sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Além-mar


Minha Sarah ensolarada,
Vou me mudar pra Irlanda
Onde beberei strong ales
E brigarei com hooligans,
Fascistas e baderneiros.
Depois, estropiado, herói
De guerras memoráveis,
Deitarei em teu peito
E mergulharei no "ruivo,
Raro isoscéle perfeito".

Minha Sarah guerrilheira,
Vou me mudar pra França
Me acharás à esquina,
No café dos exilados,
Onde beberemos um tinto,
Rascante, comme il fault.
Ouvirei com o olho afogado
Histórias da Cordilheira
E buscarei em teu colo
O calor do trópico abafado.

Minha Sarah incendiária,
Vou me mudar pra Holanda
Lá não sou amigo do rei
Me perderei em campos
De girassóis impressionistas
E aprenderei teus segredos
Quando, distraída, expuseres
A relva rubra, empapada,
E dormirei em teus braços
Raiz firme para tua flor.

(para Manuel Bandeira)

sábado, 25 de agosto de 2012

Entre folhas

As espessuras da memória variam com os dias que escorrem por mim. Mormaço. Por todos os cantos se espalha a sensação daquele momento preciso, que o tempo desfez na poeira parada, suspensa. Terra ensolarada repartida em raios diagonais, entre folhas. Cidade fantasma, Minas afora, Goiás adentro. Terrosa. Cruzamento de caminhos. Sertão. Mas de algum modo, por uma luz, um cheiro, uma intuição, reencontro você nos interstícios dos instantes. Arrepio. Um fluxo fora da normalidade, um presságio. Assombro. Sempre um zás. Inapreensível exceto na falta. Como a fenda por onde me engole. Memória do que foi sem ter sido. É no hiato dos instantes que a sinto. Desencarnada. E, no entanto, se materializa e se instala no nervo ótico. Parasita. E o mundo então ganha cores e meus pés seguem cegos. Veredas..E deixo o rio me levar, a cada novo instante que se repete incessante.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Amor e saudade numa narrativa beat


Tenho uma amiga que se diz Camaleoa, mas eu a vejo uma mariposa, volateando pelo mundo, perturbando meu sono com seus contos e poemas. Autorretratos de deusa que me seduzem, sobretudo à noite. Vejo seu sexo carnudo, ela dando de bruços. Morena de curvas e segredos. Minha Camaleoa é andarilha, segue pelo mundo, solta, e eu a sigo pelos mapas, no conforto da poltrona. Mato Grosso, São Paulo, Porto Alegre, Paris... e todos lugares improváveis à beira da estrada. Minha beatnik tem o olhar gonzo. Seu texto se abre ao horizonte e ela nomeia as coisas com seus nomes próprios. Evita os apelidos, os eufemismos burgueses e respeitosos. Ela, por exemplo, não escreveria “seu sexo carnudo”, como fiz acima, puritano e envergonhado. Ela diria apenas “boceta”, que por si só já contém na densidade certa a imagem dos lábios carnudos. Mas sua prosa é coisa fina e lírica na aspereza. Na sua poesia, lemos “bo-ce-ta”, com as sílabas bem faladas, quase babadas, intumescidas, úmidas. Dá para sentir o gozo em sua narrativa. Eu a amo profundamente, e nem nos conhecemos, olhos nos olhos, abraço apertado. Um cheiro no cangote. Camaleoa é um ser literário de carne e osso ou talvez uma entidade patafísica que às vezes se incorpora numa tal Cristina Livramento, quando se predispõe a coisas mundanas, como escrever ou trepar. Um dia quase nos conhecemos. Uma de suas estradas passou pela Zona Sul do Rio, mas eu não estava. Desincronizamos. Que pena. Mas tudo bem. Acompanho sua trajetória e ela me inunda de alegria, quando me escreve cartas, como antigamente se fazia, e as manda pelo correio, com seus minilivros, jornais de prosa & poesia. Me apresenta poetas e escritores dos cantos onde pousa. E agora acaba de me enviar seu livro São Paulo & Notas cinzentas de amor e saudade. Uma narrativa densa, uma prosa poética, um texto raro num momento em que muitos "jovens escritores" parecem presos ao sortilégio do enredo, incapazes de inventar linguagens. Li seu livro no mesmo dia, de um gole só. Mas hoje, acordei sereno, fiz um café forte, como ela gosta, deixei o aroma impregnar a casa vazia, e estou relendo, na calma, na luz da manhã, degustando meu café e poesia. Os textos que falam de saudade só podem ser escritos num idioma íntimo, que se abre ao leitor na mesma intensidade com que ele é capaz de sentir a falta, a ausência, o oco, aquilo tudo que, não existindo, nos constitui. Um beijo, Camaleoa. E obrigado pela saudade do nosso encontro que não ocorreu..

sábado, 11 de agosto de 2012

Identidade, boemia e botequim

Amigos, reproduzo abaixo um artigo publicado na edição de hoje do caderno literário do Globo. O Prosa & Verso, após o redesenho do jornal, passou a se chamar apenas Prosa. A última página, porém, ganhou o nome de Verso, onde, com seu formato fixo, apresentará sempre artigos que coloquem em evidência o contraste de ideias. A foto é de meu mano Custódio Coimbra, um belo retrato da Casa da Cachaça, na Lapa. O Custódio tem de fato alma de gato. Toda vez que ele vai fotografar um botequim — e em nossa história profissional foram centenas deles desde os primórdios do Rio Botequim à redação do Globo  — os gatos aparecem. É assomborsamente sobrenatural.



O pé-sujo recusa a saideira
Paulo Thiago de Mello

Em mais um capítulo na história de transformações dos botequins cariocas, boemia da cidade tem hoje múltiplos espaços de representação

Em um debate sobre a língua portuguesa, no contexto da unificação ortográfica, Mia Couto afirmou que “as identidades são transitórias e precárias. O problema é que elas são vividas como definitivas e eternas”. Os sucessivos ciclos de desenvolvimento urbano do Rio dão pertinência à afirmação do escritor moçambicano. Variados sonhos de cidade e ideais de civilização se chocam na arena pública, entre forças que buscam renovação e outras que defendem a preservação de patrimônios intangíveis. A cidade, como a língua, se transforma invariavelmente, o dia a dia muda e, com ele, as identidades urbanas. Mas como estas são vividas como absolutas nem sempre os processos são perceptíveis.

Observe-se o exemplo do botequim. Surgido na belle époque carioca, no início do século XX, quando o Rio se transformava em centro cosmopolita, esse tipo de comércio, oriundo das boticas e armazéns, funcionava como um refúgio para a massa operária, efetiva ou potencial, que se aglomerava na cidade em busca de oportunidade. Era o tempo do triunfo do racionalismo urbano, baseado no modernismo de Le Corbusier, e tendo como modelo a Paris do Barão Haussmann. O Rio industrializava-se e precisava de mão de obra qualificada.

Nesse contexto, o botequim rapidamente passou a ser visto como um desvio no caminho entre o lar e o trabalho. Nele, o trabalhador escapava da rígida hierarquia das fábricas, com seus chefes, capatazes, gerentes e diretores, e também de suas responsabilidades como provedor do lar. Muitas vezes, o dinheiro da feira ficava no balcão da taverna, para desespero da mulher. As instituições logo trataram de enfrentar o assunto, criminalizando o ócio e a malandragem. A igreja condenava moralmente; a medicina alertava para o alcoolismo como doença social; e a polícia reprimia.

Mas, ao mesmo tempo, ali era um dos poucos espaços onde a classe trabalhadora e a população pobre podiam estabelecer relações menos desiguais, que fugiam à rígida e excludente hierarquia social. Afirmava-se ali um sentido de boemia que logo atrairia segmentos das camadas médias da população. Assim, o botequim passaria a ser não só lugar de malandros, ociosos e alcoólicos, mas também de sambistas, poetas, jornalistas, entre outros. Surgia uma outra identidade para o botequim, como espaço de “liberdade”, embora cheio de regras e etiquetas, e de expressão cultural.

Na segunda metade da década de 1990, o ex-prefeito Luiz Paulo Conde lançou uma série de livros para enaltecer instituições vistas por ele como patrimônios culturais do Rio. Lançou edições sobre igrejas e sebos, um catálogo de estilos arquitetônicos da cidade e um guia de botequins. Os três primeiros desapareceram em solenidades e salamaleques palacianos. O último surpreendeu pela repercussão. O “Rio Botequim”, ao tirar o bar das esquinas obscuras e páginas policiais dos jornais, lançou luz sobre a importância cultural desses estabelecimentos para certa identidade carioca.

A partir de então, a ideia positiva do botequim atenuou a má fama do bar como espaço de desvio, ainda que esta representação perdure. Os jornais criaram colunas especializadas; chefs renomados passaram a valorizar a gastronomia popular dessas casas; surgiram especialistas no assunto; criaram-se concursos de melhores botequins, garçons e chope; e o tema até virou assunto acadêmico, com monografias em várias disciplinas.

Mas talvez o sinal mais contundente desse processo tenha sido a transformação do bar propriamente dito, por meio de uma profissionalização do serviço. As empresas familiares dos velhos botequins estão sendo substituídas por sócios investidores, que contratam chefs, gerentes, relações públicas e assessores de imprensa, e apostam no ramo em meio à onda de valorização do botequim. Nos últimos anos, surgiram redes e bares modernos, que nada têm a ver com os botequins originais, mas que evocam esses estabelecimentos para vender uma ideia de legitimidade boêmia.

Esse movimento assombra boêmios identificados com a velha tradição do botequim, que veem tal identidade ameaçada. Para estes, no botequim carioca, o serviço é secundário. O importante é seu caráter de clube social da vizinhança, onde funciona como ponto de encontro e de sociabilidade. Mais relevante do que o menu e a carta de cervejas é a relação entre freguesia, garçons e donos de botecos. Esses guardiões da tradição resistem contra os novos usos do bar, e se apegam intransigentemente aos sinais físicos e simbólicos da identidade original do velho botequim, como o balcão, o ovo colorido e uma boa conversa fiada.

Como percebeu Mia Couto, há um tanto de fetichismo em todas essas identidades. E como são vividas como se parte da nossa existência estivesse em jogo, é preciso brigar por elas. Enquanto isso, a vida segue, e o que se vê é que a boemia do Rio hoje tem múltiplos espaços de representação. E, por enquanto, o velho pé-sujo e o novo boteco convivem na cidade.

domingo, 29 de julho de 2012

Memória

Encontrei-a no elevador de algum prédio, em algum lugar da cidade quando éramos jovens e intermináveis. Chegávamos ou saíamos de uma das festas daquele verão adolescente. Ela cantarolava uma canção d'A Barca do Sol, sorrindo para mim:

Quando a gente se encontrar
Pode ser qualquer dia
Assim como o Manuel
Dono da folia, rei do Bordel
Como o Manuel
Dono da angústia, rei da alegria
Como o Manuel...
Assim, como o Manuel.

Os cabelos longos, a saia hippie, um encontro breve, que escorreu num beijo roubado, e do qual restou um nome, que, às vezes, hoje, nesse outro mundo, nesse outro tempo, ainda  rouba meu sono. Como a vida pode ser tão fugaz?

domingo, 15 de julho de 2012

Sonho


Na noite de quarta para quinta-feira passada sonhei que caminhava por ruelas de uma cidade incomum. Eram ruas tortuosas, sem a lógica racional do urbanismo modernista, dessas que deixam os transeuntes sem pistas de onde estão e para onde vão. Ruas labirínticas, como as de cidades medievais, mas esta do sonho tinha uma ambiência tropical, lembrando uma favela de vielas estreitas e irracionais, cheias de becos e impasses.

Depois de longo perambular a esmo, reconheci alguns companheiros de copos em botequins de esquinas e tavernas de comida barata. Enfim, cheguei numa residência, maior que as demais. Lá, fui recebido por uma pessoa importante e próxima, que não consigo reconhecer. Um desses personagens oníricos, sem face, mas de profunda intimidade, que me levou a um aposento no segundo andar do que parecia ser um sobrado. Sobre uma mesa, havia uma imensa gaiola dourada, dentro da qual uma majestosa cacatua branca me olhava com ânimo abatido. Estava visivelmente doente.Me aproximei e a enorme ave me fitou atentamente, tranquila; As pálpebras pesando sobre os olhos. Então, lentamente desceu do poleiro, inclinou o corpo e se deitou ao chão, suavemente. Os olhos cerrados. Deu um último suspiro e adormeceu.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Drummond, Bandeira e Mario


O poeta Eucanaã Ferraz disse, num programa sobre o Modernismo brasileiro na GNT se não me engano, que Manuel Bandeira, apesar de não ter ido à Semana de 22, era uma espécie de poeta-referência dos modernistas. Eu sempre achei a poesia de Bandeira moderna e maravilhosa. Também a sua disposição de conversar e trocar com poetas das novas gerações, tornando-se uma espécie de conselheiro e amigo, misturados. Venho agora de ler um fragmento de uma entrevista inédita de Carlos Drummond de Andrade, que ficara guardada 28 anos nos arquivos pessoais da pesquisadora Maria Lucia do Pazo, que teve a fortuna de morar no mesmo prédio da amante de Drummond, Lygia Fernandes, em Ipanema.

Maria Lucia estava fazendo uma tese sobre o erotismo na poesia de Drummond e o poeta não apenas deu a entrevista (em 1984), mas chegou mesmo a procurá-la e propor a ela falar sobre os poemas do seu maravilhoso livro O amor natural, na época inédito (só foi publicado após a morte do poeta). Isso é um dado interessante, já que Drummond era tímido, quase recluso, e não gostava de dar entrevista. Na conversa com a pesquisadora, publicada no último fim de semana pela Ilustríssima, da Folha de S.Paulo, Drummond fala de erotismo, psicanálise e menciona suas influências.

Não há exatamente qualquer informação nova e bombástica, mas a entrevista mostra a sensibilidade e a inteligência de um poeta que se tornou unanimidade, a ponto de hoje andar meio desaparecido em sua própria notoriedade: todos sabem que é bom, mas ninguém mais o lê. Mas não deixo de sentir certo júbilo ao ler que o poeta aponta Mario de Andrade e Manuel Bandeira como marcos de influência na sua vida. Porém, de forma distinta. Diz ele: “Através dos modernistas cheguei a Manuel Bandeira e Mário de Andrade, que foram, realmente, os dois encontros literários mais importantes de minha vida.” 



Mas o interessante é que ele distingue muito bem a influência de ambos. Com Mario, Drummond traçou o caminho teórico e reflexivo do ofício da poesia. Mario deu a ele os argumentos propositivos para se libertar das formas fixas, como já vinha fazendo. Essas formas até então eram uma espécie de fetiche, que confundia a forma poética com a própria poesia. Instigados pela poesia de Bandeira, os modernistas destruíram isso e nos libertaram. Já a influência de Bandeira sobre Drummond é de uma outra ordem. É no plano mesmo da poesia, e não da forma, da teoria. O poeta mineiro diz na entrevista que “foi o gosto da poesia de Bandeira, a delicadeza, o mistério dessa poesia que me encantaram”. E, mais adiante, conclui: “A poesia do Mário nunca me influenciou. A de Bandeira, sim.”

Num longo fragmento de entrevista (infelizmente não sou assinante da Folha e, assim, não tive acesso à íntegra) dedicada ao erotismo e à psicanálise (muito pertinente também a crítica a Reich que Drummond faz), no fim, foram essas confissões de influência que mais me chamaram a atenção. Talvez porque me identifique com Drummond. A poesia de Bandeira é, talvez, o marco da poesia modernista brasileira. Bem mais que Mario ou Oswald, tão celebrados nos tempos que correm. Porém, mais do que “modernista” é poesia de extrema sensibilidade, delicadeza, mistério e competência. Bandeira era um poeta completo. Por isso gostei da sacada do Eucanaã Ferraz de levar o poeta carioca ao programa sobre a Semana de 22.

Visitando meu tio, o poeta Thiago de Mello, no interior da floresta Amazônica, no início da década de 1990, fui acomodado em uma de suas bibliotecas da velha casa do Porantim, em Barreirinha (AM). Lá dormi entre livros raros, correspondência com grandes escritores e obras de arte de valor incalculável. Em frente a retratos de Zé Lins do Rego, Bandeira, entre outros, uma mesa de madeira nobre guardava os originais do livro em que o poeta trabalhava naquele então. Havia ainda partes da tradução de poetas latino-americanos, velho projeto do Thiago, que só se cumpriu ano passado. Me lembro de ter passado os olhos em algumas das cartas do seu arquivo. Duas ficaram em minha memória: a de Neruda, despedindo-se do amigo brasileiro com um poema brincalhão e amoroso, e outra de Bandeira, na sua intensidade leve. Thiago teve a fortuna de conviver intimamente com esses dois mestres. Aliás, o Manuel de Manduka é homenagem a Bandeira, era padrinho do músico.

Encerro com este poema de Drummond, do Amor natural:

A língua lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos
entre gritos, balidos, e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

sábado, 30 de junho de 2012

Itinerários patafísicos para o sábado


Eis que chega o sábado e eu amanheço naquele estado híbrido, misturando euforia e cansaço. Há alguns anos, ligaria para Manduka para falar de tudo pelo nada, ou ao contrário. Ao seu alô, do outro lado linha, eu diria em tom solene: “Dom Manuel?”, imaginando-o em frente à sua janela, aberta para a imperial Petrópolis, onde resolvera se refugiar, solitário, nos últimos anos de sua vida. Rápido no gatilho, ele responderia imediatamente: “O Venturoso!”. Era o nosso código para o início de uma conversa sem fim, pelo universo mandukiano, de forte cognição literária e musical. Um tipo de saber e pensamento cada vez mais raro.

Depois que Manduka se foi entre as estrelas, além da nuvem de granito, bagunçando a ordem do firmamento, fiquei sem saber bem o que fazer neste despertar de sábado. A velha Modern Sound me salvava. Um banho rápido e antes do meio-dia já ocupava uma mesa mergulhando, ainda sonolento, no jazz do quarteto de Idriss ou dos grupos que se seguiram. Ali, viajava de volta à Nova York onde vivi nos anos 70: Blue Note, Sweet Basil, o estúdio Black Beans, de Dom Um Romão, os eventos de jazz nas ruas ou no Central Park. O clima de música na casa de meu pai. Jam sessions todos os dias (noites), com figuras como Claudio Roditi, Mauricio Smith, Richard Kimball, Naná Vasconcelos. Haroldo Mauro Jr., entre outros. Também as conspirações revolucionárias para derrubar a ditadura. Mas, a Modern para mim era de dia, e, assim, abria o fim de semana. Muitas coisas aconteciam depois.

No entanto, a loja de meu compadre Pedrinho Tibau fechou as portas e novamente fui lançado ao limbo nesse momento precioso que é o despertar de sábado. O começo do fim de semana já me foi mais animado. Ultimamente, tenho ficado na preguiça, rolando pela casa. Às vezes, se estiver chovendo, nem saio à rua, perdido em algum livro, ou ouvindo algum som da nova MPB, que se insinua à revelia de rádios, jornais e a indústria do disco. Preguiça e cansaço. O prazer de ter esse tempo para mim, solitário, sem solidão. Nesses momentos, é quase perceptível o tempo passando. A sucessão de minutos e horas ganha densidade e se torna quase um fenômeno físico, concreto. A percepção desenvolve músculos.

Mas ainda prefiro o prazer estratosférico das conversas espirais, aquelas que começam num ponto e circulam pelo universo algumas vezes, entre o primeiro e o segundo copo de cerveja. Soraya Simões sempre foi uma interlocutora mandukiana nesse sentido, mas multiplicada pela coisa feminina, cheia de curvas e delicadeza, mesmo nos seus momentos mais veementes. Hormônios, dirão os neurocientistas americanos, já pensando em desenvolver alguma pílula para controlar o “distúrbio”. E recentemente pude curtir prazer semelhante, ao conversar com Flavinha Bali, com quem dei passeios de mãos dadas por jardins mentais frondosos.

Como sinto falta de conversas patafísicas, sobretudo, depois de uma semana dura de trabalho, lidando com “fatos” numa redação de jornal ou discutindo seus sentidos, na academia. E como não tenho encontrado interlocutores no mesmo tom, resolvi apelar para uma prática que reaprendi em meu séjour na França, no ano passado: flanar pela cidade. Sem Manduka, sem Modern, sem minhas amigas, sempre tão atarefadas, decidi pôr os pés no chão, o que me traz certa dor física, mas alegra a alma.

À proporção que os pés se sucedem nessa tensão muscular, situando o corpo entre o chão e o céu, e avanço pendular, num ritmo integrado à respiração, a alma começa seu próprio caminhar: pela memória, pela saudade, pelo desejo e outras pulsões essenciais. É um mecanismo que se inicia no físico e se estende ao patafísico. Em suas Confissões, Jean-Jacques Rousseau afirmou: “Não consigo meditar exceto quando caminho; se eu paro, não penso mais. Minha mente não avança sem meus pés.” Zuenir Ventura vai buscar os temas de suas crônicas em caminhadas pelo calçadão. Sai de casa vazio e volta repleto de assuntos. Sou parecido aos dois nesse sentido.

É uma forma de conversar sozinho, quase tão prazerosa quanto jogar conversa fora com meus interlocutores, através do copo, à mesa de bar. É igualmente uma forma de viver a cidade intensamente, nos detalhes, nas esquinas, ruelas e becos. O tal sentimento de déplacement, em que o deslocar físico nos desloca também o espírito, abrindo janelas de percepção, que do contrário permaneceriam fechadas ao dia. Olhar as pessoas à rua, entender a relação entre o boteco da esquina e a banca de jornal, perceber os sinais de tensão em certas áreas, mover-se ao ritmo da circulação da cidade e desbravar seus territórios. É também inventar itinerários, engolir o ar das ambiências e apreciar, como João do Rio, a paisagem urbana exuberante da velha Guanabara submersa em camadas de racionalismo, escondidas sob os escombros de demolições em nome do triunfo da razão. Vaguear ao movimento de desconstrução dos modernismos.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A Eurocopa e a crise da zona do euro

No fim de semana, com a vitória de Grécia e Alemanha na Eurocopa, o editor de Esportes do Globo, Antonio Nascimento, me pediu para escrever um texto brincalhão, misturando o confronto dessas duas seleções na próxima sexta-feira e a crise econômica da zona do euro, que, justamente, opõe a visão de Angela Merkel, a poderosa chanceler alemã — que defende políticas de restrição ao crescimento para reduzir o déficit púbico e, assim, piora a vida das pessoas já ferradas pela recessão — e aqueles que acham que a saída da crise se dá pelo crescimenrto, gerando empregos e consumo. Trata-se do velho dilema entre economistas ortodoxos e heterodoxos. Enfim, fiz o texto, mas por um problema de espaço saiu cortado, Então republico-o abaixo na íntegra:



Alemanha e Grécia se enfrentam pelas quartas de final da Eurocopa na sexta-feira, num jogo decisivo em que o vencedor seguirá para a final. Num momento em que o eleitor grego define seus representantes parlamentares, numa eleição que poderá decidir o futuro não só do país, mas de toda a zona do euro, a desproporção entre as duas seleções — a Alemanha, tricampeã do Mundo e, hoje, terceira no ranking da Fifa, versus Grécia, que nunca venceu um mundial e ocupa a 15ª posição na lista da Fifa — permite uma vertiginosa analogia entre o futebol, a economia dos dois países, e a crise que assola o bloco das 17 nações que repartem o euro como moeda. 

Como no esporte, a economia europeia vive o dilema entre o futebol arte ou o jogo de resultados. Se, no campo, a Alemanha deve partir para cima e dominar o frágil time grego, na economia a situação é outra. A “técnica” Angela Merkel é adepta de uma boa retranca, correndo pouquíssimos riscos no ataque. Para ela, é melhor segurar um zero a zero do que sofrer uma derrota. E a voz da chanceler alemã ressoa com a autoridade de quem lidera a maior economia do bloco do euro. 

Para sair da crise, Merkel defende a ideia de que cada país deve acertar suas contas, reduzindo a dívida pública. Isso significa cortar gastos, aumentar impostos e investir e crescer menos, até que as contas estejam estabilizadas. O problema é que a aplicação dessas políticas em países que já estão em recessão tem efeitos sociais catastróficos, sobretudo no mercado de trabalho. Na Grécia e na Espanha, por exemplo, o desemprego atinge mais de metade da população jovem, situação que deve piorar se a “retranca” de Merkel for adotada. 

Mas há aqueles que defendem a saída da crise justamente pelo crescimento, ampliando os investimentos, gerando empregos e turbinando a economia pelo consumo das famílias. E essa aposta, digamos, no “futebol arte”, vem ganhando adeptos, isolando cada vez mais a dama de ferro alemã em sua posição “retranqueira”. Com a vitória de François Hollande, a França passou a defender abertamente políticas de crescimento econômico, como saída para a crise. Espanha e Itália, consideradas a bola da vez após o colapso da Gréccia, também. Até o presidente americano, Barack Obama, preocupado com os efeitos da crise europeia na sua campanha de reeleição, já cobrou dos líderes europeus mais investimentos e menos arrocho.

Na metafísica do futebol não deixará de haver justiça poética se a Alemanha vencer na sexta-feira, já que possui o time mais talentoso e joga no ataque. Resta saber se o governo de Merkel aprenderá alguma lição com a seleção nacional de seu país.

domingo, 10 de junho de 2012

A Geração de 45 e a Nova MPB


 
A capa do CD de Pedro Moares, Claroescuro

Continua rolando com intensidade interessante nos palcos, saraus e na blogosfera a discussão sobre novas possibilidades estéticas para a MPB, que estão fora dos padrões canonizados pelo mercado pop. E aqui me refiro a mercado no mesmo sentido que os economistas dão a uma cadeia econômica, com o artista, a gravadora, as casas de shows, o assessor de imprensa, o release, o jornalista especializado e o público. O processo ganhou certo destaque após uma reportagem de meu colega Leonardo Lichote, no Segundo Caderno do Globo, sobre o que ele definiu como a “geração fora do tempo”: compositores do Rio, que propõem uma repensada estética na cena musical brasileira. A reportagem cita Armando Lôbo, Edu Kneip, Sergio Krakowski, Pedro Moraes e Thiago Amud, mas de lá pra cá, alguns saíram da lista e outros entraram. Segundo Lichote, Guinga seria uma referência para o grupo, que, ao mesmo tempo, não se encaixaria na produção pop que vem com força de Sampa (figuras como Tulipa Ruiz, Romulo Fróes, entre outros) ou da chamada neoMPB (Maria Gadú, Edu Krieger e Roberta Sá, entre outros). 

Renato Frazão e Thiago Thiago de Mello, do Escambo: tese sobre a Nova MPB (foto tirada da internet)

Lichote vendeu essa pauta umas três vezes, antes de os editores do Segundo Caderno toparem. Não havia nada explicitamente contra ela, mas também não viam nesse assunto algo tão urgente ou importante. Após a réplica da turma de Sampa na edição seguinte e a tréplica, o assunto saiu dos grandes jornais e continuou nos bastidores com certa intensidade. Não posso confirmar como um fato verdadeiro, mas soube que, curiosamente, Pedro Moraes, que lançou um CD belíssimo (Claroescuro), teve um perfil que sairia da Folha de S.Paulo cancelado sem explicações. Do mesmo modo, uma entrevista numa rádio especializada em MPB, também teria sido desmarcada após a reportagem de Lichote. Esses sinais, se confirmados, mostram que o assunto não é algo que se desenrola tranquilamente e é uma pena que saia de cena nos grandes jornais, se restringindo a um debate na academia — o compositor e músico Thiago Thiago de Mello (do grupo Escambo) acabou de defender uma tese de doutorado em sociologia da arte sobre a Nova MPB — e nos palcos e bastidores. 

De certa forma, e disse isso a Thiago Thiago em conversa recente, essa situação me lembra um pouco a Geração de 45 na poesia brasileira. Muito mal compreendido pela crítica e o jornalismo especializado, esse movimento normalmente aparece em breves e rasas avaliações como um bando de poetas “caretas” e “retrógrados”, que ousaram defender a volta da redondilha após a conquista do verso livre pelos modernistas. Na verdade, essa geração, que não formou um movimento no sentido estrito do termo, pregava o domínio da técnica literária da poesia antes de se jogar fora as regras. Diziam algo como “faça o verso livre depois de aprender as formas convencionais”. A preocupação era algo como: se tudo vale, então nada vale e tudo se nivela por baixo. 

Thiago Amud e a capa do seu CD Sacradança

Mas desconfio que o maior problema dos poetas da Geração de 45 foi o fato de terem criticado a decretação da morte do poema pelas vanguardas que vieram nos anos 50, especialmente o concretismo. Este se aliou ao tropicalismo graças à boa relação de Caetano com os irmãos Campos e, juntos, passaram a integrar o cânone da arte e da estética brasileira, pelo menos para certa crítica especializada e preguiçosa. A analogia com a Geração de 45 não é à toa, pois a reação do “mercado” à critica que esses músicos levantam sobre a cena pop é violenta e visa a não dar espaço a esse tipo de discussão, que, no fim das contas, propõe uma cena alternativa ao que se tem ouvido por aí. Mais uma vez revela a força desse mercado e sua constante busca de “otimização” do lucro por meio de uma estética padronizada e pobre.

Quanto à crítica que esses músicos fazem, acho importante destacar que não me parece ser um mero preconceito pela falta de perícia e domínio das linguagens musicais em si. Diferentemente da minha geração, quando os músicos instrumentistas tinham abertamente um preconceito bobo contra quem não soubesse e dominasse harmonia e coisa e tal, esses músicos atuais me parecem mais preocupados com a estética do que com a técnica, como em geral também o foram os poetas da Geração de 45. Esses músicos pensam sobre a linguagem da composição, que passa pelo domínio técnico, mas não se restringe a ele. Pelo que ouvi até agora, acho que esse impulso só tem a contribuir para a identidade estética da MPB.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

strictu sensu

Pausa para uma análise estrutural sobre o Pendura (o blog, não a prática botiquinesca). Sempre me incomodou que este blog seja tão assim, esquizofrênico, no que se refere a seus temas e assuntos. Profissionalmente, me aconselham os amigos, eu deveria focar num assunto, como muitos colegas fazem por aí. Críticas de botequim, por exemplo, ou crônicas jornalísticas, ou ensaios antropológicos... etc. Mas, não. O blog vai mudando de assunto e de cara conforme me bate dans la tête. Pode ser um poema ou um comentário literário, pode ser uma resenha musical... qualquer coisa rola. E, assim, cada vez mais este blog vai ficando com essa cara meio esquisita, como aliás é a minha própria. Perfeito reflexo dessa profusão de assuntos e temas. Ou falta de foco, dirão alguns. Mas, entre meus 20 leitores (será que é isso tudo mesmo?), tem aqueles que vêm aqui atrás dos poemas; outros querem histórias de botequins; e não sei bem como essas pessoas se sentem quando chegam aqui e o tema é outro do que esperavam. E, enquanto isso, o blog segue deste jeito torto, respeitando o que sugere o subtítulo: "escritos sem compromisso". Muita gente gostou do França Fantasma (link ao lado), o blog que me serviu de diário de campo, durante meu séjour na França, ano passado, justamente porque havia ali um foco muito preciso do que se tratava o conjunto de posts e escritos. Mas já imaginou quantos blogs teria que criar, se fosse torná-los temáticos? Por isso, o Pendura segue assim, cheio de curvas, refluxos, ideias, lirismo, tudo isso ou nada disso.

domingo, 20 de maio de 2012

vão da vida


Vão é palavra cheia
Onde cabe o mundo
Nela, encontro você
E me perco de mim

Oco é o vão que carrego
No peito, ferida aberta,
Onde dorme um sonho
Que o caminho perdeu

No hiato descanso
Meu passo torto
E mato o tempo
A tempo de esquecer

Vida é o que carrego
No amplo espaço
Que faço da janela
Aberta ao vento.

sábado, 12 de maio de 2012


nova york, 1989. essa imagem é pra mim um momento de chegada. vindo do trópico e caindo no inverso duro de manhattan. depois de horas de viagem. avião. aeroporto. um banho fervendo e a janela embaçada. la fora o inverno glacial. e eu aconchegado neste outro mundo que me acolhe ao seu jeito.passei dois anos de minha vida nesse lugar. anos 70. outro mundo. desde então volto sempre que posso e caminho quilômetros por manhattan, brooklyn....

domingo, 6 de maio de 2012

céu da boca

as coisas não são tão assim coisas, afinal. têm nome e sobrenome, alguns impronunciáveis, é verdade, mas que se soletram no escuro quando ninguém vê. palavras vagabundas que crepitam na fogueira da boca, afirmando coisas sobre as coisas inomináveis, que se diluem em sentimentos ambíguos e se perdem na poeira do esquecimento. deslembradas antes mesmo do dizer, morrem no céu da boca, como estrelas repentinas de luz atrasada, afogadas na língua imóvel. mas algumas poucas escapam entre os dentes, escorrem como baba pelos cantos e iluminam sentidos guardados nas funduras dos instantes inesperados, como quando nos encontramos, querida amiga, fora da curva dos dias normais e inventamos apaixonados todo aquele vocabulário, em que reaprendemos nossos nomes. teu corpo sobre o meu fez um novo idioma, para, a boca imóvel, me frasear em teu ventre. na nossa sintaxe invertemos a norma culta e a diferença de idade uniu sujeito, verbo e complemento num novo sentido para as coisas, que, afinal, não são tão coisas assim.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Fado


O mundo acaba em tua boca
Onde cabe o fundo
Onde cala o som
Que emudece o texto
Cada vez que soltas a língua
E derramas sentidos
Palavras que escorrem
Inundam, me afogam
E me deixam ao léu
Ao vento, à toa, na boa,
Em frases vazias
Em que pese o que dizes
Teus assuntos de ninfa
Ainda que mintas
E, infeliz, te deites
Ao meu lado, um bocado
Enquanto canto este fado
De enfado, calado, sem tom

segunda-feira, 5 de março de 2012

Ainda o verão

O verão sempre teve em mim um efeito mágico. É como se as coisas pudessem, enfim, dar certo. A primeira vez que vivi essa sensação foi na infância, no Leblon, quando o bairro ainda era relativamente pobre e as pessoas se misturavam mais. Nós tínhamos uma turma de amigos da rua, na faixa dos 5 aos 9 anos, que, com uma ou duas mães, íamos à praia juntos, no que, para mim, parecia ser uma grande expedição por longos quarteirões e ruas. O prazer de pisar na areia, de entrar n'água sob o sol, é algo que ainda hoje perdura em mim. Uma sensação de euforia diante de coisas simples.

Aos 12 anos, no Píer de Ipanema, a euforia ganhou contornos sensuais. Estávamos em 1972, nas dunas do barato — com Gal gata, e Leila Diniz, mito —, e as meninas gritando sua liberdade sexual, por meio de um fiapo de biquíni, chamado “tanga”. Os corpos lânguidos estendidos sobre a areia, tostando ao sol. Nos tornáramos tribais e indígenas. O amor era intenso e misterioso. Também era despreocupado. Não havia ainda a sombra da morte, que a era da Aids trouxe. Tanatos invadindo a festa de Eros. As meninas gemiam, num soluço angustiado, tinham pelos, e suspiravam apaixonadas. O sexo era banal, mas extremamente profundo. Havia um grito de liberdade comportamental tão radioso quanto o sol. As maneiras de viver estavam mudando rapidamente, mas vivíamos em plena ditadura, o que atrapalhava muito.

Aos 20 anos, em minha primeira viagem à Amazônia, entendi a importância da intensidade do calor em minha vida. Depois de ter vivido, anos antes, nos Estados Unidos, e ter pego temperaturas geladas, compreendi que sou um ser do trópico. A depressão e tristeza que sinto no frio, se transformam em euforia sob o sol. E as matas suadas da Amazônia eram o calor na sua imensidão úmida. Entendi porque aquele povo ribeirinho vive numa intensidade preguiçosa e sensual. E me descobri da mesma tribo.

Mesmo agora, que o calor no Rio ganha alguns graus a mais, represado por edifícios que bloqueiam o fluxo do vento, ainda percebo vestígios da antiga euforia. Ela me faz ignorar as dores dos anos acumulados, da respiração abafada, das perdas amorosas e me estimula a caminhar pela cidade. Passo após passo, sigo rumo à orla mais próxima para morrer de saudade à beira do mar. É quando penso nas viagens que ainda quero fazer. E tudo, ainda, parece poder dar certo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Curry tropicalista


Amigos que já experimentaram o curry tropicalista e deram sugestões: Sô, Marta, Ruben e Dominique

Sempre quis inventar uma receita que pudesse ser apreciada por meus amigos e, desde meados do ano passado, venho trabalhando num molho que, à falta de idéia melhor, batizei de curry tropicalista, dada a sua vocação antropofágica de misturar tradições culinárias distintas. Não é nada demais, mas as pessoas que o provaram, e não foram poucas, aprovaram o resultado, pelo menos no que se refere ao sabor. As críticas mais contundentes, feitas por pessoas especializadas nos tratos da cozinha, se restringiram à apresentação  do prato, o que é relativamente fácil de ser resolvido. Descrevo então a receita para que fique o registro e outros possam aprimorá-la.

Bem, o elemento central desse prato, como sugere o nome, é o curry, e, à guisa de orientação, é preciso falar um pouco desse condimento muito presente na Índia, no Paquistão e até mesmo na Tailândia, mas cuja fórmula varia de região para região, de família para família. O curry, portanto, é uma designação genérica para um condimento oriental preparado a base de numerosas especiarias. Apesar de sua variedade, porém, alguns elementos são recorrentes o suficiente para que possam ser considerados como elementos básicos. São eles: cardamomo, cúrcuma, fenu grego e coentro. Todos esses condimentos estão disponíveis em pó no Saara (Casa Pedro). O ideal, no entanto, é encontrar suas versões em grão e moer tudo junto num pilão.No meu curry, acrescento ainda gengibre seco ralado na hora, pimentas-do-reino vermelha, preta e branca.

Normalmente esse é o primeiro passo que dou quando preparo o molho. Amasso tudo com pilão, até obter uma quantidade razoável, numa tonalidade amarelada ou amarronzada. Procuro misturar os ingredientes em quantidades homogêneas, sendo um pouco mais generoso com os elementos básicos. O segundo passo consiste em picar uma cabeça de alho, tendo o cuidado de retirar de cada dente o talo (é este elemento do alho que causa azia e retirá-lo não altera em nada o seu poderoso sabor). Em seguida picam-se dois ramos de coentro fresco e uma quantidade generosa de cogumelos igualmente frescos de tamanho médio, bem lavados (no Hortifruti tem). Também separo um vidro de azeitonas descaroçadas e pimentas biquinho.

A base do molho é a polpa de tomate. Fiquei muito bem impressionado com um de marca Originale, que já vem temperado com sal e pedaços de cebola moída. Mas pode ser a polpa de tomate em lata. A este molho acrescentam-se duas generosas colheres de sopa mostarda Dijon (uma sugestãao que recebi foi substituir a mostarda por vinagre balsâmico), azeite de oliva, sal e canela para tirar a acidez do tomate (em vez de canela, algumas pessoas preferem açúcar ou mesmo mel). Depois que estiver tudo homogeneamente misturado, acrescenta-se o curry e um ramo de coentro.

O molho está pronto. O que acontece a partir daqui pode ter variações. Normalmente faço um fettuccine ao ponto (17 minutos depois da água ferver, embora muita gente prefira mais al dente). Nesse caso, preparo atum português em lata (umas quatro latinhas para um panelão com quase meio quilo de massa), misturando-o com um pouco de shoyo e cominho. Mas pode-se fazer igualmente camarões e arroz, ou peixe etc.

Depois que o fettuccine está pronto, misturo nele o atum e as azeitonas e as pimentas biquinho. Ao mesmo tempo, refogo o alho no azeite até dourar e acrescento os cogumelos. Ainda com o fogo alto, boto dois dedos de água e deixo cozinhar um pouco e, por fim, já perto de desligar o fogo acrescento o molho.

Tomate (a polpa), coentro fresco, gengibre e alho...

Aqui chegamos ao problema da apresentação. O que faço é misturar esse molho à massa com o atum. Tudo junto e misturado. A aparência fica a de um macarrão de acampamento, mas o sabor é raro e sutil, com todo o perfume do curry e das demais especiarias aparecendo aqui e ali. Na hora de servir, coloco o segundo ramo de coentro fresco sobre a massa com parmesão ralado na hora. Um bom vinho, se a temperatura permitir. Se não, uma boa Colorado Cauim. Uma opção é servir o molho a parte, especialmente se, em vez de massa, for arroz.

Esta aí a dica.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O espírito natalino e o pôr do sol em Ipanema

Alfredinho, meio borrado na foto, uma espécie de Papai Noel socialista

Num desses dias de folga do jornal, durante a semana de Natal, aproveitei para dar uma caminhada com Soraya pelo Arpoador à hora do pôr do sol. A idéia original era mergulhar nas águas transparentes daquela ponta de Ipanema, que me devolve à época de minha adolescência, quando o mundo ainda se descortinava diante de mim. Aquele fim de dia, no calor do verão carioca, merecia um mergulho refrescante. Mas fomos nos distraindo com a multidão que ocupava tanto o calçadão como as areias. Parecia um dia de domingo de tão cheio, e no entanto era apenas uma quinta-feira à boca da noite.

Há muito que não andava pelo calçadão do Arpoador e fiquei surpreso ao encontrar tudo mais ou menos igual ao que ali sempre foi desde minha infância. Esbarramos inclusive com uma turma de cinquentões, com cara de hippies envelhecidos, curtindo como se adolescentes fossem uma banda de rock'n'roll e reagge, estrategicamente tocando à entrada do parquinho. Aquela circunstância dava um clima de Búzios nos anos 70. Até reconheci Bocão, o famoso surfista da minha geração.

Lá pelas tantas, o sol começou a desaparecer na linha do horizonte, como diria Cartola, tingindo o céu em tons avermelhados e dando ao contorno dos morros Dois Irmãos um contraste bonito. Alguém puxou as palmas e logo havia uma multidão aplaudindo o espetáculo da natureza. Entre elas, uma mulher que nos chamou a atenção pela forma enfurecida como batia as mãos, a ponto de tornar sua performance mais evidente do que a dos outros que estavam em torno dela. Soraya me olhou com uma expressão familiar, misturando ironia e uma certa decepção. Então emendei:

"O que diria Goffman de uma encenação dessas?"

Estava me referindo a Erving Goffman, que em suas reflexões recorreu à metáfora do teatro para analisar as situações cotidianas. Ele fala de encenações e projeções de imagem que fazemos inclusive inconscientemente para os outros a fim de garantir que as situações sociais tenham um determinado desfecho favorável às nossas pretensões, sejam estas quais forem. Pela forma exagerada como aquela mulher batia palmas, ficava evidentemente clara sua estratégia de se mostrar integrada àquele meio e àquela turma. Porém, como ela exagerava, sua representação teatral perdia a eficácia desejada, tornando-a mesmo um tanto ridícula em sua ênfase e, por extensão, tornava igualmente ridículas, pelo menos a nossos olhos desencantados, aquelas pessoas todas ali, aplaudindo o sol, no que nos parecia uma exibição narcisística e falsa.

Essa percepção ganhou mais força ao ouvirmos o diálogo entre dois vendedores ambulantes que trabalhavam desarmando suas tralhas:


"Em vez de bater palmas, bem que podiam nos ajudar a carregar essa tralha."

Rimos daquela situação e seguimos adiante, tendo desistido de mergulhar entre a multidão que se espremia na areia. Caminhamos rumo a Copacabana, onde seguimos pelo calçadão da Atlântica até a altura da Almirante Gonçalves, onde entramos para pegar o metrô. No caminho, aproveitamos para abraçar Alfredinho no Bip Bip. Ficamos com ele uns 40 minutos, conversando sonbre diversos assuntos, enquanto ele organizava sem alarde os últimos preparativos para o almoço coletivo de Natal que todos os anos ele, com a turma do Bip, prepara para a população de rua de Copacabana. É uma ceia preparada no Copacabana Palace e que chega ao Bip naqueles carrinhos de avião, que mantêm os alimentos quentes.

Além disso, Alfredinho também estava cadastrando moradores dos morros em torno do bar para receberem cestas básicas. Nessa pouco mais de meia hora que ficamos ali, vimos algumas famílias chegando para se registrarem num caderno pautado, que uma pessoa anotava, seguindo as instruções de Alfredinho. Ele, por sua vez, entrevistava as pessoas, perguntando quantas eram, se estavam empregadas, se as crianças estudavam etc.

Como ocorre toda vez que me encontro com Soraya, já no metrô, fizemos um balanço do nosso passeio pela zona Sul carioca, buscando uma síntese coerente em relação ao que presenciáramos desde o pôr do sol em Ipanema. E a imagem daquela mulher batendo palmas furiosamente, buscando chamar a atenção, nos pareceu um forte contraste com o jeito silencioso, sem alarde, com que Alfredinho ajuda centenas de pessoas todos os anos. Percebendo nossa admiração, ele se envergonhou e, num tom de desculpa, se justificou:

"É que sou socialista e católico."

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Bares e cidades

Bar da Adelina, meu botequim do coração em Botafogo

Distante do Rio Botequim há alguns anos, fui convidado pela editora Casa da Palavra e por Guilherme Sturdart para participar da edição que chegou agora às livrarias, contribuindo com um ensaio sobre bares que saíram nas edições do guia, mas fecharam as portas em meio ao processo incontrolável de transformação da cidade. Ao mesmo tempo, fui convidado pela Subsecretaria de Patrimônio Cultural da Prefeitura, coordenada por Washington Fajardo, para participar do 1º Seminário Internacional do Bar Tradicional, com a presença de representantes de pubs britânicos, bierhauses alemãs e de bodegones argentinos. No evento, 12 bares tradicionais e centenários ganharam certificados de “estabelecimentos de interesse cultural da cidade”, o que não equivale a tombamento, como saiu publicado nos jornais.

Apesar de organizado pela prefeitura, o evento não foi nada chapa-branca, ao se considerarem o nível de crítica e as observações duras dirigidas ao poder público municipal, tanto por parte dos donos de bares tradicionais quanto por parte dos palestrantes. Basicamente, o pessoal quer que o reconhecimento da prefeitura vá além dos certificados e se concretize em ações, como isenções de impostos, desburocratização de certas normas que permitem o achaque dos fiscais aos donos de botequins e por aí vai. O seminário ficou num meio termo entre um papo de botequim e um evento acadêmico, com a participação de estudiosos da cidade, como o historiador Antonio Edmilson, o economista Carlos Lessa, além do próprio Studart, e eu mesmo, com minhas pesquisas antropológicas sobre botequim e sobre Botafogo.

Le Penty, meu botequim do coração em Aligre, Paris

Particularmente gostei muito das intervenções do pessoal de minha mesa, que tratou do clima de botequim: o poeta Alexei Bueno, que trabalhou na área de patrimônio cultural e esclareceu muita coisa importante sobre isso; o ator Antonio Pedro, que está com uma peça sobre histórias de botequins e fez uma crítica à tendência atual de o Estado tentar tutelar as pessoas na questão do consumo de álcool e cigarro; Rosana Santos, dona do Bar Luiz (onde tomei um excelente chope da Heinenken, após o primeiro dia do evento); Fernando Breschnik, dono do Enchendo Lingüiça; todos mediados pelo jornalista Pedro Landim.Também foi ótimo rever, eu que ando afastado das mesas de botequins, amigos queridos como Kadu Tomé, do Bracarense, seu Manoel, do Jobi, Kátia e Rosa, do Aconchego, Leo Feijó, do Boteco Salvação, entre outros. A ausência conspícua foi a de minha querida Mila Chaseliov, que trocou isso tudo pelo Muro das Lamentações.

No segundo dia, fiquei impressionado com a intervenção do Antonio Rodrigues, do Belmonte, que, num tom nitidamente defensivo, confirmou que não está interessado na preservação de casas tradicionais, mas sim comprar aquelas que vão mal das pernas ou que não têm sucessores com disposição de continuar no ramo, e transformá-las em casas de sucesso. “Apareceu uma galinha morta, estou comprando”, disse ele. Ao ouvir isso, pensei logo no meu Bar Brasil do coração, com sua chopeira de bronze. Localizado num ponto agora valorizadíssimo, o botequim centenário vem sendo assediado por empreendedores interessados, como o próprio Antonio e o pessoal do Carioca da Gema. Meu medo é que ofereçam uma oferta irrecusável e adeus Bar Brasil.

Mas considerando as coisas no geral, desde a abertura, com a fala do prefeito Eduardo Paes, aos donos de boteco, acho que está bem claro a todos que o processo de preservação e mudança têm uma relação dialética inevitável em qualquer centro urbano. A cidade é um lugar que se transforma de forma constante e inevitável, mas também é uma realidade a resistência que seus moradores impõem sobre o território, os estabelecimentos e as formas de vida comum nos bairros.

Estamos num processo muito acelerado de transformação urbana, não só pelos eventos anunciados a frente, como Olimpíadas e Copa, mas pelo próprio processo de globalização das cidades numa lógica mercantil e de concorrência, que impõe a todas elas reformas urbanas que vão desde a renovação das áreas portuárias (Barlecona, Bilbao, Paris, Liverpool, Istambul e Rio, só para citar alguns casos), cinturões de segurança (UPPs, no Rio, políticas de segurança em Bogotá, política do broken window em várias cidades dos EUA, entre outros), políticas de tolerância zero (choque de ordem no Rio) e por aí vai.

São as chamadas cidades-commodities, disputando no mundo globalizado investimentos e turismo, e se reformando para tornar isso possível. As conseqüências negativas são, evidentemente, a transformação radical das cidades, o aburguesamento dos bairros, a piora dos índices de criminalidade fora dos cinturões de segurança, a especulação imobiliária e a perda de uma memória citadina, em que a tradição e o patrimônio urbanos são apropriados pelo marketing, na tentativa de se criar uma marca publicitária para a cidade, a partir de valores meramente mercantis, mas disfarçados de “autenticidade”.Com isso, a identidade de cada cidade vai se diluindo em meio às coisas que são comuns a todas elas, como se fossem um grande shoppingcenter.

No seminário do bar, vi nitidamente essas forças — tradição e modernidade — se digladiando pelo direito ao território da cidade.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Emoção e razão como narradoras


O Arnaldo Bloch publicou um bom artigo neste último sábado no seu espaço do Segundo Caderno do Globo. Intitulada A ponte entre dois cinemas, o articulista narra o seu encontro fortuito com Cacá Diegues, logo após ambos terem assistido ao novo filme de Eduardo Coutinho: As canções. Entusiasmado com o filme, Arnaldo pondera, no entanto, que preferiu o agora já clássico Edifício Master do documentarista. Cacá retruca, dizendo que As canções são uma obra-prima, ao passo que Edifício Master, um “circo dos horrores”, em que os personagens são apresentados sem um contexto que explique suas vidas, além do fato de viverem em um prédio de quitinetes de Copacabana. Cacá ainda cita o exemplo do programa de calouros do Chacrinha, hoje fetichizado na onda retrô que orienta a estética dos moderninhos pós-modernos, para descrever a situação de humilhação que, em sua opinião, Coutinho colocou os habitantes do Master.

Nessa querela, fico ao lado de Arnaldo. Me lembro que, à época em que o filme foi lançado, Coutinho disse que procurou justamente evitar o tom etnográfico — e não nos esqueçamos que algumas décadas antes Gilberto Velho fizera sua dissertação de mestrado exatamente sobre um prédio cabeça-de-porco de Copacabana, em seguida publicada sob o título Utopia urbana —, para mostrar seus personagens sem o filtro de uma análise antropológica. Ou seja, o diretor procurou justamente jogar na tela a vida daquelas pessoas sem explicação, como o Arnaldo sacou muito bem e apresentou como argumento na sua discordância em relação a Cacá.

Gilberto Velho parte das histórias de vida das pessoas do “seu” edifício Estrela (nome fictício, adotado para não constranger os moradores) para tentar evidenciar as representações sociais, ou seja, os sonhos de cidade feliz, poderosos o suficiente para levar as pessoas a morar em condições tão “apertadas”, física e simbolicamente. Coutinho não está interessado em nada disso. Ele não quer fazer uma generalização a partir da vida dos residentes do edifício Master. Ele quer apenas mostrar o caráter humano, digamos, em seu estado bruto, deixando as generalizações para o público. Coutinho buscou ficar orbitando em torno das emoções que o drama da vida humana sugere. Por isso, o publico ria e chorava ao longo do filme, como admitiu o próprio Arnaldo. E foi isso que incomodou Cacá. Pareceu a ele gratuito. Mas, estou com Arnaldo nessa. Essas emoções levam a uma reflexão próxima a que Velho nos proporciona pelo caminho da razão.

Com sua dissertação, o antropólogo prometia inaugurar uma série de pesquisas sobre Copacabana. E eu como estou envolvido em uma pesquisa sobre Botafogo, dialogando, como base teórica e metodológica, com certa tradição da sociologia que Velho também utilizou, acho que o melhor caminho para um ensaio antropológico profundo sobre a vida de um bairro — ou sobre qualquer outro assunto — deve combinar os dois caminhos. Apesar de Coutinho não pretender uma análise sociológica com edifício Master, hoje esse filme passaria bem em qualquer festival de documentário etnográfico.

Mas Arnaldo vai além em sua coluna. Ele cita o documentário sobre os suicidas que pulam da ponte Golden Gate — The Bridge, dirigido por Eric Steel  — para fazer um paralelo à sua discussão com Cacá. Ele diz que muitos amigos classificaram o filme como pornográfico, por seu caráter, digamos, explorador da dor alheia. Um argumento que se aproxima à expressão “circo dos horrores”, usada por Cacá em sua crítica a Edifício Master.

E aqui o artigo de Arnaldo me leva para outro ponto. O da pornografia e da censura. Bem, o assunto é mais do que explorado e refletido. Mas acho que é pertinente voltarmos a refletir sobre isso, num momento em que vários tipos e níveis de censura voltam na cena brasileira, sem muita reação dos “moderninhos” que constroem o sentido dominante da elite cultural atual. O caso da fotógrafa Nan Goldin, que teve sua exposição cancelada pela Oi Futuro por motivos morais e o filme sérvio proibido pela Justiça — primeiro em Minas Gerais, depois no resto do país (sem que os juízes tivessem visto o filme) —, por conter cenas em que há simulação de estupro de criança.

Lembro-me de uma amiga no Globo que me repreendeu: “Vocês antropólogos são relativistas demais. É preciso pôr um limite, do contrário tudo vale e seremos invadidos por qualquer bestialidade, perversidade e o escambau.” Disse a ela que concordava, afinal, antropólogo ou não, não vivo à margem da sociedade. Estou submetido a seus valores e representações. Mas o problema, para mim, é o Estado, ou a Justiça, ou a Igreja decidirem de forma draconiana esse limite por mim.