domingo, 10 de junho de 2012

A Geração de 45 e a Nova MPB


 
A capa do CD de Pedro Moares, Claroescuro

Continua rolando com intensidade interessante nos palcos, saraus e na blogosfera a discussão sobre novas possibilidades estéticas para a MPB, que estão fora dos padrões canonizados pelo mercado pop. E aqui me refiro a mercado no mesmo sentido que os economistas dão a uma cadeia econômica, com o artista, a gravadora, as casas de shows, o assessor de imprensa, o release, o jornalista especializado e o público. O processo ganhou certo destaque após uma reportagem de meu colega Leonardo Lichote, no Segundo Caderno do Globo, sobre o que ele definiu como a “geração fora do tempo”: compositores do Rio, que propõem uma repensada estética na cena musical brasileira. A reportagem cita Armando Lôbo, Edu Kneip, Sergio Krakowski, Pedro Moraes e Thiago Amud, mas de lá pra cá, alguns saíram da lista e outros entraram. Segundo Lichote, Guinga seria uma referência para o grupo, que, ao mesmo tempo, não se encaixaria na produção pop que vem com força de Sampa (figuras como Tulipa Ruiz, Romulo Fróes, entre outros) ou da chamada neoMPB (Maria Gadú, Edu Krieger e Roberta Sá, entre outros). 

Renato Frazão e Thiago Thiago de Mello, do Escambo: tese sobre a Nova MPB (foto tirada da internet)

Lichote vendeu essa pauta umas três vezes, antes de os editores do Segundo Caderno toparem. Não havia nada explicitamente contra ela, mas também não viam nesse assunto algo tão urgente ou importante. Após a réplica da turma de Sampa na edição seguinte e a tréplica, o assunto saiu dos grandes jornais e continuou nos bastidores com certa intensidade. Não posso confirmar como um fato verdadeiro, mas soube que, curiosamente, Pedro Moraes, que lançou um CD belíssimo (Claroescuro), teve um perfil que sairia da Folha de S.Paulo cancelado sem explicações. Do mesmo modo, uma entrevista numa rádio especializada em MPB, também teria sido desmarcada após a reportagem de Lichote. Esses sinais, se confirmados, mostram que o assunto não é algo que se desenrola tranquilamente e é uma pena que saia de cena nos grandes jornais, se restringindo a um debate na academia — o compositor e músico Thiago Thiago de Mello (do grupo Escambo) acabou de defender uma tese de doutorado em sociologia da arte sobre a Nova MPB — e nos palcos e bastidores. 

De certa forma, e disse isso a Thiago Thiago em conversa recente, essa situação me lembra um pouco a Geração de 45 na poesia brasileira. Muito mal compreendido pela crítica e o jornalismo especializado, esse movimento normalmente aparece em breves e rasas avaliações como um bando de poetas “caretas” e “retrógrados”, que ousaram defender a volta da redondilha após a conquista do verso livre pelos modernistas. Na verdade, essa geração, que não formou um movimento no sentido estrito do termo, pregava o domínio da técnica literária da poesia antes de se jogar fora as regras. Diziam algo como “faça o verso livre depois de aprender as formas convencionais”. A preocupação era algo como: se tudo vale, então nada vale e tudo se nivela por baixo. 

Thiago Amud e a capa do seu CD Sacradança

Mas desconfio que o maior problema dos poetas da Geração de 45 foi o fato de terem criticado a decretação da morte do poema pelas vanguardas que vieram nos anos 50, especialmente o concretismo. Este se aliou ao tropicalismo graças à boa relação de Caetano com os irmãos Campos e, juntos, passaram a integrar o cânone da arte e da estética brasileira, pelo menos para certa crítica especializada e preguiçosa. A analogia com a Geração de 45 não é à toa, pois a reação do “mercado” à critica que esses músicos levantam sobre a cena pop é violenta e visa a não dar espaço a esse tipo de discussão, que, no fim das contas, propõe uma cena alternativa ao que se tem ouvido por aí. Mais uma vez revela a força desse mercado e sua constante busca de “otimização” do lucro por meio de uma estética padronizada e pobre.

Quanto à crítica que esses músicos fazem, acho importante destacar que não me parece ser um mero preconceito pela falta de perícia e domínio das linguagens musicais em si. Diferentemente da minha geração, quando os músicos instrumentistas tinham abertamente um preconceito bobo contra quem não soubesse e dominasse harmonia e coisa e tal, esses músicos atuais me parecem mais preocupados com a estética do que com a técnica, como em geral também o foram os poetas da Geração de 45. Esses músicos pensam sobre a linguagem da composição, que passa pelo domínio técnico, mas não se restringe a ele. Pelo que ouvi até agora, acho que esse impulso só tem a contribuir para a identidade estética da MPB.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

strictu sensu

Pausa para uma análise estrutural sobre o Pendura (o blog, não a prática botiquinesca). Sempre me incomodou que este blog seja tão assim, esquizofrênico, no que se refere a seus temas e assuntos. Profissionalmente, me aconselham os amigos, eu deveria focar num assunto, como muitos colegas fazem por aí. Críticas de botequim, por exemplo, ou crônicas jornalísticas, ou ensaios antropológicos... etc. Mas, não. O blog vai mudando de assunto e de cara conforme me bate dans la tête. Pode ser um poema ou um comentário literário, pode ser uma resenha musical... qualquer coisa rola. E, assim, cada vez mais este blog vai ficando com essa cara meio esquisita, como aliás é a minha própria. Perfeito reflexo dessa profusão de assuntos e temas. Ou falta de foco, dirão alguns. Mas, entre meus 20 leitores (será que é isso tudo mesmo?), tem aqueles que vêm aqui atrás dos poemas; outros querem histórias de botequins; e não sei bem como essas pessoas se sentem quando chegam aqui e o tema é outro do que esperavam. E, enquanto isso, o blog segue deste jeito torto, respeitando o que sugere o subtítulo: "escritos sem compromisso". Muita gente gostou do França Fantasma (link ao lado), o blog que me serviu de diário de campo, durante meu séjour na França, ano passado, justamente porque havia ali um foco muito preciso do que se tratava o conjunto de posts e escritos. Mas já imaginou quantos blogs teria que criar, se fosse torná-los temáticos? Por isso, o Pendura segue assim, cheio de curvas, refluxos, ideias, lirismo, tudo isso ou nada disso.

domingo, 20 de maio de 2012

vão da vida


Vão é palavra cheia
Onde cabe o mundo
Nela, encontro você
E me perco de mim

Oco é o vão que carrego
No peito, ferida aberta,
Onde dorme um sonho
Que o caminho perdeu

No hiato descanso
Meu passo torto
E mato o tempo
A tempo de esquecer

Vida é o que carrego
No amplo espaço
Que faço da janela
Aberta ao vento.

sábado, 12 de maio de 2012


nova york, 1989. essa imagem é pra mim um momento de chegada. vindo do trópico e caindo no inverso duro de manhattan. depois de horas de viagem. avião. aeroporto. um banho fervendo e a janela embaçada. la fora o inverno glacial. e eu aconchegado neste outro mundo que me acolhe ao seu jeito.passei dois anos de minha vida nesse lugar. anos 70. outro mundo. desde então volto sempre que posso e caminho quilômetros por manhattan, brooklyn....

domingo, 6 de maio de 2012

céu da boca

as coisas não são tão assim coisas, afinal. têm nome e sobrenome, alguns impronunciáveis, é verdade, mas que se soletram no escuro quando ninguém vê. palavras vagabundas que crepitam na fogueira da boca, afirmando coisas sobre as coisas inomináveis, que se diluem em sentimentos ambíguos e se perdem na poeira do esquecimento. deslembradas antes mesmo do dizer, morrem no céu da boca, como estrelas repentinas de luz atrasada, afogadas na língua imóvel. mas algumas poucas escapam entre os dentes, escorrem como baba pelos cantos e iluminam sentidos guardados nas funduras dos instantes inesperados, como quando nos encontramos, querida amiga, fora da curva dos dias normais e inventamos apaixonados todo aquele vocabulário, em que reaprendemos nossos nomes. teu corpo sobre o meu fez um novo idioma, para, a boca imóvel, me frasear em teu ventre. na nossa sintaxe invertemos a norma culta e a diferença de idade uniu sujeito, verbo e complemento num novo sentido para as coisas, que, afinal, não são tão coisas assim.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Fado


O mundo acaba em tua boca
Onde cabe o fundo
Onde cala o som
Que emudece o texto
Cada vez que soltas a língua
E derramas sentidos
Palavras que escorrem
Inundam, me afogam
E me deixam ao léu
Ao vento, à toa, na boa,
Em frases vazias
Em que pese o que dizes
Teus assuntos de ninfa
Ainda que mintas
E, infeliz, te deites
Ao meu lado, um bocado
Enquanto canto este fado
De enfado, calado, sem tom

segunda-feira, 5 de março de 2012

Ainda o verão

O verão sempre teve em mim um efeito mágico. É como se as coisas pudessem, enfim, dar certo. A primeira vez que vivi essa sensação foi na infância, no Leblon, quando o bairro ainda era relativamente pobre e as pessoas se misturavam mais. Nós tínhamos uma turma de amigos da rua, na faixa dos 5 aos 9 anos, que, com uma ou duas mães, íamos à praia juntos, no que, para mim, parecia ser uma grande expedição por longos quarteirões e ruas. O prazer de pisar na areia, de entrar n'água sob o sol, é algo que ainda hoje perdura em mim. Uma sensação de euforia diante de coisas simples.

Aos 12 anos, no Píer de Ipanema, a euforia ganhou contornos sensuais. Estávamos em 1972, nas dunas do barato — com Gal gata, e Leila Diniz, mito —, e as meninas gritando sua liberdade sexual, por meio de um fiapo de biquíni, chamado “tanga”. Os corpos lânguidos estendidos sobre a areia, tostando ao sol. Nos tornáramos tribais e indígenas. O amor era intenso e misterioso. Também era despreocupado. Não havia ainda a sombra da morte, que a era da Aids trouxe. Tanatos invadindo a festa de Eros. As meninas gemiam, num soluço angustiado, tinham pelos, e suspiravam apaixonadas. O sexo era banal, mas extremamente profundo. Havia um grito de liberdade comportamental tão radioso quanto o sol. As maneiras de viver estavam mudando rapidamente, mas vivíamos em plena ditadura, o que atrapalhava muito.

Aos 20 anos, em minha primeira viagem à Amazônia, entendi a importância da intensidade do calor em minha vida. Depois de ter vivido, anos antes, nos Estados Unidos, e ter pego temperaturas geladas, compreendi que sou um ser do trópico. A depressão e tristeza que sinto no frio, se transformam em euforia sob o sol. E as matas suadas da Amazônia eram o calor na sua imensidão úmida. Entendi porque aquele povo ribeirinho vive numa intensidade preguiçosa e sensual. E me descobri da mesma tribo.

Mesmo agora, que o calor no Rio ganha alguns graus a mais, represado por edifícios que bloqueiam o fluxo do vento, ainda percebo vestígios da antiga euforia. Ela me faz ignorar as dores dos anos acumulados, da respiração abafada, das perdas amorosas e me estimula a caminhar pela cidade. Passo após passo, sigo rumo à orla mais próxima para morrer de saudade à beira do mar. É quando penso nas viagens que ainda quero fazer. E tudo, ainda, parece poder dar certo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Curry tropicalista


Amigos que já experimentaram o curry tropicalista e deram sugestões: Sô, Marta, Ruben e Dominique

Sempre quis inventar uma receita que pudesse ser apreciada por meus amigos e, desde meados do ano passado, venho trabalhando num molho que, à falta de idéia melhor, batizei de curry tropicalista, dada a sua vocação antropofágica de misturar tradições culinárias distintas. Não é nada demais, mas as pessoas que o provaram, e não foram poucas, aprovaram o resultado, pelo menos no que se refere ao sabor. As críticas mais contundentes, feitas por pessoas especializadas nos tratos da cozinha, se restringiram à apresentação  do prato, o que é relativamente fácil de ser resolvido. Descrevo então a receita para que fique o registro e outros possam aprimorá-la.

Bem, o elemento central desse prato, como sugere o nome, é o curry, e, à guisa de orientação, é preciso falar um pouco desse condimento muito presente na Índia, no Paquistão e até mesmo na Tailândia, mas cuja fórmula varia de região para região, de família para família. O curry, portanto, é uma designação genérica para um condimento oriental preparado a base de numerosas especiarias. Apesar de sua variedade, porém, alguns elementos são recorrentes o suficiente para que possam ser considerados como elementos básicos. São eles: cardamomo, cúrcuma, fenu grego e coentro. Todos esses condimentos estão disponíveis em pó no Saara (Casa Pedro). O ideal, no entanto, é encontrar suas versões em grão e moer tudo junto num pilão.No meu curry, acrescento ainda gengibre seco ralado na hora, pimentas-do-reino vermelha, preta e branca.

Normalmente esse é o primeiro passo que dou quando preparo o molho. Amasso tudo com pilão, até obter uma quantidade razoável, numa tonalidade amarelada ou amarronzada. Procuro misturar os ingredientes em quantidades homogêneas, sendo um pouco mais generoso com os elementos básicos. O segundo passo consiste em picar uma cabeça de alho, tendo o cuidado de retirar de cada dente o talo (é este elemento do alho que causa azia e retirá-lo não altera em nada o seu poderoso sabor). Em seguida picam-se dois ramos de coentro fresco e uma quantidade generosa de cogumelos igualmente frescos de tamanho médio, bem lavados (no Hortifruti tem). Também separo um vidro de azeitonas descaroçadas e pimentas biquinho.

A base do molho é a polpa de tomate. Fiquei muito bem impressionado com um de marca Originale, que já vem temperado com sal e pedaços de cebola moída. Mas pode ser a polpa de tomate em lata. A este molho acrescentam-se duas generosas colheres de sopa mostarda Dijon (uma sugestãao que recebi foi substituir a mostarda por vinagre balsâmico), azeite de oliva, sal e canela para tirar a acidez do tomate (em vez de canela, algumas pessoas preferem açúcar ou mesmo mel). Depois que estiver tudo homogeneamente misturado, acrescenta-se o curry e um ramo de coentro.

O molho está pronto. O que acontece a partir daqui pode ter variações. Normalmente faço um fettuccine ao ponto (17 minutos depois da água ferver, embora muita gente prefira mais al dente). Nesse caso, preparo atum português em lata (umas quatro latinhas para um panelão com quase meio quilo de massa), misturando-o com um pouco de shoyo e cominho. Mas pode-se fazer igualmente camarões e arroz, ou peixe etc.

Depois que o fettuccine está pronto, misturo nele o atum e as azeitonas e as pimentas biquinho. Ao mesmo tempo, refogo o alho no azeite até dourar e acrescento os cogumelos. Ainda com o fogo alto, boto dois dedos de água e deixo cozinhar um pouco e, por fim, já perto de desligar o fogo acrescento o molho.

Tomate (a polpa), coentro fresco, gengibre e alho...

Aqui chegamos ao problema da apresentação. O que faço é misturar esse molho à massa com o atum. Tudo junto e misturado. A aparência fica a de um macarrão de acampamento, mas o sabor é raro e sutil, com todo o perfume do curry e das demais especiarias aparecendo aqui e ali. Na hora de servir, coloco o segundo ramo de coentro fresco sobre a massa com parmesão ralado na hora. Um bom vinho, se a temperatura permitir. Se não, uma boa Colorado Cauim. Uma opção é servir o molho a parte, especialmente se, em vez de massa, for arroz.

Esta aí a dica.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O espírito natalino e o pôr do sol em Ipanema

Alfredinho, meio borrado na foto, uma espécie de Papai Noel socialista

Num desses dias de folga do jornal, durante a semana de Natal, aproveitei para dar uma caminhada com Soraya pelo Arpoador à hora do pôr do sol. A idéia original era mergulhar nas águas transparentes daquela ponta de Ipanema, que me devolve à época de minha adolescência, quando o mundo ainda se descortinava diante de mim. Aquele fim de dia, no calor do verão carioca, merecia um mergulho refrescante. Mas fomos nos distraindo com a multidão que ocupava tanto o calçadão como as areias. Parecia um dia de domingo de tão cheio, e no entanto era apenas uma quinta-feira à boca da noite.

Há muito que não andava pelo calçadão do Arpoador e fiquei surpreso ao encontrar tudo mais ou menos igual ao que ali sempre foi desde minha infância. Esbarramos inclusive com uma turma de cinquentões, com cara de hippies envelhecidos, curtindo como se adolescentes fossem uma banda de rock'n'roll e reagge, estrategicamente tocando à entrada do parquinho. Aquela circunstância dava um clima de Búzios nos anos 70. Até reconheci Bocão, o famoso surfista da minha geração.

Lá pelas tantas, o sol começou a desaparecer na linha do horizonte, como diria Cartola, tingindo o céu em tons avermelhados e dando ao contorno dos morros Dois Irmãos um contraste bonito. Alguém puxou as palmas e logo havia uma multidão aplaudindo o espetáculo da natureza. Entre elas, uma mulher que nos chamou a atenção pela forma enfurecida como batia as mãos, a ponto de tornar sua performance mais evidente do que a dos outros que estavam em torno dela. Soraya me olhou com uma expressão familiar, misturando ironia e uma certa decepção. Então emendei:

"O que diria Goffman de uma encenação dessas?"

Estava me referindo a Erving Goffman, que em suas reflexões recorreu à metáfora do teatro para analisar as situações cotidianas. Ele fala de encenações e projeções de imagem que fazemos inclusive inconscientemente para os outros a fim de garantir que as situações sociais tenham um determinado desfecho favorável às nossas pretensões, sejam estas quais forem. Pela forma exagerada como aquela mulher batia palmas, ficava evidentemente clara sua estratégia de se mostrar integrada àquele meio e àquela turma. Porém, como ela exagerava, sua representação teatral perdia a eficácia desejada, tornando-a mesmo um tanto ridícula em sua ênfase e, por extensão, tornava igualmente ridículas, pelo menos a nossos olhos desencantados, aquelas pessoas todas ali, aplaudindo o sol, no que nos parecia uma exibição narcisística e falsa.

Essa percepção ganhou mais força ao ouvirmos o diálogo entre dois vendedores ambulantes que trabalhavam desarmando suas tralhas:


"Em vez de bater palmas, bem que podiam nos ajudar a carregar essa tralha."

Rimos daquela situação e seguimos adiante, tendo desistido de mergulhar entre a multidão que se espremia na areia. Caminhamos rumo a Copacabana, onde seguimos pelo calçadão da Atlântica até a altura da Almirante Gonçalves, onde entramos para pegar o metrô. No caminho, aproveitamos para abraçar Alfredinho no Bip Bip. Ficamos com ele uns 40 minutos, conversando sonbre diversos assuntos, enquanto ele organizava sem alarde os últimos preparativos para o almoço coletivo de Natal que todos os anos ele, com a turma do Bip, prepara para a população de rua de Copacabana. É uma ceia preparada no Copacabana Palace e que chega ao Bip naqueles carrinhos de avião, que mantêm os alimentos quentes.

Além disso, Alfredinho também estava cadastrando moradores dos morros em torno do bar para receberem cestas básicas. Nessa pouco mais de meia hora que ficamos ali, vimos algumas famílias chegando para se registrarem num caderno pautado, que uma pessoa anotava, seguindo as instruções de Alfredinho. Ele, por sua vez, entrevistava as pessoas, perguntando quantas eram, se estavam empregadas, se as crianças estudavam etc.

Como ocorre toda vez que me encontro com Soraya, já no metrô, fizemos um balanço do nosso passeio pela zona Sul carioca, buscando uma síntese coerente em relação ao que presenciáramos desde o pôr do sol em Ipanema. E a imagem daquela mulher batendo palmas furiosamente, buscando chamar a atenção, nos pareceu um forte contraste com o jeito silencioso, sem alarde, com que Alfredinho ajuda centenas de pessoas todos os anos. Percebendo nossa admiração, ele se envergonhou e, num tom de desculpa, se justificou:

"É que sou socialista e católico."

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Bares e cidades

Bar da Adelina, meu botequim do coração em Botafogo

Distante do Rio Botequim há alguns anos, fui convidado pela editora Casa da Palavra e por Guilherme Sturdart para participar da edição que chegou agora às livrarias, contribuindo com um ensaio sobre bares que saíram nas edições do guia, mas fecharam as portas em meio ao processo incontrolável de transformação da cidade. Ao mesmo tempo, fui convidado pela Subsecretaria de Patrimônio Cultural da Prefeitura, coordenada por Washington Fajardo, para participar do 1º Seminário Internacional do Bar Tradicional, com a presença de representantes de pubs britânicos, bierhauses alemãs e de bodegones argentinos. No evento, 12 bares tradicionais e centenários ganharam certificados de “estabelecimentos de interesse cultural da cidade”, o que não equivale a tombamento, como saiu publicado nos jornais.

Apesar de organizado pela prefeitura, o evento não foi nada chapa-branca, ao se considerarem o nível de crítica e as observações duras dirigidas ao poder público municipal, tanto por parte dos donos de bares tradicionais quanto por parte dos palestrantes. Basicamente, o pessoal quer que o reconhecimento da prefeitura vá além dos certificados e se concretize em ações, como isenções de impostos, desburocratização de certas normas que permitem o achaque dos fiscais aos donos de botequins e por aí vai. O seminário ficou num meio termo entre um papo de botequim e um evento acadêmico, com a participação de estudiosos da cidade, como o historiador Antonio Edmilson, o economista Carlos Lessa, além do próprio Studart, e eu mesmo, com minhas pesquisas antropológicas sobre botequim e sobre Botafogo.

Le Penty, meu botequim do coração em Aligre, Paris

Particularmente gostei muito das intervenções do pessoal de minha mesa, que tratou do clima de botequim: o poeta Alexei Bueno, que trabalhou na área de patrimônio cultural e esclareceu muita coisa importante sobre isso; o ator Antonio Pedro, que está com uma peça sobre histórias de botequins e fez uma crítica à tendência atual de o Estado tentar tutelar as pessoas na questão do consumo de álcool e cigarro; Rosana Santos, dona do Bar Luiz (onde tomei um excelente chope da Heinenken, após o primeiro dia do evento); Fernando Breschnik, dono do Enchendo Lingüiça; todos mediados pelo jornalista Pedro Landim.Também foi ótimo rever, eu que ando afastado das mesas de botequins, amigos queridos como Kadu Tomé, do Bracarense, seu Manoel, do Jobi, Kátia e Rosa, do Aconchego, Leo Feijó, do Boteco Salvação, entre outros. A ausência conspícua foi a de minha querida Mila Chaseliov, que trocou isso tudo pelo Muro das Lamentações.

No segundo dia, fiquei impressionado com a intervenção do Antonio Rodrigues, do Belmonte, que, num tom nitidamente defensivo, confirmou que não está interessado na preservação de casas tradicionais, mas sim comprar aquelas que vão mal das pernas ou que não têm sucessores com disposição de continuar no ramo, e transformá-las em casas de sucesso. “Apareceu uma galinha morta, estou comprando”, disse ele. Ao ouvir isso, pensei logo no meu Bar Brasil do coração, com sua chopeira de bronze. Localizado num ponto agora valorizadíssimo, o botequim centenário vem sendo assediado por empreendedores interessados, como o próprio Antonio e o pessoal do Carioca da Gema. Meu medo é que ofereçam uma oferta irrecusável e adeus Bar Brasil.

Mas considerando as coisas no geral, desde a abertura, com a fala do prefeito Eduardo Paes, aos donos de boteco, acho que está bem claro a todos que o processo de preservação e mudança têm uma relação dialética inevitável em qualquer centro urbano. A cidade é um lugar que se transforma de forma constante e inevitável, mas também é uma realidade a resistência que seus moradores impõem sobre o território, os estabelecimentos e as formas de vida comum nos bairros.

Estamos num processo muito acelerado de transformação urbana, não só pelos eventos anunciados a frente, como Olimpíadas e Copa, mas pelo próprio processo de globalização das cidades numa lógica mercantil e de concorrência, que impõe a todas elas reformas urbanas que vão desde a renovação das áreas portuárias (Barlecona, Bilbao, Paris, Liverpool, Istambul e Rio, só para citar alguns casos), cinturões de segurança (UPPs, no Rio, políticas de segurança em Bogotá, política do broken window em várias cidades dos EUA, entre outros), políticas de tolerância zero (choque de ordem no Rio) e por aí vai.

São as chamadas cidades-commodities, disputando no mundo globalizado investimentos e turismo, e se reformando para tornar isso possível. As conseqüências negativas são, evidentemente, a transformação radical das cidades, o aburguesamento dos bairros, a piora dos índices de criminalidade fora dos cinturões de segurança, a especulação imobiliária e a perda de uma memória citadina, em que a tradição e o patrimônio urbanos são apropriados pelo marketing, na tentativa de se criar uma marca publicitária para a cidade, a partir de valores meramente mercantis, mas disfarçados de “autenticidade”.Com isso, a identidade de cada cidade vai se diluindo em meio às coisas que são comuns a todas elas, como se fossem um grande shoppingcenter.

No seminário do bar, vi nitidamente essas forças — tradição e modernidade — se digladiando pelo direito ao território da cidade.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Emoção e razão como narradoras


O Arnaldo Bloch publicou um bom artigo neste último sábado no seu espaço do Segundo Caderno do Globo. Intitulada A ponte entre dois cinemas, o articulista narra o seu encontro fortuito com Cacá Diegues, logo após ambos terem assistido ao novo filme de Eduardo Coutinho: As canções. Entusiasmado com o filme, Arnaldo pondera, no entanto, que preferiu o agora já clássico Edifício Master do documentarista. Cacá retruca, dizendo que As canções são uma obra-prima, ao passo que Edifício Master, um “circo dos horrores”, em que os personagens são apresentados sem um contexto que explique suas vidas, além do fato de viverem em um prédio de quitinetes de Copacabana. Cacá ainda cita o exemplo do programa de calouros do Chacrinha, hoje fetichizado na onda retrô que orienta a estética dos moderninhos pós-modernos, para descrever a situação de humilhação que, em sua opinião, Coutinho colocou os habitantes do Master.

Nessa querela, fico ao lado de Arnaldo. Me lembro que, à época em que o filme foi lançado, Coutinho disse que procurou justamente evitar o tom etnográfico — e não nos esqueçamos que algumas décadas antes Gilberto Velho fizera sua dissertação de mestrado exatamente sobre um prédio cabeça-de-porco de Copacabana, em seguida publicada sob o título Utopia urbana —, para mostrar seus personagens sem o filtro de uma análise antropológica. Ou seja, o diretor procurou justamente jogar na tela a vida daquelas pessoas sem explicação, como o Arnaldo sacou muito bem e apresentou como argumento na sua discordância em relação a Cacá.

Gilberto Velho parte das histórias de vida das pessoas do “seu” edifício Estrela (nome fictício, adotado para não constranger os moradores) para tentar evidenciar as representações sociais, ou seja, os sonhos de cidade feliz, poderosos o suficiente para levar as pessoas a morar em condições tão “apertadas”, física e simbolicamente. Coutinho não está interessado em nada disso. Ele não quer fazer uma generalização a partir da vida dos residentes do edifício Master. Ele quer apenas mostrar o caráter humano, digamos, em seu estado bruto, deixando as generalizações para o público. Coutinho buscou ficar orbitando em torno das emoções que o drama da vida humana sugere. Por isso, o publico ria e chorava ao longo do filme, como admitiu o próprio Arnaldo. E foi isso que incomodou Cacá. Pareceu a ele gratuito. Mas, estou com Arnaldo nessa. Essas emoções levam a uma reflexão próxima a que Velho nos proporciona pelo caminho da razão.

Com sua dissertação, o antropólogo prometia inaugurar uma série de pesquisas sobre Copacabana. E eu como estou envolvido em uma pesquisa sobre Botafogo, dialogando, como base teórica e metodológica, com certa tradição da sociologia que Velho também utilizou, acho que o melhor caminho para um ensaio antropológico profundo sobre a vida de um bairro — ou sobre qualquer outro assunto — deve combinar os dois caminhos. Apesar de Coutinho não pretender uma análise sociológica com edifício Master, hoje esse filme passaria bem em qualquer festival de documentário etnográfico.

Mas Arnaldo vai além em sua coluna. Ele cita o documentário sobre os suicidas que pulam da ponte Golden Gate — The Bridge, dirigido por Eric Steel  — para fazer um paralelo à sua discussão com Cacá. Ele diz que muitos amigos classificaram o filme como pornográfico, por seu caráter, digamos, explorador da dor alheia. Um argumento que se aproxima à expressão “circo dos horrores”, usada por Cacá em sua crítica a Edifício Master.

E aqui o artigo de Arnaldo me leva para outro ponto. O da pornografia e da censura. Bem, o assunto é mais do que explorado e refletido. Mas acho que é pertinente voltarmos a refletir sobre isso, num momento em que vários tipos e níveis de censura voltam na cena brasileira, sem muita reação dos “moderninhos” que constroem o sentido dominante da elite cultural atual. O caso da fotógrafa Nan Goldin, que teve sua exposição cancelada pela Oi Futuro por motivos morais e o filme sérvio proibido pela Justiça — primeiro em Minas Gerais, depois no resto do país (sem que os juízes tivessem visto o filme) —, por conter cenas em que há simulação de estupro de criança.

Lembro-me de uma amiga no Globo que me repreendeu: “Vocês antropólogos são relativistas demais. É preciso pôr um limite, do contrário tudo vale e seremos invadidos por qualquer bestialidade, perversidade e o escambau.” Disse a ela que concordava, afinal, antropólogo ou não, não vivo à margem da sociedade. Estou submetido a seus valores e representações. Mas o problema, para mim, é o Estado, ou a Justiça, ou a Igreja decidirem de forma draconiana esse limite por mim.

domingo, 20 de novembro de 2011

Limpeza


A ovulação que desperdiçamos
Em noite de espanto e exagero
Insisnuou-se, madrugada de sonho

Derramou-se viscosa nos lençóis
E feriu imaculada alvura de cetim,
Contaminando hospitalidade alheia

Apesar do susto, desinfetamos culpa
Nossa impureza, nosso embaraço
Dissolveram-se no pó do sabão

E desapareceram, enxaguadas
Uma a uma, nossas promessas
Para sempre sopradas no varal

Mas agora, o tempo em vendaval
Trouxe a mancha terrosa, esquecida
O sangue recalcado, puro, lavado

Despoluído do sortilégio do amor
Na forma de encardida saudade
De tudo, do todo que restou nada

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Portrait


Olho uma foto de seu corpo
Retrato em luz e sombra.
Ângulo curvelíneo se insinua
E impregna minha lembrança
Contornos do instante ido
Em que você, nua, me beijou.
Mas é o brilho transparante
Do olho curioso a me fitar
Que me capta e me revela
Triste em preto & branco.
Para sempre preso à memória
Nitidez que retém a alma.

Rio, novembro, 2011

sábado, 5 de novembro de 2011

Desbuscando

Queda-se imóvel em pleno voo
Improcura, delirante, o racional
Perde-se de si em plena luz
e refaz a alma, renascendo

Todos os sonhos desmancha
Regozija-se em descontentamento
Tristonho riso que apazigua
Sentimentos em desmistérios

Desfala o retumbante grito
Um novo idioma inventa
Em que, do silêncio aflito,
Desbusca a infinda infância

Rio, novembro 2011

sábado, 22 de outubro de 2011

Mundana



Ela gostava mesmo era de uma safadeza. Mas, naquela época, não se faziam as coisas assim, como hoje. Tudo era escondido. Guardava-se a sete chaves a brincadeira, o mostra-a-sua-que-eu-mostro-o-meu. Por isso mesmo tudo era melhor. O escondido é tempero para o prazer mundano. E como gemia. Um arfar como hoje não se ouve mais. Suspiros aspirados por entre dentes, os olhos semicerrados. Tinha pêlos, cheiros, curvas e, orvalhada, se desmanchava. Tão deliciosa quanto mundana. Era só esfregar, e ela se entregava toda, sorrindo, marota. Agarrava, unhava e gritava esquecida. Estrebuchava apaixonada e gozava sem culpa. Mas bastava qualquer sinal, um pio que fosse, e ela se empedrava. Desamarrotava a roupa e vestia o ar pio, a cara de santa. Ave, Maria! Era coisa de roça, coisa daqueles tempos de vergonha e juízo. Nada como hoje. O pai a criou na peia, bastava o erro mais tolo. Era cinto no lombo, palmatória na mão ou os joelhos no milho. Mas pau que nasce torto... E ela tinha alma de puta. Bastava a mão boba, o sarro, e ela se abria. Depois deitava quase satisfeita, o sorriso maroto, e brincava de misturar nossos nomes. Sonhava com família e filhos. Mas àquela época eu ainda caçava estrelas. E, às vezes, a esquecia na penumbra de nossa esquina, à espera, sozinha. Até que um dia se casou. Homem de posse e dinheiro, disseram. Viu o tesouro esquecido e a levou. E a menina mundana que brincava comigo se foi para sempre. Estrangeiro, afirmaram. E, hoje, quando passo pela esquina de nossa penumbra, tiro os olhos das estrelas, e suspiro, entre dentes, um vazio. O que não fui se mistura à saudade de quem se foi e me perturba o dia. Mas à noite é pior, quando meu sono ganha contornos de um sorriso maroto.

sábado, 15 de outubro de 2011

Querida amiga:

Sempre que dirijo estas linhas a você, um outro você se insinua e torna tudo infinito. Perco então o sentido estrito que a desenha em mim e em vez de engrandecer a narrativa, empobreço-a, perdido nessa polifonia que nivela todas numa única mesma. Assim, diluída em sua inteireza, você se torna um resumo precário. Não a encontro mais em meu foco e seu rosto ganha feições irreconhecíveis, evocações imprecisas.

Essa outra voz se impõe, puxada por alguma associação que as une, você e ela. Talvez, o mesmo êxtase ou a culpa cruel que ele provoca. A voracidade, sem fome, que esquece o sabor e devora a vida. Só sei que esse ser intruso interfere no conteúdo da frase, altera adjetivos e impõe verbos solitariamente intransitivos e impessoais. Reina soberano no texto. E quando a fragmentação já contamina os parágrafos, um terceiro outro se soma à dupla inicial; e um quarto; um quinto... E, pronto, você é uma legião.

De modo que, nas esquinas das frases, mesmo de mãos dadas, me encontro e me perco em você. Mas, seja quem for o destinatário, querida amiga, se lhe escrevo é porque o tempo é curto. Há, portanto, urgência nestas linhas, ainda que não inteiramente suas. Não sei bem onde é o incêndio. Sinto-o perto e me aflijo. Tento escapar desse campo onírico, onde o enredo, cheio de desejo e fúria, se solta indomável. Sua felicidade, porém, não se desfruta. Só é possível vazia de sentidos, pois engloba tudo, ao mesmo tempo em que é nada.

Mas não cabe a Quixote desafiar a razão? Então, sob o sortilégio do discurso épico, construo a felicidade irreal e só temo a mediocridade. Pois é esta que, numa dialética perversa, torna a exuberância possível, enquanto se impõe como preço a pagar. Fadado ao infortúnio da insignificância, mais e mais mergulho no fulgor fantasioso, tristemente radiante em minha alienação. E, após séculos na floresta, desenvolvo o gosto por cipós e igarapés. Aprendo a navegar em rios perigosos, olhando as estrelas, onde se deita, querida amiga, seu corpo perfeito e intocável.

No entanto, à medida que o fogo da vida devasta as ramagens inventadas, me aproximo do fim do sonho. É a realidade que me chama. Às vezes, traz a conta de tantos moinhos destruídos: dores no corpo, limites, idade. Mas é sempre generosa ao se pôr, linda ou feia, ao alcance da mão. Sem saber direito como respirar nesse mundo feito de tanta vida, vou me desamarrando de impossibilidades maravilhosas. E troco o rosto indefinido, múltiplo, por seus olhos, querida amiga, que me fitam pela primeira vez.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Histeria

Ela diz que não é
Que não quer... quem sabe, talvez
E sorri um sim escondido
Encardido amarelo, enrustido
Ela diz que não deita
Que não sou de sua seita
Mas aceita, esquecida, o carinho
Se ajeita, e abre, quase sem culpa,
O caminho das Índias
Goza perplexa, e morre de susto
O prazer espremido, derramado
Esquecido, no sim apressado
Grito abafado, logo afogado
Enquanto diz que não quer
Que não é... quem sabe, talvez


sábado, 1 de outubro de 2011

A ciência do esculacho

Amigos, reproduzo abaixo minha resenha, publicada hoje no Prosa & Verso, o suplemento literário do Globo, sobre a bela etnografia que meu amigo Lenin Pires fez sobre os camelôs que trabalham nos trens da Central do Brasil. A foto acima é do autor, de um dos vendedores ambulantes.

Quando decidiu tomar como objeto de sua dissertação de mestrado o comércio informal de ambulantes nos trens que ligam as zonas Oeste e Norte e a região metropolitana fluminense à Central do Brasil, o antropólogo Lenin Pires se viu confrontado pela expressão “esculacho”, que, por seu poder de iluminar certa realidade social, se tornou um guia condutor de sua reflexão. Foi em 2003, durante uma reunião entre camelôs que se organizavam para negociar com a Supervia o que consideravam ser uma espécie de legalização de sua atividade nos trens e estações, e, assim, evitar o “derrame", isto é, a tomada de seus produtos por agentes de segurança.


Na reunião, diz Pires, “um camelô, em sua expressão cansada, olhar cabisbaixo, comentou baixinho com um colega: ‘O derrame eu até entendo. O derrame é do jogo, tudo bem. O problema é o esculacho’”. No dizer antropológico, derrame e esculacho são categorias nativas, expressões do grupo estudado que qualificam de forma clara os limites morais da realidade que vivem. Mas, diferentemente de derrame, esculacho, no sentido dado pelas pessoas pesquisadas, descortina um sistema de relações e valores. Esculacho é uma forma intolerável de desrespeito, desconsideração e negação do outro, que se situa no limiar da exclusão social. Extrapola, portanto, a regra do jogo, e entra no campo do insulto moral, pois, além de submeter o ator à ordem já desigual, ainda o humilha.

No prólogo, o autor dá um outro exemplo de esculacho, dessa vez coletivo, com consequências devastadoras. Pouco antes das 8h de uma manhã de agosto de 1996, quando o sistema ferroviário era administrado pela Companhia Estadual de Trens Urbanos (Flumitrens), a estação do Engenho de Dentro estava lotada: as composições, mais uma vez, rodavam com atraso. Situação que não apenas trazia o desconforto da espera, enquanto a plataforma enchia cada vez mais, mas se estendia, em suas consequências, ao repertório de explicações ao qual os usuários se veriam obrigados a recorrer para justificar no trabalho o atraso.

Mas como o que é ruim sempre pode piorar, a notícia chegou pelo boca a boca e tomou conta da plataforma: um outro trem, que seguia da Central do Brasil para Deodoro, descarrilara e todos os ramais de acesso ao Centro do Rio estavam bloqueados, afetando cerca de 400 mil pessoas. Por volta das 8h30m, em meio à tensão crescente, um funcionário da Flumitrens informa pelo sistema de som da estação de Engenho de Dentro: “Atenção senhores passageiros, a Flumitrens informa: o trem não tem condições de continuar. Vocês vão ter que se virar para conseguir condução.”

Tomadas como um insulto, as palavras do funcionário da Flumitrens desencadearam um dos maiores quebra-quebras da cidade. Trens, plataformas, bilheterias e trilhos foram destruídos numa onda de fúria que só não acabou no linchamento de funcionários, porque eles se esconderam ou fugiram. O caos durou cerca de uma hora e só foi interrompido com a chegada da tropa de choque da Polícia Militar. Moral da história: esculhamba, mas não esculacha.

É por meio de categorias nativas como esculacha que o antropólogo tira da sombra a realidade dos camelôs que circulam nos trens da Central, vendendo todo tipo de mercadoria. Ele descreve e analisa suas estratégias para sobreviver, as formas como narram o drama de seu trabalho, as várias identidades que assumem ao longo da jornada e, sobretudo, como se relacionam com a Supervia.

Durante anos, Pires percorreu quase diariamente os trens entre o subúrbio carioca e a Central do Brasil, focando seu olhar na prática dos vendedores ambulantes. Isso permitiu que ele discutisse uma série de questões em torno da informalidade sem se restringir ao cumprimento da lei e das normas. Com isso, ele enriqueceu uma reflexão importante, sobretudo nesses tempos de choque de ordem, deslocando o problema para além da legalidade. Ao descrever o ritual diário desses ambulantes em sua relação com os vários níveis de autoridades e com os passageiros, o antropólogo lançou luz sobre velhos problemas da sociedade brasileira, como desigualdade social, informalidade, flexibilização de regras, jeitinho, entre outras formas peculiares de administração de conflitos.

Pires também apresenta no livro uma reflexão epistemológica importante sobre a antropologia urbana brasileira, ao descrever sua formação, ou melhor, sua “conversão” de sindicalista em cientista social, contrastando os ritos da militância sindical com aqueles da academia no que se refere à realização de pesquisa científica. Esse processo de aguda reflexividade permitiu ao antropólogo olhar por trás dos estereótipos. Além disso, como pesquisador associado ao Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisa (Nufep), da Universidade Federal Fluminense — coordenado pelo professor Roberto Kant de Lima —, Pires faz parte de uma geração de pesquisadores urbanos, que se caracteriza pela ênfase no trabalho de campo.

Fiel a essa linhagem, Pires trabalha com distintas matrizes teóricas para tratar, de forma competente, a complexidade dos problemas sugeridos pela etnografia. Talvez essa seja uma das marcas mais criativas da antropologia urbana brasileira: não ter o pudor de usar variados instrumentos e métodos para trabalhar os problemas que o campo sugere. Segue-se, assim, um caminho alternativo ao de certo formalismo, que, por solene deferência ideológica, busca encaixar a realidade empírica em uma lógica rígida, definida a priori.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Hipocondria

Meu amigo Carlinhos Vasconcelos costuma dizer, com o ar um tanto filosófico, um tanto sacana, que três ziqueziras acabam num pirepaque. E eu, que já tive pelo menos uma ziquezira, ando sobressaltado com minha saúde e, ao mesmo tempo, resignado com a incompletude de meu corpo e alma. Ontem, por exemplo, a dormência e o formigamento que venho sentindo nos dedos e palmas das mãos saíram, por assim dizer, de seu estado usual de latência e ocuparam, eu diria, de forma impertinente, minhas idéias ao longo do dia, sobretudo em seus momentos mais estressantes e tediosos. A cada vibração eletrizada, meu cérebro soava alarmes e minha fantasia criava uma lista de patologias que variava de problemas cardiovasculares a sintomas neurológicos de atrofiamento dos membros (êpa!), passando por um quadro circulatório deficiente.

Senti o peito oprimido e uma certeza da morte ganhou forma em minhas fantasias. Ora, o coração bombeia a vida, a circulação faz a energia vital atravessar o corpo e o cérebro comanda o mundo mental... Esse formigamento só pode ser coisa séria. Diagnóstico confirmado por meus colegas de trabalho, quando relatei o que estava acontecendo. A atenuar um pouco o terror, o fato de estar sentindo esse formigamento há anos, o que me permitia pensar: se fosse sinal de algo iminente e fulminante, já teria rolado. Sentido-me à beira da morte, fiz um esforço para vencer meu terror interno e procurei informações no Google sobre os sintomas. Devo confessar que me tranqüilizei um pouco.

Logo o primeiro site que abri, um médico dizia que era relativamente comum que se confundissem esses sinais com problemas de coração ou circulação. O que poderia ser verdade se, com o formigamento e a dormência, estivessem associados outros sintomas, como falta de ar, dor no peito, suor frio, pressão alta etc. Coisas que não estava sentindo. O mais comum, ensina o médico, é o que homens de branco chamam de fibromialgia, que seria provocada por vários fatores, desde a pressão sobre um determinado nervo a estresse. Após a leitura dessas informações imprecisamente tranqualizadoras, o formigamento voltou para o seu estado latente, quase esquecido, atenuado mentalmente ainda pela promessa feita a mim mesmo de ir a um médico ver esses sinais.

Mas isso tudo me fez pensar sobre essa coisa quase mágica que é a hipocondria. Uma espécie de loucura generalizada e bastante social, em que compartilhamos com o próximo todos os nossos pesadelos e temores. Uma loucura que vai de vento em popa nesses tempos de internet e Google, ao mesmo tempo, em que os médicos, cada vez mais jovens, parecem inexperientes demais para fazer diagnósticos verossímeis e plausíveis.

E o pulso ainda pulsa.

domingo, 11 de setembro de 2011

Concerto de pálpebras


Fui ontem à exposição/instalação Concerto de pálpebras que Enrica Bernardelli está fazendo na Fundação Eva Klabin e ainda estou impactado. Conheço Enrica desde suas experimentações com cinema, no fim dos anos 70, e venho desde então acompanhando sua trajetória, feliz e às vezes perturbado por conviver com sua inteligência e sensibilidade. Enrica é uma artista de uma estirpe nobre, que não se vê com facilidade por aí, nesses tempos de total diluição de tudo e uma certa padronização tangida pela mídia, que, de um modo geral, vem cada vez mais transformando arte em entretenimento. Em compensação, as exceções acabam tendo um impacto furioso.

Concerto de pálpebras teve esse efeito em mim, ontem, circulando em torno dos dois ambientes criados por Enrica, com suas estátuas vivas, imóveis e imobilizadas em redomas de filó, cegas por máscaras sem olhos. Enrica disse: “É como uma cena congelada de um filme”. Os dois ambientes são distintos e se complementam. Para mim, que sou excessivamente simplista e reducionista, é como se fossem metáforas do racional e concreto em oposição ao emocional e onírico. O primeiro é como uma sala, com sua neutralidade formal, e o segundo, um quarto, refúgio de intimidade. O primeiro é o palco, o segundo os bastidores. Há uma sensualidade simultaneamente sutil e impactante. E essa energia sensual circula pelos dois ambientes.

Na primeira sala, uma jovem, com flores nos olhos, senta-se sozinha num grande sofá, enquanto dois homens adultos, com máscaras que parecem lobos gigantes (a filhinha de meu primo viu uns ratos enormes e se recusou a entrar) estão à mesa. Um deles lê o jornal. Aquela jovem ali, na solidão do grande sofá, me fez pensar na concretude da vida. Nas notícias de jornal, cujos enredos reiteram mitos e fábulas cheias de exemplos morais para o nosso dia a dia, e que um dos homens, sem olhos, lê. Vi naquele ambiente os faits divers, a realidade moldada para caber nas manchetes. Mas, ao mesmo tempo, é um mundo incontornável, inescapável, que atravessa o nosso caminho, e nos obriga a pôr os pés no chão. E é preciso vivê-lo, do contrário ficaremos tão imóveis e cegos como aquelas estátuas de carne e osso, presos na morbidez do instante congelado.

O segundo ambiente é a alcova. São duas jovens e um homem. Este, que também usa a máscara do animal feroz, me parece um personagem libertino, vestido de robe e calçando pantufas. Está em pé, altivo, mestre do quarto. Ao seu lado, uma das jovens está sentada numa poltrona, mas ao contrário da menina do primeiro ambiente, essa está languidamente largada, os joelhos quase se tocando, mas os pés separados, num gesto que me parece de entrega e prostração. Ela veste um vestido de papel amassado e tem o rosto insinuado sob um véu negro que cai de uma armação triangular. Seus braços se estendem ao longo dos braços da poltrona, numa espécie de simbiose entre o móvel e a menina, para terminar com a mão esquerda com a palma virada para cima e a direita, para baixo. Uma coisa meio oriental, como se fosse um canal de energia vital. Em frente a esses dois, está a terceira menina, deitada num sofá pequeno, o vestido amarrotado. Ela dorme em posição fetal e seu braço pende do sofá, e de sua mão se estende uma serpentina, que se espalha pelo chão do quarto, em direção ao centro. Me pareceu muito simétrico essa mão estendida em direção às mãos da outra personagem. As duas meninas não usam máscaras cegas, mas permanecem com os olhos fechados todo o tempo. 

Para mim, esse é o lado onírico, fantasioso. Ali tudo é possível. Não se trata do prazer, que a menina do primeiro ambiente insinua, mas do êxtase, que, no fim, é inalcançável. Um mundo de compulsões e a fantasia de completude. A instalação tem um som de pássaros que reforçam essa idéia de sonho. E o fato de estar num dos salões da casa de Eva Klabin, em meio aos móveis, cristaleiras e cômodas de madeira escura, reforça o impacto da obra de Enrica, como se essa cena de cinema congelada pudesse ocorrer em qualquer lugar a qualquer hora e não necessariamente num museu ou salão neutro para exposição de arte.

No segundo andar da casa, num dos quartos, há a segunda instalação, Três quartos de memória, do artista português Daniel Blaufuks. Uma viagem tranqüila por imagens antigas, ao som do mar e ondas, roncos e suspiros, entre outros sons. Há mesmo uma completude entre essa instalação e a de Enrica. A de Daniel é marcadamente sobre o tempo e a memória. Ela tem um ritmo calmo, ao passo que Enrica é um mar revolto. As duas instalações estão dentro do Projeto Respiração. 


Enfim, essa é a viagem que fiz. Não conversei com Enrica sobre isso e nem li o texto que o curador, Marcio Dosctors, escreveu. Seja como for, minha sugestão é que todos façam o seu mergulho nessas duas instalações e viajem também.