na falta. Como a fenda por onde me engole. Memória do que foi sem ter sido. É no hiato dos instantes que a sinto. Desencarnada. E, no entanto, se materializa e se instala no nervo ótico. Parasita. E o mundo então ganha cores e meus pés seguem cegos. Veredas..E deixo o rio me levar, a cada novo instante que se repete incessante.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Amor e saudade numa narrativa beat


Tenho uma amiga que se diz Camaleoa, mas eu a vejo uma mariposa, volateando pelo mundo, perturbando meu sono com seus contos e poemas. Autorretratos de deusa que me seduzem, sobretudo à noite. Vejo seu sexo carnudo, ela dando de bruços. Morena de curvas e segredos. Minha Camaleoa é andarilha, segue pelo mundo, solta, e eu a sigo pelos mapas, no conforto da poltrona. Mato Grosso, São Paulo, Porto Alegre, Paris... e todos lugares improváveis à beira da estrada. Minha beatnik tem o olhar gonzo. Seu texto se abre ao horizonte e ela nomeia as coisas com seus nomes próprios. Evita os apelidos, os eufemismos burgueses e respeitosos. Ela, por exemplo, não escreveria “seu sexo carnudo”, como fiz acima, puritano e envergonhado. Ela diria apenas “boceta”, que por si só já contém na densidade certa a imagem dos lábios carnudos. Mas sua prosa é coisa fina e lírica na aspereza. Na sua poesia, lemos “bo-ce-ta”, com as sílabas bem faladas, quase babadas, intumescidas, úmidas. Dá para sentir o gozo em sua narrativa. Eu a amo profundamente, e nem nos conhecemos, olhos nos olhos, abraço apertado. Um cheiro no cangote. Camaleoa é um ser literário de carne e osso ou talvez uma entidade patafísica que às vezes se incorpora numa tal Cristina Livramento, quando se predispõe a coisas mundanas, como escrever ou trepar. Um dia quase nos conhecemos. Uma de suas estradas passou pela Zona Sul do Rio, mas eu não estava. Desincronizamos. Que pena. Mas tudo bem. Acompanho sua trajetória e ela me inunda de alegria, quando me escreve cartas, como antigamente se fazia, e as manda pelo correio, com seus minilivros, jornais de prosa & poesia. Me apresenta poetas e escritores dos cantos onde pousa. E agora acaba de me enviar seu livro São Paulo & Notas cinzentas de amor e saudade. Uma narrativa densa, uma prosa poética, um texto raro num momento em que muitos "jovens escritores" parecem presos ao sortilégio do enredo, incapazes de inventar linguagens. Li seu livro no mesmo dia, de um gole só. Mas hoje, acordei sereno, fiz um café forte, como ela gosta, deixei o aroma impregnar a casa vazia, e estou relendo, na calma, na luz da manhã, degustando meu café e poesia. Os textos que falam de saudade só podem ser escritos num idioma íntimo, que se abre ao leitor na mesma intensidade com que ele é capaz de sentir a falta, a ausência, o oco, aquilo tudo que, não existindo, nos constitui. Um beijo, Camaleoa. E obrigado pela saudade do nosso encontro que não ocorreu..

sábado, 11 de agosto de 2012

Identidade, boemia e botequim

Amigos, reproduzo abaixo um artigo publicado na edição de hoje do caderno literário do Globo. O Prosa & Verso, após o redesenho do jornal, passou a se chamar apenas Prosa. A última página, porém, ganhou o nome de Verso, onde, com seu formato fixo, apresentará sempre artigos que coloquem em evidência o contraste de ideias. A foto é de meu mano Custódio Coimbra, um belo retrato da Casa da Cachaça, na Lapa. O Custódio tem de fato alma de gato. Toda vez que ele vai fotografar um botequim — e em nossa história profissional foram centenas deles desde os primórdios do Rio Botequim à redação do Globo  — os gatos aparecem. É assomborsamente sobrenatural.



O pé-sujo recusa a saideira
Paulo Thiago de Mello

Em mais um capítulo na história de transformações dos botequins cariocas, boemia da cidade tem hoje múltiplos espaços de representação

Em um debate sobre a língua portuguesa, no contexto da unificação ortográfica, Mia Couto afirmou que “as identidades são transitórias e precárias. O problema é que elas são vividas como definitivas e eternas”. Os sucessivos ciclos de desenvolvimento urbano do Rio dão pertinência à afirmação do escritor moçambicano. Variados sonhos de cidade e ideais de civilização se chocam na arena pública, entre forças que buscam renovação e outras que defendem a preservação de patrimônios intangíveis. A cidade, como a língua, se transforma invariavelmente, o dia a dia muda e, com ele, as identidades urbanas. Mas como estas são vividas como absolutas nem sempre os processos são perceptíveis.

Observe-se o exemplo do botequim. Surgido na belle époque carioca, no início do século XX, quando o Rio se transformava em centro cosmopolita, esse tipo de comércio, oriundo das boticas e armazéns, funcionava como um refúgio para a massa operária, efetiva ou potencial, que se aglomerava na cidade em busca de oportunidade. Era o tempo do triunfo do racionalismo urbano, baseado no modernismo de Le Corbusier, e tendo como modelo a Paris do Barão Haussmann. O Rio industrializava-se e precisava de mão de obra qualificada.

Nesse contexto, o botequim rapidamente passou a ser visto como um desvio no caminho entre o lar e o trabalho. Nele, o trabalhador escapava da rígida hierarquia das fábricas, com seus chefes, capatazes, gerentes e diretores, e também de suas responsabilidades como provedor do lar. Muitas vezes, o dinheiro da feira ficava no balcão da taverna, para desespero da mulher. As instituições logo trataram de enfrentar o assunto, criminalizando o ócio e a malandragem. A igreja condenava moralmente; a medicina alertava para o alcoolismo como doença social; e a polícia reprimia.

Mas, ao mesmo tempo, ali era um dos poucos espaços onde a classe trabalhadora e a população pobre podiam estabelecer relações menos desiguais, que fugiam à rígida e excludente hierarquia social. Afirmava-se ali um sentido de boemia que logo atrairia segmentos das camadas médias da população. Assim, o botequim passaria a ser não só lugar de malandros, ociosos e alcoólicos, mas também de sambistas, poetas, jornalistas, entre outros. Surgia uma outra identidade para o botequim, como espaço de “liberdade”, embora cheio de regras e etiquetas, e de expressão cultural.

Na segunda metade da década de 1990, o ex-prefeito Luiz Paulo Conde lançou uma série de livros para enaltecer instituições vistas por ele como patrimônios culturais do Rio. Lançou edições sobre igrejas e sebos, um catálogo de estilos arquitetônicos da cidade e um guia de botequins. Os três primeiros desapareceram em solenidades e salamaleques palacianos. O último surpreendeu pela repercussão. O “Rio Botequim”, ao tirar o bar das esquinas obscuras e páginas policiais dos jornais, lançou luz sobre a importância cultural desses estabelecimentos para certa identidade carioca.

A partir de então, a ideia positiva do botequim atenuou a má fama do bar como espaço de desvio, ainda que esta representação perdure. Os jornais criaram colunas especializadas; chefs renomados passaram a valorizar a gastronomia popular dessas casas; surgiram especialistas no assunto; criaram-se concursos de melhores botequins, garçons e chope; e o tema até virou assunto acadêmico, com monografias em várias disciplinas.

Mas talvez o sinal mais contundente desse processo tenha sido a transformação do bar propriamente dito, por meio de uma profissionalização do serviço. As empresas familiares dos velhos botequins estão sendo substituídas por sócios investidores, que contratam chefs, gerentes, relações públicas e assessores de imprensa, e apostam no ramo em meio à onda de valorização do botequim. Nos últimos anos, surgiram redes e bares modernos, que nada têm a ver com os botequins originais, mas que evocam esses estabelecimentos para vender uma ideia de legitimidade boêmia.

Esse movimento assombra boêmios identificados com a velha tradição do botequim, que veem tal identidade ameaçada. Para estes, no botequim carioca, o serviço é secundário. O importante é seu caráter de clube social da vizinhança, onde funciona como ponto de encontro e de sociabilidade. Mais relevante do que o menu e a carta de cervejas é a relação entre freguesia, garçons e donos de botecos. Esses guardiões da tradição resistem contra os novos usos do bar, e se apegam intransigentemente aos sinais físicos e simbólicos da identidade original do velho botequim, como o balcão, o ovo colorido e uma boa conversa fiada.

Como percebeu Mia Couto, há um tanto de fetichismo em todas essas identidades. E como são vividas como se parte da nossa existência estivesse em jogo, é preciso brigar por elas. Enquanto isso, a vida segue, e o que se vê é que a boemia do Rio hoje tem múltiplos espaços de representação. E, por enquanto, o velho pé-sujo e o novo boteco convivem na cidade.

domingo, 29 de julho de 2012

Memória

Encontrei-a no elevador de algum prédio, em algum lugar da cidade quando éramos jovens e intermináveis. Chegávamos ou saíamos de uma das festas daquele verão adolescente. Ela cantarolava uma canção d'A Barca do Sol, sorrindo para mim:

Quando a gente se encontrar
Pode ser qualquer dia
Assim como o Manuel
Dono da folia, rei do Bordel
Como o Manuel
Dono da angústia, rei da alegria
Como o Manuel...
Assim, como o Manuel.

Os cabelos longos, a saia hippie, um encontro breve, que escorreu num beijo roubado, e do qual restou um nome, que, às vezes, hoje, nesse outro mundo, nesse outro tempo, ainda  rouba meu sono. Como a vida pode ser tão fugaz?

domingo, 15 de julho de 2012

Sonho


Na noite de quarta para quinta-feira passada sonhei que caminhava por ruelas de uma cidade incomum. Eram ruas tortuosas, sem a lógica racional do urbanismo modernista, dessas que deixam os transeuntes sem pistas de onde estão e para onde vão. Ruas labirínticas, como as de cidades medievais, mas esta do sonho tinha uma ambiência tropical, lembrando uma favela de vielas estreitas e irracionais, cheias de becos e impasses.

Depois de longo perambular a esmo, reconheci alguns companheiros de copos em botequins de esquinas e tavernas de comida barata. Enfim, cheguei numa residência, maior que as demais. Lá, fui recebido por uma pessoa importante e próxima, que não consigo reconhecer. Um desses personagens oníricos, sem face, mas de profunda intimidade, que me levou a um aposento no segundo andar do que parecia ser um sobrado. Sobre uma mesa, havia uma imensa gaiola dourada, dentro da qual uma majestosa cacatua branca me olhava com ânimo abatido. Estava visivelmente doente.Me aproximei e a enorme ave me fitou atentamente, tranquila; As pálpebras pesando sobre os olhos. Então, lentamente desceu do poleiro, inclinou o corpo e se deitou ao chão, suavemente. Os olhos cerrados. Deu um último suspiro e adormeceu.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Drummond, Bandeira e Mario


O poeta Eucanaã Ferraz disse, num programa sobre o Modernismo brasileiro na GNT se não me engano, que Manuel Bandeira, apesar de não ter ido à Semana de 22, era uma espécie de poeta-referência dos modernistas. Eu sempre achei a poesia de Bandeira moderna e maravilhosa. Também a sua disposição de conversar e trocar com poetas das novas gerações, tornando-se uma espécie de conselheiro e amigo, misturados. Venho agora de ler um fragmento de uma entrevista inédita de Carlos Drummond de Andrade, que ficara guardada 28 anos nos arquivos pessoais da pesquisadora Maria Lucia do Pazo, que teve a fortuna de morar no mesmo prédio da amante de Drummond, Lygia Fernandes, em Ipanema.

Maria Lucia estava fazendo uma tese sobre o erotismo na poesia de Drummond e o poeta não apenas deu a entrevista (em 1984), mas chegou mesmo a procurá-la e propor a ela falar sobre os poemas do seu maravilhoso livro O amor natural, na época inédito (só foi publicado após a morte do poeta). Isso é um dado interessante, já que Drummond era tímido, quase recluso, e não gostava de dar entrevista. Na conversa com a pesquisadora, publicada no último fim de semana pela Ilustríssima, da Folha de S.Paulo, Drummond fala de erotismo, psicanálise e menciona suas influências.

Não há exatamente qualquer informação nova e bombástica, mas a entrevista mostra a sensibilidade e a inteligência de um poeta que se tornou unanimidade, a ponto de hoje andar meio desaparecido em sua própria notoriedade: todos sabem que é bom, mas ninguém mais o lê. Mas não deixo de sentir certo júbilo ao ler que o poeta aponta Mario de Andrade e Manuel Bandeira como marcos de influência na sua vida. Porém, de forma distinta. Diz ele: “Através dos modernistas cheguei a Manuel Bandeira e Mário de Andrade, que foram, realmente, os dois encontros literários mais importantes de minha vida.” 



Mas o interessante é que ele distingue muito bem a influência de ambos. Com Mario, Drummond traçou o caminho teórico e reflexivo do ofício da poesia. Mario deu a ele os argumentos propositivos para se libertar das formas fixas, como já vinha fazendo. Essas formas até então eram uma espécie de fetiche, que confundia a forma poética com a própria poesia. Instigados pela poesia de Bandeira, os modernistas destruíram isso e nos libertaram. Já a influência de Bandeira sobre Drummond é de uma outra ordem. É no plano mesmo da poesia, e não da forma, da teoria. O poeta mineiro diz na entrevista que “foi o gosto da poesia de Bandeira, a delicadeza, o mistério dessa poesia que me encantaram”. E, mais adiante, conclui: “A poesia do Mário nunca me influenciou. A de Bandeira, sim.”

Num longo fragmento de entrevista (infelizmente não sou assinante da Folha e, assim, não tive acesso à íntegra) dedicada ao erotismo e à psicanálise (muito pertinente também a crítica a Reich que Drummond faz), no fim, foram essas confissões de influência que mais me chamaram a atenção. Talvez porque me identifique com Drummond. A poesia de Bandeira é, talvez, o marco da poesia modernista brasileira. Bem mais que Mario ou Oswald, tão celebrados nos tempos que correm. Porém, mais do que “modernista” é poesia de extrema sensibilidade, delicadeza, mistério e competência. Bandeira era um poeta completo. Por isso gostei da sacada do Eucanaã Ferraz de levar o poeta carioca ao programa sobre a Semana de 22.

Visitando meu tio, o poeta Thiago de Mello, no interior da floresta Amazônica, no início da década de 1990, fui acomodado em uma de suas bibliotecas da velha casa do Porantim, em Barreirinha (AM). Lá dormi entre livros raros, correspondência com grandes escritores e obras de arte de valor incalculável. Em frente a retratos de Zé Lins do Rego, Bandeira, entre outros, uma mesa de madeira nobre guardava os originais do livro em que o poeta trabalhava naquele então. Havia ainda partes da tradução de poetas latino-americanos, velho projeto do Thiago, que só se cumpriu ano passado. Me lembro de ter passado os olhos em algumas das cartas do seu arquivo. Duas ficaram em minha memória: a de Neruda, despedindo-se do amigo brasileiro com um poema brincalhão e amoroso, e outra de Bandeira, na sua intensidade leve. Thiago teve a fortuna de conviver intimamente com esses dois mestres. Aliás, o Manuel de Manduka é homenagem a Bandeira, era padrinho do músico.

Encerro com este poema de Drummond, do Amor natural:

A língua lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos
entre gritos, balidos, e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

sábado, 30 de junho de 2012

Itinerários patafísicos para o sábado


Eis que chega o sábado e eu amanheço naquele estado híbrido, misturando euforia e cansaço. Há alguns anos, ligaria para Manduka para falar de tudo pelo nada, ou ao contrário. Ao seu alô, do outro lado linha, eu diria em tom solene: “Dom Manuel?”, imaginando-o em frente à sua janela, aberta para a imperial Petrópolis, onde resolvera se refugiar, solitário, nos últimos anos de sua vida. Rápido no gatilho, ele responderia imediatamente: “O Venturoso!”. Era o nosso código para o início de uma conversa sem fim, pelo universo mandukiano, de forte cognição literária e musical. Um tipo de saber e pensamento cada vez mais raro.

Depois que Manduka se foi entre as estrelas, além da nuvem de granito, bagunçando a ordem do firmamento, fiquei sem saber bem o que fazer neste despertar de sábado. A velha Modern Sound me salvava. Um banho rápido e antes do meio-dia já ocupava uma mesa mergulhando, ainda sonolento, no jazz do quarteto de Idriss ou dos grupos que se seguiram. Ali, viajava de volta à Nova York onde vivi nos anos 70: Blue Note, Sweet Basil, o estúdio Black Beans, de Dom Um Romão, os eventos de jazz nas ruas ou no Central Park. O clima de música na casa de meu pai. Jam sessions todos os dias (noites), com figuras como Claudio Roditi, Mauricio Smith, Richard Kimball, Naná Vasconcelos. Haroldo Mauro Jr., entre outros. Também as conspirações revolucionárias para derrubar a ditadura. Mas, a Modern para mim era de dia, e, assim, abria o fim de semana. Muitas coisas aconteciam depois.

No entanto, a loja de meu compadre Pedrinho Tibau fechou as portas e novamente fui lançado ao limbo nesse momento precioso que é o despertar de sábado. O começo do fim de semana já me foi mais animado. Ultimamente, tenho ficado na preguiça, rolando pela casa. Às vezes, se estiver chovendo, nem saio à rua, perdido em algum livro, ou ouvindo algum som da nova MPB, que se insinua à revelia de rádios, jornais e a indústria do disco. Preguiça e cansaço. O prazer de ter esse tempo para mim, solitário, sem solidão. Nesses momentos, é quase perceptível o tempo passando. A sucessão de minutos e horas ganha densidade e se torna quase um fenômeno físico, concreto. A percepção desenvolve músculos.

Mas ainda prefiro o prazer estratosférico das conversas espirais, aquelas que começam num ponto e circulam pelo universo algumas vezes, entre o primeiro e o segundo copo de cerveja. Soraya Simões sempre foi uma interlocutora mandukiana nesse sentido, mas multiplicada pela coisa feminina, cheia de curvas e delicadeza, mesmo nos seus momentos mais veementes. Hormônios, dirão os neurocientistas americanos, já pensando em desenvolver alguma pílula para controlar o “distúrbio”. E recentemente pude curtir prazer semelhante, ao conversar com Flavinha Bali, com quem dei passeios de mãos dadas por jardins mentais frondosos.

Como sinto falta de conversas patafísicas, sobretudo, depois de uma semana dura de trabalho, lidando com “fatos” numa redação de jornal ou discutindo seus sentidos, na academia. E como não tenho encontrado interlocutores no mesmo tom, resolvi apelar para uma prática que reaprendi em meu séjour na França, no ano passado: flanar pela cidade. Sem Manduka, sem Modern, sem minhas amigas, sempre tão atarefadas, decidi pôr os pés no chão, o que me traz certa dor física, mas alegra a alma.

À proporção que os pés se sucedem nessa tensão muscular, situando o corpo entre o chão e o céu, e avanço pendular, num ritmo integrado à respiração, a alma começa seu próprio caminhar: pela memória, pela saudade, pelo desejo e outras pulsões essenciais. É um mecanismo que se inicia no físico e se estende ao patafísico. Em suas Confissões, Jean-Jacques Rousseau afirmou: “Não consigo meditar exceto quando caminho; se eu paro, não penso mais. Minha mente não avança sem meus pés.” Zuenir Ventura vai buscar os temas de suas crônicas em caminhadas pelo calçadão. Sai de casa vazio e volta repleto de assuntos. Sou parecido aos dois nesse sentido.

É uma forma de conversar sozinho, quase tão prazerosa quanto jogar conversa fora com meus interlocutores, através do copo, à mesa de bar. É igualmente uma forma de viver a cidade intensamente, nos detalhes, nas esquinas, ruelas e becos. O tal sentimento de déplacement, em que o deslocar físico nos desloca também o espírito, abrindo janelas de percepção, que do contrário permaneceriam fechadas ao dia. Olhar as pessoas à rua, entender a relação entre o boteco da esquina e a banca de jornal, perceber os sinais de tensão em certas áreas, mover-se ao ritmo da circulação da cidade e desbravar seus territórios. É também inventar itinerários, engolir o ar das ambiências e apreciar, como João do Rio, a paisagem urbana exuberante da velha Guanabara submersa em camadas de racionalismo, escondidas sob os escombros de demolições em nome do triunfo da razão. Vaguear ao movimento de desconstrução dos modernismos.